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29.5.24

Cassi, nossa Caixa de Assistência (2)



29/05/24. Quarta-feira

Opinião


Nossa Caixa de Assistência (2)

A comunidade de trabalhadores da ativa e aposentados do Banco do Brasil criou oitenta anos atrás uma Caixa de Assistência que se mostrou fundamental na vida daquela parcela da população brasileira. Nossos colegas do banco tiveram uma visão de vanguarda e ao longo do tempo foram se especializando em solidariedade, cooperativismo e participação na vida social do país.

Quando olhamos hoje os dados demográficos da população assistida pela nossa Caixa de Assistência e pela nossa Caixa de Previdência vemos o quanto fomos favorecidos pela escolha correta da solidariedade e cooperativismo. Vivemos mais que nossas irmãs e irmãos brasileiros, que por sinal têm algum acesso a atendimentos de saúde por causa do Sistema Único de Saúde (SUS). Não fosse isso, as coisas seriam mais difíceis para todos.

São assistidas pela autogestão 184.461 pessoas com mais de 59 anos de idade, ou seja, 31,34% dos 588.541 participantes dos planos da Cassi. Tínhamos em dezembro de 2023, 163 centenárias e centenários, a maioria mulheres, lógico, 142. É importante lembrar a todos vocês que ao termos a Cassi funcionando e cuidando dessa população idosa, estamos aliviando as demandas no sistema público, o SUS, já sobrecarregado e subfinanciado.

Uma coisa eu aprendi como membro da comunidade de pessoas do maior banco público do país: a solidariedade e o associativismo são fundamentais para todos nós. Os bancários e bancárias foram vanguarda na criação de associações e sindicatos de trabalhadores brasileiros. Então, viva o movimento sindical e as entidades representativas dos trabalhadores!

Os estudos que realizamos na população Cassi ao longo de nosso trabalho de gestão do modelo assistencial Estratégia de Saúde da Família (ESF) demonstraram o quanto os participantes vinculados ao modelo foram beneficiados por serem cuidados por nossas equipes de família das CliniCassi e pelos programas aos quais estavam inseridos. Com isso, os recursos da Cassi foram melhor utilizados pelos segmentos cuidados por nós.

Seria uma excelente estratégia de sustentabilidade para a nossa Caixa de Assistência se continuássemos perseguindo o objetivo de cadastrar e acompanhar a saúde do conjunto dos participantes do sistema Cassi na ESF, o modelo de APS que havíamos definido e provado a eficiência dele.

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Sobre os planos de saúde da Cassi

Estava vendo os números do primeiro bimestre de 2024 dos planos de saúde da Cassi e me chamou a atenção o resultado do Cassi Vida do período (Visão Cassi).

As contraprestações efetivas foram de 10.022 mil e os eventos líquidos indenizáveis de 10.925 mil, sendo o resultado operacional deficitário em quase um milhão de reais (-903 mil) e o resultado líquido -2.839 mil.

O plano é muito novo, foi lançado há menos de dois anos. Ter receitas brutas de 10 milhões e resultado deficitário de quase 3 milhões com tão pouco tempo é algo preocupante ao analisarmos o movimento de um plano de saúde ao longo do tempo. Se está assim no começo, como será quando estiver maduro?

Quem acompanha a minha opinião sobre esses diversos planos "de mercado" que a nossa Caixa de Assistência vem lançando sabe o quanto sou contrário a isso. 

Aliás, como disse no texto anterior, planos como esses Cassi Vida e Cassi Essencial só fazem vampirizar (tirar de um e ir para outro) o plano melhor para nossos familiares, o Cassi Família II, que tem melhores coberturas, não tem franquia e coparticipação.

Insisto nisso como alguém que conhece a Cassi. O melhor seria fortalecer o Cassi Família e para isso poderíamos fazer campanhas para adesão com um adendo específico no qual os usuários poderiam obter descontos que reduziriam as mensalidades para aderentes ao modelo de Atenção Primária e Estratégia de Saúde da Família (ESF).

É minha opinião.

William Mendes


Post Scriptum: o texto anterior desta série pode ser lido aqui.


17.5.24

Cassi, nossa Caixa de Assistência (1)



17/05/24. Sexta-feira.

Opinião


Nossa Caixa de Assistência

A Cassi é a Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, uma autogestão em saúde gerida de forma compartilhada entre os seus associados e o patrocinador BB. A associação foi criada em 1944 e neste ano completou oitenta anos de existência. 

Atualmente, a Cassi é uma operadora de saúde na modalidade de autogestão, atua no setor de saúde suplementar brasileiro, tem estatuto próprio, e se submete à legislação do país. O setor onde atua é fiscalizado em parte pela Agência Nacional de Saúde Suplementar, a ANS. Digo em parte porque a Cassi compra serviços de saúde em um mercado que não é controlado pela ANS, o que é ruim para as autogestões em saúde.

Esse cenário onde a Cassi opera não foi sempre assim: nossa Caixa de Assistência foi criada por trabalhadores do BB muito antes de boa parte das instituições do Estado nacional. Pertencemos a uma comunidade de vanguarda no mundo do trabalho, cuja cooperação sempre esteve presente em nosso cotidiano. Associativismo e solidariedade fazem parte da história dos funcionários do maior banco público do país.

Sou associado de nossa Caixa de Assistência há mais de trinta anos e tive a oportunidade e a missão de ter sido um dos administradores eleitos pelos associados e associadas na história de nossa autogestão. Foi um período de muito aprendizado e de muita luta por direitos em saúde porque a realidade dos direitos dos associados da Cassi vem sendo construída desde janeiro de 1944. Contei parte da história de nossa associação ao longo do mandato que exerci em nome dos associados.

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Relatório 2023 (dados retirados do site da Cassi)

Hoje, saiu o resultado da consulta ao corpo social em relação ao Relatório 2023. Participaram do processo de prestação de contas 55.200 participantes, de um total de 160.239 associados, pouco mais de 34% do total do público com direito a voto em nossa Caixa de Assistência. A maioria aprovou o relatório: 31.894 pessoas. Achei preocupante a quantidade de pessoas que não aprovaram o relatório: 23.306 pessoas ou 42,2% dos manifestantes (total de votos contrários 4.606, brancos 8.436 e nulos 10.264). 

Desde minha saída da gestão de nossa Caixa de Assistência, acompanho de longe os avanços e retrocessos em relação aos direitos dos associados e em relação à própria operadora do ponto de vista das formalidades do setor onde a Cassi opera. Avalio que os associados vivenciaram momentos difíceis e de retrocessos em relação aos nossos direitos durante os governos de Temer e Bolsonaro (2016-2022). É importante lembrarmos que o governo federal é acionista majoritário do BB e indica a metade da gestão da Cassi. 

O Relatório 2023 expressa a realidade da operadora e o que foi feito em nossa Caixa de Assistência no ano passado, incluindo, é lógico, o que foi feito nos últimos anos (consequências das gestões anteriores). O Relatório foi aprovado pelos conselhos fiscal e deliberativo e por auditoria independente. A direção fez apresentações do Relatório para os associados e suas representações.

Eu ainda não terminei a leitura completa do Relatório. Segui o voto de nossas representações eleitas e de nossas entidades representativas do funcionalismo. 

Algumas questões me chamaram a atenção. Lógico que a minha leitura do Relatório não é uma leitura de leigo, é uma leitura de quem geriu a nossa Caixa de Assistência por muitos anos e de quem tem opinião em relação às decisões tomadas pela direção da Cassi.

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Duas observações iniciais sobre o Relatório 2023

No geral, percebi um esforço do nosso governo Lula (sou eleitor de Lula) e da composição da direção da Cassi em 2023 em resolver o problema do déficit preocupante que se realizaria no exercício, de aproximadamente 448 milhões de reais (p. 7), caso não avançasse o acerto das dívidas do patrocinador relativas às reclamações trabalhistas. Lógico que a preocupação segue em relação aos valores recorrentes de receitas operacionais e despesas assistenciais.

Vejo com preocupação a questão dos planos de saúde para familiares dos associados. Desde que era gestor, tenho senões a essa estratégia de criação de um monte de planos hipoteticamente mais baratos (direitos menores para nossos familiares). O que parece ser um avanço no Cassi Essencial e Cassi Vida, ampliarem a carteira em 8.500 e 6.802 planos vendidos (+15.302) nada mais é, na minha opinião, que a saída de 15.790 participantes do Cassi Família I e II. Não é avanço algum no "público-alvo" como costumam dizer. Só estamos enfraquecendo o principal plano para familiares. 

Entendo que poderíamos fortalecer o CF II, que é melhor, com descontos por adesão espontânea ao modelo de Atenção Primária e Estratégia de Saúde da Família (ESF). Seria melhor para todos: Cassi e o modelo assistencial, familiares e patrocinador. Os planos familiares não foram pensados para oferecer direitos menores para nossos entes queridos. Isso é um equívoco! Imaginem se tem cabimento um colega do banco com o filho ou neto com um plano de saúde com coberturas menores e redes piores...

