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24.3.25

Blog A Categoria Bancária - Retrospectiva 2007



RETROSPECTIVA 2007

O ano de 2007 foi o primeiro ano efetivo do blog sindical que criei em outubro de 2006 e ao longo dos meses fui desenvolvendo formas de prestar contas dos mandatos que exercia em nome de nossos colegas bancários, do nosso sindicato de base e da corrente política Articulação Sindical. A internet e as páginas pessoais eram uma novidade e as pessoas que queriam se comunicar estavam criando seus blogs.

Eu estava no segundo mandato sindical no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região (2005-08), havia pedido para deixar a função na Executiva do sindicato e com isso o nosso coletivo político, o Coletivo BB, me designou como representante paulista na Comissão de Empresa (CEBB) e fui destacado para ser o secretário de imprensa da nossa confederação criada em 2006, a Contraf-CUT.

Exerci as funções que me designaram da melhor forma possível e não abri mão de fazer trabalho de base. Isso fica evidente ao ler minha agenda pública do ano: falei com trabalhadores em praticamente todos os meses, de janeiro a dezembro.

O movimento sindical cutista estava numa luta grande para contratar mais trabalhadores nos bancos públicos e privados. Nossa pressão surtiu efeito nos governos do Partido dos Trabalhadores e após a década de desmonte dos bancos públicos por parte dos governos neoliberais tucanos, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal e os demais bancos públicos federais contrataram novos concursados no lugar de terceirizados.

As contradições que o movimento sindical e o mundo do trabalho enfrentam num governo de esquerda são naturais. Vivenciamos isso. Ao mesmo tempo em que ampliamos em dezenas de milhares de trabalhadores concursados o saldo do número de funcionários do BB e empregados da Caixa, enfrentamos reestruturações nesses bancos para desligar trabalhadores mais antigos, terceirizar setores dos bancos etc.

As postagens demonstram que fui à posse dos novos bancários do BB o ano todo, para apresentar o movimento sindical e sindicalizar o(a) trabalhador(a) já no primeiro dia no BB. Tive a felicidade de sindicalizar centenas de colegas novos. Isso foi marcante em minha vida de dirigente. Enquanto fui representante sindical encontrei bancárias e bancários nos mais diversos locais do país que me diziam que foram sindicalizados por mim no primeiro dia de trabalho.

O ano de 2007 foi de muita luta e negociação com o patrão Banco do Brasil para resolver questões da nossa Caixa de Assistência à saúde, a Cassi. Nossa autogestão sofria constantemente com déficits característicos deste setor de saúde suplementar e o patrocinador BB era o principal responsável pelos déficits, além das questões de mercado, porque não cumpria o estatuto da Cassi e porque alterou as bases das receitas do Plano de Associados, a folha de pagamento dos funcionários congelada por anos. Ao alterar a perna de receita e não pagar o que devia, a Cassi passou a ter déficits cada vez maiores. Negociamos entre o final de 2005 e 2007 a reforma estatutária aprovada no segundo semestre do ano.

Os temas nos quais me envolvi no primeiro semestre foram Cassi, PLR do Banco do Brasil, Comissão de Conciliação Voluntário (CCP/CCV), e as reuniões executivas de nosso sindicato, da Fetec CUT SP e do secretariado da Contraf-CUT. Além, é claro, da secretaria de imprensa.

No segundo semestre, participei ativamente da organização da campanha salarial da categoria, inclusive me envolvi em debates internos durante a confecção da minuta dos bancários porque tinha divergências em relação às propostas de contratação da remuneração variável e fiz o debate fraterno dentro da corrente.

Em linhas gerais, ao reler e sistematizar as 226 postagens do blog, percebo claramente a intenção de estabelecer uma prestação de contas do que fazia, como atuava em nome dos trabalhadores e o que defendia como dirigente sindical. A prática foi melhorando a cada ano e de fato as publicações na internet sobre o exercício da representação política tiveram uma importância central em minha vida até o último mandato eletivo no qual representei milhares de pessoas.

Ao longo da história do blog A Categoria Bancária, utilizei a página até para salvar matérias de páginas de sindicatos e outras instituições de classe por saber que aquelas matérias iriam desaparecer assim que os sites das entidades fossem atualizados ou refeitos. O mais comum no mundo virtual é a mensagem “error” ao clicar em um link de uma matéria antiga. Nossa história vem sendo sistematicamente apagada! Uma tragédia isso.

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“Quem controla o passado, controla o futuro;

quem controla o presente, controla o passado.”

(George Orwell, em “1984”)

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Nós todos temos que salvar nossas histórias de lutas, pessoais e coletivas, do mundo do trabalho e da cultura em geral, de forma impressa e em mídias nossas. As big techs são nossas inimigas de classe e estão em uma guerra mundial de disputa de hegemonia. É muito sério o que George Orwell nos alerta no clássico distópico “1984”, de 1949, que virou realidade no século XXI.

William Mendes


20.1.25

Diário e reflexões - Sindicalização



Osasco, 20 de janeiro de 2025. Segunda-feira.


SINDICALIZAÇÃO

Me associei ao Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região quando trabalhava no Unibanco da Raposo Tavares, no CAU. O pessoal do sindicato me contatou como fazia com qualquer bancário ou bancária e na conversa do dia a dia eles me convenceram a me sindicalizar. Depois passei a sindicalizar todo mundo que conhecia lá dentro. Trabalhei lá entre abril de 1988 e maio de 1990, quando fui demitido.

Voltei a ser bancário dois anos depois, passei no concurso do Banco do Brasil e tomei posse da vaga de escriturário em setembro de 1992. Uns meses depois, assim que entrei em contato com o pessoal do sindicato novamente, me sindicalizei em fevereiro de 1993. Mais uma vez, virei um grande defensor da sindicalização e vivia ganhando prêmios do sindicato por sindicalizar um monte de bancários.

Uma década depois de entrar no Banco do Brasil, o pessoal me convenceu a ceder meu nome para compor a chapa da CUT que concorreu e ganhou a eleição sindical em abril de 2002 contra a chapa da oposição. Representar os colegas bancários mudou minha vida em tudo, eu mudei completamente em relação à pessoa que era antes de virar dirigente sindical.

Não vou abordar neste texto de sindicalização minha contribuição à corrente política para a qual dediquei a maior parte de minha vida adulta, a Articulação Sindical da CUT. Minha contribuição política faz parte da história e se a história ainda vale alguma coisa ou não, não sei, mas a campanha nacional unificada entre bancos públicos e privados foi alcançada com a minha participação efetiva nos primeiros anos do governo Lula. E também a política de aumento real de salário em substituição da antiga reivindicação de "perdas".

LAWFARE ANTECIPA MEU DESLIGAMENTO DO BB

Por motivos políticos acabei saindo do Banco do Brasil um pouco mais cedo do que talvez gostaria. Como um dirigente nacional da categoria exercendo um mandato eletivo numa entidade dos funcionários do banco, vinha sofrendo um processo de lawfare (desses com carta anônima e acusações falsas), que havia se tornado comum contra lideranças de esquerda. Como era tudo mentira para tirar minha atenção e tempo nos embates que enfrentava e para que eu não me reelegesse, após o uso político, o processo foi arquivado por falta de provas.

Aderi à aposentadoria antecipada de meu plano de previdência da Previ no dia em que completei a regra do estatuto para aderir. Estávamos no primeiro ano do governo Bolsonaro, e antes já vivíamos sob o jugo do governo golpista de Temer. Infelizmente, encerrei minha vida de dedicação ao Banco do Brasil sem um bolinho e abraços dos colegas.

Por sugestão de nossos advogados, durante minha defesa contra aquelas mentiras, era melhor que eu me silenciasse um tempo dos embates políticos que fazia através de meus textos em blog em nome da categoria que representava. Acatei a sugestão e me silenciei por mais de um ano na comunicação e prestação de contas que fazia através de meus textos. Muita gente que conhecia meu trabalho de representação e minha história ficou sem saber de mim por um bom tempo.

Veio a pandemia no ano seguinte. Aí que aumentou meu isolamento como aconteceu com praticamente todo mundo.

Mas e a questão da sindicalização? O texto é sobre sindicalização.

Como se tornaram raras as oportunidades de participar de assembleias do nosso sindicato, e como eu havia me desligado do banco em um dia e no dia seguinte passei a ser beneficiário do nosso fundo de pensão da Previ, entendi que tinha virado sócio remido do sindicato, como acontece com muitos bancários. 

Um dia, em algum evento virtual que não consegui participar, descobrimos que eu estava com a matrícula irregular no sindicato, o pessoal do sindicato e eu percebemos que minha filiação não estava em dia. Pesquisa vai, pesquisa vem, sou informado que estava inadimplente desde que me desliguei do banco e me tornei beneficiário da Previ.

R$ 5.311,14

A solução não foi eu voltar a pagar a mensalidade. A regularização seria eu pagar um montante inimaginável para voltar a ser sindicalizado como sempre fui desde minha entrada na categoria lá no Unibanco nos anos oitenta. Balancei em pagar o valor apresentado a mim...

