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18.6.23

Memórias (XXXVIII)


Na mesa de assembleia com grandes lideranças:
Deli, Vaccari, Marcolino e Sasseron. Foto: Pepe.


Evocações

A leitura do livro Evocación, de Aleida March, me levou aos prantos. Aleida é uma mulher revolucionária, foi combatente na Revolução Cubana e companheira de Ernesto Che Guevara. A leitura de suas recordações e resgates de momentos vividos ao lado de Che me fez refletir sobre muita coisa e também me fez recordar o passado de lutas.

Em suas recordações, ela vai nos contando sua infância e adolescência, vivida em meio às dificuldades materiais e sob a violência que o povo sofria por parte do governo de Fulgencio Batista, ditador que assumiu o poder após o golpe de Estado de 1952. Ela encontrou a si mesma ao ler aos 20 anos de idade A história me absolverá, alegação de defesa de Fidel Castro no julgamento dos jovens revolucionários que atacaram o quartel de Moncada, em 26 de julho de 1953. 

Aleida disse: "sentí que en ese documento se expresaban todos mis ideales y la ruta a seguir para conquistar la plena dignidad patria."

Ao longo do livro o leitor passa a conhecer um Che Guevara que não se conhece lendo a farta biografia positiva e negativa que existe sobre ele. É diferente de outras biografias ler Aleida March compartilhando conosco a sua vida comum com Che, seu comandante, depois seu chefe, depois seu marido e pai de seus quatro filhos. Seu amante, seu amigo, seu professor e seu inspirador. Seu eterno apaixonado. 

Ao ler sobre o momento no qual Che se despede de Aleida e dos filhos em 1965, deixando fitas gravadas com declamações dos poemas que mais gostavam, para partir para a guerrilha de libertação do povo no Congo, foi impossível não chorar como ela diz que chorou...

Che acreditava na construção de um "homem novo", um novo ser humano, um ser humano educado, com cultura, com um forte espírito criador e focado na busca de uma sociedade mais justa e igualitária. Era muito forte em sua concepção e prática revolucionária a questão da ética e do caráter que as pessoas deveriam ter tanto nas questões pessoais e coletivas quanto nas relações sociais.

Com a leitura das evocações de Aleida March, foi inevitável reviver minhas próprias evocações dos tempos de lutas...

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NA REPRESENTAÇÃO DE CLASSE, PROCUREI FAZER NA PRÁTICA O QUE DEFENDÍAMOS NO CAMPO DAS IDEIAS DA ESQUERDA

Figuras humanas como a do médico revolucionário Ernesto Che Guevara sempre inspiraram o campo político da esquerda. No nosso caso brasileiro, a figura do metalúrgico humanista Luiz Inácio Lula da Silva nos inspira há décadas, sendo Lula um grande homem da prática como exemplo de vida e representação política.

Ao longo das evocações de Aleida March, relembrando posturas éticas e princípios inquebrantáveis no líder revolucionário Che Guevara, tive também as minhas recordações dos tempos de lutas sindicais e representação eletiva da classe trabalhadora. As evocações me trouxeram uma leveza que ninguém poderá me tirar, porque a ética foi a minha prática no dia a dia da luta empreendida entre capital e trabalho.

No movimento sindical, minha escola de formação política foi o Sindicato dos Bancários e depois a tendência política na qual militei por décadas. No dia a dia sindical, a minha formação foi sendo construída diariamente a partir das visitas às bases sociais e nas reuniões políticas e formativas do coletivo de banco ao qual eu pertencia, o do Banco do Brasil. 

Como dizíamos, tínhamos dois ouvidos e uma boca, então era importante ouvir a base e não só fazer pregação sem ouvir o outro lado. Fiz isso a vida toda. Sempre que estudamos um grande líder do nosso campo político - o democrático -, vemos que essa prática é central: ouvir as pessoas.

Dei sorte de vivenciar o momento áureo do sindicalismo bancário e cutista brasileiro. A divergência de opiniões e ideias era a prática e ninguém era excluído ou desconsiderado (hoje dizem "cancelado") por ter opinião própria, estávamos abertos a mudar de ideia e, por haver tolerância e paciência, todos saíam fortalecidos e unidos com os debates e as decisões construídas por consenso progressivo.

Com o passar do tempo na condição de dirigente eleito, fui assumindo novas tarefas no movimento e ao passar a coordenar e liderar temas importantes ou setores estratégicos, me esforcei para pôr em prática tudo o que havia aprendido no dia a dia da formação política advinda da relação com a base, com o coletivo de banco, com o conjunto da direção do Sindicato e com as demais forças políticas que atuavam no movimento e que eram "oposição" à corrente política que eu representava. E também exerci a ética e prática sindical na relação com o patronal, o capital.

Ao longo do livro de recordações de Aleida March, ela nos conta passagens nas quais Che não aceitava absolutamente nenhuma ação que pudesse parecer privilégio, não admitia nenhum excesso de gasto pessoal com o recurso que era coletivo, era de uma disciplina incrível nas ações e práticas que exercia em nome da revolução e da causa pela qual lutava, a leitura e o estudo permanentes eram uma questão de princípio, educação e formação para construir-se o homem novo para uma nova sociedade.

De certa forma essas foram as mesmas concepções e práticas sindicais que embasaram a minha formação política de esquerda, através do movimento que ganhou o nome de Novo Sindicalismo a partir do final dos anos setenta, com a luta de metalúrgicos, bancários, professores e outras categorias contra a carestia, pela volta da democracia e por um Brasil mais justo e igualitário. Os anos oitenta foram o momento áureo dessas lutas: a criação do Partido dos Trabalhadores, a Conclat e depois a CUT, o MST, as Diretas Já, a Constituinte e a Constituição Cidadã de 1988 deram as bases ideológicas ao movimento sindical ao qual me integrei no final dos anos oitenta e ao longo das décadas seguintes.

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EVOCAÇÕES SINDICAIS (2003-2018)

A formação da minha ética política se deu nos primeiros anos do movimento sindical. E seguiu ano após ano, nas lutas constantes e dilemas vividos nas funções que desempenhei como dirigente da classe trabalhadora.

Diria até que minha ética de trabalhador de categoria organizada sindicalmente e nacionalmente se deu assim que entrei na categoria bancária em 1988, e com embates reais entre capital e trabalho. No entanto, a ética como liderança se deu após 2003.

TER OPINIÃO DIFERENTE NÃO É SER INIMIGO DA DIREÇÃO DO SINDICATO - Ainda como trabalhador de base nos anos noventa, me lembro, por exemplo, de quando o nosso sindicato entrou com ação judicial contra o governo federal para que os trabalhadores bancários da base pudessem abater todas as despesas com educação. Falei com a direção sindical que isso iria dar merda...

Eu já era formado em Ciências Contábeis e entendi que isso tinha um risco enorme de dar errado e a liminar ser cassada porque os bancários vivem no mesmo mundo do restante da classe trabalhadora. Por que só nós teríamos esse direito, esse privilégio?

Não deu outra... liminar cassada e teve trabalhador que precisou vender carro para pagar o fisco. Os bancários ficaram bravos pra caramba com o sindicato. Eu avisei onde trabalhava que era uma fria utilizar essa liminar. A intenção do sindicato até era legítima, mas estava na cara que esse atalho para se fazer justiça tributária não era o mais adequado. 

A FORMAÇÃO POLÍTICA COMO DIRIGENTE SINDICAL

Me lembro das assembleias decisivas dos bancários do Banco do Brasil naquele primeiro ano sob o governo do presidente Lula (2003). 

Era uma segunda-feira quando veio a proposta final do governo para ser apreciada em assembleia à noite na Quadra dos Bancários. 

Eu havia dito ao nosso coordenador da comissão de negociação que seria difícil a aprovação da proposta arrancada na mesa de negociação porque os trabalhadores esperavam ao menos uma proposta idêntica ao índice que a categoria havia conseguido na mesa da Fenaban. 

Isonomia e campanha unificada eram eixos congressuais nossos, mesmos direitos entre todos os bancários, de bancos privados e públicos em geral. 

Defendemos a aprovação da proposta negociada em mesa - isso é uma ética de mesa de negociação entre capital e trabalho. Os bancários rejeitaram a proposta e construímos uma forte greve entre a terça e a quinta-feira. 

A direção do Sindicato foi impecável em nossa ética sindical, os trabalhadores decidiram e nós encaminhamos uma greve muito forte. 

Na quinta-feira, iríamos apreciar nova proposta negociada com o governo e patrão sob uma correlação de forças melhor - a greve forte - e agora com o índice cheio da categoria (12,6%), e com diversas conquistas novas: um acordo de PLR que não havia nos bancos públicos, isonomia nos tíquetes e auxílio-creche que eram menores no BB, um aumento grande na cesta-alimentação, 5 dias de abonos para funcionários pós-1998, a volta do direito de eleger delegados sindicais com estabilidade, e abono dos dias de greve. Uma proposta vitoriosa mediante a greve daqueles 3 dias.

A assembleia à noite foi tensa, quadra lotada. 

Na passeata que fizemos durante a tarde, parte da militância me disse que queria aceitar a proposta e encerrar a greve vitoriosa. Outra parte queria rejeitar a proposta e queria muito mais, talvez a revolução (rsrs). 

Na reunião da direção nos bastidores da assembleia, decidimos que eu faria uma das defesas da proposta, eu já tinha muita inserção na base social. 

Foi difícil aquela fala com a massa de trabalhadores, gente querida gritando e ofendendo, queriam continuar a greve. 

Aprovamos a proposta e a categoria saiu vitoriosa daquela campanha. 

Eu me sentei atrás do palco e chorei. Foi tenso demais. Iniciei ali uma relação de liderança com a categoria baseada em muita honestidade e ética sindical. Eu fiz a coisa certa naquele momento.

A militância que ficou brava na hora depois me procurou e nos deu razão. Foi uma campanha vitoriosa.

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A LIBERDADE DE OPINIÃO FOI CENTRAL NA MINHA FORMAÇÃO POLÍTICA

Depois dessa primeira assembleia decisiva em 2003, fiz nas assembleias em São Paulo as defesas das propostas finais das negociações entre a direção do Banco do Brasil e nós das confederações de bancários da CUT (CNB e Contraf) entre os anos de 2004 e 2013, foram 11 anos de muitos debates com a massa de trabalhadores bancários de nossa categoria.