Enfim, desejamos perenidade para nossa Caixa de Assistência e sustentabilidade com manutenção e ampliação de direitos em saúde para o conjunto das trabalhadoras e trabalhadores da ativa e aposentados(as) e demais assistidos(as) da comunidade Banco do Brasil.

Parabéns à direção pelo trabalho que vem realizando e parabéns a todos nós associados por essa conquista extraordinária que é a Caixa de Assistência.

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Nossa solidariedade ao povo do RS

Por fim, presto aqui a nossa solidariedade ao povo irmão do Rio Grande do Sul. O Estado sempre foi uma base referência no que diz respeito à Cassi, nosso modelo assistencial de Estratégia de Saúde da Família (ESF) e sempre contamos com uma participação muito ativa do voluntariado nos conselhos de usuários. 

Aprendi muito com os colegas e amigos do RS. Temos uma população de mais de 31.500 participantes da Cassi no Estado. Esperamos que nossas irmãs e irmãos se recuperem e retomem a vida o mais breve possível. Contem conosco da comunidade Banco do Brasil e com todo o povo brasileiro!

William Mendes


Post Scriptum: o texto seguinte desta série pode ser lido aqui.


15.5.24

Diário e reflexões - Dilemas



Dilemas ainda atormentam minha consciência política e dificultam minha busca por sentidos e significações

Osasco, 15 de maio de 2024. Quarta-feira. 


Antes de começar esta reflexão, registro minha solidariedade e apoio ao povo irmão do Rio Grande do Sul, que enfrenta uma das maiores tragédias da história de nosso país. Contem conosco para recomeçar a vida, o povo brasileiro está com vocês.

À medida em que percebo que minha saúde e minha energia já não são as mesmas que antes, me pego com os mesmos dilemas que me atormentaram pelas décadas de vida adulta jovem. Como utilizar meu tempo de vida? O que fazer?

Na primeira e segunda década de vida como adolescente e adulto queria estudar e me tornar uma pessoa culta, queria sair da condição de incerteza no presente e no amanhã como membro da classe trabalhadora brasileira, subproletário que vivia de trabalhos precários e às vezes humilhantes. Não podia estudar como gostaria pelo esgotamento físico e mental. E ainda vivi meus tempos de fúria e revolta.

Como trabalhador de empresa pública, virei representante eleito pelos colegas e por quase duas décadas exerci mandatos eletivos. Pelo meu comprometimento com as causas que defendia e pelas lutas que muitas vezes liderava, coloquei cem por cento de meu tempo e energia para tentar fazer o melhor que pudesse no papel de representação de meus pares. Por saber que era uma liderança mediana, tinha que me dedicar ao máximo para fazer justiça à confiança que depositavam em mim.

Após os cinquenta anos de idade, com o fim dos mandatos representativos, com um certo trauma pelo processo de perseguição e assédio moral que enfrentei de meus adversários políticos na empresa e no governo golpista e com a saída do dia a dia da vida laboral do banco público onde dediquei o melhor de minha capacidade produtiva, entrei em um novo ciclo de existência no qual a pessoa pode ter dificuldades para se adaptar. O que fazer dali adiante?

Ao mesmo tempo em que queria seguir na militância política na qual dediquei o melhor de mim, queria também aproveitar um hipotético tempo livre que nunca tive para estudar um pouco mais do que antes. Foram cinco anos de dilemas, que não foram diferentes de uma vida de escolhas difíceis. Achei que seguiria sendo "útil" para o movimento sindical por ter acumulado conhecimentos em algumas áreas e temas políticos e por ter construído uma história de representação que diria aguerrida, decente e honesta. As coisas não se deram assim. E isso é de certa forma normal.

Enfim, volto às questões iniciais. Como utilizar o tempo de vida que tenho? Tudo mudou drasticamente na vida humana, nas instituições da sociedade e no planeta Terra. 

As pessoas mudaram e as relações humanas mudaram. Nossos comportamentos foram alterados por meios poderosos de comunicação que fazem parte de nossa vida sem a percepção das pessoas. As pessoas ao nosso redor são outras pessoas, tenho noção disso hoje e sei que qualquer contato com conhecidos é meio que novo contato, contato com nova pessoa, até se forem familiares e amigos. E os laços já não serão os mesmos que nós construíamos no passado humano. Amor, amizade, companheirismo são possíveis, imagino, mas são diferentes. Temos que refazer essas dimensões dos sentimentos humanos. Tudo é de fácil ruptura, cancelamento.

Nos últimos cinco anos, tentei manter uma militância política meio que anônima, nas ruas quando os movimentos convocavam, em reuniões organizativas quando convidado, escrevendo sobre o que sei do tempo de representação política e sindical, uma militância do tipo mais um na multidão, numa panfletagem, numa passeata, numa organização para algo coletivo. Sem protagonismo, sem liderar nada, sem mandato. O problema é que me falta algo. Talvez pertencimento como senti no passado. No partido e na região na qual milito, não posso votar nas pessoas que gostaria porque minha seção eleitoral é outra. No mundo sindical, meus conhecimentos não serviram para mais nada. É compreensível, até porque tenho divergências propositivas e hoje isso é um pecado mortal na esquerda.

E os dilemas seguem. O que fazer hoje, amanhã, daqui adiante? Que saúde e energia terei para fazer algo? O que o meu corpo me reserva? Pelo que ando sentindo, imagino que meu corpo sentiu o viver dez anos a mil durante nossos mandatos de representação. O último mandato, especificamente, passei ele sem dormir, ligado na tomada para dar conta de ser técnico e político ao mesmo tempo, para ser tudo o que fui ao mesmo tempo para proteger os direitos em saúde da categoria que representava, para organizar um movimento nacional para responsabilizar o patrão também pelo déficit da caixa de assistência, para viajar o país e politizar as representações sobre o que era a autogestão e seu modelo que poucos conheciam com profundidade. Foram anos intensos. E no final, para que eu não seguisse no enfrentamento, montaram um lawfare para me abater. 

Isso é passado, e aprendi que o passado não nos pertence. Hoje, questiono até aquelas frases de autoajuda que as pessoas falam a si mesmas, do tipo "ninguém vai apagar o que fizemos..." ou coisas parecidas. Apagam sim! Nada mais reflexivo do que o conceito do livro distópico de Orwell: "Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado."

Meu dilema segue. Imagino que me falte atitude para definir minha própria vida. Estudar, ler e escrever ou não, participar de ações políticas ou não, planejar algo de curto, médio e longo prazo para o viver ou não.

Reflexão feita.

William Mendes


18.3.24

História dos bancários: um olhar (XV)



O conteúdo dos cursos de formação que fizemos para dirigentes e assessores sindicais ainda hoje seriam de muita valia para a categoria bancária


MEMÓRIAS SINDICAIS

Estava revendo hoje a programação de um dos módulos do curso que fizemos durante o período no qual fui secretário de formação da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro, a Contraf-CUT. Avalio que até hoje o conteúdo tem sua importância para alguém que lida com o Sistema Financeiro Nacional e as complexidades em trabalhar neste setor da economia.

O conteúdo do Módulo II do curso Sindicato, Sociedade e Sistema Financeiro que organizamos para as entidades sindicais da Fetec Centro-Norte em 2011 pode ser lido aqui. O curso foi feito em parceria com o Dieese e foi financiado pelas próprias entidades sindicais filiadas à confederação.

Alguns textos que utilizamos e que eram lidos em voz alta por todos os participantes passaram a compor um repertório de textos que gosto muito porque nos colocam a pensar o mundo e a vida.

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CRÔNICA DE RUBEM ALVES

O texto de Rubem Alves, "O Nome" é um deles, que texto maravilhoso! As leitoras e leitores interessados podem ler o texto clicando aqui.

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EFEITO MULTIPLICADOR DA MOEDA 

Outro texto técnico e sobre economia que gosto bastante é sobre o multiplicador bancário. Aprendi sobre isso ainda quando fiz graduação em Ciências Contábeis e depois vi como os antigos sistemas financeiros podiam atuar na economia de um país com o efeito de reter ou liberar mais recursos para circular na economia. 

Tenho uma postagem com um exemplo de efeito multiplicador da moeda, caso haja interesse em ver como se dá o fenômeno econômico é só clicar aqui.

Imagino que os Estados nacionais e os bancos centrais e governos vêm perdendo a capacidade de controle sobre suas economias com a quantidade de novas formas de circulação de recursos sem controle do governo e do sistema bancário tradicional. Isso é péssimo para a soberania e para a economia dos países.

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IMPORTÂNCIA DE BANCOS E COOPERATIVAS REGIONAIS E LOCAIS

No módulo II do curso, todo ele voltado para o setor financeiro, usávamos o exemplo do Banco Palmas para explicar como é importante para uma comunidade qualquer reter seus recursos na própria economia local gerando renda e crescimento para a própria comunidade.

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CONSENSO DE WASHINGTON

Hoje, eu resumiria as regras econômicas e fiscais inventadas por imperialistas como as regras para ferrar e destruir os países dos outros.