A tomada de decisão em usar um recurso de minha família para voltar a ser sindicalizado foi dificílima. Pensei em tantas coisas que vocês não fazem ideia! 

Em primeiro lugar, eu tinha uma história no sindicato. Como bancário, como sindicalizador, como dirigente sindical. Como poderia não ser sindicalizado na entidade na qual participei no mínimo de três décadas de sua história?

Tomei a decisão e no dia 23 de dezembro de 2021 paguei os 5.311,14 ao Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região para regularizar minha situação de sindicalizado há décadas, já que eu não era sócio remido ainda porque faltava me aposentar pela previdência pública, aquela que a cada reforma aumenta o prazo para os trabalhadores poderem se aposentar.

A QUEM DEVERIA INTERESSAR A SINDICALIZAÇÃO, FILIAÇÃO, ASSOCIAÇÃO?

Nos últimos 3 anos de pagamento em dia das mensalidades de nosso sindicato (paguei no mês de dezembro R$ 211,68), fiquei refletindo sobre um monte de coisas relativas ao movimento sindical que ajudei a construir, principalmente o da categoria bancária.

A quem deveria interessar a sindicalização? Como se dá o processo de sindicalização de um trabalhador ao seu sindicato? O que leva um trabalhador a querer ou aceitar ser sindicalizado ao seu sindicato de base? Amigos leitores, juro para vocês que tenho experiência nesse tema e poderia discorrer aqui sobre cada uma dessas questões. 

O fato concreto é que no meu caso de sindicalizado, se eu não fosse quem sou, se eu não fosse politizado, uma pessoa com ideologia e, principalmente, com história em nosso sindicato, eu não teria insistido todos esses anos em me manter sindicalizado. Se o tratamento que recebo do sindicato for a média do tratamento que os bancários recebem, eu imagino que o trabalhador deve estar pensando se permanece ou não associado.

Nesses 3 anos após a regularização que me custou 5.311,14, quem correu atrás dos boletos para pagar as mensalidades fui eu. A cada tempo, tenho que fazer email, pedir boletos etc. Eu não tenho boleto ainda para pagar a mensalidade de hoje, 20 de janeiro. 

Mesmo sendo sindicalizado como qualquer bancário sindicalizado, o coletivo de diretores do banco ao qual fui dirigente não me chamou para absolutamente nenhuma agenda de debates no sindicato nos últimos 3 anos. Imagino que teria contribuições a fazer em algumas questões como outros associados da entidade.

E, por fim, o sindicato ao qual eu participei de décadas de sua história não se dignou a me convidar para fazer uma fala sequer sobre os 100 anos da instituição!

E olha que em um evento de rua, dirigentes da executiva da entidade se disseram surpresos ao saber que eu ainda não havia sido convidado para um depoimento... me disseram que entrariam em contato comigo... (houve veto ou coisa do tipo?)

Essa é a relação do sindicato com um de seus sindicalizados com esse histórico que descrevi acima.

Será que chegou a hora de parar de pagar a mensalidade que vence hoje e que preciso pedir o boleto ao sindicato? Acho que cansei de verdade desse tratamento e dessa relação indigna com a qual sou tratado pelo sindicato ao qual dediquei minha vida.

Cara, acho que para mim chega!

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SINDICALIZEM-SE! É IMPORTANTE! O SINDICATO É OU DEVERIA SER A CASA DOS TRABALHADORES

Colegas bancárias e bancários e trabalhadores que me leem, por favor, não levem em consideração meu caso pessoal com a direção de nosso sindicato e se sindicalizem! É muito importante fortalecer nossas entidades representativas e de organização das lutas da classe trabalhadora.


William Mendes

Associado 351524. Se mandarem os boletos, seguirei associado.


28.8.23

Memórias (XXXIX)



28 de agosto - Dia das bancárias e bancários e aniversário da Central Única das trabalhadoras e trabalhadores

Osasco, 28 de agosto de 2023.


Após muita reflexão, e muito sofrimento, decidi reconhecer que não me queriam mais na maior corrente política da Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Articulação Sindical. Fui militante político por décadas e deixei minhas contribuições na história da categoria bancária, da Central e dessa corrente política. Entendi que um militante de esquerda precisa ter um mínimo de amor-próprio até para seguir nas lutas. Luto...

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DIA DOS BANCÁRIOS E ANIVERSÁRIO DA CUT

O dia 28 de agosto é uma data histórica para nós por diversos motivos, dois deles muito ligados a nós que dedicamos a nossa vida à construção dos direitos da classe trabalhadora e de um país mais justo e solidário. A data é referência para os bancários por marcar uma de nossas maiores greves da história e a data é efeméride da criação da Central Única dos Trabalhadores, que hoje completa 40 anos de lutas e conquistas.

A CUT foi finalmente fundada em 1983, após longas discussões entre as forças políticas que se organizavam no final dos anos setenta e início dos anos oitenta. Surgiam no período novas forças sindicais que seriam denominadas de Novo Sindicalismo durante e após as Conferências da Classe Trabalhadora, as Conclat. Tínhamos nos metalúrgicos a figura de Lula e tínhamos grandes lideranças de outras categorias profissionais. Como é um texto de memórias não vou ficar citando nomes porque faltariam nomes importantes.

Entre 1985 e 1987 surge a maior tendência política dentro da CUT, a Articulação Sindical. O contexto no qual as forças políticas construíam a Central permitiu e estimulou a convivência fraterna de diversos grupos dentro da CUT. O respeito às diversas formas de pensamento também vinha sendo exercitado dentro do Partido dos Trabalhadores (PT), criado em 1980. As "tendências" eram uma solução para congregar ideias e visões diferentes antes de se decidir no consenso ou no voto as posições finais do Partido ou da Central.

MILITÂNCIA BANCÁRIA

Entrei na categoria bancária 5 anos após a criação da CUT, comecei a trabalhar no Unibanco em 1988, no Centro Administrativo da Raposo Tavares (CAU). Lá, conheci as lideranças do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região e além de me sindicalizar e fortalecer o nosso sindicato e as lutas, fui convencido pelo pessoal a organizar internamente os colegas para uma greve que ocorreria no período. Deu certo, cheguei de madrugada naqueles dias e paramos a agência bancária dentro do CAU. Pelo que me lembro, a greve no CAU do Unibanco foi boa naquele ano. Depois de um tempo, fui transferido de departamento, sofri um pouco de assédio e acabei sendo demitido em maio de 1990. 

Cito o funcionário do Sindicato e companheiro Marcos Martins como dirigente político que me inspirou para sempre a ser um representante de classe que independente do mandato eletivo que estivesse exercendo jamais deixaria de estar nas bases sociais, ao lado dos trabalhadores e daqueles que representa. Marcos Martins exerceu todos os seus mandatos sempre presente nas bases. Modéstia à parte, fiz isso, exerci 16 anos de mandatos sempre atento a ouvir as bases, fossem mandatos locais ou nacionais. Fiz o esforço ético de estar sempre nas bases que representava.

Voltei à categoria bancária pouco tempo depois da demissão do Unibanco em 1990. Em 1991 prestei o concurso público do Banco do Brasil, comecei a fazer faculdade de Ciências Contábeis, virei estagiário do BB na agência Ceagesp já no início do ano de 1992 e apesar do concurso ter sido cancelado por fraude, e eu havia passado, fiz de novo e passei de novo. Tomei posse de meu cargo de escriturário na agência Rua Clélia em setembro de 1992. Já no início de 1993, me sindicalizei de novo ao Sindicato e até hoje pago em dia minhas mensalidades ao nosso Sindicato que completou 100 anos de existência.

ARTICULAÇÃO SINDICAL

Minha primeira década de bancário do Banco do Brasil foi a década de grandes ataques aos direitos sociais no banco e risco de privatização do maior banco público do país. As correntes políticas na categoria bancária faziam o que era possível para organizar os trabalhadores e a sociedade para resistir aos ataques de Fernando Collor e FHC. Fui aprendendo política no local de trabalho. Nenhuma escola ensina política como a luta organizada no mundo do trabalho. Afirmo isso como quem fez duas graduações e quase concluiu uma terceira. E também fiz muito movimento estudantil como, por exemplo, a famosa greve de mais de 100 dias da FFLCH/USP em 2002.

O Sindicato organizava os locais de trabalho (OLT) criando uma rede de militância por regiões e por concentrações de bancos. Nós que enfrentávamos os gestores e os assediadores éramos disputados pelas forças políticas, toda hora tinha alguém nos convidando para reuniões organizativas. Fui a diversas reuniões políticas que depois entendi que eram de partidos e grupos sindicais diversos: PT, PSTU, PCdoB, PCO, Convergência Socialista, FES, Articulação Sindical, CSD etc. A CUT era composta por uma enormidade de tendências internas, se não me engano eram umas 17 forças políticas dentro da CUT nos anos oitenta.