Cada ano, uma história. A campanha de 2004 e a greve de 30 dias. A campanha de 2005 (e essa tem uma história antes mesmo de começar)... e assim sucessivamente até a última campanha que atuei no sindicato e na confederação em 2013. Em 2014 fui eleito para a direção da Caixa de Assistência dos Funcionários do BB (Cassi) e no congresso daquele ano deixei a coordenação do movimento no banco.

Estabeleci uma relação ética com os trabalhadores e com as lideranças de todas as forças políticas que atuavam na categoria bancária. Essa ética na postura e na defesa daquilo que acreditava marcou momentos políticos interessantes em nossas vidas de direção sindical nos anos dois mil.

Cheguei a fazer falas em congressos de bancários dividindo tempo com pessoas da oposição contra a minha própria corrente política porque eu entendia que a proposta em questão era um absurdo completo, contrária aos princípios que norteavam as nossas bandeiras políticas da CUT. 

É claro que houve um consenso em nosso grupo de que a corrente estava dividida naquele tema e foi aberta essa possibilidade de defesa a favor e contra a proposta em questão - algo que o pessoal conhecia com o apelido de "cláusula Zé Lourenço". Nunca fui porraloca como dirigente. Minha atuação naquele momento foi consentida pelo grupo político ao qual eu pertencia. No final, a proposta "Zé Lourenço" foi rejeitada com votação apertada após contagem de crachás.

E nem por isso, ter opinião divergente de parte de minha corrente, deixei de ser uma liderança nacional, coordenador de nossas bancadas e negociações etc. Havia uma ética no movimento sindical que permitia a opinião divergente e o debate de ideias sem a pessoa ser demonizada e cancelada por isso. Todos ganhavam com a construção do consenso progressivo, a Política e a Democracia eram fortalecidas.

Essa política saudável de debate de ideias e construção de consensos foi sumindo do seio de nossa democracia sindical e partidária na última década. Avalio que isso não é bom para o movimento dos trabalhadores. Isso não fortalece a unidade e o pertencimento às causas que defendemos.

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NA COMUNICAÇÃO E NA FORMAÇÃO POLÍTICA O CORPO FALA, A PRESENÇA NO AMBIENTE É CENTRAL (ONTEM E HOJE)

A leitura das evocações de Aleida March, companheira de Che Guevara, me trouxe várias lembranças ao longo dos quatro dias de leitura. Várias. Tem uma passagem no livro onde ela fala do incomodo do Che quando algum companheir@ deixava de participar dos eventos presencialmente.

"Es en esta época en que el Che comienza a asistir a las recepciones de gobierno, porque entendía que era un compromiso ineludible y una escuela de formación para los nuevos cuadros de la Revolución. En realidad se molestaba muchísimo cuando algún compañero no asistía, al considerarlo como parte de sus funciones. Como siempre, iba vestido con su uniforme verde olivo, que ya en la noche había sufrido el rigor de la faena de todo el día: reuniones, actos, en fin, las tareas cotidianas." (ALEIDA March, Evocación, p. 102)

Aproveito a passagem acima para refletir em uma postagem de Memórias no blog sobre essa questão da "escuela de formación" quando se trata da participação presencial em eventos formais da política. 

Tenho observado que algumas das direções sindicais e partidárias deixaram de fazer encontros e assembleias presenciais quando o assunto pode gerar algum enfrentamento político. 

Entendo todas as alegações que as direções apresentam para só fazerem assembleias e eleições virtuais, mas acho uma perda de oportunidade não aproveitar esses eventos políticos para educar e formar a classe trabalhadora que se quer organizar e representar.

Em uma assembleia ou congresso de trabalhadores, tudo ensina, tudo educa. Até as movimentações dos grupos políticos pelos cantos, definindo as posições e as defesas, demonstram aos participantes a pujança da política e do debate de ideias. Demonstra inclusive que as pessoas com ideias diferentes não são inimigas, só têm ideias diferentes... a política deve ser civilizada, ela é para se evitar a violência e a guerra.

Quando eu coordenava as negociações nacionais do Banco do Brasil e os congressos e assembleias, sempre pedia para a nossa militância fazer falas e defesas que fossem didáticas ao falar para o plenário. Não era necessário ficar só nas provocações com os outros grupos. A fala deveria ser formativa. Quem atuou comigo vai se lembrar disso.

Ao fazer uma defesa sobre a campanha unificada, ou sobre o porquê de ser melhor reivindicar ganho real ao invés de perdas desde Cabral, ou por quê salário fixo é melhor que remuneração variável, eu pedia que o dirigente desse o histórico do tema para centenas de participantes que iriam votar a seguir. A política deve educar o trabalhador e a trabalhadora.

Outra questão muito importante é a própria postura das mesas que coordenam congressos e assembleias, os ritos democráticos, se não existir eventos presenciais toda essa construção democrática desaparece. Ela sempre foi meio consuetudinária, ritos construídos entre nós trabalhadores e não registrados em papéis. E funcionavam!

Outro dia, fui a uma assembleia presencial do meu condomínio e ao ver a desorganização e a falta de tato para coisas básicas, precisei pedir o microfone e dar algumas orientações sobre apresentação de propostas, processos de defesas, questão de ordem, que não se fala ou debate durante período de votação etc. As pessoas perderam a noção de quase tudo.

Enfim, como vamos convencer a classe trabalhadora a ir para as ruas defender ideias abstratas como democracia, direitos trabalhistas e previdenciários, meio ambiente etc se não exercitarmos a participação presencial em uma assembleia ou congresso de trabalhadores para decidir a vida imediata deles como o emprego, o salário etc? É o mínimo para se preparar uma pessoa a participar de algo como ir para as ruas lutar contra um golpe militar ou golpe fascista chamá-la para ir a uma assembleia umas duas vezes ao ano!

FAZER OU NÃO FAZER ASSEMBLEIA PARA COMEÇAR UMA CAMPANHA SALARIAL?

Fecho esta Memória com uma evocação lá de 2005, quando eu estava em meu primeiro mandato eletivo como dirigente da classe trabalhadora.

Íamos começar os processos democráticos de organização das bases de trabalhadores bancários. As assembleias de base são os fóruns onde tudo começa. É assim há séculos... não é exagero. Essa prática democrática das assembleias vem de muito longe...

Na assembleia é onde as forças políticas se apresentam, onde se definem eixos de campanha e quem vai representar e liderar a categoria nos fóruns decisórios de uma campanha salarial. Já falei acima sobre os ritos democráticos numa assembleia presencial.

Em um certo momento interno em nosso sindicato, a direção procurou todas as forças políticas que atuavam na categoria em nossa base e em nome da unidade desenhou-se uma distribuição da delegação que participaria dos fóruns estaduais e no fórum nacional que definiria a pauta de reivindicações daquele ano.

Assim que eu entendi direito a proposta, questionei o método definido naquele fórum interno porque não haveria assembleia de base. Aleguei que definir as delegações assim, por distribuição de forças políticas sem a assembleia da categoria era uma opção que deseducaria a base e nós mesmos, dirigentes cutistas.

Aberta a polêmica, todas as pessoas da direção envolvidas naquela fase de decisões foram ouvidas e como não houve consenso progressivo porque eu não concordei, a reunião foi suspensa e remarcada para que cada participante fizesse suas consultas e se organizasse para a definição do método dias depois.

Bom, felizmente, fui feliz no meu questionamento democrático. Após idas e vindas, prevaleceu a decisão de se fazer assembleia de base para definir as questões centrais e as delegações para as etapas seguintes da campanha salarial daquele ano de 2005.

Foi algo muito parecido com aquele clássico filme "Doze homens e uma sentença". Nossa democracia interna baseada na paciência e na construção de política ouvindo a divergência, o consenso progressivo, evitou que iniciássemos em 2005 na maior base bancária do país, uma campanha sem assembleia inicial.

Tenho uma leitura do momento atual de que se isso acontecesse hoje, eu não seria ouvido, a opinião divergente sequer teria sido ouvida e a proposta inicial seria automática... campanha salarial sem assembleia de base...

Juro pra vocês que isso aconteceu em 2005. Foi um aprendizado para todos nós da direção do Sindicato. Fizemos uma ótima campanha salarial naquele ano.

William


Post Scriptum: para ler o texto de Memorias XXXVII anterior, é só clicar aqui. O capítulo seguinte pode ser lido aqui.


26.5.22

Memórias (XXVI)


Eu e sobrinho numa palestra de filosofia na USP.

A importância dos sindicatos combativos na conscientização e politização da classe trabalhadora

Opinião (fortemente influenciada pelos anos de bolsonarismo entranhado nas relações familiares)

Dias atrás estava numa conversa com meu sobrinho e afilhado sobre a vida e as coisas da vida - as crises de família, a crise política do país e as demais crises que vivemos (ixi, acho que sugeri que a vida é uma sequência de crises) - e naquele momento fazia uma reflexão sobre os porquês de eu ser uma exceção entre dezenas de pessoas de nossa família e ser um cidadão de esquerda, de ser politizado e ter consciência de classe (é uma avaliação pessoal). Imagino que tenham mais alguns "progressistas" na família, mas são exceções ao quadro geral. E lembro aqui que estou me referindo a uma família com origem nas classes C, D e E de consumo. Gente pobre, sem posses, sem propriedades.

Se eu considerar somente o tronco familiar de meus pais, a começar pela ascendência deles, minhas avós Deolinda e Cornélia (meus avôs morreram bem antes da morte delas), seriam doze tios e tias (na verdade, seriam somente duas tias e um monte de tios) e mais umas dezenas de primos e primas, cônjuges ("conges", como diz o ídolo de alguns familiares) e os filhos e filhas dos primos e respectivos cônjuges. Põe aí umas 70 pessoas, mais ou menos, a considerar as gerações que são adultas hoje. Que eu saiba, esse povo todo não nasceu em berço de ouro, pelo contrário, nasceu em berço de madeira comum, mobília tipo Casas Bahia. É gente com origem nas classes subalternas do Brasil.

Quantas pessoas seriam de esquerda e progressistas, ou pelo menos contrárias às concepções de direita e extrema-direita, conservadoras e reacionárias neste núcleo familiar de pobres e remediados do povo brasileiro? Umas 5 ou 6 talvez? Talvez. 