Eis as dez regras básicas (para destruir um país e seu povo, na minha opinião)

- Disciplina fiscal

- Redução dos gastos públicos

- Reforma tributária (redução de impostos)

- Juros de mercado

- Câmbio de mercado

- Abertura comercial

- Investimento estrangeiro direto, com eliminação de restrições

- Privatização das estatais

- Desregulamentação (afrouxamento das leis econômicas e trabalhistas e dos fluxos de capitais)

- Reconhecimento do direito à propriedade intelectual

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FILMES SUGERIDOS E VISTOS NO CURSO

Em todos os cursos nós utilizávamos alguns filmes para variar as mídias utilizadas para abrir discussões e reflexões.

Neste módulo em questão nós disponibilizamos os filmes Norma Rae (1979), dirigido por Martin Ritt, com Sally Field; o filme Inside Job - Trabalho Interno (2010), documentário dirigido por Charles H. Fergunson e Audrey Marrs e o filme Capitalismo, uma história de amor (2009), de Michael Moore.

O curso foi ministrado num período posterior à crise do subprime nos Estados Unidos e essa temática era a discussão do momento.

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FREI BETTO: A MÃO INVISÍVEL DO MERCADO

Terminamos o módulo com um texto bem reflexivo sobre a chamada mão invisível do mercado, que só mete a mão no bolso dos pobres para transferir os recursos públicos e privados para os ricos.

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Aprendemos muito durante esses cursos de formação que fizemos entre 2009 e 2015 na direção da nossa confederação da categoria bancária. Foram mais de 400 participantes em diversos cursos ao longo dos dois mandatos na secretaria de formação.

William Mendes


Cancelamento na esquerda é falta de solidariedade

 


Cancelamento na esquerda é falta de solidariedade de classe

Opinião

 

CENÁRIO DESAFIADOR PARA A CLASSE TRABALHADORA

As classes exploradas e despossuídas do mundo vivem um cenário pra lá de desafiador neste momento da história humana, século 21, ano de 2024. Ao invés de utopias, as tendências são distópicas (o futuro caminha para ser pior, não melhor). Desemprego de nosso lado, concentração de riqueza e poder maior ainda do lado dos ricos; carências de tudo no lado do povo: alimentação, saúde, educação, moradia, segurança, cultura. Destruição do planeta pelo capitalismo. Belluzzo escreveu nestes dias: caminhamos para um “Estado de mal-estar social”.

Além do drama da emergência climática, cujo efeito é parecido ao de bombas atômicas porque os países ricos e hegemônicos fazem as merdas e as consequências extrapolam os quintais, já que o efeito radioativo e os efeitos climáticos se sentem em todo o globo terrestre (pois felizmente ou infelizmente a Terra não é plana), temos o drama da mudança radical de comportamento humano, fruto do neoliberalismo e das ferramentas de manipulação das big techs: o que era uma utopia de liberdade e reencontros de amigos no início do século, internet e as redes sociais, viraram máquinas de divulgação de ódio e rupturas de amigos e familiares. Nos transformaram em animais baseados em instintos e paixões, ninguém tem mais tolerância nem ouvidos para opiniões diferentes.

Sobre as ferramentas que dominaram o mundo e nossas mentes e comportamentos, ainda temos pessoas que acham que vão vencer os algoritmos dos donos das big techs. Doce ilusão! (amarga ilusão, pois isso impede ações para combater os algoritmos desses poucos donos do poder mundial, poder que extrapola fronteiras de países inteiros: vide o Brexit, todo mundo se ferrou, menos meia dúzia de articuladores da manipulação do povo)

Enfim, após essa introdução de minha leitura do cenário desafiador para a classe trabalhadora mundial, para os 99%, em oposição ao 1%, que pra mim deveria ser identificado claramente como nossos inimigos no mundo humano, vou registrar o que penso sobre a ferramenta social da atualidade que podemos denominar “cancelamento”.

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TERÍAMOS AVANÇADO NOS DIREITOS DO POVO SE HOUVESSE CANCELAMENTOS COMO HOJE NA CONSTRUÇÃO DO NOVO SINDICALISMO?

É óbvio que gostaria de ir direto para o ponto sobre o que penso dessa ferramenta desumana de cancelar pessoas, mas para poder ao menos pensar a respeito olhando para trás, eu preciso me perguntar se haveria o Partido dos Trabalhadores (1980), a Central Única dos Trabalhadores (1983), o Movimento Nacional dos Trabalhadores Sem-Terra (1984), o movimento pelo fim da ditadura e pela volta da democracia “Diretas Já” (1985), e se haveria os militantes de esquerda porretas que contribuíram decisivamente na Constituinte para a Constituição Cidadã de 1988... acho difícil!

Fico pensando se teríamos uma Central com 17 (dezessete) correntes e forças políticas como a CUT chegou a ter na sua origem ou mesmo se teríamos criado a Articulação Sindical como a tendência hegemônica em congressos e fóruns democráticos, e com isso em diversos sindicatos de categorias importantes, caso o fenômeno do cancelamento e do banimento de qualquer voz dissonante fosse a regra naquele período...

Minha opinião: nunca! Até porque a estratégia da Articulação para se constituir como maioria no movimento sindical foi justamente juntar pessoas e grupos que já não estavam comprometidos com as correntes do chamado centralismo democrático: convergência socialista, os comunistas e outras forças políticas com longa trajetória de lutas no mundo.

Tenho a leitura racional que jamais teria passado a minha vida contribuindo para as lutas e conquistas da Articulação Sindical se não fosse a paciência da dirigente sindical Deise Lessa à época que me conheceu numa agência do Banco do Brasil. A ética sindical daquela geração dela ouvia e respeitava pessoas que pensam diferente! Não fosse essa ética daquela época da Articulação e do Novo Sindicalismo, eu teria ficado nos grupos que viviam me convidando para as reuniões que só falavam mal da diretoria do sindicato.

A prática de se buscar o consenso progressivo de todas as formas possíveis, antes de simplesmente contar votos e ter vitórias de Pirro no campo da classe trabalhadora, dividindo forças políticas o tempo todo, não resistiria a meia dúzia de cancelamentos à época, fazendo de conta que “esqueceram” de convidar fulano ou cicrana para um fórum importante.

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Na atualidade, não querem minha opinião sequer sobre uma das temáticas mais complexas do movimento sindical e que sei alguma coisa – gestão de autogestão em saúde – e outro dia, numa manifestação de rua, conversando com duas lideranças do meu sindicato de base, me perguntaram se eu havia gravado um vídeo sobre os 100 anos do Sindicato e ao dizer que ainda não, me disseram que eu iria ser contatado... pensei comigo no dia: doce ilusão! (provavelmente eu vá ser lembrado quando morrer... uma lembrança burocrática, talvez)

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A ESQUERDA NÃO DEVERIA ABRIR MÃO DE QUADROS COM HISTÓRIA E CONHECIMENTO POR CAUSA DE PICUINHAS DA BUROCRACIA

Após uma vida vivida dentro do movimento sindical bancário brasileiro, desde adulto jovem com 18 anos até os 50 anos de idade, a gente pode dizer que viu muita coisa no seio do movimento social de nosso país, de nossa classe trabalhadora. Modéstia à parte, eu vivenciei muitos momentos importantes e diria até decisivos para a nossa história, senão da classe, mas também, ao menos da categoria, e com certeza do segmento da categoria chamado bancários do Banco do Brasil.

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“Não tem que tolerar a religião dos outros, tem que respeitar” (Frei Betto)

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Antes de terminar esta reflexão, deixo claro algumas coisas:

É evidente que escrevo porque em mim dói alguma coisa também, mas falar sobre o tema cancelamento é uma necessidade inadiável no campo da esquerda. Faz tempo que essa “ferramenta” vem enfraquecendo e diluindo nossas frentes de esquerda nas lutas centrais contra o verdadeiro inimigo de nossa classe. Isso precisa parar, sem a recuperação da solidariedade e do fazer político verdadeiro, onde todas as pessoas e grupos sejam ouvidos e os debates ocorram com a tentativa de construção de unidade, as forças extremistas à direita, que são vozes ou ferramentas dos donos do poder (1%), e estão sendo organizadas de forma mundial, vão nos cancelar a todos, a todos.

Eu não sou e não quero ser candidato a mais nada, não quero representar ninguém, já valeram as duas décadas de representação desde a sindicância de condomínio até as representações sindicais no movimento dos bancários. Aliás, nunca me coloquei em disputas de candidaturas a nada, nunca, sempre que fui representante eleito de algum grupo é porque esses grupos debatiam e me convidavam, me procuravam para pedir que eu disponibilizasse meu nome para aquela causa (muitas delas com um sacrifício pessoal imenso).

Então, repito, escrevo sobre cancelamento porque tenho opinião e experiência de décadas na luta da esquerda, quero o bem de nosso povo, e afirmo que essa ferramenta vai inviabilizar nossas vitórias nas lutas de classe. Sozinhos ou de bolha em bolha de gente de ideias idênticas não vamos a lugar algum na luta de classes.