Enfim, como eu não me sentia à vontade em reuniões nas quais a militância mais falava mal da direção do Sindicato e do Sindicato do que dos patrões e governo, acabei ficando nas reuniões dos representantes do Sindicato e quando entendi, eu era um militante da Articulação Sindical da CUT no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região. Foi assim a minha primeira década de funcionário do BB. 

Minha referência de trabalho sindical e representação de base, de pessoa que ouvia e debatia com a militância, foi a companheira Deise Lessa, do BB. Como eu era um militante de opinião "forte", a Deise sofreu comigo (risos). Me lembro dos debates sobre as reformas dos estatutos da Cassi (1996) e da Previ (1997/98). Foram necessárias diversas reuniões políticas com a Deise e outros companheiros para que eu compreendesse bem as questões e passasse a defender as propostas da corrente política do Sindicato.

Em 2000 eu quase entrei na direção do Sindicato, mas não deu certo. Em abril de 2002, acabei compondo a chapa cutista vencedora das eleições do Sindicato e virei dirigente sindical. Fui liberado do local de trabalho para me dedicar exclusivamente ao mandato sindical em 5 de agosto de 2002. Após quase 10 anos de atendimento ao público no caixa do BB virei dirigente sindical e, infelizmente, por uma estratégia da direção do banco, desde o 1º dia tive uma redução salarial de cerca de 1/3 porque passei a receber salário de escriturário e não de caixa executivo...

Durante 16 anos de mandatos eletivos, nunca deixaria de visitar com regularidade o meu local de trabalho para ouvir os colegas - a agência Vila Iara em Osasco - e fazer os debates políticos em questão. Vi colegas chegarem e partirem para outras dependências, vi diversos gestores passarem pela agência e nunca deixei de visitar o que considerava o meu local de trabalho. Até hoje, tenho contato com amigos da dependência, alguns na ativa, outros aposentados.

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DIRIGENTE POLÍTICO DA CATEGORIA BANCÁRIA

A categoria bancária e a classe trabalhadora brasileira viveram grandes momentos em sua história de lutas e conquistas nos anos dois mil. Fico feliz por ter feito parte dessas lutas.

Como dirigente sindical bancário a partir do ano de 2002 eu fui me desenvolvendo e me politizando a partir das lutas que idealizamos e realizamos durante os mandatos presidenciais de governos progressistas e mais favoráveis à classe trabalhadora e aos movimentos populares.

A campanha para a eleição de Lula em 2002 já foi uma tremenda escola política. Depois vieram as campanhas salariais da categoria e pertencer a um dos maiores sindicatos do país me fez entender que eu não poderia perder tempo em relação à formação e passei a estudar a nossa história e entender quem eu era desde o início do mandato.

Muita coisa já escrevi nessas memórias que postei aqui no blog, não sei se essa será a última postagem, afinal de contas já são 39 capítulos de lembranças e histórias dessa trajetória de militância política na categoria bancária sendo um dirigente da Articulação Sindical da CUT.

Em linhas gerais, e olhando rapidamente para trás, sei que tive uma participação importante em várias conquistas desse período porque ser dirigente de um sindicato grande faz diferença nessas questões. Algumas estratégias políticas de campanha salarial foram gestadas em nosso sindicato e outros dos maiores do país. 

CAMPANHA UNIFICADA E AUMENTO REAL

Posso citar como exemplos de estratégias exitosas a campanha unificada entre bancos públicos e privados na categoria bancária e a estratégia de reivindicar aumentos reais de salários e não focar só na reivindicação de "perdas". Fui um agente importante desses debates entre a companheirada dos bancos públicos do país. Nossa corrente Articulação Sindical praticamente defendeu sozinha essas estratégias no início e com muita argumentação fomos convencendo os demais setores do movimento.

Estratégias de organização do movimento também foram foco de grandes debates durante todos os anos de governos do Partido dos Trabalhadores e sem dúvida deixei a minha contribuição ao debate, sempre falando como uma liderança da Articulação Sindical. Essas decisões se dão nos congressos e sempre fiz defesas das teses da corrente em debates acalorados e muito ricos.

Guardarei sempre na memória a minha participação em dezenas de assembleias lotadas na Quadra dos Bancários e outros espaços durante as campanhas de renovação de direitos nas datas-bases da categoria. Fui um dos inscritos em falas finais de assembleias do BB para aceitar ou rejeitar propostas de acordo coletivo entre 2003 e 2013 na base de São Paulo, Osasco e região.

Além de ter sido membro da Executiva do Sindicato, fui representante de São Paulo na Comissão de Empresa já nos primeiros anos de mandato. Depois acabei sendo coordenador nacional da CEBB (ou COE BB). A tabela da Carreira de Mérito (2010) tem participação minha na idealização alternativa a lutar por "perdas" no PCS antigo do BB (anterior a 1996). Como havíamos perdido os interstícios de 12 e 16%, pensei formas alternativas de premiar antiguidade no banco. Deu certo à época.

MANDATOS NA CONTRAF-CUT

Fui secretário de imprensa e depois de formação de nossa Confederação desde o seu primeiro congresso em 2006. Essas oportunidades me permitiram crescer muito como pessoa e como dirigente porque mergulhei nos estudos de comunicação e imprensa e depois na formação política e histórica da classe trabalhadora. 

Fomos responsáveis juntamente com a direção e os funcionários por dar visibilidade à nova marca "Contraf-CUT" em substituição à antiga "CNB-CUT". E com parcerias com o Dieese, federações e sindicatos fizemos memoráveis cursos de formação entre 2009 e 2015. Foram centenas de participantes de todas as regiões do país.

MANDATO NA CAIXA DE ASSISTÊNCIA DO BB (CASSI)

Minha última contribuição em mandatos eletivos foi na diretoria de saúde da Cassi. Tínhamos alguns objetivos ao iniciar o mandato e durante a gestão fomos estudando e compreendendo melhor o que significava a Caixa de Assistência para os associados e participantes e para o segmento de autogestão em saúde dos trabalhadores.

Além das questões afetas à área que fui responsável, a do modelo de saúde, a Cassi tinha uma questão geral a resolver com o banco patrocinador e os associados: o custeio do Plano de Associados.

As áreas da Cassi sob minha responsabilidade direta foram prioridade absoluta: o modelo de Estratégia de Saúde da Família (ESF) e a estrutura própria de saúde - Unidades e CliniCassi - foram fortalecidos, bem como a ampliação da participação social e compreensão do que era a Cassi.

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A HISTÓRIA DA LUTA DE CLASSES É COLETIVA

Foram mais de três décadas trabalhando como bancário, servindo às brasileiras e brasileiros que precisam de serviços bancários e do sistema financeiro, e representando os colegas em espaços de construção coletiva de direitos. 

A história da luta de classes é e provavelmente sempre será coletiva, construída a diversas mãos. Que bom que seja assim. Sozinhos não somos nada.

Após uma vida dedicada às lutas da categoria bancária, acabei tendo um final de vida laboral de forma isolada e sem despedidas em 2019. Já vivíamos anos difíceis no Brasil, com um golpe de Estado em andamento, tempos de Temer e Bolsonaro.

Diferente daqueles finais felizes, com festas de despedidas e plaquinhas de agradecimento, meu último ano de trabalho no BB foi tenso, já que eu havia sido dirigente dos trabalhadores e estava sem mandato algum. Felizmente eu tinha muitos dias de abonos e licenças acumulados e me afastei até me desligar e exercer meu direito de ser beneficiário de nossa previdência complementar.

Como militante da classe trabalhadora, mesmo retirado do dia a dia da vida bancária, seguirei estudando e compartilhando experiências, memórias e conhecimento através de meus textos e da participação eventual nos movimentos sociais.

Parabéns às bancárias e bancários e vida longa à Central Única dos Trabalhadores! 

William Mendes


Post Scriptum: fiz dezenas de artigos ou capítulos de memórias aqui no blog, estão todos disponíveis, o anterior a este pode ser lido aqui.


9.9.22

Memórias (XXXI)



Há 30 anos tomava posse de meu cargo de escriturário do Banco do Brasil, vaga conquistada por concurso público

Dia 9 de setembro de 1992, numa segunda-feira, me dirigi logo cedo para a agência Rua Clélia, na região da Lapa, bairro de São Paulo, para tomar posse da vaga de escriturário do Banco do Brasil, após cumprir todas as etapas anteriores na área de gestão de pessoas do banco público. 

Prestei o concurso em 1991 e após ser aprovado tive que fazer novamente as provas porque o resultado foi cancelado por fraudes ocorridas em Brasília (DF). Felizmente passei novamente e lá estava eu dia 9 de setembro para começar a trabalhar no maior e mais antigo banco público do país. Aquele dia mudou a minha vida.

Ao me atentar à data de hoje, 9 de setembro de 2022, comecei a me lembrar de alguns momentos dessa relação de uma vida inteira entre um cidadão e uma empresa, me lembrei de diversas experiências que vivi como funcionário dessa instituição pública tão importante na história do Brasil e do povo brasileiro desde o início do século 19.

