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22.1.26

Memórias da CASSI (17) - Resistência criativa



RESISTÊNCIA CRIATIVA

Ao conhecer o povo cubano em duas visitas ao país, soube de uma ideia que fortalece o espírito de cada cidadão da ilha caribenha para lidar com as dificuldades materiais oriundas de um bloqueio criminoso promovido pela maior potência bélica do mundo. O povo cubano dribla as dificuldades com uma espécie de resistência criativa. 

Eles têm espírito de pertencimento a suas tradições e a sua história de lutas por liberdade, por sua cultura e pelo direito de construir seu destino.

Olhando para trás e refletindo sobre a teimosia do funcionalismo do Banco do Brasil em criar e manter uma Caixa de Assistência solidária para promover saúde, prevenir doenças e cuidar das pessoas que necessitam de atenção à saúde, concluo que há uma resistência criativa de cada geração que manteve a CASSI cuidando de centenas de milhares de pessoas em um ambiente capitalista que lucra com a doença e que não facilita a sobrevivência de um modelo preventivo e solidário de Atenção Integral à Saúde.

Quando me integrei à direção da CASSI, em 2014, eleito pelos associados, tivemos que desenvolver uma resistência criativa para manter os direitos do Corpo Social, para desfazer mal-entendidos e mentiras sobre a CASSI, tivemos que construir um sistema de dados que provasse a eficiência do modelo assistencial de Estratégia de Saúde da Família (ESF) e também foi necessário criar um movimento nacional que cobrasse do patrocinador a sua responsabilidade no déficit do Plano de Associados. Teríamos que unificar o nosso lado com consensos e mobilização. Fizemos isso.

Estava em curso um processo de normalização das teses defendidas pelo patrocinador, o patrão dos funcionários do Banco do Brasil. Detalhe: pelas características do sistema, o patrocinador tinha muita capacidade de comunicação centralizada de suas ideias, tinha alcance nacional e milhares de multiplicadores.

Do nosso lado, era o inverso: duas centenas de entidades representativas dos associados, comunicação descentralizada, muita desinformação e desconhecimento sobre sistemas de saúde e autogestões. 

Se dizia que a CASSI tinha um modelo assistencial que não funcionava, que os associados - funcionários da ativa e aposentados e seus dependentes - eram "gastadores" dos recursos da CASSI, que o Banco já tinha colocado recursos demais naquela operadora de saúde e que qualquer solução naquele momento seria com ônus somente para o lado dos Trabalhadores. Era como se o patrão fosse uma vítima e o vilão fosse o funcionalismo do Banco. 

Ou seja, era necessário ter muita resistência criativa para reverter esse cenário que se apresentava em 2014.

PROVAR QUE A ESF É EFICIENTE E EFICAZ 

Desde as primeiras reuniões com as gerências e funcionários técnicos da Diretoria de Saúde, pedimos informações sobre o funcionamento do modelo de Atenção Integral à Saúde, baseado em Atenção Primária (APS) e que na CASSI era executado através da Estratégia de Saúde da Família (ESF) e das unidades próprias de saúde, as CliniCASSI. 

Eu pedi aos profissionais de nossa diretoria que criássemos um sistema que demostrasse que os participantes cadastrados no modelo tinham melhores condições de saúde e melhor uso dos recursos da CASSI na rede credenciada. 

Me explicaram que seria difícil alcançar esses objetivos porque era difícil planilhar despesas de saúde que não ocorreram por gestão do sistema, não realizadas por terem sido evitadas e além disso nossos bancos de dados só continham parte das informações dos mais de 600 mil participantes do sistema. Muitas informações estavam na rede credenciada. 

A ideia de criar um sistema que demonstrasse os resultados em saúde e econômico-financeiros dos participantes cadastrados na ESF era central para nossos objetivos de defesa da CASSI e dos direitos dos funcionários do BB. 

Resistência criativa foi o que fizemos e deu certo, nós desenvolvemos um sistema novo de dados que demonstrou o acerto da ESF e das CliniCASSI. Sou grato aos profissionais da CASSI e a nossas equipes gerenciais. Naquele momento da história da CASSI conseguimos unidade no Corpo Social para as negociações com o patrocinador.  

William Mendes 

16.1.26

Memórias da CASSI (16) - Uma história da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil



UMA HISTÓRIA DA CAIXA DE ASSISTÊNCIA DOS FUNCIONÁRIOS DO BANCO DO BRASIL

Ao iniciar o livro Memórias da CASSI, uma produção textual que vai durar bastante tempo, com publicações regulares no blog, e que exigirá de mim muita disciplina e persistência, refleti sobre diversas questões, tanto de ordem pessoal quanto de ordem coletiva e pública. 

A CASSI é a Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil e no mês de janeiro de 2026 completa 82 anos de existência. Segundo seu estatuto, ela é uma instituição de assistência social, sem fins lucrativos, constituída em assembleia em 27/01/44.