Na conversa com meu sobrinho, eu refletia sobre a importância que teve em minha vida o contato com os dirigentes, assessores políticos e a militância do sindicato da categoria profissional à qual passei a maior parte de minha vida laboral: a categoria bancária. Aos 20 anos tive o primeiro contato com o pessoal do sindicato ao trabalhar no Unibanco e depois com 23 anos ao ser funcionário do Banco do Brasil. Mesmo assim, ao olhar para trás, ao ver escritos meus, percebo que só após os 30 anos de idade foi que comecei a me politizar e me tornar uma pessoa com a consciência de classe e a defender as ideias das correntes políticas de esquerda, que lutam pela classe trabalhadora, e não as ideias de direita, que defendem os ideais dos donos do poder, da casa-grande, dos bilionários, latifundiários, coronéis, banqueiros, rentistas e grandes capitalistas. 

Ao olhar para trás em minha vida e no meio ambiente onde nasci, cresci e vivi por quase três décadas de minha vida, fica claro como a água limpa que eu só fui salvo de ser um pobre ou remediado de direita, conservador ou reacionário, ou então um "liberal" - um conceito aperfeiçoado pelos donos do capital para manipular gente pobre e gente estúpida* ao serem facilmente convencidas que poderiam virar um grande capitalista e dono das riquezas produzidas pela classe trabalhadora explorada, enfim, fui salvo pela convivência com o movimento sindical.

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*Post Scriptum - Estupidez é diferente de ignorância, de não saber. Pessoas com grande acúmulo de conhecimento em uma ou diversas áreas podem ser estúpidas ou praticar ações estupidas. Qualquer um de nós pode agir com estupidez. Exemplo: tirar self em precipícios e locais com risco de queda e morte é uma ação estúpida!

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Aliás, essa "classe média" que se acha rica só vai ver a merda que é nos momentos de crises do capitalismo, esses idiotas que acham que estão do lado de lá da classe, a dos capitalistas, são expurgados da festa dos salões de dinheiro e ficam na miséria como a maioria, os 99%. Mesmo assim, tem ideologia da casa-grande pra dizer que a culpa da miséria dos ex-remediados é deles mesmos.

Por um misto de sorte e efeito da ação humana me sindicalizei, me interessei por política e não fui convencido pelos donos do poder que eu seria um "vencedor" na vida por mérito próprio, um humano de origem humilde que ascendeu na vida por efeito da meritocracia. Meritocracia o caralho! Desde muito cedo, provavelmente a cor da minha pele foi me favorecendo mesmo nos subempregos que tive a partir dos onze ou doze anos de idade. O ambiente continental onde nasci tem um vício de origem, uma cultura de opressão de cinco séculos, um racismo estrutural e a gente desse continente é moldada a achar toda barbaridade como algo normal, natural, coisa da natureza.

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Neste momento em que escrevo, as notícias normalizadas da imprensa capitalista, dos donos brancos do poder, registram a morte do senhor Genivaldo de Jesus Santos, um homem negro de 38 anos com algum grau de deficiência, no dia de ontem. Ele foi abordado pela Polícia Rodoviária Federal de Sergipe, e mesmo estando sob os olhares das pessoas ao redor, foi assassinado numa "câmara de gás" improvisada dentro do camburão. A cena é chocante, só quem já foi vítima do gás de pimenta desses capitães do mato da casa-grande sabe o quanto é forte aquilo... as notícias normalizadas dão informes também da enésima chacina em comunidades do Rio de Janeiro, mais de 25 humanos pretos ou pardos mortos. E antes temos o humano congolês Moïse Kabagambe, espancado até a morte em público nos calçadões do Rio...

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Comecei este texto de memórias com a intenção de falar um pouco da compreensão que tenho hoje do efeito em minha vida de ter tido contato com o pessoal do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região.

Ao imaginar minhas primeiras discussões no dia a dia com o pessoal do sindicato, não é difícil concluir que minhas ideias eram as ideias do meio ao qual eu pertencia, meio influenciado pela ideologia das classes dominantes e seus ideólogos, os meios midiáticos da época e os grupos escolarizados que executam funções a soldo e manipuladoras, muitas vezes, em favor das elites e donos do capital. Depois que me politizei na convivência organizada do mundo do trabalho foi que me dei conta de como funciona a vida de nós todos, que vendemos nossa força de trabalho para sobreviver no capitalismo. 

As notícias diárias cada dia piores têm feito com que pessoas como eu percam o ânimo até para escrever ou falar ou gritar contra as injustiças e o estado de barbárie em que nos encontramos após o golpe de 2016, sim, escrevemos milhares de vezes que o golpe contra a democracia brasileira daria neste estado de barbárie no qual estamos.

Eu iria discorrer um pouco sobre o que o marxismo nos ensinou, a questão do materialismo histórico. Eu falava sobre isso com meu sobrinho naquele dia. As ideias vêm da vida material concreta e não o contrário. Não adianta ficarmos indignados perguntando por que as pessoas não se revoltam e reagem a tudo isso que estamos vendo diariamente. Porque existe um sistema que faz com que as pessoas não tenham sequer a consciência do que está acontecendo. É preciso uma organização e uma politização das pessoas do mundo do trabalho para que elas possam enfrentar os capitalistas e suas ideologias dominantes.

Eu não sou como meus familiares, eu tenho ideias diferentes das ideias deles porque no meu caminho do viver se deu a experiência de contatar e conviver com movimentos organizados que lutam contra esse estado bárbaro das coisas neste continente colonizado e escravocrata. Um continente com um histórico de capitalismo mais torto que o capitalismo das matrizes europeias - um lugar com "As ideias fora do lugar", como ensina Roberto Schwarz.

Não estou afirmando que a única forma de se politizar e se conscientizar é através de um caminho semelhante ao meu, o contato com um sindicato combativo que me deu a oportunidade de conhecer o outro lado da história. Estou afirmando que assim se deu na minha vida. A educação é outra fonte de libertação e conscientização. O envolvimento com movimentos que atuam em favor do socialismo, da solidariedade de classe, da igualdade e tolerância às diversidades, a participação em associativismos e cooperativismos também são oportunidades de formação política e ideológica.

Enfim, estou mal como muita gente está ao ver o tempo todo as barbaridades cometidas nesta terra na qual nascemos, crescemos e vivemos. Esse ódio, essa necropolítica não é natural, é coisa de segmentos humanos. Não podemos e não devemos pactuar com essa maldade toda. Temos que lutar contra esse bolsonarismo, essas práticas nazifascistas que tomaram conta de nosso dia a dia. 

O amor, a amizade, a tolerância, a solidariedade, a alegria e a cooperação são sentimentos e ações muito melhores do que isso que estamos vivendo no Brasil. Neste momento e nestas condições, apoiar a frente ampla liderada por Lula é uma das alternativas para interromper a barbárie (eu diria a única alternativa por processos políticos e sem guerra, em contexto de "paz"). Organizar comitês locais em todo o país e fortalecer a educação e a politização das pessoas é mais uma forma de nos organizarmos contra a barbárie. E a tolerância ao diferente de nós é mais uma forma de tentar lidar com esse ódio e violência estimulados pelo nazifascismo bolsonarista.

E os sindicatos têm um papel fundamental nessa luta. Por isso o golpe fez de tudo para enfraquecer e exterminar os sindicatos da vida da classe trabalhadora.

Tinha muito mais coisas na memória sobre esse tema, mas estou triste demais para seguir escrevendo neste momento. Estou triste, mas não desisto do viver e nem de fazer algo para mudar essa realidade.

Desejo unidade e tolerância ao menos por parte das lideranças de nosso lado da classe, a classe trabalhadora.

William


Post Scriptum (20/12/23): ao revisar este texto por ocasião da edição em livro dessas memórias, senti a necessidade de explicar algumas palavras duras proferidas por mim à época. A questão de nominar pessoas como estúpidas é uma delas. Qualquer pessoa pode cometer estupidez, e entendo que apoiar o genocida e suspeito de corrupção que esteve no poder após o golpe contra a nossa democracia em 2016 e eleições fraudadas em 2018 retirando do processo quem venceria - Lula -, e apoiar o que Bolsonaro fez durante sua gestão e o que ainda defende é uma ação estúpida, uma estupidez que ainda encontra milhões de pessoas capturadas pelas ideias e ideais nazifascistas dos bolsonaristas... entendo que se o apoio às ideias e práticas bolsonaristas não é por estupidez, então é algo pior, é por falta de caráter, o que seria mais grave ainda. Enfim, percebem como é difícil amenizar a questão?


Post Scriptum II: o texto anterior dessas memórias pode ser lido clicando aqui. Para ler o texto seguinte, é só clicar aqui.



16.1.22

Memórias (XV)



Estudando para ampliar a possibilidade de compreender e alterar o mundo 

"A principal tarefa do historiador não é julgar, mas compreender, mesmo o que temos mais dificuldade para compreender." (HOBSBAWM, 2006, p. 15)


Cada vez que paro para pensar na influência que teve em minha vida o Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região tenho claro que a influência foi decisiva naquilo que sou hoje, um homem com consciência política, uma pessoa com posição política definida, uma pessoa de esquerda, que pensa um mundo socialista ou comunista, um mundo que tenha superado o capitalismo.

A primeira etapa de formação política formal em minha vida foi durante o período no qual fui bancário do Unibanco e depois do Banco do Brasil, associado ao Sindicato e em contato com os dirigentes e funcionários políticos da entidade. Mesmo que de forma esporádica, pude vivenciar os momentos de organização de base e lutas coletivas por direitos sociais, políticos e até civis. Ao ser estimulado a contribuir na organização das lutas, pude me politizar bem mais que antes, quando lutava de forma pessoal contra as injustiças diárias em nossa sociedade. 

Vale registrar que sempre fui um bom sindicalizador do Sindicato como bancário de base, cheguei até a ganhar prêmios em campanhas de sindicalização.

A segunda etapa de formação política formal em minha vida foi quando fui convidado a integrar uma chapa que disputaria e venceria a eleição do Sindicato em 2002. Eu já era bancário desde 1988 e depois fui entender que no BB fazia o papel de delegado sindical há muitos anos, durante os governos tucanos, de péssima memória para nós pelo que sofríamos diariamente nos locais de trabalho. Até dezenas de suicídios vivenciamos durante os anos entre 1995 e 1999. Os tucanos eliminaram 50 mil postos de trabalho.