Eu me lembro que ainda nos primeiros anos de trabalho, lá na Rua Clélia, tive propostas para sair do BB e ser sócio de empresa de contabilidade, pois eu havia me formado em Ciências Contábeis. O senhor Luís, um cliente do banco, queria de todo jeito que eu fosse sócio da empresa dele. No BB, nós vivíamos o inferno na Terra com o governo de FHC (PSDB): demissões, perseguições, suicídios de colegas, PDV, o terror. Acabei optando por ficar no banco.

Agora mesmo, enquanto escrevo, são muitas lembranças dos primeiros anos de trabalho no BB, lembranças que vão se alternando em minhas memórias. O que me tornei pra vida toda teve muito a ver com o que vivenciei nos primeiros anos de banco, na relação com os colegas de trabalho e com o sindicato de nossa categoria. 

Hoje entendo que sempre tive uma natureza de servidor público, de querer servir à coletividade, de ajudar e atender às pessoas. Nunca seria um "empresário", um capitalista. Isso não tem nada a ver comigo. 

Foram 10 anos atuando no dia a dia nas agências bancárias, mais de 9 anos como caixa executivo, atendendo a clientes e público em geral. Depois vieram os desafios da representação dos colegas bancários: 4 mandatos no Sindicato dos Bancários, 3 mandatos na Confederação e um mandato na direção de nossa autogestão em saúde. 

Foram quase 27 anos de trabalho em nosso querido Banco do Brasil, sim, "querido" porque o BB pode e deve continuar sendo um agente do desenvolvimento do Brasil e do povo brasileiro, e isso nos dá um orgulho imenso em pertencer a essa instituição, a essa comunidade, a essa história do Brasil.

A FORMAÇÃO POLÍTICA ATRAVÉS DO MUNDO DO TRABALHO

Vejamos meus primeiros ensinamentos do mundo do trabalho em uma grande empresa...

Eu era estagiário do Banco do Brasil na agência do Ceagesp no ano de 1992. O estágio era pelo fato de eu ter começado a cursar faculdade de Ciências Contábeis. O dia a dia no local de trabalho sempre tinha debates e reflexões sobre a política nacional e o mundo do trabalho. Eu só havia experimentado algo parecido durante os dois anos que passei no Unibanco (1988-1990) porque lá conheci o pessoal do Sindicato, me sindicalizei e ajudei a organizar uma greve.

Naquele ano de 1992 o Brasil inteiro acompanhava as denúncias de corrupção do governo Collor e nos bancos sempre havia as fortes mobilizações da data-base da categoria em setembro. No Ceagesp vi muitas análises sobre a campanha dos bancários do ano anterior, uma campanha difícil que havia sofrido reveses por interferência dos tribunais de justiça, sempre favoráveis aos patrões e governos.

Aí comecei minha vida de funcionário do BB. Achava que a vida de jovem brasileiro seria bem melhor por trabalhar numa grande empresa estatal. Mal cheguei ao banco e chegou ao governo federal o social-democrata Fernando Henrique e o massacre do funcionalismo público começou também...

O aprendizado da organização nos locais de trabalho (OLT) foi acelerado, foi na veia. Havia organização tanto interna quanto com o apoio do Sindicato. O alvo do governo eram os trabalhadores mais antigos de banco, com maiores direitos sociais acumulados em décadas de lutas sindicais. 

Me arrepio e me emociono só de lembrar o quanto meus colegas sofreram com os ataques perpetrados pelo governo e pelos meios ideológicos dos privatistas - a tal imprensa secular, a voz da casa-grande contra as senzalas, contra a classe trabalhadora.

Como disse acima são tantas memórias que vêm umas atrás das outras ao me lembrar da minha história na comunidade de trabalhadores da ativa e aposentados do Banco do Brasil que se eu deixasse os dedos registrarem as lembranças faria um texto enorme. 

Posso resumir neste 9 de setembro de 2022 que o homem que me tornei é o resultado do aprendizado de três décadas de convivência com o mundo do trabalho numa grande empresa com organização interna por parte dos trabalhadores, é resultado de ter pertencido a uma grande categoria com sindicatos fortes e organizados.

O cidadão com consciência política que me tornei é resultado direto sobretudo da oportunidade que tive de representar com mandatos eletivos meus colegas de trabalho por quase duas décadas.

Hoje não estou mais no dia a dia dos trabalhadores do Banco do Brasil e da categoria bancária, mas carrego comigo a politização que aprendi das lutas sociais e coletivas, e procuro acompanhar as questões do mundo do trabalho e dos direitos sociais da forma que meu cotidiano particular me permite neste momento.

Desejo que o Banco do Brasil e todas as associações por nós criadas ao longo de mais de um século permaneçam em nossas vidas por muito tempo, desejo que as empresas públicas sejam preservadas e fortalecidas e que os direitos sociais voltem a ser conquistados pelo povo brasileiro após encerrarmos esse período devastador que vivemos com o crime organizado ocupando espaços de poder no Brasil.

Espero que em outubro possamos virar a página dessa tragédia que vivemos com a destruição do país e de nosso mundo da classe trabalhadora*.

Eu voto #Lula13Presidente porque quero o melhor para o Brasil e para o povo brasileiro.

William Mendes


*Post Scriptum: Lula foi eleito pela 3ª vez presidente do Brasil em outubro de 2022.


Para ler o texto anterior, Memórias (XXX), clique aqui. O texto seguinte, pode ser lido aqui.


16.4.22

Memórias (XXIII)



Aniversário de 99 anos do Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e região. Uma entidade dos trabalhadores com muita história de lutas e conquistas. Uma entidade que nos traz muitas memórias. Parabéns às bancárias e bancários e a toda militância da ativa e aposentados! Vida longa ao nosso Sindicato!


Osasco, 16 de abril de 2022. Sábado.

Hoje é aniversário de 99 anos de nosso sindicato, que nasceu como uma associação de trabalhadores em 1923. De lá para cá foram muitas muitas histórias de lutas e conquistas. Vale lembrar também que muitas derrotas da classe trabalhadora fizeram parte dessa história, pois luta de classes é assim mesmo, se ganha e se perde. Quando se perde, a gente acumula forças e experiências para as batalhas seguintes.

Durante meu processo de formação política através do sindicato, aprendi com a militância mais antiga que na história das lutas de classes a gente que é da classe trabalhadora perde a maioria das batalhas empreendidas contra os donos do poder - capitalistas, banqueiros, coronéis, a casa-grande brasileira. Mas quando a gente ganha uma batalha é uma alegria imensa! É bom demais quando a gente, por exemplo, sai de uma campanha salarial com alguma conquista para os trabalhadores!

Minhas memórias em relação ao nosso sindicato são as mais diversas possíveis. São quase 35 anos de convivência entre o cidadão e a sua entidade sindical. Se fosse uma relação entre duas pessoas poderia ser dito que flertamos, ficamos, brigamos, lutamos juntos, namoramos, nos casamos, nos separamos, depois nos juntamos de novo e por aí vai. Três décadas não é qualquer coisa, é bastante tempo na vida humana e suas relações sociais, apesar de ser quase nada na história humana e das coisas do mundo.

Fiquei pensando em como escrever uma homenagem ao aniversário de nosso sindicato. Uma das formas que mais achei sentido foi aquela empreendida por Margo Glantz em seu livro de memórias Yo también me acuerdo (2014), que é um livro de memórias através de fragmentos de memória. Quando conheci o livro achei a técnica muito legal. Nessa estratégia de registros de lembranças de uma vida ou de uma época ou de alguma coisa, o fragmento basta em si mesmo. Sem ordem cronológica e ao sabor do que lhe vem à mente.

Antes de enumerar alguns fragmentos de memória em relação ao nosso sindicato, deixo registrado que o sindicato mudou a minha vida como pessoa ao longo de nossa relação como bancário sindicalizado e militante, tanto nos dois anos em que trabalhei no Unibanco quanto nos quase 27 anos em que trabalhei no Banco do Brasil. Me formei politicamente na convivência com o sindicato. Fui dirigente da entidade por 4 mandatos (2002-2014) e avalio que deixei minha contribuição ao fortalecimento da entidade ao longo de sua história de 99 anos.

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ME LEMBRO que havia definido uma estratégia de visitar as agências do BB nas quais quase ninguém havia aderido à greve e que eram agências importantes para puxar o movimento grevista se elas aderissem à paralisação. Era a campanha salarial de 2010, se não me engano. Nas reivindicações entregues à direção do banco, tínhamos questões específicas dos comissionados como a carreira de mérito e o não descomissionamento sem motivos definidos de forma clara. Cheguei à agência Osasco e pedi aos funcionários que nos reuníssemos no 2º andar para fazermos uma reunião. Minha relação com os colegas ali era muito boa e respeitosa. Durante a reunião, pedi que os colegas fossem francos comigo nas motivações para não aderirem à greve. Uma colega pediu a palavra e falou que tinha medo. Outros disseram o mesmo. Eu expliquei a ela, a todos, que o medo era uma coisa natural no ser humano. E também expliquei que a greve era justa, que o sindicato passou semanas reunido com os bancos para um acordo e os banqueiros não contribuíram para que a renovação da Convenção Coletiva na data-base ocorresse sem greve. E mais, que a greve era justa e era uma coisa pública. Então o medo era algo natural, legítimo, mas a nossa luta coletiva também era natural e legítima. A colega chorou. Outros colegas choraram. Eu comecei a chorar. Após essa emoção toda, os colegas fecharam o ponto e saímos todos da agência. Foi um momento muito marcante em minha vida, nas nossas vidas. A greve foi forte entre os comissionados do BB naquele ano e conquistamos questões específicas importantes.