Formalmente, neste momento da história, a CASSI é uma operadora de saúde registrada na ANS, na modalidade de autogestão. Se não for a mais antiga do país é, sem dúvida, uma das primeiras nessa área. É um dos maiores patrimônios dos trabalhadores do BB, assim como a nossa Caixa de Previdência, a PREVI.

A história da nossa Caixa de Assistência foi feita através do cotidiano e da história de milhares e milhares de pessoas da comunidade Banco do Brasil, tanto do segmento de funcionários da ativa quanto de colegas do banco que seguiram como associados da Caixa após seu período de vida laboral. E também através dos trabalhadores da própria CASSI, que sempre estiveram ao lado dos associados na gestão e funcionamento da instituição.

Eu tive a oportunidade e o privilégio de ser um dos gestores de nossa Caixa de Assistência, eleito pelos associados para o período de junho de 2014 a maio de 2018. Integrei a gestão juntamente com um grupo de associados eleitos comigo em uma chapa, mais os indicados pelo patrocinador Banco do Brasil, e também com associados e indicados eleitos e indicados dois anos antes e dois anos depois que cheguei, ou indicados a qualquer tempo como é permitido ao patrocinador. Tudo isso é regido pelo estatuto da CASSI. 

Para vocês terem uma ideia a respeito da democracia e alternância de poder em nossa operadora de saúde, durante um mandato na gestão, trabalhei com quatro presidentes e dois diretores financeiros, indicados pelo patrocinador BB, e com dois diretores eleitos pelos associados, um diretor e uma diretora, e diversos conselheiros deliberativos e fiscais. Esse poder político do Corpo Social é fundamental para a CASSI, que é dos associados.

Decidi escrever Uma história da CASSI porque entendo que a história deve ser contada, registrada, interpretada, sistematizada e passada adiante para as demais gerações de pessoas que pertençam a qualquer "comunidade imaginada" como ensina Benedict Anderson. A ideia de pertencimento é uma construção, uma abstração humana. Eu compreendo isso perfeitamente e por esse motivo trabalhei arduamente para criar espírito de pertencimento nos associados e participantes da CASSI ao longo do mandato. Foram 170 agendas nas bases sociais da Caixa de Assistência, aproximando os donos da operadora ao seu dia a dia.

A ideia de escrever Memórias da CASSI é um critério que defini para contar "Uma história da CASSI". É um pacto que faço com as pessoas que vão ler os textos que farei de forma cotidiana, à medida que vá lendo, relendo e relembrando o que sei sobre a CASSI, textos publicados em capítulos em meu blog da mesma forma que mantive um diálogo permanente com o leitor do blog durante os quatro anos nos quais estive na gestão da nossa Caixa de Assistência. 

Fizemos para os associados e seus representantes mais de seiscentos textos e 41 boletins Prestando Contas CASSI. Impossível alegar desinformação sobre o que fizemos pela Caixa de Assistência naqueles quatro anos.

Os textos dessas Memórias já publicados no blog estarão em constante aperfeiçoamento, por ser uma história em construção, com capítulos que vão sendo burilados na medida em que os estudos e leituras de documentos forem se realizando, e muitas informações irão surgir também ao sabor da memória do escritor, que muito estudou sobre o tema em desenvolvimento durante seu período de diretor na autogestão dos funcionários do BB.

Defini alguns critérios de referência para os textos e as memórias que vou contar sobre a CASSI, não são amarras e proibições, mas são a linha mais geral dos textos: as Memórias da CASSI são memórias, então não se tratam do presente, se tratam do passado. Pretendo escrever sobre nossa Caixa de Assistência para terminar as Memórias com os documentos produzidos por nossa gestão apresentando uma prestação de contas do que foi possível realizar na Diretoria de Saúde e Rede de Atendimento ao final de nossa gestão.

Enfim, as Memórias da CASSI serão escritas respeitando as possibilidades da pessoa que está sistematizando o que sabe e o que tem de informação sobre esse grande patrimônio do funcionalismo do BB

William Mendes 

15.1.26

Memórias da CASSI (15) - Modelo assistencial preventivo como solução para déficits



MODELO ASSISTENCIAL PREVENTIVO COMO SOLUÇÃO PARA DÉFICITS

Ao estudar a história da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil é fácil identificar algumas características permanentes na existência da instituição de assistência social e sem fins lucrativos, como define seu estatuto. 

A participação política dos associados e de suas entidades representativas é uma constante na história da autogestão em saúde. Não haveria CASSI sem os sindicatos e associações dos funcionários do Banco do Brasil. 

Aliás, sem a participação dos sindicatos dos bancários não haveria sequer direitos coletivos de saúde e previdência na comunidade Banco do Brasil ou de trabalhadores de outro banco público ou privado, qualquer pessoa minimamente esclarecida sabe disso. 

Narrativas antissindicais visam benefícios pessoais ou patronais, nunca visam os direitos coletivos dos trabalhadores. 