Ao assumir o papel político de dirigente sindical de um dos maiores sindicatos da América Latina, eu me transformei radicalmente após o dia 5 de agosto de 2002, meu primeiro dia de liberado das funções diárias na bateria de caixas da agência Vila Iara, em Osasco, para passar a atuar exclusivamente na representação de meus colegas bancários. De cara me tornei uma pessoa mais responsável, passei a pensar melhor antes de falar ou fazer qualquer coisa porque a partir daquele momento eu não era só um cidadão brasileiro bancário, eu era um representante de meus pares, meus colegas de trabalho e categoria. 

Os anos como dirigente sindical foram de muita aprendizagem para mim, aprendizagem de todas as formas possíveis. O movimento de lutas dos trabalhadores é uma universidade com um leque de conhecimentos muito maior que o leque de disciplinas e referências que temos acesso em cursos universitários. Muito maior! Como estive em 3 cursos de graduação posso afirmar a vocês com conhecimento prático sobre a questão. Compartilho da opinião de intelectuais que criticam o excesso de especialização e fragmentação do conhecimento humano que virou a regra nas últimas décadas. As pessoas são especialistas em algo e absolutamente ignorantes em tudo.

Como dirigente sindical e representante da classe trabalhadora tive por dezesseis anos uma agenda de vida completamente voltada para as causas que abraçava e defendia. Uma vida assim tem seus ônus e seus bônus. Posso resumir os 16 anos afirmando que valeu a pena o período que dediquei de minha vida ao movimento sindical e à organização da categoria bancária, da classe trabalhadora e dos direitos sociais, políticos e civis do povo brasileiro. 

Como disse no primeiro parágrafo, atribuo influência decisiva ao homem que me tornei após os 20 anos de idade ao meu contato e convívio com o sindicato da categoria profissional na qual passei boa parte de minha vida. Sou grato à existência das organizações sindicais e associativas da classe trabalhadora. Sem a união, a unidade e a solidariedade de classe nós não somos nada. Nada! Não há "meritocracia" que dê conta de nos salvaguardar dos efeitos do capitalismo. 

Além de grato, me esforço para ser associado e contribuir para a manutenção das entidades de classe relacionadas com a comunidade profissional na qual passei a minha vida laboral e de cidadão brasileiro. Juro que é difícil, mas ainda hoje sou associado a diversas entidades associativas e representativas dos bancários e da comunidade BB.

Fico por aqui no primeiro texto de memórias do ano de 2022, 15º texto desta série. Sigo estudando muito, como disse no título desta postagem. Se não tivesse estudado ao longo dos 16 anos de mandatos o movimento sindical, suas correntes políticas, a história das lutas de classe e das organizações do movimento, eu teria muito mais dificuldades para compreender por que algumas coisas acontecem em nossos sindicatos e na organização do movimento sindical. 

Estudando e refletindo compreendo um pouco melhor o fato de não ter sido incluído nos debates sobre Previ e Cassi em meu sindicato de base em dezembro passado. Como diz Hobsbawm, a questão principal não é julgar, é compreender, mesmo quando temos dificuldades para compreender as atitudes e ações tomadas por pessoas e instituições de nossa vida social.

Tenho ouvido alguns intelectuais que estão me fazendo pensar e refletir sobre minha vida no movimento sindical e sobre o nosso país: Mauro Iasi, Sabrina Fernandes, José Paulo Netto, Miguel Nicolelis são alguns dos intelectuais que têm me ajudado a entender o mundo. E sigo com a literatura, lógico, porque um ser humano sem leitura de cultura é um ser humano com menos ferramentas para o viver.

William


Para ler o texto anterior, Memórias (XIV), clique aqui.

E aqui para ler o texto seguinte, o Memórias (XVI).


Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos - O breve século XX 1914-1991. São Paulo. Companhia das Letras, 1995. 2ª edição, 33ª reimpressão, 2006.


6.11.21

Memórias (I)


Com Daniel Reis e Rosane Bertotti, da CUT nacional.

Memórias das lutas dos bancários em 2006

Criei este blog no dia 5/10/2006. Na época, eu era dirigente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região e da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro, a Contraf-CUT.

Dia 5 de outubro de 2006 foi também o 1º dia da greve nacional dos bancários, greve aprovada pela categoria em assembleias país afora após diversas rodadas de negociação com os banqueiros e governo federal não lograrem êxito em obter uma proposta digna de apreciação pelos bancários em assembleias.

A postagem no blog traz informações sobre a boa adesão da categoria à greve. Ler a postagem aqui.

(Na atualidade: nov/2021) Mauro Iasi, no canal Café Bolchevique da TV Boitempo, nos fala sobre temporalidade, separando a temporalidade do indivíduo da temporalidade de classe. 

Em linhas gerais, e resumindo a ideia com minhas palavras, sofremos uma certa ansiedade e angústia ao vislumbrarmos que não veremos no tempo de nossa vida as mudanças e os resultados de nossas lutas coletivas (pensando os nossos objetivos históricos, uma sociedade socialista ou cooperativa e solidária). É verdade. Por isso precisamos ter algum tipo de pertencimento às lutas coletivas, para sabermos que pertencemos a algum lugar histórico.

Ao ver os registros que fiz por mais de uma década de nossas lutas de classe, vejo que fiz parte de uma luta coletiva, de um processo histórico e que não terminou quando eu deixei de fazer parte dele como dirigente sindical. Eu fui um tijolinho nesta construção coletiva. Isso é importante tanto para mim quanto para o processo em si. Há um sentimento de pertencimento nessa relação minha e do movimento de lutas da classe trabalhadora.

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Outra postagem do mês de outubro de 2006, traz registros a respeito das eleições no Brasil e tributação, é uma postagem que ainda hoje aponta as questões centrais da péssima carga tributária brasileira. A maior parte da arrecadação tributária do país se dá com impostos indiretos, sobrecarregando o povo, o setor produtivo e o consumo, ao invés de taxar os bens, patrimônio e renda da burguesia, a classe abastada. Antigo o problema, viu! Ler aqui. 

A matéria traz ainda o resultado da campanha nacional dos bancários em 2006 após o encerramento da greve daquele ano. Os bancários tiveram reajuste de 3,5% (aumento real de 0,63%).

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A postagem do dia 26/10/06 fala sobre as eleições gerais, eu me manifesto e explico por que voto em Lula. Ler aqui.

É assinado o Acordo Coletivo de Trabalho do BB e Contraf-CUT. Tivemos mais um ano de avanços nos direitos da categoria e classe trabalhadora brasileira sob o governo do Partido dos Trabalhadores.

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As outras duas postagens do mês de outubro de 2006 trazem o resultado da eleição presidencial, Lula é reeleito (ler aqui), e vemos a minha agenda sindical, eu tinha uma agenda intensa tanto como dirigente do sindicato, quanto como secretário de imprensa da confederação. Ler aqui.

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Boas lembranças! Somos seres coletivos e vivemos inseridos em processos históricos. É bom termos consciência disso para lidarmos com as angústias da temporalidade individual, com a noção clara de nossa finitude. Nossa missão enquanto seres humanos é livrar o mundo do modo de produção e exploração capitalista e a criação de um mundo melhor para todas as pessoas e para as demais espécies viventes no planeta.

William


Clique aqui para ler o texto de Memórias (II).


25.8.21

Quais são os objetivos, as estratégias e as táticas?



Artigo de contribuição aos debates* 


O QUE VOCÊ VAI FAZER HOJE?

Quais são os objetivos, as estratégias e as táticas?

1. Pergunto aos leitores e leitoras: vocês têm respostas para essas perguntas? Aí vocês me perguntam: - mas quais são os objetivos, as estratégias e as táticas em relação a que, a quem? 

2. Perfeito! Essas questões poderiam e deveriam ser o nosso Norte em relação a quase tudo em nossas existências privadas, pessoais, coletivas, como grupos políticos, como empresas capitalistas, como organizações humanas etc.

3. E junto a essas perguntas viriam outras que fazem parte dos planejamentos estratégicos para definir como alcançar objetivos de forma racional e engajada e com espaços para flexibilizações e correções durante a caminhada.

4. Dentro de um planejamento estratégico são definidos prazos de execução, pontos fortes e pontos fracos do grupo, da instituição ou da pessoa, quais ferramentas e com que material humano se conta, o papel que cada pessoa vai desempenhar e mais questões que possam ser necessárias.

5. Amig@s, é difícil chegar a algum lugar se não sabemos sequer para onde queremos ir. Lembram da Alice falando com o coelho no País das Maravilhas?

6. Durante 16 anos fui dirigente sindical, fui representante da classe trabalhadora, fui sindicalista, fui político, fui liderança sindical, fui militante... A forma de se apresentar pode ser também uma estratégia diante de um cenário ou de um contexto específico. Entendem o que quero dizer?

7. Quais são os objetivos da esquerda? Dos trabalhadores brasileiros? Dos bancários? Da central sindical ou confederação? Da federação ou associação? Do sindicato "a" ou "b"? Da diretoria do sindicato? Do coletivo de determinado banco dentro do sindicato de bancários? Do dirigente com mandato naquele sindicato? Do cidadão que é dirigente?

8. No mundo da luta de classes, das disputas ideológicas, da sobrevivência na sociedade humana, pessoas ou grupos organizados e com objetivos, estratégias e táticas para se alcançar os objetivos têm mais chances de alcançar sucesso do que pessoas e grupos que só vão vivendo de acordo com os acasos ou objetivos surgidos a cada amanhecer.

9. Eu percebi a importância dessas perguntas acima muito mais claramente quando me tornei sindicalista ao ser eleito para um mandato no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região em 2002, aos 33 anos de idade. Eu já tinha experiência de vida como se vê pela idade e já tinha experiência de trabalho bancário porque havia trabalhado 2 anos no Unibanco e já estava há quase 10 anos no Banco do Brasil. (a palavra "sindicalista" é trabalhada de forma pejorativa e negativa pela imprensa do capital. Conforme o contexto, mais conservador ou não, eu me apresentava como "dirigente sindical" ou "representante dos trabalhadores"; avaliava na hora)

10. Tudo muda o tempo todo, o mundo muda diariamente porque a todo instante os seres humanos estão criando e desenvolvendo novas tecnologias ou porque eventos naturais alteram o mundo material. Mudança é uma constante universal. Mudança é uma das poucas certezas que temos quando se fala do universo e das formas de vida. O mundo do trabalho muda o tempo todo. O pior é que a tendência é sempre piorar para a imensa maioria que vive de vender sua força de trabalho, principalmente no modo de produção capitalista.