ME LEMBRO que o pessoal só falava mal do sindicato. Estávamos reunidos na AABB e as pessoas se alternavam criticando isso ou aquilo. Eu era novo no Banco do Brasil e havia recebido um convite numa reunião sindical para participar de uma conversa sobre questões relativas ao BB. Estávamos nos anos noventa, ataques ao funcionalismo por parte do governo FHC a todo vapor. Ninguém falava mal do desgraçado do presidente nem de outros políticos do governo. Era só crítica ao sindicato, aos dirigentes do sindicato, o sindicato isso, o sindicato aquilo... eu comecei a me sentir constrangido com aquela situação. Tentei argumentar alguma coisa. Fui interrompido ao tentar defender o sindicato. Acabei me despedindo do pessoal e fui logo embora. Tempos depois é que fui compreender que aquele era um grupo de oposição à diretoria do sindicato e que o foco deles sempre me pareceu mais atacar o sindicato do que os patrões ou o governo. Acho que isso nunca mudou.

ME LEMBRO de um dia que entrei na sede do sindicato no edifício Martinelli e tudo me marcou naquele momento. Não sei por que esse dia marcou tanto, já que havia estado lá várias vezes. O que me lembro é que eu olhava as imagens e fotos nas paredes, nos corredores, nas mesas das pessoas, imagens do MST, da CUT, de sindicalistas como Lula, bandeiras do movimento social, sindical, estudantil, havia uma aura naquele dia e eu nunca mais esqueci. Talvez porque eu tenha entrado em áreas que nunca havia estado, áreas internas do sindicato. Se não me engano, acho que foi na primeira vez que entrei na sede do sindicato depois de eleito como diretor da entidade após as eleições de abril de 2002. Eu só fui liberado do dia a dia do banco para atividades sindicais em agosto daquele ano. Aquele encantamento que senti ao entrar no sindicato naquele dia marcante teve muita relação com o sindicalista que fui a partir daquele ano. Eu senti o peso do mundo em minhas mãos, em meus ombros, senti uma responsabilidade do tamanho do universo por ter me tornado diretor de nosso sindicato, de uma entidade tão histórica como aquela, por onde já havia passado tantas lideranças históricas, um dos maiores e mais importantes sindicatos da história de lutas dos bancários e da classe trabalhadora brasileira. Sabia que o mínimo que teria que fazer desde aquele momento era pôr toda a minha energia e minha vontade de lutar e minha inteligência a serviço dos trabalhadores e do sindicato e das lutas coletivas.

ME LEMBRO do Ferreira. O colega sempre me dizia que não gostava do sindicato, não gostava da gente, não gostava da esquerda, de sindicalista, do movimento. Era aquele típico trabalhador que não queria saber de conversa conosco. Na época, eu atuava na regional Oeste do sindicato. O pessoal da regional às vezes me achava meio xiita, exagerado demais. Eu saía com a Folha Bancária ou algum material específico do BB logo cedo, umas 9 horas da manhã, e ficava na base até umas 17 ou 18 horas. Começava com uma reunião antes da agência abrir e ficava em outra agência após o horário do fechamento do banco. O Ferreira não gostava sequer de pegar o jornal. Fui insistindo com ele durante o tempo de nossa convivência na regional. Ele me explicou os motivos dele. Eu pedi a ele uma chance pro sindicato. De pouquinho, fui quebrando o gelo dele. Passou a pegar a Folha, a revista O Espelho, passou a perguntar questões políticas etc. Sindicalizar nem pensar, ele dizia. Me disse que se um dia achasse que o sindicato estivesse atuando de uma forma satisfatória na visão dele, ele poderia repensar a recusa de se filiar à nossa entidade. Eu acabei indo atuar em outra regional, e depois o Ferreira também mudou de agência. Um tempo depois, encontro o Ferreira em uma dependência da regional Osasco. Foi um reencontro muito legal. Nos abraçamos, conversamos. E o colega me pediu a ficha de sindicalização e disse que estava convencido sobre a seriedade de nosso trabalho. É uma lembrança de encher os olhos d'água... Toda a nossa vida sindical teve momentos como esse... aliás, eu fui um bom sindicalizador desde quando era bancário do Unibanco. Cheguei a ganhar brindes do sindicato por fazer muita sindicalização.

ME LEMBRO que as conversas e debates com a companheirada dos sindicatos do Nordeste não eram simples, eram fraternas, mas era necessário desenvolver argumentos muito sólidos para convencer meus pares que a tese da unidade tinha sentido e que seria benéfica para todos nós, de bancos públicos e privados, do Sudeste e Sul e também do Norte, Nordeste e Centro Oeste. A história da campanha unificada dos bancários, da Convenção Coletiva nacional e da unidade da categoria é uma história muito bonita, muito debatida e exitosa a cada avanço que teve ao longo do tempo. Os receios e as opiniões diferentes na construção da campanha unificada eram mais que naturais. O Sudeste tinha uma maioria de bancários de bancos privados, e a maior parte do país tinha uma maioria de bancários de bancos públicos. No início da década dos anos dois mil, após os anos terríveis dos governos neoliberais dos anos noventa, os bancos públicos estavam sem reajuste há muitos anos, até sem acordos coletivos assinados, pois os governos não negociavam. Já na mesa de negociações entre os grandes bancos privados e sindicatos da Central Única dos Trabalhadores (CUT) havíamos conseguido assinar a 1ª e única convenção coletiva com abrangência para diversos bancos e regiões do país, a CCT da CNB/CUT. Algo muito inovador desde 1992. Muitos sindicalistas entendiam que ao termos Lula na presidência, aquele era o momento dos bancos públicos recuperarem o atraso e seguirem lutando sozinhos em mesas separadas. Outros, como eu, achavam que lutar isolados nos exporia a ataques liberais e desinformações como já ocorria no passado. O debate foi longo e legítimo. Eu tinha plena convicção que a melhor estratégia para nós do BB e dos demais bancos públicos era a unidade na mesa única da categoria, ficando para acordos aditivos o que fosse específico do banco. Quando eu fazia os longos debates com nossos companheiros do Nordeste, pois sempre tive muita afinidade com a companheirada de lá, o pessoal brincava que eu representava o "império" por causa do tamanho da representação de São Paulo. Nesse debate respeitoso nós fomos avançando até chegarmos à campanha unificada e até o BB e demais bancos federais assinarem a Convenção Coletiva da CUT a partir de 2006. Boas lembranças!

ME LEMBRO daquela assembleia decisiva do Banco do Brasil em 2003. Era uma quinta-feira. Era a primeira campanha salarial sob o governo do PT. Era minha primeira campanha salarial como dirigente sindical liberado e com atuação na base. Não vou me alongar na descrição da memória. O governo e a Comissão de Empresa dos Funcionários chegaram a uma proposta durante o final de semana e teríamos assembleia dos funcionários do BB na quadra dos bancários na segunda-feira. A proposta foi rejeitada e nós começamos a greve na terça. Entre terça, quarta e quinta, os colegas do BB viveram uma espécie de catarse, um adeus anos FHC. Na campanha daquele ano, nossa prioridade nos públicos era que o governo respeitasse ao menos as conquistas e direitos acordados na mesa entre a CNB/CUT e a Fenaban. Coisa básica! Era a nossa tese da campanha unificada já em semente plantada. Não teve acordo com a direção do banco. Com o crescimento exponencial da greve naqueles 3 dias, o preço para sair da greve era muito maior àquela altura. Eu era muito basista, conhecia as lideranças da base em São Paulo, Osasco e região. O pessoal queria a revolução naquele momento de greve forte. A recompensa pela boa mobilização veio. A nova proposta, além de cumprir o índice acordado na mesa geral da categoria, trazia questões específicas muito importantes para os funcionários do BB. Teríamos a 1ª PLR com base nas regras da PLR da categoria, que era de 1995 e nós nunca havíamos recebido. Foi necessário obter autorização especial dos órgãos do governo porque como S.A. o BB não poderia gastar mais que 6,25% do Lucro Líquido e aplicar a regra da categoria num banco com a quantidade de bancários que tínhamos dava mais de 10% do Lucro Líquido; a proposta ainda tinha direitos novos importantes como 5 dias de abonos para os pós-1998 e a volta ao direito de eleger delegados sindicais com estabilidade. Os vales refeição e alimentação também foram igualados aos da CCT da categoria (eram menores no BB). Enfim, uma boa proposta para aquela boa greve. Na assembleia na quinta à noite na quadra dos bancários, o pessoal estava dividido, uma parte estava superfeliz pela proposta e queria o fim da greve, outra parte achava a proposta ruim e queria mais, muito mais. Os companheiros mais experientes me disseram que aquele era o momento de me tornar um dirigente sindical, pois a gente tem que saber entrar e sair de uma greve e uma greve não pode tudo. Havia o risco real de perdermos as conquistas caso a proposta fosse rejeitada e a greve continuasse. Fui um dos defensores da proposta perante a massa de trabalhadores. Me lembro que tive que ser muito firme nas minhas palavras e explicações sobre a importância de aceitarmos aquela proposta arrancada na luta. Alguns militantes próximos gritavam e estavam muito bravos com a minha defesa... Final das defesas... regime de votação... proposta aceita e fim da greve. Terminada a assembleia, encostei na parede atrás do palco da quadra, agachei, me sentei, e chorei... foi um grande dia na minha formação de dirigente sindical.