Nos anos noventa havia na comunidade BB o "Movimento Nacional de Saúde e Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil". A informação histórica está em documentos sindicais como, por exemplo, O Espelho, Edição Nacional, Janeiro/1996.

Lendo diversas matérias sindicais e associativas dos anos noventa, percebe-se que a CASSI era identificada mais claramente como uma Caixa de Assistência, uma conquista e patrimônio dos trabalhadores do BB. 

Na matéria que citei aqui, de O Espelho, Joilson Rodrigues Ferreira, Diretor Deliberativo eleito da CASSI e um dos coordenadores do Movimento Nacional de Saúde e Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil, aborda as questões da Caixa em 1995 e perspectivas para 1996.

Além de falar sobre o déficit do período, Joilson destaca que a reforma estatutária em debate possibilitaria "um novo modelo de assistência que privilegie a prevenção das doenças, criando um sistema mais saudável e de menor custo, retomando o pioneirismo histórico da CASSI e dos funcionários do BB".

Ou seja, quando cheguei eleito à CASSI em 2014, havia uma história coletiva que apontava o caminho para a sustentabilidade econômico-financeira do Plano de Associados e o modelo assistencial era a base da solução: a Estratégia de Saúde da Família (ESF) havia sido definida tecnicamente pela direção da CASSI como o modelo a ser implantado para o sistema.

Após a Reforma Estatutária de 1996, a direção da CASSI estudou modelos de Atenção Primária à Saúde entre os anos de 1996 e 2001 e a Estratégia de Saúde da Família (ESF) foi o modelo definido como o mais adequado às características da Caixa de Assistência. Ele foi lançado em 2003 e já era para estar totalmente implantado mas, infelizmente, o modelo cobria menos de 30% do público-alvo em 2014. 

A execução do modelo incluía diversas características como gestão regionalizada, unidades de atendimento locais - CliniCASSI - com equipes de família multidisciplinares e programas de saúde adequados aos perfis dos participantes. 

Quando me integrei à direção da CASSI, um de meus objetivos como diretor de saúde era desenvolver estudos que comprovassem a eficácia do modelo ESF não só do ponto de vista dos resultados em saúde, como também do ponto de vista do uso dos recursos da CASSI. Felizmente, com o apoio técnico dos funcionários da operadora, demonstramos a eficiência e eficácia da ESF e das CliniCASSI. 

Ao longo dessas Memórias da CASSI vou aprofundar essa história coletiva do funcionalismo do BB oriunda da mobilização pela pauta da saúde. 

William Mendes 

5.3.25

Artigo: E o "Bem Cassi" terceirizado, lá de 2020? Deu em quê?


Apresentação do blog:

Escrevi sobre o plano "Bem Cassi", modelo de terceirização da atividade-fim da Caixa de Assistência (Cassi), faz mais de 4 anos (em 09/12/20). Como está o plano na atualidade? E o projeto? Ao reler o que escrevi em 2020 me parece que as preocupações que apresentei seguem atuais.

William


"Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo." (ROSA, 2001, p. 32/33)


OPINIÃO


A Cassi apresenta projeto que claramente visa terceirizar o que a Caixa de Assistência tem de melhor, a Atenção Primária e a Estratégia de Saúde da Família, desenvolvidas através das CliniCassi, essência do modelo assistencial que possibilitou o menor custo assistencial de participantes vinculados à ESF em graus complexos de necessidades mesmo nas maiores faixas etárias. Ao invés de ampliar o modelo próprio, de baixo investimento e de bom custo-benefício, direção opta por terceirizar a atividade-fim da Cassi, uma triste escolha ideológica


Terceirização é uma praga! O capitalismo parece invencível, mesmo sabendo que a vida é a grande derrotada com a vitória do modo de produção capitalista, cujo foco absoluto é o lucro e a mais-valia dos explorados em benefício de pouquíssimos humanos. Com a hegemonia do capitalismo neoliberal tudo na sociedade humana gira em torno desse sistema de acumulação de tudo nas mãos de poucos. A terceirização faz parte dessa lógica.

Sinceramente, eu não sei como começar esse artigo. Perdi o jeito para tratar de assuntos mais técnicos como fiz ao longo de muitos anos ao falar de saúde e de sistemas de saúde como gestor eleito de uma autogestão dos trabalhadores, enfim, enquanto meu lugar de fala foi como diretor de saúde da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil (jun/2014 a mai/2018) escrevi mais de 600 textos a respeito dos temas de interesse dos trabalhadores na área de saúde. Aliás, eu tinha um público preferencial como leitor: os formadores de opinião, lideranças e representantes dos associados da Cassi, trabalhadores da ativa e aposentados do BB.

RESPEITO A OPINIÃO DE QUEM PENSA DIFERENTE

Em primeiro lugar, quero registrar que minha opinião sobre esse processo de terceirização da atividade-fim da Cassi é uma opinião respeitosa, feita no plano das ideias. Eu conheço parte dos colegas que estão na gestão de nossa Caixa de Assistência, e respeito a opinião deles. Sou defensor ardoroso da ampliação da ESF para o conjunto dos participantes Cassi, todos sabem disso. 