NÃO SE JOGA FORA CONHECIMENTO E EXPERIÊNCIA

O movimento organizado tem uma característica extraordinária de criar bons quadros políticos com conhecimentos de mundo formados no dia a dia das lutas. Os conhecimentos de um dirigente sindical, político, estudantil ou de outros movimentos específicos – identitários ou por moradia e pela terra pra plantar etc – são conhecimentos gerais e muitas vezes técnicos que não se adquirem nos estabelecimentos formais de educação.

Por isso acho um desserviço essa ferramenta do banimento, cancelamento, esquecimento, invisibilização e retirada do acesso de lideranças de qualquer movimento aos espaços de organização das próprias lutas em si. É uma prática pouco inteligente. E isso vem se ampliando exponencialmente ano após ano, e na última década a coisa chegou aos limites da insanidade.

Por décadas, li e estudei e tomei conhecimento do pensamento de lideranças e forças políticas diversas da minha porque os via falando, defendendo as ideias deles, porque tinham direito a escrever teses nos congressos, tinham espaço para falar nas assembleias, que eram presenciais. Agora é raro, cada dia mais impossível, ouvir alguém falar algo diferente do que a direção de determinado sindicato, grupo, movimento pensa. Pior ainda, dentro da mesma força política, se a pessoa perguntar ou questionar algo e a chefa ou chefe não gostar, adeus àquela vítima... ela será esquecida e nunca mais terá existido na face da Terra.

(e pensar que a referência negativa na Articulação Sindical era o chamado stalinismo, com aquele lugar-comum de até apagar fotos de lideranças que viraram desafetos etc)

Agora não se fazem mais teses, não se fazem mais assembleias e congressos presenciais (são raros), o que impera são as redes sociais das big techs, que permitem cancelar e bloquear ideias diferentes e invisibilizar vozes e pensamentos assim como as big techs fazem com as esquerdas mundo afora...

NÃO SE ACHAM MILITANTES DE ESQUERDA AOS MONTES POR AÍ (ENTÃO RESPEITEM OS QUE EXISTEM)

Às vezes, militantes são grandes especialistas em temas e questões que estudaram e foram acumulando conhecimento anos a fio, são o resultado das nossas lutas contra os verdadeiros inimigos de nossa classe, mas como têm opiniões fortes, muitas vezes não concordam com a proposta ou tese que o/a líder daquele espaço defende, e então são vetados, banidos de qualquer fórum que vá tratar daquele tema. Quem ganha com isso? O nosso lado da classe?

Digam se isso não acontece no seu espaço de militância hoje em dia.

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FALTA DE SOLIDARIEDADE E CUMPLICIDADE DAQUELAS PESSOAS QUE NÃO FAZEM NADA PARA QUE OS CANCELAMENTOS ACABEM NA ESQUERDA

Penso que não adianta ficar chorando o leite derramado, tivemos na última década muitas divisões em nossa classe trabalhadora, coincidentemente após aquelas manifestações de junho de 2013 - movimentações sabidas hoje que não foram “espontâneas” porque eram parte de um processo global de guerras híbridas.

Temos que retomar os diálogos, a paciência de ouvir, temos que respeitar as opiniões diferentes, e não “tolerar” como diz Frei Betto, temos que nos reunir em fóruns de nossa classe e construir consensos que evitem que as extremas-direitas, o movimento fascista global, nos derrotem, derrubem ou inviabilizem governos como o do presidente Lula.

Entendo que é uma obrigação ética ter mais solidariedade no campo da esquerda. Quantas lideranças forjadas em décadas de lutas estão por aí, apagadas, canceladas, invisibilizadas, por parte das direções dos movimentos sindicais, partidários, estudantis etc?

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Eu cobro responsabilidade de toda aquela e aquele que não se posiciona em seu espaço de poder e representação pelo fato dele/a saber que alguém está cancelado e não fazer nada a respeito. Quando eu fazia a fala inicial aos novos funcionários do BB explicava a eles que nunca achassem normal serem assediados, a violência organizacional, a humilhação etc. Não se pode achar “normal” apagarem da história uma militância e não se questionar internamente essa atitude... isso está errado na ética política da esquerda, que quer mudar o mundo hegemonizado pelo capitalismo e por seus agentes.

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A UNIDADE É A MELHOR CHANCE PARA A ESQUERDA

Eu me dirijo aos dirigentes bancários e militantes tanto da ativa quanto aposentados em relação à luta para que esses cancelamentos deixem de acontecer em suas bases sindicais.

Por que será que uma liderança local, que contribuiu de forma importante para a nossa história, nunca mais apareceu em debates e eventos de seus fóruns? Pode ser que ela tenha decidido descansar mesmo, nada mais justo, mas pode ser que ela nunca mais tenha sido convidada a contribuir com seus conhecimentos e experiências para os desafios atuais da direção do movimento por algum motivo pessoal de alguém ou até sem motivo. Isso é justo, é legítimo, é ético? Pensem a respeito.

Dias atrás, fui cobrado para me posicionar sobre a eleição da Cassi, autogestão em saúde dos funcionários do Banco do Brasil. É algo no mínimo inusitado. Desde as eleições de 2020, fui “esquecido” pelo meu sindicato de base na hora dos debates dos fóruns para se debater os temas. Isso se repetiu em 2022, esqueceram de mim na primeira semana de dezembro de 2021. E estamos com eleições em 2024. O que penso sobre isso?

Como ninguém quis ouvir o que eu pensava sobre o tema, e eu conheço alguma coisa sobre a Cassi e autogestões e modelo de saúde, e como eu teria contribuições a fazer, achei descabido me cobrarem posicionamento. Fui cancelado pelo meu sindicato, praticamente com foto apagada como aquelas da URSS, e entendi que o melhor seria seguir morto politicamente – CPF cancelado -, apesar de estar vivo civilmente e biologicamente.

Estive em um fórum de pessoas construindo conhecimentos sobre autogestão nesta semana e me pareceu que eu tive algo a contribuir, fiquei feliz e não fiz mais do que me exigiria a ética política de passar adiante o conhecimento que adquiri nas lutas da classe trabalhadora.

Sempre, sempre estive à disposição de todas as entidades sindicais, políticas, organizativas e outras para contribuir com o pouco que sei de alguns temas e assuntos que adquiri saber nas lutas diárias do movimento sindical. Sigo à disposição no que puder contribuir.

Quanto à eleição da nossa autogestão, eu tenho opinião, como ser politizado aprendi que é importante se posicionar, estudando o tema antes se necessário, e achei muito ruim o nosso campo da esquerda se dividir dando chances à chapa do outro campo. As bases sociais brasileiras estão muito polarizadas. Acho um risco. Espero que as forças mais à esquerda ganhem e que as chapas 2 e 55 não voltem para a gestão da nossa Caixa de Assistência.

Mas se realmente quisessem minha opinião, poderiam ter me chamado em qualquer fórum sindical que ajudei a fortalecer nas últimas décadas. Eu sigo à disposição do movimento sindical.

William Mendes


10.3.24

Diário e reflexões: autogestões

 


Autogestão: uma modalidade das operadoras da saúde suplementar que por suas características pode ousar desenvolver modelos de Atenção Primária e Medicina de Família

Osasco, 10 de março de 2024. Domingo.


"O óbvio é aquilo que nunca é visto até que
alguém o manifeste com simplicidade
" (Kahlil Gibran)


Para fazer um bate-papo com gestores e operadores de uma autogestão em saúde, decidi visitar minhas memórias sobre os conhecimentos e experiências que tive o privilégio de adquirir ao ter sido eleito diretor de saúde de uma das maiores operadoras do Brasil na modalidade autogestão: a Cassi dos trabalhadores do maior banco público do país.

Fiquei pensando nos últimos dias quais temáticas poderia abordar para contribuir com a direção e operadores de uma autogestão em saúde. Fui buscar na memória quais informações mais me surpreenderam e foram novidade quando cheguei à Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil para atuar na diretoria justamente responsável pelo modelo assistencial daquela autogestão.

Uma característica pessoal que deve ter contribuído para minha percepção relativamente rápida do que se tratava a autogestão na qual fazia parte da direção é gostar de ler e estudar. Isso facilitou minha passagem de quatro anos pela direção da Cassi. Outro fator essencial foi a qualidade das equipes que trabalhavam conosco na gestão, pois sem os ensinamentos dos profissionais da Cassi e sem os debates francos e fraternos não teria aprendido o que sei sobre gestão de saúde.

As autogestões fazem parte das modalidades de operadoras da saúde suplementar reguladas e fiscalizadas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Elas têm algumas características diferentes das outras modalidades que operam no sistema de saúde. Não são planos de saúde comerciais como os demais que operam no mercado, como as medicinas de grupo, as seguradoras de saúde e as cooperativas médicas. Para o bem e para o mal, os pontos positivos e os negativos das autogestões precisam ser conhecidos tanto por seus gestores quanto pelos participantes da modalidade.

Como gestor da maior autogestão do país, rapidamente entendi o que deveria fazer em quatro anos de gestão e após um planejamento estratégico feito em nossa diretoria, persegui disciplinadamente os eixos dos objetivos traçados por nossas equipes para fortalecer a operadora em si, o modelo assistencial definido após a reforma estatutária (1996) que deu as características atuais da Cassi e para defender os direitos em saúde e de participação na gestão dos associados da Caixa de Assistência.