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Eu poderia ficar horas relembrando fragmentos de uma vida relacionada a momentos vividos na história de nosso sindicato. Mas por hoje está bom.

Mais uma vez, parabéns aos bancários e bancárias de nossa base, associados e ainda não associados, da ativa e aposentados. Parabéns ao nosso sindicato, à direção e aos funcionários e apoiadores que constroem diariamente a nossa história de lutas.

William

Associado 351524, desde 08/02/93. 

(antes, fui associado pelo Unibanco entre 1988 e 1990)


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16.1.22

Memórias (XV)



Estudando para ampliar a possibilidade de compreender e alterar o mundo 

"A principal tarefa do historiador não é julgar, mas compreender, mesmo o que temos mais dificuldade para compreender." (HOBSBAWM, 2006, p. 15)


Cada vez que paro para pensar na influência que teve em minha vida o Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região tenho claro que a influência foi decisiva naquilo que sou hoje, um homem com consciência política, uma pessoa com posição política definida, uma pessoa de esquerda, que pensa um mundo socialista ou comunista, um mundo que tenha superado o capitalismo.

A primeira etapa de formação política formal em minha vida foi durante o período no qual fui bancário do Unibanco e depois do Banco do Brasil, associado ao Sindicato e em contato com os dirigentes e funcionários políticos da entidade. Mesmo que de forma esporádica, pude vivenciar os momentos de organização de base e lutas coletivas por direitos sociais, políticos e até civis. Ao ser estimulado a contribuir na organização das lutas, pude me politizar bem mais que antes, quando lutava de forma pessoal contra as injustiças diárias em nossa sociedade. 

Vale registrar que sempre fui um bom sindicalizador do Sindicato como bancário de base, cheguei até a ganhar prêmios em campanhas de sindicalização.

A segunda etapa de formação política formal em minha vida foi quando fui convidado a integrar uma chapa que disputaria e venceria a eleição do Sindicato em 2002. Eu já era bancário desde 1988 e depois fui entender que no BB fazia o papel de delegado sindical há muitos anos, durante os governos tucanos, de péssima memória para nós pelo que sofríamos diariamente nos locais de trabalho. Até dezenas de suicídios vivenciamos durante os anos entre 1995 e 1999. Os tucanos eliminaram 50 mil postos de trabalho.

Ao assumir o papel político de dirigente sindical de um dos maiores sindicatos da América Latina, eu me transformei radicalmente após o dia 5 de agosto de 2002, meu primeiro dia de liberado das funções diárias na bateria de caixas da agência Vila Iara, em Osasco, para passar a atuar exclusivamente na representação de meus colegas bancários. De cara me tornei uma pessoa mais responsável, passei a pensar melhor antes de falar ou fazer qualquer coisa porque a partir daquele momento eu não era só um cidadão brasileiro bancário, eu era um representante de meus pares, meus colegas de trabalho e categoria. 

Os anos como dirigente sindical foram de muita aprendizagem para mim, aprendizagem de todas as formas possíveis. O movimento de lutas dos trabalhadores é uma universidade com um leque de conhecimentos muito maior que o leque de disciplinas e referências que temos acesso em cursos universitários. Muito maior! Como estive em 3 cursos de graduação posso afirmar a vocês com conhecimento prático sobre a questão. Compartilho da opinião de intelectuais que criticam o excesso de especialização e fragmentação do conhecimento humano que virou a regra nas últimas décadas. As pessoas são especialistas em algo e absolutamente ignorantes em tudo.

Como dirigente sindical e representante da classe trabalhadora tive por dezesseis anos uma agenda de vida completamente voltada para as causas que abraçava e defendia. Uma vida assim tem seus ônus e seus bônus. Posso resumir os 16 anos afirmando que valeu a pena o período que dediquei de minha vida ao movimento sindical e à organização da categoria bancária, da classe trabalhadora e dos direitos sociais, políticos e civis do povo brasileiro. 

Como disse no primeiro parágrafo, atribuo influência decisiva ao homem que me tornei após os 20 anos de idade ao meu contato e convívio com o sindicato da categoria profissional na qual passei boa parte de minha vida. Sou grato à existência das organizações sindicais e associativas da classe trabalhadora. Sem a união, a unidade e a solidariedade de classe nós não somos nada. Nada! Não há "meritocracia" que dê conta de nos salvaguardar dos efeitos do capitalismo. 

Além de grato, me esforço para ser associado e contribuir para a manutenção das entidades de classe relacionadas com a comunidade profissional na qual passei a minha vida laboral e de cidadão brasileiro. Juro que é difícil, mas ainda hoje sou associado a diversas entidades associativas e representativas dos bancários e da comunidade BB.

Fico por aqui no primeiro texto de memórias do ano de 2022, 15º texto desta série. Sigo estudando muito, como disse no título desta postagem. Se não tivesse estudado ao longo dos 16 anos de mandatos o movimento sindical, suas correntes políticas, a história das lutas de classe e das organizações do movimento, eu teria muito mais dificuldades para compreender por que algumas coisas acontecem em nossos sindicatos e na organização do movimento sindical. 

Estudando e refletindo compreendo um pouco melhor o fato de não ter sido incluído nos debates sobre Previ e Cassi em meu sindicato de base em dezembro passado. Como diz Hobsbawm, a questão principal não é julgar, é compreender, mesmo quando temos dificuldades para compreender as atitudes e ações tomadas por pessoas e instituições de nossa vida social.

Tenho ouvido alguns intelectuais que estão me fazendo pensar e refletir sobre minha vida no movimento sindical e sobre o nosso país: Mauro Iasi, Sabrina Fernandes, José Paulo Netto, Miguel Nicolelis são alguns dos intelectuais que têm me ajudado a entender o mundo. E sigo com a literatura, lógico, porque um ser humano sem leitura de cultura é um ser humano com menos ferramentas para o viver.

William


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E aqui para ler o texto seguinte, o Memórias (XVI).


Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos - O breve século XX 1914-1991. São Paulo. Companhia das Letras, 1995. 2ª edição, 33ª reimpressão, 2006.


23.12.21

Memórias (XIV)

Momento de descanso do sindicalista
admirador de Che Guevara.

A importância do sentimento de pertencimento a determinadas comunidades e causas sociais


INTRODUÇÃO

Hoje é véspera da véspera de Natal do ano de 2021. O cidadão que escreve suas memórias aqui no blog A Categoria Bancária está retirado das lutas do movimento sindical bancário. Sou beneficiário de nossas caixas de previdência e de assistência à saúde, associações criadas por nós do Banco do Brasil lá no século passado. Pertencer a instituições criadas pela classe trabalhadora nos dá algum sentido de pertencimento num mundo onde impera o capitalismo e o individualismo.

Pertenço a uma certa comunidade humana. O custo disso é pesado, mas acho importante pertencer a alguma coisa. Sou participante de um fundo de pensão, de uma caixa de assistência, sou sindicalizado, sou associado a algumas associações da comunidade Banco do Brasil.

Estou revisitando minhas postagens do ano de 2007 neste blog sindical. 

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REESTRUTURAÇÃO NO BB, PLR COM PRÁTICA ANTISSINDICAL, REFORMA ESTATUTÁRIA DA CASSI E REMUNERAÇÃO VARIÁVEL QUE DISCORDEI

Aquele ano foi um ano de muitas lutas. Tivemos a reforma estatutária da Cassi, tivemos uma reestruturação ruim e danosa para os funcionários do BB feita pela direção do banco, tivemos uma proposta de remuneração variável pensada pelo movimento sindical para debater com os banqueiros que eu não concordei com ela e pedi licença à corrente política Articulação Sindical, a qual pertencia, para não votar a favor dela.

Tivemos em março de 2007 uma proposta de PLR sacana e antissindical por parte da direção do Banco do Brasil (acordo para pagar a 2ª parcela de 2006), feita para tirar alguns reais dos grevistas da campanha salarial e feita para criar um clima de punição aos lutadores e para quebrar a solidariedade no movimento de lutas. Falei sobre a questão aqui.

Os caras que bolaram a sacanagem eram naquele momento gestores do BB do governo Lula. Queriam interromper o ímpeto grevista da militância que vinha num crescendo desde a greve de 2003, primeiro ano de governo democrático e popular. Eles plantaram uma semente do individualismo e contribuíram para diminuir o espírito de solidariedade na categoria e no BB. Parabéns para eles!