A questão de minha divergência é quanto à estratégia adotada de terceirizar a essência da Cassi. Vejo com muita preocupação isso, tanto no presente quanto no futuro. A epígrafe inicial, do personagem Riobaldo Tatarana, traz sabedoria e um alerta aos defensores da APS/ESF na Cassi: "Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar".

NÃO SE ABRE À CONCORRÊNCIA O QUE SE TEM DE MAIS PRECIOSO

Certa vez, ainda jovem, quando participava de estudos sobre autoconhecimento, aprendi que os seres humanos seriam julgados nos finais dos tempos ou no dia do julgamento final - dependendo de como cada um vê essas questões metafísicas - os humanos seriam julgados de acordo com o conhecimento que tinham, de acordo com o que fizeram ou que não fizeram quando poderiam ter feito. Os mestres diziam aos estudantes que quanto mais conhecimentos adquiríamos, maior seria o peso do julgamento de nossos erros porque não poderíamos alegar ignorância ("não-saber", no sentido respeitoso) e desconhecimento das coisas. Nesse sentido, ignorância seria uma benção!

Sinto que tenho que registrar minha opinião sobre o projeto de terceirização da atividade-fim da Cassi, o "Bem Cassi", piloto lançado em Curitiba (PR) nesta conjuntura de "novo normal" do mundo sob pandemia de Covid-19 e sob a fase capitalista atual, que muitos intelectuais chamam de necrocapitalismo. Eu não tenho informações detalhadas e "técnicas" a respeito do projeto "Bem Cassi"; a informação que tenho é a propaganda do lançamento dele, que vi hoje em um vídeo de 4 minutos e que li no hotsite do projeto. A Cassi vai ampliar a APS/ESF através de duas empresas terceirizadas. De novo, cito Riobaldo Tatarana do Grande Sertão: Veredas: "Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa". (ROSA, 2001, p. 31)

MINHA OPINIÃO RESPEITOSA É BASEADA NO CONHECIMENTO ADQUIRIDO POR EXPERIÊNCIA NA GESTÃO DA CASSI

Durante 4 anos, eu tive a oportunidade de conhecer a autogestão dos funcionários do Banco do Brasil, a Cassi. Estudei sua história de quase oito décadas. Quase não dormi por 4 anos, pois tive que intercalar os percalços da escolha das estratégias que adotamos no planejamento do mandato: estudar as questões técnicas do sistema Cassi, participar dos fóruns deliberativos internos (milhares de súmulas, notas e documentos), estar nas bases formando e informando os participantes. Em síntese, seria:

1. Estudar a Cassi (tudo: história, processos, pontos fracos, pontos fortes, desafios, soluções, essência da associação, modelo assistencial, modelo de custeio, responsabilidades de cada um: os associados, o patrocinador, a própria Cassi e seu corpo de profissionais, os "parceiros" no mercado privado que vendem serviços caríssimos e nem sempre adequados etc). 

2. Manter os direitos dos associados: solidariedade no custeio entre participantes jovens e idosos, sãos e adoecidos, de baixa renda e com remuneração/benefícios maiores, da ativa e aposentados (ex-colaboradores segundo o patrão) e com o patrocinador assumindo a parte dele na proporção estatutária 40/60 no custeio do plano para todos (ativos e aposentados), enfim: solidariedade plena para todos poderem estar no Plano de Associados por toda a vida. 2.1. Manter a democracia na associação: pesos iguais na gestão entre patrocinador BB e associados para tomada de decisões; aumentar a participação dos associados através de envolvimento nos conselhos de usuários, sindicatos, associações, conferências de saúde, parcerias entre unidades do BB nos Estados e Unidades Cassi/CliniCassi (PCMSO, ESF, Convênios, canais de solução locais).

3. Informar e formar a base associada com conceitos básicos sobre a Cassi, o que era a Caixa de Assistência, seu modelo assistencial, os direitos em saúde maiores que os de planos de saúde de mercado, e buscar colocar os intervenientes do sistema Cassi no mesmo objetivo: fortalecer a Cassi perante o mercado privado prestador de serviços e consumidor dos recursos da Caixa. Fizemos mais de 600 matérias a respeito, mais de 40 boletins mensais; 53 conferências de saúde que contaram com milhares de associados, 65 reuniões presenciais com os conselhos de usuários e dezenas de visitas às unidades Cassi e CliniCassi e entidades representativas nos Estados.