11. No entanto, sou da opinião que por mais que as coisas mudem o tempo todo, algumas experiências humanas continuam nos dando suporte para enfrentar as mudanças que ocorrem tanto por causas naturais como por interferência humana. E os planejamentos estratégicos feitos com a participação de todas as pessoas envolvidas em algum momento da definição dos objetivos, das estratégias e táticas a balizarem uma organização qualquer podem ser a diferença entre vencer ou perder, alcançar objetivos ou não alcançar nada e ainda ver tudo ser perdido.

12. Se voltarmos ao que já escrevi acima, no item 7, posso afirmar que aquelas perguntas balizaram meus 16 anos de mandatos eletivos de trabalhadores. Após ser eleito dirigente, tive que refletir e mudar comportamentos pessoais que achava inadequados. Tive que estudar muito para saber quais eram os princípios da esquerda. Estudar as concepções e práticas sindicais da CUT, conhecer a história do movimento ao qual eu agora representava formalmente.

13. E mais. Entendi que havia técnica na organização sindical na qual eu me tornava dirigente. Meus companheiros e companheiras de coletivo de banco contribuíram para que soubesse quais eram nossos objetivos, nossas estratégias e táticas e aonde queríamos chegar em determinados momentos. Com a participação de todos, nós definíamos o papel de cada um naquela organização. Havia cobrança e havia solidariedade nas dificuldades enfrentadas por cada dirigente. Conforme o fórum que frequentava, novos conhecimentos, novos objetivos coletivos, novos pertencimentos de classe.

14. Um planejamento estratégico que ajudamos a construir nos permite sentir pertencimento a alguma coisa, e ao olhar para trás é muito claro isso para mim. Durante os 16 anos de mandatos, de militância em organizações da classe trabalhadora, eu acordava todos os dias sabendo o que iria fazer, noções do que estava acontecendo, o que precisava estudar, as pessoas que deveria contatar etc. Eu pertencia a alguma coisa, eu tinha um Norte. Mas quando titubeava, quando estava perdido nas discussões internas, os mais experientes diziam: - vá para a base conversar com os trabalhadores, você vai voltar sabendo o que está fazendo aqui no movimento.

15. Amig@s, foi assim quando fui dirigente que organizava os bancários de todos os bancos na regional Osasco com um roteiro de agências; foi assim quando organizava os bancários do Banco do Brasil em duas regionais do Sindicato - Osasco e Oeste; foi assim quando fui responsável por complexos como o BB da São João. E foi assim em todas as tarefas que desempenhei, fossem elas na Executiva do Sindicato, na Contraf-CUT como secretário de imprensa depois de formação, como coordenador das negociações do BB e foi assim no mandato na diretoria de saúde da Cassi.

16. Os planejamentos estratégicos que participei e ajudei a construir com minhas opiniões ao longo de 16 anos foram a base de meu acordar todas as manhãs para sair para nossas lutas de classes, para alcançar nossos objetivos. Quantos dias eu estive mal, sem forças para levantar-me? Muitos! Mas saber o que eu deveria fazer, que aquilo só dependia de mim, me fez ter energia e gana mesmo dormindo pouco como, por exemplo, por 4 anos na Cassi (tínhamos planejamento estratégico do mandato!), me fez estudar, ir aonde fosse necessário, me fez ser flexível nas táticas, mas nunca nos princípios e objetivos. Me fez humilde, me fez forte. Nunca me esqueci quem representava, de que lado estava nas discussões com a patronal.

17. É isso! Me parece que os desafios e as tormentas foram tantos após o golpe de Estado contra nós que temos muitas frentes de batalha ao mesmo tempo com os ataques a todos os nossos direitos e talvez por isso, até hoje, não tenhamos conseguido organizar nossos planejamentos estratégicos partidários, sindicais, coletivos e até pessoais para nos nortear diariamente e para avaliarmos a cada tempo se avançamos ou se temos que readequar aquilo que não avançamos na luta para retomar nosso país, nossos direitos e nossas vidas da classe trabalhadora. Tod@s estão trabalhando muito! Acredito que é possível derrotarmos essa extrema direita, essa minoria violenta e antidemocrática que ascendeu ao poder após o golpe de 2016 contra o Brasil e o povo brasileiro.

18. E aí, você tem claro quais são as suas tarefas nesse dia de hoje? Quais os objetivos imediatos, de médio e longo prazo nas frentes nas quais você está participando? Qual o objetivo neste semestre de 2021? E para 2022? E até 2025? Há um grupo organizado contigo perseguindo esses objetivos hoje, vocês se reúnem, prestam contas, aferem avanços e avaliam o que deve ser melhorado e corrigido? Sabemos que mesmo durante a pandemia já é possível nos reunirmos pelos aplicativos como fazíamos as reuniões de trabalho presenciais.

19. Nossos inimigos e nossos adversários estão mais organizados hoje do que antes, do que já vi nesses meus 52 anos de vida. Temos que construir planejamentos estratégicos que nos unifiquem, com estratégias e táticas que deem Norte e pertencimento a cada pessoa que se disponha a nos ajudar a mudar essa desgraça toda que destrói nossas vidas e nossos mundos.

Abraços e boas lutas a todas e todos. Desejo que cada militante de nosso movimento de esquerda alcance seus objetivos pessoais e coletivos.

William Mendes

Ex-dirigente sindical bancário e ex-diretor eleito da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil

* publicado originalmente no site Agora é para todos


11.2.21

Defender o BB: organização de base é fundamental



Opinião

"Organizei uma série de reuniões entre líderes do CNA e dos CIAS, tanto banidos como ainda não banidos, para discutir os parâmetros do plano. Trabalhei nele por vários meses e criei um sistema que era amplo o suficiente para adaptar-se às condições locais e ao mesmo tempo não restringisse a iniciativa individual, mas detalhado o suficiente para facilitar a ordem. A menor unidade era a célula, que em assentamentos urbanos consistia em cerca de dez casas em uma rua. Um administrador de célula seria responsável por cada uma dessas unidades. Se uma rua contivesse mais de dez casas, um administrador de rua se encarregaria dela, e os administradores de células se reportariam a ele..." (MANDELA, Longa caminhada até a liberdade, 3ª edição, 2012, p. 179)


O momento descrito acima é do início da década de 1950 na África do Sul. Nelson Mandela e os demais líderes do Congresso Nacional Africano (CNA) suspeitam que o regime de minoria branca vai colocar o CNA na clandestinidade. Para se antecipar a isso, Mandela planeja uma forma de Organização de Base para que o movimento de resistência e defesa dos direitos dos negros não perca a capacidade de luta. A história da luta dos sul-africanos negros contra o apartheid é linda e uma referência para nós da classe trabalhadora oprimida no mundo organizado atualmente através do modo de produção e exploração capitalista.

Eu entrei no Banco do Brasil em setembro de 1992, após quase um ano como estagiário do banco e após passar duas vezes no concurso público para escriturário do maior banco público do país (em 1991 o concurso foi cancelado por fraude e os aprovados tiveram que passar de novo).

Já no final de 1993 eu havia feito o curso de caixa executivo e iniciava o atendimento aos clientes na bateria de caixa da agência Rua Clélia, na região da Lapa, em São Paulo. Foi uma oportunidade ímpar porque a fila para ir para a função de caixa era demorada, em geral se esperava muitos anos pela promoção. Como os colegas veteranos estavam negociando suas férias de fim de ano com a gerência, eu me coloquei à disposição para trabalhar no caixa nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro. Valeu a pena o esforço, pois virei caixa do Banco do Brasil com praticamente um ano de banco. 

Atuei no atendimento aos clientes do BB como caixa por praticamente uma década, até o dia 5 de agosto de 2002, dia que fui liberado do local de trabalho, a agência Vila Iara, em Osasco, para cumprir o mandato de diretor eleito do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região. Tanto durante a década no atendimento aos clientes e nas lutas ao lado dos colegas do caixa, quanto no período em que fui dirigente, sempre lutei pela valorização dos caixas executivos do BB e tenho muitas histórias para contar. Durante toda a minha vida de militância sindical, sempre tive um carinho enorme e muita consideração pelos colegas que atuam na linha de frente no atendimento aos clientes, seja atuando nos caixas, nas mesas de atendimento e pelas formas telefônicas e virtuais. 

O regime neofascista que assumiu o poder após o golpe de Estado de 2016 está atuando com rapidez para enfraquecer e privatizar as empresas públicas brasileiras. O Banco do Brasil é um dos alvos do desmonte. Uma reestruturação em andamento vai fechar agências e unidades, reduzir postos de trabalho e piorar o atendimento ao povo brasileiro (5533 colegas vão sair) e reduz salários e direitos de todo mundo. É O CAOS! O governo vai reduzir salários e oportunidades, e uma das sacanagens é acabar com a efetivação da comissão de caixa executivo. Só a luta com participação dos trabalhadores, movimento de dentro para fora, pode criar dificuldades a essa destruição de nosso banco público e da vida das pessoas.

Por que citei aquela passagem da luta dos negros sul-africanos contra o apartheid e por direitos plenos em seu próprio país? Porque a organização de base, ou Organização por Local de Trabalho (OLT) foi uma das primeiras coisas que aprendi como trabalhador da categoria bancária, uma categoria com forte organização sindical. O mundo pode ter mudado, a tecnologia e as novas formas de trabalho podem ter mudado, quase tudo pode ter mudado, mas a exploração do trabalhador não mudou porque continuamos caminhando para a destruição do mundo e da vida das pessoas pelo modo de produção capitalista.

O ano é 2021. O governo é um regime lesa-pátria, composto pelo pior tipo de gente da face da terra, e o momento é de ataques e destruição do patrimônio público e dos direitos sociais da classe trabalhadora. E a única forma de enfrentar os ataques e resistir é através de organização de base. Se posso sugerir alguma coisa para os colegas do Banco do Brasil e as entidades sindicais é que reorganizem o trabalho de base. Me parece que as pessoas colocam dificuldades em tudo e as desculpas são as mais diferentes, todas elas têm suas razões. Mas isso não impede que os trabalhadores organizem a base de luta contra todo o desmonte que está acontecendo no Banco do Brasil e demais empresas públicas.