No acordo coletivo de PLR da campanha salarial de 2007/08 (fechada em outubro de 2007) nós exigimos que o acordo de PLR fosse anual e não mais semestral, para evitar sacanagens como aquela que ocorreu em março para pagar a 2ª parcela do ano anterior. Ler aqui.

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CONQUISTA DA 13ª CESTA-ALIMENTAÇÃO

Um dos objetivos alcançados na campanha daquele ano de 2007 foi incorporar a 13ª cesta-alimentação à Convenção Coletiva de Trabalho (CCT). Ler aqui.

HISTÓRIA - Nós (a Executiva Nacional dos Bancários) havíamos conseguido negociar com os banqueiros esse direito na campanha de 2004 e a 13ª cesta-alimentação seria incorporada à convenção. A proposta final dos banqueiros foi rejeitada pelas assembleias. A campanha teve um desenvolvimento complexo, uma longa greve de 30 dias e julgamentos no TST. Isso fez com que o direito não fosse mantido ao final da campanha de 2004. Só em 2007 implantamos esse direito.

Outra questão que avançamos na organização do movimento após a campanha de 2004 foi ampliar a Executiva Nacional para o Comando Nacional dos Bancários nos anos seguintes.

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2007 FOI UM ANO DE MUITA SINDICALIZAÇÃO, TRABALHO DE BASE E POLITIZAÇÃO DOS TRABALHADORES

Ao revisitar as 227 postagens que fiz no blog A Categoria Bancária naquele ano de lutas e representação sindical, avalio que a minha formação política teve como base a organização nos locais de trabalho (OLT), que se mostrou constante durante minha vida de bancário do Unibanco (1988-90) e do Banco do Brasil (1992-2019) - falei sobre isso aqui -, mesclada com o dia a dia da formação política que tinha na convivência com as companheiras e companheiros do movimento sindical.

Estamos na véspera de Natal e Ano Novo. Me lembrei que em todos os anos de minha representação sindical passava esses dias nos locais de trabalho do Banco do Brasil.

Em 2007, nos dias 26 e 27 de dezembro, lá estava eu conversando com meus colegas do BB nas agências e departamentos na região central de São Paulo, distribuindo materiais do Sindicato e da Contraf-CUT: agendas, Folha Bancária, revista O Espelho etc. (ver aqui)

O movimento sindical brigava com o governo e com a direção do banco o tempo todo para contratar mais funcionários. No banco público a contratação se dá por concurso. Felizmente, passei o ano todo de 2007 indo às posses de novos bancários e bancárias em São Paulo, às segundas-feiras. 

SINDICALIZAÇÃO - Além de apresentar o Sindicato e a história de lutas da categoria bancária e da classe trabalhadora, sindicalizei dezenas e dezenas de colegas em seus primeiros dias de trabalho no Banco do Brasil. Coisa boa de se lembrar!

Como disse no início desta postagem de memórias, pertencer a alguma coisa, um lugar, uma comunidade, é importante para dar sentidos à nossa natureza social. Não é fácil nos mantermos pertencentes às nossas associações hoje em dia, juro que não é. Mas é importante sermos sindicalizados e associados a nossas entidades de classe.

É isso. Fim de mais uma postagem de memórias sindicais e de lutas. Terminei a revisita a 2007. Agora vou revisitar o ano de 2008 em meu blog.

William


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4.12.21

Memórias (XI)


Eu, Cacaio e Marcel. que era coordenador da Comissão de Empresa
dos Funcionários do BB; eu representava a Fetec CUT SP.

Agosto de 2007 foi um mês de muito contato com os trabalhadores que representávamos, mês de sindicalização para fortalecer o Sindicato e a luta coletiva


INTRODUÇÃO

Tenho dedicado algumas horas do dia para relembrar a minha participação nas lutas da classe trabalhadora brasileira. Fui dirigente sindical da categoria bancária por 16 anos, exercendo 4 mandatos no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região e 3 mandatos na Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro, a Contraf-CUT.

Na metade da 1ª década dos anos dois mil, a internet e as redes sociais começavam a ganhar escala e os sites e blogs se tornaram uma forma de comunicação que permitiam a nós militantes de esquerda furar a bolha dos meios de comunicação hegemônicos das corporações de famílias bilionárias - casa-grande e capitalistas -, empresas de comunicação detentoras de todos os meios midiáticos e manipuladoras da opinião pública, grandes iniciadoras daquilo que hoje chamamos fake news, mentiras a respeito de boa parte das informações que veiculavam com "cara" de verdade. Quando não eram mentiras, eram omissões e invisibilizações da pauta da classe trabalhadora. A pós-verdade nasceu com o PIG - Partido da Imprensa Golpista.

Foi nesse contexto que criei o primeiro blog como dirigente sindical. Ele não existe mais porque o provedor desapareceu com ele e com as informações que produzi nele. Durou uns dois anos, entre 2005 e 2006. No final de 2006, criei novamente um blog em outro provedor, o blog A Categoria Bancária. A partir daí, passei a interagir com a categoria bancária e com as entidades sindicais e representativas através de minhas postagens. Foi uma experiência muito rica e que durou até o último mandato que exerci em nome da classe trabalhadora, na Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, a Cassi, onde fui diretor de saúde até maio de 2018.

AGOSTO, MÊS DE CONVERSAS COM A BASE

Ao olhar minha agenda sindical (ver aqui), as 23 postagens mostram que fiz muito contato com os trabalhadores, seja nas posses de novos funcionários do Banco do Brasil - momento de apresentar o movimento sindical e de sindicalização -, seja nos locais de trabalho ou ainda em reuniões de delegados sindicais. 

O mês de agosto marcava o início das negociações da data-base da categoria bancária (setembro) com as minutas de reivindicações entregues: geral na Fenaban e específicas por bancos. Nós estávamos na construção da campanha unificada dos bancários e os avanços vinham ocorrendo. Já havíamos conseguido que o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal assinassem a Convenção geral - a CCT entre a Contraf-CUT e a Fenaban -, ficando as questões específicas em Acordos Coletivos aditivos à CCT.

O 18º Congresso Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil (CNFBB) havia ocorrido na sequência da 9ª Conferência Nacional e com as entregas das minutas de reivindicações, começavam as mobilizações para fortalecerem as mesas com banqueiros e governo. Veja aqui uma postagem sobre o 18º CNFBB. O nosso coordenador da Comissão de Empresa (COE-BB ou CEBB) era o companheiro Marcel Barros.

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SINDICALIZAÇÃO - Fui a 4 posses de bancárias e bancários novos do Banco do Brasil, nos dias 6, 13, 20 e 27 de agosto. Os concursados tomavam posse dos cargos de escriturário e ficavam duas semanas em treinamento em um ambiente do banco. Em geral, nós sindicalizávamos várias pessoas no 1º dia de trabalho delas. Passei anos encontrando bancári@s que diziam ter sido sindicalizados por mim lá no início de suas vidas de colegas do BB. Muito legal isso!

REUNIÃO DE DELEGAD@S SINDICAIS - No dia 21 de agosto o Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região realizou uma reunião organizativa com a militância do Banco do Brasil. Era comum fazermos reuniões com a militância, tanto nas agências e locais de trabalho, como fiz nos dias 15 (ag. Vila Iara - Osasco) e 17 (ag. São Bento), como nas regionais do Sindicato.

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REFORMA ESTATUTÁRIA DA CASSI - Os associados da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil iriam voltar a se manifestar em relação às negociações ocorridas entre a direção do banco, da Cassi e as entidades representativas do funcionalismo entre os dias 8 e 21 de agosto.

"Cassi - Para a Cassi, o Congresso do BB decidiu por uma campanha pela aprovação do novo estatuto, que será votado pelos associados entre os dias 8 a 21 de agosto." (Matéria sobre o Congresso aqui)

O tema foi debatido no 18º CNFBB e os participantes, em decisão majoritária, decidiram apoiar as mudanças que traziam entre outras coisas, mais recursos para a Cassi e compromissos por parte da direção do Banco e da Cassi em ampliar o modelo assistencial de Estratégia Saúde da Família, baseado em unidades próprias CliniCassi e programas de saúde. 

A proposta foi aprovada anteriormente, mas com o quórum abaixo do necessário como define o estatuto da associação.

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Os anos como dirigente da classe trabalhadora foram anos de muito aprendizado, muito companheirismo e de muita luta em defesa daquilo que acreditamos, um mundo mais justo e igualitário para todas as pessoas.

William


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Caso queira ler a postagem anterior, clique aqui.



3.12.21

Memórias (X)



Memórias de lutas sindicais e democracia no Brasil: relembro a construção da estrutura organizativa da categoria bancária

Nas memórias de hoje, vou relembrar as agendas de lutas do mês de julho de 2007. Fiz 23 postagens no blog A Categoria Bancária. O mês foi intenso porque foi mês de finalizar a primeira parte da campanha da categoria: tivemos assembleias de base e depois a 9ª Conferência Nacional e os congressos de bancos em seguida.