A SAÚDE SUPLEMENTAR NO BRASIL

Peguei para ler um livro que estou achando bastante interessante, um livro com um excelente conteúdo técnico sobre saúde suplementar. Já li um terço do material e fico contente por ter percebido que meus conhecimentos não se perderam sobre o tema. Se trata do livro "Fundamentos, Regulação e Desafios da Saúde Suplementar no Brasil", de Sandro leal Alves, lançado em 2015. O autor escreve muito bem, o que facilita bastante a leitura.

Refletindo a respeito do que poderia abordar com operadores e gestores de uma autogestão em saúde e relembrando o que compreendi ao estudar o modelo assistencial da Cassi e o sistema de saúde no qual ela operava - o mercado privado de venda de serviços de saúde - entendo que os objetivos que persegui durante quatro anos de mandato são boas referências para um bate-papo, uma troca de informações.

1. As autogestões precisam ser conhecidas por seu próprio público, pelos chamados "stakeholders", pelas partes envolvidas e interessadas na operação da autogestão. Infelizmente, a tendência é gerirem a autogestão como se ela fosse uma empresa do mercado de saúde suplementar como as medicinas de grupo ou seguradoras de saúde, por exemplo. Só de não atuar com a informação correta na apresentação da autogestão para os seus operadores e participantes, já teremos pela frente uma enormidade de problemas que resultarão no consumo inadequado dos recursos da operadora. E insatisfação, muita insatisfação e até judicialização.

2. Feita a lição de casa básica, compreender que a autogestão é uma autogestão e que isso dá a ela características bem distintas das demais operadoras de saúde que operam no mercado de venda de serviços e produtos de saúde, desenvolver a melhor forma de usar os recursos para cuidar da saúde de seus participantes ao longo do tempo. 

Uma operadora do sistema de saúde suplementar, dependendo mais ou menos de alguma estrutura própria de saúde que tenha, atua no sistema (mercado) usando seus recursos (receitas) para comprar procedimentos e produtos caríssimos num mercado que visa lucro com a doença das pessoas. 

Esse fato precisa ser tratado com a realidade devida, se os participantes das operadoras de saúde tiverem boa saúde os capitalistas que vendem serviços e produtos terão leitos vazios e lucros menores. Um modelo preventivo na autogestão vai diminuir o lucro do mercado e os hospitais, médicos, clínicas e vendedores de OPMEs não vão ficar contentes com isso. Entendem? Os recursos da autogestão serão utilizados de forma mais adequada também.

É fundamental, por isso, que os stakeholders da autogestão compreendam que ela tem menos liberdade para escolher sua carteira de "clientes" (público é definido por lei), tem dificuldade de repassar para as mensalidades toda a inflação médica para reequilibrar anualmente o balanço, e o perfil de seus participantes em geral contém faixas etárias maiores que as operadoras do mercado que visam lucro.

3. Tendo claro que uma autogestão não é um plano de saúde comercial (que visa lucro), que ela tem algumas limitações para compor sua carteira de usuários, reajustar mensalidades e comprar serviços no mercado de saúde através de contratos com redes credenciadas, a direção e os operadores devem desenvolver objetivos realistas com a natureza da autogestão e definir estratégias para isso. 

4. Uma das principais características das autogestões para atuar na prevenção de doenças e na qualidade da saúde da população assistida é o longo prazo de permanência dos participantes no sistema. Em geral, são grupos de trabalhadores que passarão décadas dentro da modalidade, tanto os titulares do plano quanto seus dependentes e familiares permitidos pela legislação. Aí entram os modelos de saúde que monitoram e atuam com cada indivíduo assistido ao longo de muitos anos, permitindo com um bom gerenciamento do modelo, orientar o melhor uso das redes credenciadas, protegendo tanto os participantes quanto os recursos da autogestão.

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TER UM MODELO ASSISTENCIAL DE ATENÇÃO INTEGRAL À SAÚDE

Minha sugestão é a autogestão criar e fortalecer um modelo de Atenção Primária que conheça seu público e o acompanhe ao longo da vida e trabalhar fortemente a comunicação com educação em saúde e criação de um espírito de pertencimento à autogestão como um patrimônio daquele grupamento. Os planos de mercado têm dificuldade em fazer isso, porque seus públicos entram e saem. As autogestões tendem a ter seus públicos por décadas!

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NÃO HÁ RECURSOS QUE PAGUEM O QUE O MERCADO DA SAÚDE TEM A OFERECER

Estas reflexões são linhas gerais que considero importantes para serem avaliadas em planejamentos estratégicos de uma autogestão em saúde.

As contradições nesta área do saber e da economia são enormes. De um lado, temos os setores que operam na geração das despesas assistenciais, vendendo serviços, materiais, medicamentos, diagnoses e culturas estéticas e do outro temos pessoas e planos de saúde com recursos sempre limitados sendo incentivados ou forçados (até pela justiça) a comprarem aquelas ofertas caras de procedimentos e produtos, ofertas ora necessárias ora desnecessárias. A conta não fecha!

Quando gestor da maior operadora de autogestão do país, criamos uma metodologia de aferição dos resultados em saúde e no uso dos recursos de uma população assistida por um modelo assistencial de Estratégia de Saúde da Família (ESF) no qual os participantes que estavam fidelizados há três anos ou mais tinham resultados no uso dos recursos do plano muito melhores que seus correspondentes das mais diversas faixas etárias que não eram cuidados pela ESF. Os números eram impressionantes, mesmo nas curvas A de despesas do plano.

Durante quatro anos, mesmo enquanto a operadora redefinia sua estrutura de custeio, pois enfrentava à época mais uma série de déficits que acompanham a Cassi há oito décadas, nós apresentamos aos stakeholders o que era a autogestão, seu modelo assistencial ESF/CliniCassi e programas de saúde, aumentamos os cadastrados na ESF em nível nacional, empoderamos as lideranças locais no modelo assistencial e os estudos que fizemos deram coesão na defesa do modelo por ser mais sustentável no tempo.

Enfim, para esse artigo já dei algumas ideias sobre caminhos a serem seguidos por autogestões em saúde pensando em como lidar com suas populações assistidas.

William Mendes


6.3.24

Diário e reflexões



Esquecer o passado ou falar sobre o passado? Até quando a esquerda vai seguir se dividindo e cancelando quem pensa diferente?

Osasco, 6 de março de 2024. Quarta-feira.


INTRODUÇÃO

Durante muitos anos este blog de política sindical foi base de prestação de contas de mandatos eletivos e de apresentação de ideias, reflexões e proposições do mundo do trabalho. Como exerci mandatos nas áreas de comunicação e de formação política, o blog era uma ferramenta de formação, informação e história, como se observa no mural da página inicial.

Durante alguns períodos da vida nacional, da categoria bancária e até da vida pessoal o blog foi uma ferramenta essencial em minha vida. Após as mudanças ocorridas no país com as manifestações de junho de 2013, depois com o golpe de Estado em 2016 e durante os governos de extrema-direita de Temer e Bolsonaro, muitas vezes compartilhei o que pensava em relação à política aqui neste espaço, até 2018 como um representante da classe trabalhadora, e depois como um cidadão politizado.

Mais recentemente, o blog acabou sendo um espaço onde escrevi um livro de memórias das lutas sindicais, foram 39 capítulos escritos em mais ou menos dois anos. Os textos tiveram uma leitura que me impressionou, mais de 80 mil acessos. Fiquei contente ao perceber que ainda temos leitoras e leitores. Às vezes, me preocupa a ideia da diminuição dos leitores na sociedade atual.

No blog Refeitório Cultural, meu blog de cultura, tenho uma categoria de textos que chamo de "Diário e reflexões", é uma categoria antiga, quase da idade do blog. Nela, cabe de tudo, pois é escrita ao sabor do instante do escritor. No entanto, ficaria um pouco deslocado no blog de cultura uma série de textos mais vinculados com este blog do mundo sindical e do trabalho. Por isso, pensei em criar aqui também, uma categoria de "Diário e reflexões". Eu não estou mais no movimento, nem tenho mandato eletivo. Mas não esqueci tudo que aprendi ao longo de uma vida de militância política.

SOLIDARIEDADE E UNIDADE

Aliás, é sobre isso que talvez eu fale na categoria "Diário e reflexões" deste blog A Categoria Bancária. Ao longo de três décadas de vida política e sindical, sempre aprendi princípios basilares no campo da esquerda organizada. A solidariedade era uma das nossas premissas do movimento de lutas da classe trabalhadora. Outra coisa que me lembro muito dos ensinamentos a partir da militância mais experiente era nunca deixar um companheiro/a para trás. Me lembro até dos discursos que fazia nas reuniões de base quando dizia que militante não se acha em qualquer esquina, então é necessário valorizar e respeitar os militantes de esquerda, independente de suas preferências partidárias ou tendências sindicais.

DEVEMOS ACEITAR CALADOS OS CANCELAMENTOS NO CAMPO DA ESQUERDA?