Se uma base sindical tem 100 unidades do banco e 1200 trabalhadores e o sindicato local tem 25 diretores e mais alguns funcionários é só sentar e definir a organização de base como o Mandela explica acima. Não importa se o contato é presencial ou virtual, se estamos ou não em pandemia, se o ataque aos trabalhadores segue implacável. Uma pessoa pode ser a responsável por organizar uma pequena rede de contatos com 10 pessoas e 10 unidades. Pode conhecer essas pessoas, pode levar informações e trazer informações relevantes para a organização de luta e defesa do banco, do emprego, da vida e dos direitos das pessoas. 

É possível organizar a base, fizemos isso a vida toda. Quando eu era responsável por algumas dezenas de locais de trabalho no sindicato, eu tinha um contato por local, conhecia o nome das pessoas, tinha alguma forma de contato de emergência etc. Até em mandato nacional, na Cassi, fiz trabalho de base e contribuí para fortalecer redes de lutas e defesa da Cassi. Amig@s, afirmo que ainda é possível organizar as bases de trabalhadores.

Eu poderia ficar horas escrevendo sobre isso, mas não é o caso. Sei que os sindicatos e os trabalhadores estão na luta da maneira que o momento de pandemia e crise permitem. Como farão plenárias nas bases sindicais hoje, quinta-feira 11, deixo a sugestão de pensarem formas de organização por células locais. Isso é mais antigo que andar para a frente, como dizem por aí, mas é necessário definir essa questão de organização em redes e fazer.

Organização de Base! Solidariedade de classe. Cooperativismo. Associativismo. Socialismo.

É o que acredito, realmente!

William


16.12.13

Michelle Bachelet é eleita presidenta do Chile com 63% dos votos


Michelle Bachelet é reeleita. Imagem: Creative Commons.

A socialista Michelle Bachelet foi eleita presidenta do Chile no domingo (15). Ela obteve 63% dos votos no segundo turno, derrotando a adversária Evelyn Matthei, que representa a aliança de centro-direita. Matthei, que foi candidata do atual governo, teve 38% dos votos.

Com a vitória, Bachelet é a primeira mulher eleita e reeleita para a Presidência do Chile. Ela governou o país de 2006 a 2010, deixando o lugar para o atual presidente, Sebastián Piñera. Pela legislação chilena, os presidentes não têm direito a dois mandatos consecutivos.

Piñera telefonou a Bachelet para dizer que vai cooperar com ela durante os últimos três meses de seu mandato. Bachelet assume em março e o maior desafio será fazer as reformas que prometeu - entre elas, a da Constituição, herdada da ditadura militar.

Apesar de ter conseguido maioria no Congresso, ela não tem votos suficientes para fazer todas as mudanças que quer e terá que negociar com a oposição. A atual Constituição (que só pode ser alterada com o apoio de dois terços dos legisladores) limita a atuação dos políticos e a ingerência do Estado na economia, que foi privatizada durante o regime militar de Augusto Pinochet.

Bachelet quer fazer uma reforma tributária para aumentar os impostos às empresas e aos mais ricos, obtendo assim recursos para financiar as reformas sociais, entre elas a do sistema educacional. Estudantes do ensino médio e das universidades paralisaram o Chile com protestos em 2011 e 2012, exigindo educação gratuita e de qualidade para todos. As manifestações foram apoiadas por oito de cada dez chilenos.

No Chile, as universidades são todas pagas (inclusive as públicas) e quem não tem dinheiro para financiar os estudos pode pedir empréstimo, mas termina a carreira endividado. Existem escolas de ensino médio gratuitas, mas são de má qualidade porque o governo prefere subsidiar instituições privadas, para que possam cobrar mensalidades baratas e oferecer uma educação de alto nível à população de baixa renda. Os donos dos colégios nem sempre usam o dinheiro do Estado para esse fim.

Nas eleições legislativas, que coincidiram com o primeiro turno em novembro passado, Bachelet conquistou o apoio de 20 dos 38 senadores e de 57 dos 120 deputados federais. Com isso, ela pode aprovar a reforma tributária. Mas para fazer a reforma da educação, precisa de quatro sétimos dos votos (52) do Congresso (22 senadores e 69 deputados federais).

Fonte: Agência Brasil


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Post Scriptum (24/6/18):

Ao rever postagens no Facebook (em 16 de dezembro de 2013), vi que compartilhei as dores e sofrimentos a respeito da morte prematura de pessoas com uma dirigente sindical dos Estados Unidos, Anne, que conheci quando estive lá por duas vezes, contribuindo para a organização dos trabalhadores americanos.

Ela tem um blog onde escreve de vez em quando suas reflexões.

Escrevi a ela na ocasião em que perdeu amigos em acidente automobilístico: "I'm sorry for such a tragedy, my friend.

This weekend really was not good for me too. My wife and I lost a young friend, the daughter of the owner of the school where my wife works. My wife was the first teacher of the little girl and taught her the first letters.

The girl was 24 and could not stand dealing with the illness of depression, one of the greatest evils of contemporary society.

Life is full of surprises, good and bad. We have to keep fighting for a better world.

In solidarity,

William Mendes (Contraf-CUT)"


e ela respondeu:

"Hi William - Thanks so much for your post. So much tragedy and heartache, but yet in the midst of it we find the courage to fight on for a better world. I could not have said it better than you did. I'm sorry for your loss as well and thankful to count you as a brother in a global struggle. In Solidarity,"

1.5.13

1º de Maio - Dia do Trabalhador (artigo: Expedito Solaney)


1º de Maio é dia de luta: greves, mortes, suor e sangue para conquistar redução da jornada de 14 para 8 horas diárias

Escrito por: Expedito Solaney, secretário de Políticas Sociais da CUT

30/04/2013

A data foi estabelecida há 124 anos pela Segunda Internacional Socialista, em congresso realizado em Paris e que reuniu os principais partidos socialistas e sindicatos de toda Europa e do mundo. Ao escolher o dia 1º de Maio como Dia do Trabalhador e da Trabalhadora os participantes prestaram homenagem aos operários dos Estados Unidos que três anos antes, organizaram uma grande jornada de luta por melhores condições de vida e de trabalho. Foram mais de 1,5 mil greves em todo país. As greves de 1886 tinham como centro da pauta a redução da jornada de 14 para 8 horas diárias. Depois de dois dias de manifestações seis operários foram mortos. Com a continuidade da greve, a repressão aumentou e dezenas de trabalhadores foram mortos, milhares presos e sindicatos incendiados. Essa jornada de lutas resultou além das dezenas de trabalhadores mortos, em oito dirigentes sindicais condenados, cinco deles à forca, dois a prisão perpétua e um a 15 anos de prisão.

A homenagem feita pela Segunda Internacional Socialista a estes trabalhadores, foi a convocação da classe trabalhadora do mundo para uma greve geral no 1º de maio em 1890, o que se tornou uma tradição no movimento operário internacional de luta desde então. Os significados e as grandes manifestações a cada ano conferiram grandes avanços para a classe trabalhadora do mundo e o estabelecimento no calendário cristão como feriado mundial.

Hoje os trabalhadores e as trabalhadoras pelo mundo continuam relembrando e celebrando esta data com muitas manifestações e greves. Com o agravamento da crise capitalista iniciada em 2008, principalmente na Europa, sem dúvidas o 1º de Maio de 2013 vai ter muita luta no velho continente. As grandes manifestações da primeira quinzena de abril na Espanha já são um indício de que as greves e as mobilizações deste ano serão fortes.

Com boa parcela da juventude desempregada, redução do valor das aposentadorias e de salários e das conquistas sociais e o estado de bem-estar social cada vez encolhendo mais, a classe trabalhadora e seus filhos no velho continente se vê pagando por uma crise sem precedentes e que ela não causou. Com sua tradição de luta, apoios da CSI e centrais sindicais combativas pelo mundo o 1º de Maio europeu de 2013, definitivamente, não será mais um!

No Brasil como na América Latina é verdade que a crise chegou e tem se comportado com menor intensidade que nos EUA e na Europa. Os nossos velhos problemas de concentração de renda, desigualdades sociais, miséria e fome continuam. Aqui ainda reina um capitalismo selvagem que usa trabalho escravo e o trabalho infantil e que somente agora as trabalhadoras domésticas estão prestes à equiparação de direitos aos demais trabalhadores.

A massa de trabalhadores e trabalhadoras no Brasil tem uma jornada extenuante de trabalho, chegando a 15 horas diárias em algumas capitais, somando tempo de deslocamento de casa para o trabalho. Além das condições precárias, vide número de acidentes, terceirização, ainda convivemos com o fantasma da demissão sem justa causa, o assédio moral e sexual.

Por isto tudo que o 1º de Maio é dia de luta e celebrações, não de mega show e sorteio de dezenas de carros pagos com o dinheiro do patrão. Isto é coisa de pelego! Isto é enganar e esconder a história da classe trabalhadora! Só é possível reduzir jornada e garantir o fim do fator previdenciário se tiver manifestações, lutas e greves!

Temos também aqui no Brasil nesse 1º de Maio de 2013 motivos de sobra para lutar, fazer manifestações e greves. A presidente Dilma Rousseff até agora não deu nenhuma satisfação a respeito da pauta entregue pela CUT e demais centrais sindicais na grande marcha ocorrida, em Brasília, dia 6 de março. A pauta é perfeitamente possível de ser atendida mas, ou a classe trabalhadora vai a luta para pressionar o governo Dilma, os governos estaduais e os patrões para atender os 11 itens reivindicados ou, não tem concessão, bondade ou atendimento para os trabalhadores.

A história nos mostra que sem sangue, suor e lágrimas não tem conquistas, não tem vitórias para os trabalhadores!

É uma pauta boa para o país com a valorização do trabalho e do trabalhador: redução da jornada para 40 horas semanais sem redução de salário, fim do fator previdenciário, reforma agrária, igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, valorização dos aposentados, aplicação de 10% do PIB para a educação, aplicação de 10% do Orçamento da União para a saúde, correção da tabela do imposto de renda, ratificação da Convenção 158 da OIT que impede a demissão imotivada, regulamentação da Convenção 151 que estabelece a negociação coletiva no serviço público e ampliação dos investimentos públicos.