DIVERGÊNCIA ENTRE CAPITAL E TRABALHO É NORMAL QUANDO SE TRATA DE DEFINIR AS RECEITAS E AS FORMAS DE RATEIOS DA ASSISTÊNCIA MÉDICA DE UMA COLETIVIDADE

Como representantes dos trabalhadores, tivemos que defender a Cassi e os direitos dos associados diuturnamente, ora porque chegavam propostas "técnicas" (e políticas) que de alguma forma eram desfavoráveis aos associados (principalmente querendo onerar mais os associados e dependentes e/ou reduzir os recursos e custos que o patrocinador tinha obrigações de investir), ora porque as propostas eram prejudiciais à essência do que era a Caixa de Assistência - uma autogestão de trabalhadores, baseada na Atenção Integral à Saúde, cujo modelo assistencial se desenvolvia através de unidades próprias de Atenção Primária em Saúde (APS) e Estratégia de Saúde da Família (ESF), com programas de saúde que se adequavam às estratégias do modelo. Junto a esse modelo de Atenção à Saúde dos associados, tínhamos um convênio exitoso de saúde do trabalhador (PCMSO) que atuava na saúde de 100 mil funcionários do Banco do Brasil. Os dois sistemas convergiam na busca de saúde coletiva da comunidade BB em todo o território nacional.

Para defender a Cassi e seu modelo assistencial, tivemos que desfazer uma quantidade absurda de mal-entendidos, desinformações e ignorâncias (não-saberes), lugares comuns e, às vezes, até mentiras (fake news). O próprio patrocinador, através de alguns de seus representantes à época, contribuía para desinformar os participantes da ativa e aposentados (e suas entidades representativas) quando sugeria que o modelo assistencial da Cassi não era eficiente, que as Unidades Cassi e CliniCassi não atendiam seus objetivos, que a estrutura da Cassi era cara e onerosa etc. Inclusive, o patrocinador atuou fortemente na desconstrução dos direitos estatutários dos associados na gestão da associação, dizendo que a autogestão não tinha mecanismos de decisão adequados. Lógico que aqui estamos falando que a "grita" do banco era quando a Cassi não aprovava as propostas mais favoráveis ao patrão/patrocinador e contrárias aos interesses dos associados.

CONSEGUIMOS UNIR A COMUNIDADE BANCO DO BRASIL NA DEFESA DO MODELO ASSISTENCIAL, DA ESTRUTURA PRÓPRIA DE SAÚDE E DOS PROFISSIONAIS DA CASSI. PROVAMOS QUE A ESF REDUZ O CUSTO DO SISTEMA, MESMO COM POPULAÇÃO MAIS IDOSA

Por 4 anos, mesmo sem recursos financeiros e materiais adequados, fomos grandes incentivadores dos profissionais da Cassi, principalmente das áreas de saúde, para que seguissem atuando naquilo que mais tinham perfil para atuar: desenvolver estratégias para ampliar o modelo de saúde APS/ESF, a promoção de saúde e prevenção de doenças, o acompanhamento dos participantes crônicos, a recuperação dos pacientes adoecidos e agravados etc. Basta ver que ampliamos em mais de 20 mil o número de cadastrados na ESF. A Cassi desenvolveu estudos nunca feitos nos planos de saúde que apresentaram resultados das vantagens do modelo de APS/ESF numa população relativamente estável ao longo do tempo no Plano de Associados e nos crônicos do Cassi Família. Colocamos todos os intervenientes na mesma direção para defender o modelo assistencial da Cassi.

Além disso, também desfizemos os mal-entendidos e as bobagens que se falavam da estrutura de saúde da Cassi, Unidades Cassi, CliniCassi, quadro próprio de profissionais do sistema de Atenção Primária/ESF e PCMSO. O custo administrativo da estrutura Cassi era o menor do setor de saúde brasileiro, em relação às empresas similares de autogestão, das medicinas de grupo e das cooperativas médicas. Uma estrutura absolutamente eficiente ao se comparar o custo-benefício. E isso com a Cassi tendo a maior quantidade de idosos do setor no país! Os recursos do sistema Cassi (mais de 90%) são gastos nos prestadores através das internações, e grandes despesas assistenciais com materiais, exames etc. Os recursos são gastos na estrutura de 2º e 3º graus e de apoio na rede privada.

A estrutura de Atenção Primária da Cassi, com quase 150 equipes de família nas 66 CliniCassi e 27 unidades Cassi, e a estrutura de medicina do trabalho (PCMSO) era e é muito barata e deveria ser ampliada ao longo dos anos para poder reduzir o custo assistencial na compra de serviços de saúde na rede prestadora daquilo que não era possível fazer na estrutura primária da Cassi. A direção e os associados poderiam avaliar diversas formas de verticalização ou parcerias para atendimento das demandas de segundo e terceiro graus e estruturas de apoio à saúde. Isso é normal e faz parte das estratégias de gestão.

A autogestão Cassems dos servidores de Estado do Mato Grosso do Sul, por exemplo, é um caso exitoso de verticalização própria de hospitais pequenos e médios nos interiores do Estado, e também laboratórios e clínicas, inclusive de Atenção Primária. Nós propusemos ampliar a estrutura própria da Cassi de Atenção Primária e ampliar os serviços nas CliniCassi, inclusive criando estruturas para especialidades, para dar sequência no atendimento primária da ESF. O investimento era baixíssimo, se comparado com o custo assistencial dos participantes na rede privada em serviços similares. A estrutura própria de saúde da Cassi é eficiente e de baixo custo administrativo. Isso é fato.