À medida que as coisas foram mudando na política brasileira com a ascensão das forças conservadoras a partir de 2013 e as forças progressistas passaram a ter que dividir os espaços públicos com um grupamento de gente que não estávamos acostumados a ver nas ruas e espaços comuns, me parece que se acelerou o processo de criação de bolhas de grupos de ideias homogêneas inclusive no campo das esquerdas. Como havia risco de perda de espaço e poder, a esquerda embarcou na mesma lógica de exclusão das opiniões divergentes das pessoas que eram do mesmo espectro político. Divergiu de um(a) líder, tchau!

O mundo é complexo, a sociedade humana é complexa, e não se tem explicação simplória para coisas complexas. As forças de direita atuam bastante através da estratégia de reduções rasteiras e simplórias das coisas. É muito mais fácil manipular pessoas com explicações simplórias e falsas em contextos de crise e em momentos de busca de explicações para insatisfações pessoais e coletivas do que buscar as explicações das dificuldades da vida humana na realidade material, na histórica luta de classes, nas causas e consequências da exploração de maiorias por minorias privilegiadas.

Na última década de militância e mandatos de representação, fui vendo rachas e divisões absurdas no seio de nosso campo político e na esquerda de uma forma geral. A começar pelos rachas em diretorias de sindicatos, federações, confederações e até das centrais sindicais. Como nada é simples, os rachas sempre tiveram uma gama de motivações aparentes. Personalismo, ideias divergentes mesmo, ausência de risco de perda do poder para o verdadeiro inimigo, os capitalistas e donos do poder real, e uma motivação horrível em especial: intolerância! Enfim, motivações variadas levaram a esquerda a um período de grandes divisões que só favoreceram o nosso inimigo de classe.

Durante décadas, a classe trabalhadora construiu grandes frentes de lutas em prol de agendas comuns que eram colocadas como prioridade em relação a agendas corporativas em momentos duros da vida nacional e da maioria do povo, aquela maioria que não pertence ao pequeno universo dos abastados e privilegiados.

ATÉ QUANDO AS ESQUERDAS VÃO SE DIVIDIR?

Hoje, estamos no início do segundo ano do terceiro mandato do presidente Lula, às vésperas de um enfrentamento com os campos conservadores, reacionários e de extrema-direita como nunca vimos antes, uma ordem mundial organizada, e o que eu vejo é o nosso lado dividido até mesmo em eleições corporativas como a da Cassi, autogestão dos funcionários do Banco do Brasil. Duas chapas do nosso campo e uma chapa do inimigo. É impressionante! É um verdadeiro absurdo porque se mostra claramente que a esquerda não aprende nada com a história, nada! Qual o sentido em bases com públicos polarizados 50/50 termos duas chapas de esquerda e uma de direita?

Enfim... Devemos falar sobre o passado, entendê-lo, interpretá-lo ou devemos fazer de conta que o passado não existiu?

Deixar o passado para trás, sem tratá-lo como se deveria é o que vigora no Brasil há séculos. A extrema-direita e os donos do poder estão mais uma vez convencendo o nosso lado a fazer os devidos acordos para se deixar quieto o passado e começar do zero as coisas (falo dos militares golpistas).

No nosso campo, que deveria ser baseado na unidade e na solidariedade de classe, vigoram os cancelamentos e apagamentos de qualquer militância que alguém em algum lugar julgar ter sido contestado ou contrariado em algum momento da história da vida toda. Uma coisa absolutamente improdutiva e desagregadora no parco campo da esquerda, muito menor que o restante da sociedade humana.

Talvez eu tenha paciência para escrever um pouco sobre isso aqui neste blog de política, blog que já me salvou a vida num momento de lawfare por parte das forças conservadoras que montaram um desses processos mequetrefes de assassinato de histórias de vida e de aniquilamento de lideranças da classe trabalhadora. O blog me salvou pela forma como eu exercia nossos mandatos publicizando tudo que fazíamos.

O que vem por aí é pavoroso em relação à classe trabalhadora mundial. O amanhã não será melhor que o presente, inclusive por causa da emergência climática. Sem unidade no campo da esquerda, seremos pouco combativos em qualquer frente de luta na qual estivermos empenhados.

Vamos continuar nos dividindo até quando? Até quando a esquerda vai repetir os erros do passado que nos levaram ao retrocesso do golpe de 2016 e ao bolsonarismo? Vamos seguir burocratizados e sem um processo estratégico de politizar a classe trabalhadora?

William Mendes


9.2.24

História dos bancários: um olhar (XIV)


CartaCapital nº 1294.

A questão da saúde dos trabalhadores e as autogestões em saúde

Memórias e contribuições para reflexão (II)


Uma reportagem da revista CartaCapital deste ano, edição 1294 de 24 de janeiro, ilustra bem os pontos que quero tratar nesta série de textos sobre a questão da saúde dos trabalhadores e as autogestões em saúde.

O Dr. Vecina diz:

"Não tem nenhum problema nos planos de saúde. O modelo é que está errado. Os planos têm um projeto assistencial que nunca teve a ver com assistência à saúde. Vendem assistência para o comprador, que quer ser atendido pelo prestador, que são os médicos, os hospitais, as clínicas. Isso não é saúde, é curar doenças".

O Dr. Gonçalo Vecina é médico sanitarista e fundador da Anvisa. Já tive o privilégio de dividir uma mesa de webinário com ele sobre saúde dos trabalhadores.

Nesta série de textos que vou fazer, pretendo compartilhar com as leitoras e leitores do blog um pouco da experiência que adquiri ao ser gestor eleito de uma autogestão em saúde dos trabalhadores, a Cassi dos funcionários do Banco do Brasil. Fui diretor eleito de saúde da Caixa de Assistência.

A categoria bancária é uma das categorias profissionais mais organizadas do país, com mais de um século de lutas e conquistas. Não à toa, temos a única convenção coletiva nacional, um contrato de trabalho que vale para diversas empresas e para todas as regiões do país, abrangendo mais de 350 mil trabalhadoras e trabalhadores, de empresas públicas e privadas.

Uma das conquistas dessa categoria profissional é ter algum tipo de previsão de acesso a planos de saúde dentro do rol de direitos nas convenções e acordos coletivos, ou mesmo sem constar dos contratos coletivos. Alguns segmentos têm, inclusive, acesso a modelos de autogestão em saúde, caso, por exemplo, dos dois maiores bancos públicos do país, o BB e a Caixa Federal.

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ALGUNS DADOS DO SETOR DE SAÚDE, A PARTIR DA MATÉRIA DA REVISTA CARTACAPITAL

Ao ler a matéria "Onde está o gargalo?" que apresenta a seguinte questão "O número de segurados cresce e as mensalidades disparam. Ainda assim, os planos acumulam prejuízos bilionários", matéria de Fabíola Mendonça, tirei alguns dados interessantes para ilustrar o que penso sobre a problemática na saúde suplementar.

Dados do setor:

- 20 bilhões de déficit em 3 anos;

- 1,9% de crescimento no número de segurados nos 10 primeiros meses de 2023;

- 51 milhões de participantes, segundo a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar);

- 3,1 bilhões de lucro no 3º T/23;

- 6,3 bilhões de prejuízo de jan-set/23;

- 8,37 bilhões de resultado financeiro no setor (que compensa os prejuízos operacionais);

- 88,2% de sinistralidade (índice insustentável a longo prazo);

- 331 operadoras com prejuízo (quase metade do setor);

- Em 10 anos, houve redução de 920 para 680 empresas no setor;

- 711,4 bilhões de reais foram as despesas de saúde no Brasil em 2019, sendo 427,8 bi por parte das famílias e instituições sem fins lucrativos (5,8% do PIB) e 283,6 bi de desembolso do governo (4% do PIB);

- 68 das 680 operadoras não têm faturamento anual que possa pagar 1 (uma) dose de Zolgensma, cuja dose custa 7,6 milhões de reais. O medicamento é indicado para bebês de até 6 meses de idade diagnosticados com Atrofia Muscular Espinhal (AME) tipo I. A ANS incluiu a medicação no Rol obrigatório desde fev/23;

- Terapias e tratamentos passaram a pesar mais nos custos dos planos depois da pandemia de Covid-19. Antes eram 2% dos custos totais, agora são 9%. Terapias de fonoaudiologia, psicologia, terapia ocupacional e fisioterapia. Essas terapias constam do Rol obrigatório da ANS para tratamento de Transtorno Global de Desenvolvimento (TGD) e Transtorno de Espectro Autista (TEA);

- A judicialização é responsável por 40% do déficit do setor nos últimos anos. São 973 queixas por dia;

- Reajustes são impagáveis: de 2018 a 2023, os planos individuais subiram 35% e os coletivos subiram 80%. Em geral, a classe trabalhadora está nos planos coletivos, atrelados a um CNPJ, por estarem empregados em uma empresa com possibilidade de adesão a um plano de saúde, que sobe a mensalidade sem controle da ANS, sobe conforme o comportamento dos custos do próprio plano;

- Idade e pacto intergeracional: o Brasil em 2022 atingiu 15,8% de pessoas com 60 anos ou mais. Na saúde suplementar o índice é de 14,3%. Quanto menor o número de jovens contribuindo, pior para o custeio intergeracional. Em 10 anos a faixa de 20-39 anos caiu 7,6% e a faixa de 60 anos adiante cresceu 32,6%;

Comentário do blog:

Acrescento a esses dados que nas autogestões em saúde os perfis das faixas etárias são bem diferentes das carteiras do mercado privado de planos de saúde que visam lucro. As autogestões concentram grandes quantidades de pessoas nas faixas etárias acima de 60 anos porque elas funcionam de forma diferente do mercado, elas não escolhem os participantes das carteiras.