Este dirigente que revisita as memórias era o secretário de imprensa da Contraf-CUT, diretor do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região e representante da Fetec-CUT SP na Comissão de Empresa dos Funcionários do Banco do Brasil, uma comissão que assessorava a confederação e o Comando Nacional na organização e negociação de questões específicas por bancos (COE-BB ou CEBB).

A VIDA TODA JUNTO ÀS BASES - Ao ver as postagens do mês (ver aqui), fico feliz em relembrar que não deixei de fazer contatos com a base de trabalhadores do Banco do Brasil nem em meses tão cheios de agendas internas ao movimento como esse de organizar e finalizar as estratégias, as reivindicações e as bandeiras de lutas da campanha nacional dos trabalhadores do ramo financeiro. 

SINDICALIZAÇÃO - Achei espaço na agenda para ir conversar com bancários e bancárias do BB na posse e sindicalizá-los no 1º dia de trabalho deles no banco público. Aliás, as mulheres só tiveram direito de prestar concurso e trabalhar no BB depois de mais de um século de existência do banco. Agendas dos dias 16 e 23 de julho.

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Na 1ª semana de julho tínhamos agendas de reuniões diversas, na secretaria de imprensa da Contraf-CUT, porque estávamos confeccionando a revista nacional O Espelho, definindo propostas para a mídia da campanha nacional 2007 e trabalhando para dar visibilidade à luta da categoria na imprensa empresarial, a dos capitalistas e da casa-grande.

Eram frequentes reuniões de diretoria, tanto gerais como de corrente política. Eu tinha ainda horas e horas de dedicação à confecção da tese política da Articulação Sindical da CUT, feita em conjunto com outras companheiras e companheiros. 

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REMUNERAÇÃO VARIÁVEL - Como já disse nas outras postagens de memórias sindicais, desde cedo no movimento passei a escrever e contribuir com teses, propostas e opiniões a respeito da organização e luta da classe trabalhadora. Nesse ano de 2007, tive que fazer longos e cansativos debates internos na Articulação Sindical a respeito de propostas feitas para regular a remuneração variável na categoria. 

Tínhamos a intenção correta de regular e negociar com o patronato toda a remuneração dos trabalhadores porque os banqueiros estavam criando formas de remuneração variável com diversos programas de participação em resultados, formas de acelerar as metas abusivas e a sobrecarga de trabalho, gerando grande estresse e adoecimento, inclusive com assédio moral.

Eu não concordava com algumas propostas a respeito de contratação da remuneração variável e fiz o debate democrático dentro da corrente. Estudei, escrevi, fiz debates com diversas lideranças etc. Foi um momento rico na democracia interna do movimento e da corrente política. Valeu bastante. 

Ao final do processo, como não tinha concordância em votar a favor da proposta final de contratar remuneração variável na forma de parte do que os bancários produziam com tarifas e taxas de serviços nas agências (entendo isso como um contrassenso para a luta contra as metas abusivas), recebi por parte da Articulação Sindical autorização para me abster nos fóruns de decisão. Inclusive, no fórum final, fiz declaração de voto esclarecendo ao conjunto dos delegados e delegadas da 9ª Conferência Nacional os motivos por que não votei a favor daquela proposta.

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DURANTE GOVERNOS DO PT, AS AGENDAS DA CLASSE TRABALHADORA ERAM POR MAIS E MELHORES DIREITOS SOCIAIS

Ao ler uma matéria sobre a abertura da 9ª Conferência Nacional (ler aqui) vemos o quanto a classe trabalhadora brasileira estava com uma agenda propositiva e em ascensão social, pois queríamos a redução da jornada de trabalho sem redução de salários, aumentos mais significativos no salário mínimo do país, desenvolvimento econômico sustentável e com distribuição de renda para o povo brasileiro que efetivamente produz a riqueza do país. 

Os períodos dos governos do Partido dos Trabalhadores - governos de esquerda ou centro-esquerda, até sociais-democratas podemos dizer - são tempos de mais oportunidades para a base da pirâmide social e de mais felicidade para o povo. E sabemos que as contradições sempre vão existir, sempre. Elas fazem parte das lutas de classes.

ORGANIZAÇÃO DOS TRABALHADORES DO RAMO FINANCEIRO

A criação da Contraf-CUT em 2006 foi uma nova etapa da organização da categoria bancária dentro da Central Única dos Trabalhadores, a nossa CUT.

Quando se estuda a história dos trabalhadores dentro do setor financeiro brasileiro, vemos que nossas lutas começaram ao mesmo tempo em que a família real veio para o Brasil, em fuga de Portugal por medo de Napoleão Bonaparte. Eles chegaram aqui tomando casas e propriedades das pessoas e criando instituições da sociedade moderna como bancos, comércios etc.

Tínhamos trabalhadores bancários atuando no século XIX, tanto nos bancos públicos ou de governo como nos bancos privados. Banco do Brasil e Caixa Federal foram criados naquele período. O século XX foi de grande envolvimento dos bancários nas lutas de trabalhadores por direitos trabalhistas e sociais. Muitos sindicatos nasceram como associações no início do século e ainda hoje são dos mais organizados do país.

A categoria bancária teve papel preponderante na criação da CUT e nós fomos vanguarda na ideia de organizar os bancários em departamento, mesclando a lógica de estrutura vertical com a da Central, mais horizontal e de classe. Em 1985/86, dois anos após a criação da CUT, organizamos o Departamento Nacional dos Bancários (DNB). A estratégia foi muito exitosa e rapidamente estávamos organizados no país todo, fazendo grandes greves nacionais entre 1985 e 1989.

Nos anos noventa, avançamos para uma Confederação e passamos a contratar direitos em acordos e convenções coletivas. A CNB/CUT contribuiu enormemente para o fortalecimento da Central e da classe trabalhadora brasileira.

Ao mesmo tempo em que nós nos organizávamos, os banqueiros e patronato da casa-grande se organizavam também, é lógico. Reestruturações e avanços tecnológicos marcam essa história de embate entre bancários e banqueiros. A Contraf-CUT surge num momento em que mais de meio milhão de trabalhadores estão gerando lucros para as corporações dos banqueiros e não têm os direitos da categoria, reunidos na Convenção Coletiva dos Bancários, a CCT/CUT.

Bom, já me alonguei nessa postagem de memórias sindicais. O fato é que nós tínhamos uma missão ao criar a Contraf-CUT, missão difícil, mas muito bem-intencionada por parte das organizações sindicais dos bancários. Veja aqui a postagem que fala das estratégias definidas naquele ano de 2007, na 9ª Conferência Nacional, para organizar diversas categorias dentro do ramo financeiro e enfrentar a casa-grande e os banqueiros.

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FOCO NA UNIDADE DO LADO DOS TRABALHADORES, AUMENTO DE DIREITOS E CONTRATAÇÃO DA REMUNERAÇÃO TOTAL

A 9ª Conferência definiu suas reinvindicações, estratégias e agendas de campanha a serem aperfeiçoadas e adaptadas dia a dia pelo Comando Nacional dos Bancários, que foi ampliado naquele ano. Ver a matéria aqui.

Abaixo, deixo um trecho da questão que debati intensamente com a companheirada da Articulação Sindical e demais forças políticas e participantes dos fóruns decisórios da categoria. A vida seguiu, eu discordando das propostas e todos lutando juntos contra os banqueiros.

"Além do reajuste salarial, os bancários também querem uma remuneração complementar de 10% do total das vendas de produtos feitas em cada unidade, distribuído de forma linear para todos os empregados da unidade, creditados mensalmente como verba salarial, incidindo sobre FGTS, 13º, férias e descontos previdenciários.

Na mesma linha, outro item que consta na minuta é a remuneração complementar sobre receita de prestação de serviços para todos os bancários. O benefício reivindicado é de 5% da arrecadação com prestação de serviços distribuídos trimestralmente de forma linear a todos os bancários de cada instituição, inclusive aos afastados por licença-saúde. " (Matéria da Contraf-CUT)

Ao ver as propostas acima, sigo pensando do mesmo jeito que pensei 14 anos antes. Acho que elas não eram as propostas ideais para contratar a remuneração variável da categoria. Mas a vida seguiu e tudo mudou para pior após o golpe de Estado em 2016. 

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A HISTÓRIA SERVE DE REFERÊNCIA, ELA NÃO SE REPETE. A HISTÓRIA NOS MOSTRA QUE PODEMOS MUDAR A REALIDADE TERRÍVEL NA QUAL NOS ENCONTRAMOS EM 2021

É isso! Mais um momento de memórias de lutas da classe trabalhadora. Todas as pessoas podem e devem se envolver nas questões inerentes à nossa vida em sociedade.

Hoje vivemos sob pandemia de Covid-19, num país tomado pelo crime organizado dentro do poder do Estado e sem democracia desde abril de 2016.

Mudar a realidade sempre é possível. Depende de cada um de nós, duzentos milhões de brasileiras e brasileiros.

William


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