A TERCEIRIZAÇÃO É GRANDE RESPONSÁVEL PELA CONCENTRAÇÃO DE RECURSOS A POUCOS E PELA EXCLUSÃO DO ACESSO A DIREITOS POR PARTE DA CLASSE TRABALHADORA 

Tem uma reflexão do historiador Eric Hobsbawm, contida no livro A era dos extremos, que ilustra bem o que estamos vivendo neste momento da história humana em relação à superexploração do trabalho através de terceirização, quarteirização, uberização, privatizações transformando direitos em serviços etc:

"(...) De qualquer modo, o custo do trabalho humano não pode, por nenhum período de tempo, ser reduzido abaixo do custo necessário para manter seres humanos vivos num nível mínimo aceitável como tal em sua sociedade, ou na verdade em qualquer nível. Os seres humanos não foram eficientemente projetados para um sistema capitalista de produção. Quanto mais alta a tecnologia, mais caro o componente humano de produção comparado com o mecânico." (HOBSBAWM, 2006, p. 404)

Já estamos superando até os cabeças de planilha do sistema capitalista, aqueles que planilham tudo para cortar custos diariamente e aumentar os resultados das empresas (tudo é empresa, e tudo visa eficiência operacional "em tese"). Os próprios trabalhadores são destacados para direcionar os clientes/usuários aos novos serviços tecnológicos que irão cortar os postos de trabalho deles mesmos. 

Um exemplo disso no setor de saúde é a panaceia chamada de "telemedicina", que virou uma espécie de "Emplasto Brás Cubas" para curar todos os males da humanidade. Uma coisa seria a telemedicina auxiliar os processos de saúde durante a crise humanitária da pandemia de Covid-19 ou como sequência de um atendimento já com histórico do paciente; outra coisa é substituir o acolhimento presencial das pessoas por "telemedicina" como começa a surgir no mercado dos serviços de saúde.

Nos bancos, os bancários foram obrigados a empurrar os clientes para terminais de autoatendimento, serviços telefônicos e terceirizadas ao lado do banco. Os trabalhadores com direitos trabalhistas coletivos históricos são demitidos e convidados a serem eles mesmos "empresas" e isso deu nos uberizados do mundo. Os donos de tudo ficam mais bilionários e os trabalhadores mais miseráveis e sem nada. Como diz Hobsbawm, os trabalhos dos seres humanos estão ficando mais caros que qualquer processo por máquina e até os centavos gastos com uberizados têm que ser reduzidos... 

A INTENÇÃO PODE SER BOA, MAS TERCEIRIZAÇÃO DA ATIVIDADE-FIM DA CASSI É UMA OPÇÃO RUIM E TALVEZ SEM VOLTA, CASO SE ABRA MÃO DA ESTRUTURA DE SAÚDE DA CAIXA DE ASSISTÊNCIA

Durante 4 anos de mandato fizemos "loonngos" debates com as representações do patrocinador/patrão contestando e refazendo cálculos de planilhas sobre as Unidades Cassi, as CliniCassi (eram eficientes ou não?), o quadro de profissionais da Cassi (eficientes e preparados ou não?); apresentávamos outro ponto de vista e em muitos casos convencemos os colegas com argumentos consistentes como a eficiência da ESF, como o baixo custo administrativo da Cassi, dentre outros. Discordei de todas as propostas nas quais o Banco poderia deixar de custear os aposentados, ou cobrar mais de quem usasse mais o sistema Cassi, quebras de solidariedade, redução de direitos em saúde etc. 

No entanto, a hegemonia do capital e do mercado é uma praga! É sempre assim! Enquanto se veem com maus olhos qualquer investimento em estrutura própria (ou despesa administrativa), que poderia trazer economias importantes de milhares e milhões de reais em despesa assistencial na compra de serviços caros na rede privada, o foco das discussões acaba sendo repetidamente desviado para o custo administrativo e as supostas vantagens em contratar ou fazer fora o que se poderia fazer na própria autogestão. E daí vem a solução mágica do mercado: TERCEIRIZAÇÃO, com os nomes mais perfumados possíveis.

Por 4 anos, ouvi dos mais diversos setores, dirigentes e profissionais da Cassi que tínhamos razão em quase tudo que discutíamos sobre ampliar a APS/ESF e a estrutura de saúde do modelo assistencial Cassi. A questão era a época errada para aquela discussão: não tínhamos recursos na Caixa por causa dos déficits recorrentes e subfinanciamentos do sistema. E agora? A escolha por terceirizar a atividade-fim do modelo assistencial da Cassi é por falta de recursos? Não me parece.