A resolução da última reunião da direção executiva nacional da CUT, realizada em 25 de abril, na cidade de São Paulo, preparatória do 1º de Maio em todo país, aponta para mobilizações e lutas. Não tem negociação, nem atendimento da pauta, sem luta, sem mobilizar e sem fazer greve, já ensinava os nossos companheiros e companheiras que tombaram nas greves e lutas de 1886. A conquista deles é perene. Está aí até hoje.

Vamos à luta!

Viva a classe trabalhadora do mundo!

5.3.13

Com morte de Chávez, mundo perde grande líder comprometido com o povo


Imagem: Prensa Latina e Ag. Ven. Notícias

É com lágrimas nos olhos que registro aqui o falecimento do grande líder latino-americano Hugo Chávez. Estou muito triste e deprimido. A luta da esquerda carece de pessoas apaixonadas por mudanças reais contra o capitalismo. Comandante, obrigado pela inspiração!


Com grande pesar, a Central Única dos Trabalhadores lamenta a morte do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que faleceu nesta terça-feira (5), aos 58 anos, vítima de complicações causadas por um câncer na região pélvica.

Da mesma forma que lutou para ver sua pátria livre de governos saqueadores, que a destinavam a uma realidade de elites enriquecidas pelo petróleo e uma população majoritariamente miserável, o comandante Chávez enfrentou a doença para continuar a liderar seu povo.

Seu legado e o recado de que é possível acreditar num mundo justo e igualitário permanecem. Certamente, a América Latina que queremos, socialista, solidária, integrada, não avançaria como avançou nos últimos anos não fosse a contribuição do homem que sempre teve como referência Simón Bolívar, responsável por expulsar os espanhóis da Venezuela.

Em seu governo, Chávez demonstrou que é possível crescer combatendo a miséria e privilegiando o povo: os venezuelanos abaixo da linha da pobreza eram quase metade da população e passaram para 27,8% durante seu governo. A taxa de mortalidade infantil diminuiu de 27 por mil para 14 por mil. O acesso à água potável subiu de 80% a 92% da população e o consumo de alimentos cresceu 170%.

A taxa de escolaridade cresceu de 40% para 60% e, de acordo com a Unesco, o país também ficou livre do analfabetismo.

Como em qualquer revolução, o comandante bolivariano colecionou desafetos conservadores, especialmente a velha mídia, inclusive brasileira, que sempre o considerava um ditador. Os meios de comunicação não citavam, contudo, que Chávez participou de 14 eleições e referendos, saindo vencedor em todas elas.

A última, em outubro de 2012, com 54,42% dos votos. Mas, dessa vez, o líder bolivariano sequer pode ascender ao cargo que ocupava desde 1999 e assumiria pela terceira vez.

A morte de Hugo Chávez nos deixa mais carentes de líderes que sonham e praticam o que pregam. Acreditamos, porém, que sua jornada inspirará muitos outros sonhadores.

Obrigado, comandante!

"Por Cristo, o maior socialista da história, por todos os feridos, por todo o amor, por todas as esperanças que serão realizadas por essa maravilhosa Constituição, mesmo que custe minha vida. Pátria, socialismo ou morte!"

(Chávez, ao iniciar novo mandato presidencial, em 2007)


Direção Executiva da CUT

Fonte: CUT

9.1.13

De que lado você está? Não me venha com essa de neutro, isento...

Em férias, não deixamos
de ser o que somos
Não achei um nome apropriado para o título da postagem por ser difícil escolher umas cinco ou seis palavras que definam o que está em jogo na política e na democracia brasileira e no mundo contemporâneo.

Na vida humana, na sociedade, queiram ou não as pessoas, toda ação e inação é uma decisão política. Todos têm lado, seja ele o lado que quer mudar o mundo, seja ele o lado de quem faz de conta que é isento ou imparcial e já se decidiu pelo status quo vigente.

É nesse sentido que chamo a atenção dos dirigentes sindicais, representantes de trabalhadores, de movimentos sociais populares e de jovens que se consideram de esquerda ou engajados em algum movimento que tenha bandeiras de liberdade, moralidade, ética, ambientalismo e coisas do gênero.

De que lado você está na guerra ideológica em vigor no Brasil e na América Latina? Se houver golpes aqui ou em geral nas Américas contra Dilma/Lula/PT, Chavismo, contra Cristina Kirchner, Evo Morales, Rafael Correa, você vai ficar na sua ou vai se engajar para defender esses governos?

Você vai embarcar nas retóricas moralistas parciais em construção por oposições de direita, mancomunadas com as famílias que detêm os meios de comunicações e agora estenderam sua rede de influência para um dos poderes, o judiciário burguês?

Sugiro a leitura dos artigos abaixo com posições distintas, mas que pertencem à uma lógica que abarca até quem se diz de esquerda e que se deixa levar pelo falso moralismo da elite e da direita.

Como ninguém é isento ou imparcial, este que vos fala também tem posição. Eu estou contra a direita, contra o capitalismo, contra os proprietários capitalistas dos grandes veículos de comunicação, nunca acreditei na justiça burguesa (ela não é feita pra mim ou você proletário), e já faz dez anos que convivo e debato com muito respeito as minhas divergências profundas com aqueles que se dizem de esquerda, mas estão sempre contra as políticas do governo Lula e do PT, políticas reformistas que mudaram o padrão de vida de uns 60 milhões de brasileiros miseráveis.

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Mas não se esqueçam que uns 95% dos brasileiros são proletários! Não são donos do capital e das propriedades. Em qualquer crise, voltam a ser miseráveis e exército de reserva do capital...
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O artigo do Izaías Almada faz uma crítica inteligente às críticas de Vladimir Safatle e ao Olívio Dutra sobre a posse do deputado José Genoino, eleito em 2012 com 90 mil votos em SP.

O artigo do Izaías Almada - A Síndrome Safatle/Dutra (I) - eu destaquei em meu blog de cultura, ler aqui.

(No próprio artigo no site Vi O Mundo também estão os links para o texto do filósofo Safatle (da Folha) e para o texto do jornalista Paulo Moreira Leite) 

LEIAM todos os textos, são muito questionadores e devem levar à reflexões profundas dos militantes aos quais me dirijo.

William Mendes

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Post Scriptum: por uma questão de o texto não se perder em links que podem não existir mais, reproduzo abaixo os artigos em discussão de Vladimir Safatle e Paulo Moreira Leite.

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ANEXOS

Artigo de Safatle:

PT puxa a esquerda para o buraco do mensalão


08/01/2013 – 03h30 (fonte: Vi o Mundo)

O fim do mensalão

Por Vladimir Safatle, na Folha

O retorno de José Genoino à Câmara dos Deputados é sintoma de uma bizarra compulsão de seu partido em relação ao chamado mensalão.

É compreensível levantar discussões sobre a extensão e a profundidade das penas, assim como sobre a necessidade de punir com o mesmo rigor a vertente tucana do escândalo. Não é aceitável, porém, agir como se nada tivesse ocorrido, como se o julgamento fosse simplesmente um complô urdido contra a esquerda brasileira.

Ao afirmar que os condenados no mensalão não seriam desligados do partido, ao aceitar organizar uma contribuição para auxiliar tais condenados a pagarem as multas aplicadas pelo STF e, agora, ao achar normal que alguém condenado em última instância assuma uma vaga no Congresso, o PT age como um avestruz que coloca a cabeça na terra e erra de maneira imperdoável.

O mínimo a ser feito depois do julgamento era apresentar uma autocrítica severa para a opinião pública. Tal autocrítica não deveria ser apenas moral, embora ela fosse absolutamente necessária.

Ela deveria ser também política, pois se trata de compreender como o maior partido de esquerda do Brasil aceitou, em prol do flerte com as práticas mais arcaicas de “construção da governabilidade”, esvaziar completamente as pautas de transformação política do Estado e de aprofundamento de mecanismos de democracia direta.

Desde que subiu ao poder federal, planos interessantes, como o orçamento participativo, sumiram até mesmo da esfera municipal do PT, o que dirá a discussão a respeito da superação dos impasses da democracia parlamentar.

No seu lugar, setores do partido acharam que poderiam administrar a política brasileira com os mesmos expedientes de sempre e, ainda assim, saírem ilesos. Agora, mostram-se surpresos com o STF.

Para que todos não paguem por isso diante da opinião pública, há de se dizer claramente que não é a esquerda brasileira que foi julgada no mensalão, mas um setor que acreditou, com uma ingenuidade impressionante, poder abandonar a construção de novas práticas políticas sem, com isso, se transformar paulatinamente na imagem invertida daquilo que sempre criticaram.

Se uma autocrítica fosse feita, o Brasil poderia esperar que certos atores políticos começassem, enfim, uma reflexão sobre a necessidade do aprofundamento da participação popular como arma contra a corrupção do poder.

Ao que parece, no entanto, precisaremos de muito mais escândalos para que tal pauta seja, um dia, colocada em cena.

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Artigo:

07/01/13

Moralismo ajuda a esconder a lei

por Paulo Moreira Leite, no seu blog


Os ataques a José Genoino chegaram a um ponto escandaloso e inaceitável

Vários observadores se colocam no direito de fazer uma distinção curiosa. Dizem que a decisão de Genoino em assumir o mandato para o qual foi eleito por 92 000 votos pode ser legal mas é imoral.

Me desculpem. Mas é uma postura de ditadorzinho, que leva a situações perigosas e inspira atos violentos. Também permite decisões arbitrárias e seletivas. Pelo argumento moral, procura-se questionar direitos que a lei oferece a toda pessoa. Isso é imoral.

Não surpreende que essa visão tenha produzido grandes tragédias, na história e na vida cotidiana.

Isso porque os valores morais podem variar de uma pessoa para outra mas a lei precisa valer para todos.

Você pode achar que aquele livro sobre não sei quantos tons de cinza é uma obra imoral mas não pode querer que seja proibido por causa disso. Por quê? Porque a Lei garante a liberdade de expressão como um valor absoluto.

Para ficar num exemplo que todos lembram. Os estudantes de uma faculdade paulista que agrediram e humilharam uma aluna que foi às aulas de minissaia muito mini também se achavam no direito de condenar o que era legal mas lhes parecia imoral. Vergonhoso. Isso sempre acontece quando se pretende dizer que o moral precisa ser o legal.

Para começar, quem acha muita imoralidade da parte de Genoino deveria olhar para o lado em vez de exagerar na indignação.