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E AS AUTOGESTÕES EM SAÚDE?

Uma outra observação importante do Dr. Vecina nos ajuda a entender os problemas apontados na matéria sobre custos na saúde suplementar: o modelo de negócio.

A reportagem nos diz que o sanitarista explica que as operadoras se portam como meros intermediários entre os usuários do sistema e os prestadores dos serviços, sem nenhuma preocupação com a saúde básica e sem querer abrir mão de parte dos lucros.

Aí está um problema existencial, eu diria, central na vida das operadoras de planos, principalmente nas autogestões em saúde, que comento a partir de agora, tendo como base minha experiência na Cassi, mas que pode ser referência para várias outras autogestões em saúde.

RECEITAS LIMITADAS, DESPESAS ABERTAS - As autogestões têm características especiais quando observamos as operadoras de planos de saúde do mercado - medicinas de grupo, seguradoras e cooperativas médicas -, todas têm problemas parecidos nos usos dos recursos dos planos ao comprar serviços no mercado capitalista de procedimentos de saúde, mas têm diferenças nas possibilidades de receitas e públicos possíveis.

Autogestões não visam lucro, não podem escolher o público participante como os planos de mercado fazem, não escolhem as áreas geográficas de disponibilização do plano e são obrigadas a atenderem demandas em áreas sem prestadores disponíveis, e as receitas não podem ser equalizadas com as despesas assistenciais com a mesma desenvoltura dos planos de mercado. Probleminhas básicos esses, vocês não acham?

ATENÇÃO PRIMÁRIA E CONTROLE DE RISCOS É A MELHOR PERSPECTIVA DE LONGO PRAZO - Pelas características que citei acima, é muito importante para uma autogestão em saúde desenvolver um modelo assistencial cujos objetivos sejam a saúde integral de seus participantes e não a cura de sua população adoecida ao longo do tempo. 

O ponto positivo das autogestões é a possibilidade de manterem seus participantes no longo prazo, coisa difícil no mercado. Como os assistidos no sistema de saúde de uma autogestão podem ficar décadas no plano, a prevenção e a promoção de saúde trazem grande benefício tanto para a saúde das pessoas quanto no uso do recurso do plano na hora de comprar serviços na rede credenciada, que visa lucro com doenças.

Como as autogestões em saúde não escolhem seus públicos participantes como ocorre no mercado privado que visa lucro, elas têm em seus grupos de assistidos faixas etárias com idades maiores que as do mercado. E também podem ter segmentos com doenças pré-existentes, algo que não ocorre no mercado privado - ou ocorre menos. Como fazer para equilibrar carteiras de participantes assim sendo a inflação médica quatro ou cinco vezes mais que a inflação oficial anualmente?

A Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, a Cassi, completou 80 anos de existência em 2024. Durante as primeiras cinco décadas, o modelo era muito próximo daquilo que o Dr. Vecina explica na reportagem da revista: uma operadora que intermediava compras de serviços de saúde entre usuários e vendedores de serviços no mercado. 

A conta não fecha, é algo mais que claro! Não há receita em plano de saúde que aguente pagar todas as ofertas que a indústria da saúde tem disponível para eventuais clientes (pacientes) que possam pagar, ou os planos de saúde dos clientes, ou o governo/SUS que a justiça mande pagar. A conta não fecha!

A Cassi, os trabalhadores e o patrocinador Banco do Brasil chegaram a um acordo em 1995/96 e fizeram uma reforma estatutária cujo objetivo da Caixa de Assistência passava a ser outro, criar uma autogestão com CNPJ próprio, estrutura e modelo de saúde próprios para atuar na Atenção Integral à Saúde de seu público-alvo. 

Como a população assistida era muito estável e ficaria décadas dentro do sistema, seria possível atuar através de um modelo de Atenção Primária, e foi escolhido o modelo de Estratégia de Saúde da Família (ESF), para gerir a saúde de centenas de milhares de pessoas num país continental, estando o público assistido no sistema tanto na fase laboral quanto na fase de aposentadoria.

Quando fui gestor do sistema de saúde Cassi, desenvolvemos metodologias de estudos que comprovaram que o modelo ESF/CliniCassi era altamente eficaz em seus objetivos. O público monitorado pelo modelo que era fidelizado há mais de 3 anos tinha resultados extraordinários em diversas dimensões avaliadas, inclusive na questão das despesas assistenciais, até mesmo de faixas etárias maiores. Quase todas as faixas tinham curvas de despesas melhores em participantes vinculados ao modelo ESF em relação aos participantes soltos no sistema e na rede credenciada, sem monitoramento pelas equipes de família da Cassi.

Concluo assim essa postagem comentando a partir de dados atuais do setor de saúde a importância para os planos de saúde e a saúde suplementar, principalmente para as autogestões em saúde, em estabelecerem objetivos de atuarem na saúde efetiva de seus participantes ao longo do tempo e não só como intermediadores de compra e venda de serviços impagáveis da indústria de consultas, exames, procedimentos médicos, OPMEs e tratamentos de saúde.

William Mendes


Post Scriptum: o primeiro texto desta série, de apresentação, pode ser lido aqui.


7.2.24

História dos bancários: um olhar (XIII)



A questão da saúde dos trabalhadores e as autogestões em saúde

Memórias e contribuições para reflexão (I)


Gosto da ideia de me considerar uma pessoa de sorte. O cidadão que sou hoje é o resultado de um conjunto de veredas que foram aparecendo em meu caminho existencial ao longo das décadas de vida. O que sou é o resultado das oportunidades que a vida me presenteou e o fato de ter abraçado algumas delas. Posso dizer que tem um componente de sorte ou acaso nisso.

Se passei a maior parte de minha vida laboral trabalhando em uma instituição financeira, um banco público, isso não foi algo desejado ou planejado pelo adulto jovem das décadas de oitenta e noventa. As veredas foram surgindo e o trabalhador foi indo por uma ou outra trilha. É evidente que fui um em milhões de trabalhadores de nossa geração que trabalhou nos trabalhos que havia em nossa época. Não fui nem melhor nem pior que meus pares, talvez tenha sido bastante esforçado e focado.

Como trabalhador do setor bancário, as oportunidades de aprendizagem foram diversas, nas mais diferentes áreas dos saberes humanos. 

No Unibanco, nos anos oitenta, trabalhei em agência e departamento. À época, o trabalho bancário era praticamente manual, com pouca tecnologia. Trabalhávamos com muitos papéis, com calculadoras, cheques e ordens de pagamento, cartões de crédito, e numerário, muito dinheiro em papel e escritural. Em agência, aprendemos cedo a lidar com gente. E eu tive a sorte de dar atenção aos representantes de nossa categoria, os dirigentes sindicais.

No Banco do Brasil, dos anos noventa adiante, passei a maior parte de minha vida de trabalhador. Foram décadas de dedicação ao trabalho bancário e ao povo brasileiro. Tive convites para sair do banco e atuar na área de minha formação em contábeis. Preferi seguir no BB. Sempre me vi como um servidor público. Nunca me imaginei como empresário ou empreendedor disso ou daquilo. Sairia do banco público somente se fosse para outra área do Estado, por querer servir ao povo e ao meu país.

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A última função que exerci como trabalhador bancário foi ser gestor eleito de uma autogestão em saúde. A experiência de representar milhares de colegas de trabalho, da ativa e aposentados, em uma associação tão importante para a vida das pessoas me fez mergulhar na função e na área como nunca havia feito na vida, por mais intenso que havia sido em tudo que fiz. Foi um mergulho de quatro anos praticamente sem dormir. Achei que tinha que recuperar um tempo que não havia tido em relação ao conhecimento daquilo que era responsável a partir do dia da posse na função.

Quando terminei a missão, quatro anos depois, tive comigo um entendimento que se somou ao sentimento que já tinha da existência, a ideia de que tudo que sabemos temos que passar adiante. Quando criei meus blogs há quase duas décadas, tinha essa visão das coisas. À época, meados da primeira década dos anos dois mil, criei um blog de cultura e outro sindical, e passei a fazer um esforço extra na agenda cansativa dos dias de representação para escrever sobre cultura e sobre a luta de classes no mundo do trabalho.

Foi dessa forma que fui escrevendo, estudando, aprendendo, escrevendo, fazendo política nas bases sociais, fazendo novo curso acadêmico em Letras, escrevendo, organizando a classe trabalhadora no setor no qual trabalhava, estudando a história do Banco do Brasil, das associações e sindicatos, a história das conquistas de direitos e a história da autogestão em saúde na qual fui diretor de saúde. E assim, aos poucos, fui escrevendo tudo isso que aprendi no trabalho e na política. 