É isso! Para quem está fora dos debates há mais de dois anos, já fiz o registro respeitoso do que penso sobre esse projeto "Bem Cassi" de terceirização da Cassi naquilo que é a essência da autogestão. A tendência lógica desse "modelo" é vermos depois do piloto as planilhas de "eficiência operacional", depois as comparações com a estrutura interna de saúde da Cassi, depois as dificuldades de investimento próprio, depois a opção em expandir a terceirização e reduzir os "custos" da estrutura da "empresa" etc. 

Eu não culpo as representações dos associados por às vezes apoiarem iniciativas que podem não ser tão ideais para os trabalhadores (TERCEIRIZAÇÃO não é boa para os trabalhadores) porque certas áreas de conhecimento precisariam da assessoria técnica e de dirigentes eleitos com visões de mundo próximas ao mundo do trabalho, dirigentes que dialogassem com os sindicatos, associações e conselhos de usuários e que, se necessário, se colocassem contra os interesses do capital, do patrão. É uma questão de lado, e nesse sentido não tenho visto isso acontecer na Cassi. E repito: respeito os colegas que temos lá, conheço muitos deles. 

Aproveito para reafirmar meu grande apreço pelos trabalhadores da Cassi, que além de serem muito dedicados à autogestão, cumprem suas tarefas com muito profissionalismo.

Esta é minha opinião sobre o "Bem Cassi". Finalizo meu registro com mais uma reflexão do personagem Riobaldo Tatarana, contida no Grande Sertão: Veredas: "pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte" (ROSA, 2001, p. 24)

Abraços a tod@s e desejo uma Cassi fortalecida em seu modelo assistencial, sustentável e com uso racional dos recursos, solidária em seu custeio do Plano de Associados, longeva e que seja para o conjunto dos trabalhadores da ativa e aposentados e seus dependentes.

William


Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos - O breve século XX, 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 19ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.


22.8.23

Cassi (III)



Opinião

Reflexões de um associado da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil


Os planos de saúde Cassi Família sofreram reajuste neste mês de agosto de 14,25%. Para mim que decidi investir na saúde de minha família assim que tive recursos financeiros para isso percebo que o montante investido apostando numa perspectiva de maiores chances de conseguir um atendimento médico está cada dia mais pesado no orçamento familiar. 

Falei "perspectiva" de atendimento porque investir altos valores num plano de saúde não é certeza de conseguir um atendimento médico e a solução em saúde na hora em que o participante do sistema Cassi mais precise, participante ou "cliente", já que a direção da Cassi insiste em chamá-la de "empresa" (de mercado, por suposto).

Minha mãe de 76 anos já teve que se virar com seus chás por não conseguir resolver seus problemas imediatos de saúde porque ela, que nem sabe mexer direito em celular, teve que tentar um atendimento por "telemedicina" e acabou não dando certo.

É sempre importante fazermos algumas reflexões sobre as coisas na sociedade humana, enquanto ainda existem seres humanos com capacidade de parar e pensar a respeito das informações ininterruptas que recebemos sobre tudo e todos a cada instante da vida plugada nas diversas formas de mídias que nos capturaram para todo o sempre. Sem reflexão, a inundação de informações (verdadeiras e falsas) não é nada.

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A CASSI NA QUAL APOSTEI A SAÚDE DA FAMÍLIA

Em 2014, incluí no sistema de saúde Cassi meus pais e sobrinhos. Já participava do sistema minha esposa e filho.

Como gestor do modelo de saúde da Cassi entre junho de 2014 e maio de 2018, e como antigo negociador da confederação dos bancários com a direção do Banco do Brasil até maio de 2014, fui de certa forma desafiado a provar que a Cassi valia a pena, ou seja, provar que o modelo de saúde era viável e sustentável. Um dos antigos diretores do banco vivia cobrando isso nas negociações com o movimento sindical.

Eleito e atuando como diretor de saúde, tive como uma das prioridades do mandato desenvolver formas e estudos que comprovassem que o modelo de Estratégia de Saúde da Família (ESF) valia todo investimento que se fizesse para fortalecê-lo e ampliá-lo. A ESF foi o modelo de Atenção Primária em Saúde (APS) definido pela Cassi após anos de experimentos de modelos de APS. A ESF se mostrou a mais adequada às características da Caixa de Assistência.

Cada profissional que trabalhou em nossas equipes sabe que eu estudei junto com eles maneiras de resolver lacunas de informações que impediam de termos os números para comprovar o quanto a ESF era eficaz não só em relação a resultados em saúde como também em economia de recursos do sistema em relação à parte da população assistida que já estava vinculada ao modelo de saúde ESF e CliniCassi (são indissociáveis a CliniCassi e as equipes de família).

Com muita firmeza de propósito e por acreditar tanto na resolutividade do modelo de Estratégia de Saúde da Família quanto na capacidade dos profissionais da Cassi conseguimos desenvolver modelos e estudos que comprovaram que os grupos de participantes Cassi vinculados ao modelo ESF quando comparados aos grupos de participantes ainda não-vinculados à ESF tinham resultados extraordinários em relação às despesas assistenciais, e isso nas mais diversas faixas etárias e por graus de complexidade. 