Em seis Estados brasileiros o Superior Tribunal de Justiça, a segunda mais alta corte do país, tenta licença para processar governadores e não consegue avançar na investigação. Não consegue nem apurar as acusações que o STJ considera sérias.

Por quê? Porque as Assembleias Legislativas não autorizam. Curiosidade: não há ”petistas aparelhados” envolvidos. Entre os 6 governadores, cinco são tucanos e um é do PMDB. Quantos são imorais nesse time? E os ilegais? Vai saber.

O que está em jogo nos Estados? O princípio do artigo 55 da Constituição, aquele que reserva ao Congresso o direito de decidir pela cassação (ou não) de deputados e senadores. São os representantes eleitos que podem cassar os representantes do povo – e apenas eles.

Mas é curioso que ninguém fala em imoralidade neste caso.

Pergunto: cadê o abaixo-assinado, uma denúncia contra “esses políticos”? Cadê as marchadeiras de botox e cabelo tingido? Onde ficaram nossos moralistas de punho cerrado? Onde estão os cronistas do constrangimento, os marqueteiros da “imagem” dos políticos?

Será que voltamos (ou nunca saímos?) à lógica dos dois mensalões, o do PT e o do PSDB-MG?

A Constituição reconhece os três poderes e não reconhece, de forma alguma, qualquer hierarquia entre eles.

E aí cabe a pergunta: se as Assembleias Legislativas podem impedir a abertura de uma investigação sobre governadores, por que o Congresso não tem o direito de decidir, como manda a Constituição, o destino de quatro deputados? Há uma diferença de princípio, uma visão de mundo?

Ou é a velha paróquia política do país?

No caso dos governadores e deputados, a preferência é tão descarada que nem se abre uma investigação. Não vamos julgar e depois absolver. Não. Nem se começa o jogo. Não custa recordar de novo. A Lei diz que o mandato de um deputado só pode ser cassado por decisão do Congresso. Não é interpretação. Não é princípio genérico.

É texto da lei. É tão claro como dizer que o Brasil não pode fabricar bomba atômica. Ou que o racismo é crime e é inafiançável. Ou que a licença-maternidade deve durar quatro meses.

O jurista Pedro Serrano, especialista em Direito Constitucional, disse aqui mesmo neste blogue que essa prerrogativa é um dos elementos básicos da separação entre os poderes, definição que separa a República da Monarquia.

Embora diversos ministros do Supremo tenham feito elogios demorados à Constituição do Império – entre outros traços típicos, ela tratava os escravos como coisas – desde 1899 o país vive sob um regime republicano. O retorno à monarquia foi derrotado em plebiscito, junto com o parlamentarismo, lembra?

Teve gente que levou os descendentes de Pedro II e da Princesa Isabel para percorrer o país, na esperança de que algum fantasma do passado contribuísse para melhorar o marketing eleitoral da monarquia.

Mas o Supremo considerou por 5 votos a 4 que tem o direito de cassar os mandatos dos deputados condenados pelo mensalão. Muitos juristas – os mesmos que os donos da moral de hoje costumam ouvir quando lhes interessa — consideram que foi uma decisão que atravessou essa divisão entre poderes.

Num plenário que em situações normais inclui onze votos, cinco ministros acharam-se no direito de questionar um artigo explícito da Lei Maior. Quatro ficaram contra essa decisão.

Em qualquer caso, não custa lembrar que, como está estabelecido, a Constituição só pode ser modificada por uma emenda constitucional, com o voto de dois terços – e não maioria simples – dos parlamentares, que são os representantes eleitos do povo. Não é debate moral. É determinação legal.

Por que ela diz isso? Porque esse artigo 55 é coerente com o artigo 1, aquele que diz que “todo poder emana do povo, que o exerce através de seus representantes eleitos.”

Uma decisão do Supremo deve ser cumprida e tem força de lei, diz o Ministro da Justiça.

Mas o que se faz quando, por 5 votos a 4, se estabelece uma diferença clamorosa, uma contradição com a própria Constituição?

Não é possível ser simplório nem empregar argumentos de autoridade. A menos, claro, que se pretenda criar um novo tipo de autoritarismo. Durante o Estado Novo, o Supremo autorizou que a militante comunista Olga Benário fosse enviada para a morte num campo de concentração nazista.

Seria imoral e ilegal tentar impedir a entrega de Olga Benário por todos os meios e recursos que poderiam preservar sua vida, sua dignidade e mesmo a filha que levava em seu ventre, vamos combinar.

Em 1964, o Supremo aceitou a tese de que a presidência da República ficara vaga depois que Jango deixou o país e deu posse à ditadura militar. Legal? Moral? Ou ilegal e imoral?

Em 2010, o Supremo decidiu por 7 votos a 2, que só o Congresso poderia modificar a Lei de Anistia. Com isso, as investigações sobre torturas e execuções perderam uma base legal importante.

Pergunto: vamos proibir os jovens que denunciam torturadores nas operações esculacho e não se rendem a uma decisão que – sem entrar no debate se correta ou não – envolve uma opção pela impunidade?

Vamos chamar a PM para dar porrada? (Quando ela não estiver perseguindo estudantes que portam maconha, o que a lei diz que é legal em certa quantidade, mas que muita gente considera imoral e por isso aprova todo tipo de repressão, até sem base legal).

Mais ainda. Vamos silenciar procuradores que, teimosamente, ainda procuram brechas para colocar os responsáveis por crimes contra a humanidade na cadeia, lembrando que a Constituição diz que a tortura não é passível de anistia ou graça?

Os 7 a 2 do Supremo deveriam garantir que esses garotos exemplares fossem silenciados para sempre?

Queremos a Submissão à autoridade, título de um livro antológico sobre técnicas de tortura?

Colocar a questão moral à frente da legal só ajuda a despolitizar um debate, a encobrir questões sérias e a impedir uma avaliação consciente do que está em jogo. No saldo, quem perde é a democracia.

Quando Genoino se diz com a “consciência limpa dos inocentes” deveríamos dedicar alguns minutos de reflexão ao assunto.

Você pode, com base naquilo que viu e ouviu nas 53 sessões do julgamento, achar que ele é mesmo culpado e deveria renunciar ao mandato que recebeu.

Mas você poderia pensar o contrário.

A grande acusação é que ele assinou “empréstimos fraudulentos” que alimentaram o esquema, certo? Podemos ouvir isso todo dia, nos comentários de sabichões que frequentam o rádio e a TV.

Mas, veja só. A própria Polícia Federal, que investigou o caso e as contas do mensalão, concluiu que os empréstimos não eram uma fraude. Em seu relatório, a PF diz que os empréstimos foram verdadeiros, implicaram na remessa de dinheiro do Banco Real para o PT. A Justiça, mais tarde, supervisionou um acordo para o pagamento do empréstimo. Era ilegal? Era imoral? Ou o quê?

Em todo caso, se era ilegal, pergunta-se: o que aconteceu com a turma do Banco Central que deveria fiscalizar essas coisas?

O que houve com quem referendou o acordo? Alguém foi punido por ser ilegal? Ou não se julgou moralmente conveniente?

Muitos ministros condenaram Genoino porque “não era plausível” que ele “não soubesse” do que eles dizem sobre o que seria o “maior escândalo da história.” Uniram o papel político óbvio de Genoino no governo Lula com um esquema financeiro, sem conseguir provar seu envolvimento direto na “compra de votos” no Congresso. Não conseguiram apontar, sequer, qual projeto foi aprovado em troca de dinheiro.

Enquanto não se provar que Genoino cometeu uma ilegalidade, estamos, mais uma vez, numa visão moral de uma pessoa, num julgamento que envolve a atribuição de atitudes e valores, mas não consegue reunir provas robustas – indispensáveis no direito penal — para sustentar o que diz.

O que é imoral, neste caso?

Embora o Supremo tenha condenado Genoino, a lei dá ao deputado o direito de aguardar pelo exame de todos os recursos antes de considerar que o caso está encerrado. Junto com a liberdade, é a história de uma vida que está em jogo.

Ao contrário do que se poderia julgar do ponto de vista moral, ele tem o dever de resistir. A lei não lhe dá essa possibilidade por acaso. O necessário, para o esclarecimento de qualquer dúvida, de qualquer ponto de vista, é que ele entre com seus recursos, que eles sejam ouvidos, examinados e conhecidos por todos. E a melhor forma de fazer isso é preservando seu mandato.

Vou adorar ouvir seus argumentos na tribuna da Câmara. E vou adorar ouvir os argumentos contrários.

Será uma grande novidade. Em sete anos de investigações, o mensalão transformou-se no discurso de um lado só, uma única voz, uma única verdade. Cada advogado de defesa teve direito a um discurso de duas horas num julgamento que durou cinco meses. Isso impediu que dúvidas importantes sobre Genoino e sobre o mensalão fossem discutidas e resolvidas. Nenhuma auditoria provou que os recursos usados pelo esquema do PT foram extraídos do Banco do Brasil. Não há sinal de desvio na Visanet, empresa que fazia os pagamentos para as agências de Marcos Valério. Ou seja: verdades que pareciam evidentes em 2005 teriam de ser examinadas, revistas e explicadas em 2012. Ou corrigidas, ou retiradas.

É por isso que o Congresso tem razão em debater suas prerrogativas e nossos moralistas de plantão erram quando tratam Marco Maia e seu provável sucessor, Henrique Alves como criadores de caso, encrenqueiros que jogam para a plateia. Se o artigo 55 não foi abolido – o que só os parlamentares têm o direito de fazer – é mais do que razoável que sua aplicação seja discutida. Um pouquinho de história, para quem tem a memória selecionada. A cronologia diz tudo neste caso. Ao longo de 7 anos de mensalão o Congresso não moveu um dedo mínimo para atrapalhar a investigação. Tampouco cometeu qualquer gesto em direção ao STF que pudesse ser interpretado como ação indevida. Ficou silencioso em seu canto, respeitoso das atribuições de cada um. E é natural que queira ser respeitado, agora.

O ministro que decidiu a votação por 5 a 4 teve um voto oposto, em situação muito parecida.

Juízes não são obrigados a votar de modo idêntico a vida inteira.

Mas a democracia é um regime coerente.

Por isso a Constituição diz que o povo exerce o poder através de seus representantes eleitos. Esta frase não é enfeite, certo? O voto da maioria da população é o começo e o fim de tudo.

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