Após um período escrevendo memórias neste blog (estou editando agora as memórias em formato de livro), talvez eu siga escrevendo aqui um novo tipo de memórias, mais focado nas experiências dos quatro anos vividos como gestor de uma autogestão em saúde, a Cassi. 

Quando terminei a missão naquela associação focada em saúde, fiz diversos textos de balanços do mandato. Quem sabe agora, olhando de longe as centenas de textos que fiz no calor da gestão, possa deixar aqui algumas contribuições sobre a área, porque o que mais ficou em mim é o quanto nós todos desconhecíamos (desconhecemos...) as questões inerentes a um setor que lida diariamente com algo tão delicado: a saúde e a vida das pessoas.

Após compreender melhor as grandes questões do setor de gestão de saúde, do sistema de saúde, dos atores do setor de saúde, percebi que seria fundamental divulgar para as pessoas comuns, usuários dos sistemas de saúde, detentores de direitos e obrigações em relação aos sistemas de saúde que existem, que as pessoas, os trabalhadores e seus representantes precisam ter noções das coisas do setor. A repetição da expressão não é cacoete de linguagem, é proposital. As pessoas precisariam ter noções mínimas dos setores e sistemas de saúde para lidarem melhor com isso.

Enfim, talvez eu discorra sobre minhas memórias da época que atuei com gestão de saúde em nome da classe trabalhadora.

William Mendes


17.12.23

História dos bancários: um olhar (XII)



Sindicato é sindicato, partido é partido, governo é governo...

O ano em questão era o de 2008, o Banco do Brasil comemorava os seus 200 anos de história e o Brasil era governado pelo Partido dos Trabalhadores, o presidente Lula estava em seu segundo mandato. A ampla maioria das lideranças do movimento sindical cutista e de outras forças políticas definiu em nossos congressos de trabalhadores apoiar a reeleição em 2006. 

No entanto, as condições de trabalho no BB estavam muito ruins, a direção do banco vinha numa sequência de decisões monocráticas que prejudicavam o conjunto dos funcionários, além de estar reestruturando o banco através de terceirizações. As metas e o assédio moral eram institucionalizados da mesma forma que ocorria nos outros bancos, tínhamos até mesa com a Fenaban para tentar frear o abuso na forma de cobrança de metas.

Foi nesse cenário que fiz um artigo de opinião dizendo que o movimento sindical deveria endurecer as relações com a direção do Banco do Brasil. Posso até ter sido duro com o governo ao falar dos seis anos, mas o dirigente sindical está no calor dos problemas e com seus representados sofrendo, é natural que eu carregasse no tom.

CENÁRIO INTERNACIONAL - Além da direção do BB estar atuando pessimamente com o corpo de funcionários e no papel de banco público, vivíamos a maior crise do capitalismo desde 1929, com a crise do subprime e a quebra da economia mundial. 

Meses depois do artigo que fiz criticando a direção do banco - e muita gente sindicalista e de esquerda não gostou de minha crítica ao nosso governo -, ficou claro que o governo Lula cobrava dos bancos públicos uma liderança na redução das taxas de juros e do maior spread do mundo. 

Os bancos públicos tinham a obrigação de liderar o sistema financeiro na queda dos juros e o presidente do BB era o que mais dava entrevistas ao mercado dizendo que não iria seguir as instruções do governo, que iria seguir o mercado blá blá blá... foi demitido!

Como diz o ditado popular, o tempo é o senhor da razão! (isso serve para mim também, pois em relação ao comentário que fiz sobre a China, eu pensaria duas vezes para fazer a mesma observação hoje rsrs)

Enfim, segue abaixo o texto que fiz, se não me engano, em agosto de 2008, estávamos no início da campanha nacional da categoria bancária. Lima Neto foi demitido em abril do ano seguinte. 

William Mendes

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Artigo de opinião


EM RELAÇÃO AO BB, O MOVIMENTO SINDICAL CUTISTA DEVE ROMPER COM O GOVERNO LULA

São 6 anos de governo do Sr. Luís Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores. É inegável que o Brasil mudou para melhor. Não é preciso destrinchar dados para mostrar melhor distribuição de renda, diminuição da miséria, melhor inserção brasileira no contexto internacional, fortalecimento das instituições públicas (com exceção do Banco do Brasil), entre tantos outros pilares econômicos e sociais.

São 6 anos de governo Lula e também são 6 anos de desmonte do papel do BB enquanto banco público. São 6 anos de assédio moral e condições de trabalho idênticas ou piores do que os piores momentos dos governos anteriores.

Ao mesmo tempo, é revoltante ver que não há sequer condições idênticas de tratamento por parte das empresas cujo comandante é o mesmo governo, pois se no BB tudo vai de mal a pior, na Caixa Federal percebemos nesses 6 anos que ocorreram avanços, com muita luta é verdade, mas as diferenças são substanciais.

Para ficarmos em alguns exemplos, basta lembrarmos que a Caixa executa programas sociais e é agente do governo no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Além disso, teve negociações do PCS que puderam ser apreciadas pelo corpo social e contratada em acordo. Vem reduzindo a terceirização ano após ano, por força de acordos com o ministério público. Tinha uma força de trabalho de mais de 100 mil trabalhadores em 2002, onde metade era de terceirizados, e hoje os bancários concursados chegam a 75 mil. É evidente que estão sobrecarregados ainda, pois são necessários cerca de 120 mil trabalhadores para as demandas atuais.

O BB, ao contrário, vem lançando pacotes de DESestruturação todos os anos. Enxuga aqui, terceiriza ali, centraliza e descomissiona acolá. Só para lembrar alguns casos: centralização das Eqesps, que viraram Nucacs, que foram incorporadas pelas Geries, que viraram Gerel, que viraram SCO e SCL. Todas elas com movimentações compulsórias de trabalhadores e suas famílias.

Além disso, vieram as centralizações das Corporates e das Empresariais. Também centralizaram-se as Gecex. Agora está centralizando, terceirizando, enxugando e dispensando de novo as pessoas da mesma Gecex. Demissões em massa de advogados das Ajures. Reestrutação de URRs e por aí afora.

Em 2003, chegamos a exigir a nomeação de mais de 5 mil caixas executivos. Achávamos que era uma vitória perene. Mal sabíamos que o banco logo mais viria a não querer mais atender à população, e acabar de vez com os caixas, inclusive terceirizando o processamento dos envelopes de autoatendimento, para a Cobra, que quarteirizou, e hoje existe regime de quase escravidão para o tal setor. Aos caixas sobreviventes, sobra a opção de ser caixa volante: um dia aqui, outro ali, onde precisar... (e o banco sabe que nós sempre fomos contra part-time e contratações sazonais!)

Para não passar em branco, não vamos esquecer que o BB faz concurso extorquindo a população, pois não chega a chamar mais que 10 ou 20% dos aprovados, ludibriando as pessoas com concursos que não prometem vagas e sim “quadro de reservas”. E olha que só em 2007 dispensou mais de 7 mil bancários no auge de suas carreiras para ficarem recebendo em casa por até 10 anos, além da bolada que pagou a eles para aliviar passivo trabalhista. Custo este que ficou na casa de ½ bilhão só no primeiro ano.

É bom saber que o plano foi feito para um conjunto de altos executivos (feito por eles mesmos). Mas, para darem uma capa de transparência, tiveram que estendê-lo a outros funcionários, o que acabou retirando do corpo funcional 5 mil pessoas a mais do que o planejado pela diretoria.

Dessa vez o BB chutou o pau-da-barraca: o LIC que trata da reestrutuação da Gecex (“LIC PAQ GECEX”) é idêntico às instruções que nós enfrentamos na época do PDV/PAQ entre 1995/97. O que é pior, ele diz que não reconhece direitos dos bancários, cipeiros, delegados sindicais (então o banco quer dizer que o contrato com a Contraf-CUT não existe?!).

Penso que o movimento sindical CUTista deve romper com o governo federal em relação ao Banco do Brasil e não deve mais haver negociações com essa diretoria que aí está. Essa diretoria, a começar pelo seu presidente Sr. Lima Neto e incluindo toda a sua cúpula, está envergonhando a todos nós que queríamos mudanças no banco, tanto de diretrizes quanto de tratamento ao corpo funcional.

De que adianta mostrarmos boa vontade em negociar com o banco, sendo que coisas básicas como respeito às leis trabalhistas, condições de trabalho, dignidade humana e não terceirização dos serviços bancários o banco prefere dizer que não negocia e que busquemos a justiça?

Nesse período de (des)comemoração de 200 anos do BB, devemos exigir do Governo Federal a troca desses senhores que, além de não mudarem os rumos da empresa Banco do Brasil a partir de 2003, fizeram foi piorar as condições internas e externas da empresa que, hoje, pouco tem de coisa pública.

O BB está para público, assim como a China está para comunista; ambos gigantes por natureza, antidemocráticos, com alguns mais iguais que os outros, e em função de interesses privados e, às vezes, escusos.

William Mendes

Secretário de imprensa da Contraf-CUT

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Post Scriptum - O texto anterior desta série pode ser lido aqui.