Demonstramos a eficiência do modelo ESF por quase 3 anos de mandato. Nem a empresa contratada pelo patrocinador BB durante as negociações de custeio conseguiu questionar a eficiência da ESF. Naquele momento, a ESF se tornou inquestionável entre todos os segmentos envolvidos no sistema Cassi.

NOVOS GESTORES DEIXARAM DE FOCAR NA AMPLIAÇÃO DA ESF

E então vieram recursos novos ao sistema Cassi, ao Plano de Associados. Nós passamos a pagar mais! 

Novas gestões eleitas pelos associados e indicadas por Temer e Bolsonaro passaram a administrar a Cassi após 2018. A aposta no mercado passou a ser a promessa de sustentabilidade do sistema Cassi.

E de forma surpreendente o modelo ESF foi sumindo de cena, não se falou mais em Estratégia de Saúde da Família. Inventaram uma nova marca, uma palavra velha usada de forma nova: "APS"... "telemedicina"...

Tudo que era para ser ampliado - porque havia sido testado e aprovado - passou a ser terceirizado, contratado fora no "mercado". Entrou recurso novo, terceirizaram quase tudo, e os déficits voltaram...

Alterações dramáticas nas unidades Cassi nos Estados. Fecharam as CliniCassi no DF. E pensar que nós ampliamos em 50% a ESF no DF durante nosso mandato... E agora a lógica é "faz uma telemedicina aí..."

Francamente! Eu fico pensando em Saramago e o Ensaio sobre a cegueira...

A Cassi tem dezenas de milhares de participantes com mais de 59 anos de idade. Cada equipe de família em cada cidade onde havia uma CliniCassi cuidava de algumas centenas de crônicos agravados, a maioria idosos, e nossos estudos demonstraram que as despesas assistenciais desses grupos vinculados tinham comportamento melhor que grupos jovens não vinculados.

Eu me pergunto como devem estar as coisas hoje na Cassi. Quando penso nessa enormidade de população idosa e ou crônica que poderia ser monitorada de forma eficiente pelas equipes ESF para só demandar os hospitais empresas sedentos de lucro e com diversas intervenções médicas a oferecer se a Cassi entendesse que era necessário...

CliniCassi Uberlândia, MG, antes de 2018.

Durante o mandato como diretor de saúde da Cassi, conheci pessoalmente 43 CliniCassi das 66 que existiam no sistema. Muitas delas visitei com recursos próprios, porque fazia meu trabalho com paixão, com gosto no que fazia para toda a comunidade BB.

As CliniCassi, todas elas, eram viáveis por vários fatores, dentre eles, porque tinham custo fixo baixíssimo e porque a capacidade de evitar grandes despesas assistenciais na rede capitalista credenciada era enorme, enorme. 

As equipes ESF com menos participantes com graus de complexidade alta tinham umas 200 pessoas. Algumas tinham 600 pessoas com graus de complexidade que mereciam acompanhamento. Tira-se o monitoramento de meia dúzia de participantes agravados e a despesa na rede será o custo de diversas CliniCassi... Um hospital privado gera fácil um custo de 200 mil, 300 mil em um participante de plano de saúde.

A Cassi na qual apostei a saúde de minha família era aquela do modelo ESF que descrevi acima. Francamente, com essa tal panaceia de telemedicina e o lema "se vira aí na telemedicina", eu imagino como estão se virando milhares de idosos e doentes crônicos Brasil afora que não têm alguém pra ajudá-los ou que não conseguem correr até o hospital credenciado de sua cidade... 

Chega por hoje. A opinião é livre quando não fere a lei. Escrevi um pouco do que penso a respeito de nossa autogestão em saúde.

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SIGO APOSTANDO NA SOLIDARIEDADE DE CLASSE E NA FORÇA DO COLETIVO

Sou um cidadão da comunidade Banco do Brasil. Ao longo de décadas trabalhei no banco público e contribuí com as diversas associações e entidades criadas por nós da categoria bancária. Defensor das lutas coletivas, sou sindicalizado e filiado a entidades associativas da comunidade BB.

Sou associado a nossas Caixas de Previdência e Assistência - Previ e Cassi - e minha única fonte de sustento é o meu benefício de aposentadoria antecipada da Previ. Diferente de parte da comunidade, não sou "empresário" nem mantenho nenhuma atividade profissional. Todas as despesas familiares subiram mais que os reajustes nos últimos 4 anos.

Sigo contribuindo com a Previdência Social (INSS), talvez até o fim da vida, pois o prazo sempre aumenta antes do gozo da aposentadoria. No meu caso, o valor do benefício se um dia me aposentar será pequeno, meu sustento e da família é meu benefício do fundo de pensão.

Além de contribuir mensalmente para a Previ e Cassi, sou filiado a AABB, Anabb, Apabb, Afabb SP e ao Sindicato dos Bancários de S. Paulo, Osasco e região. Acho importante ser associado e fortalecer nossas entidades organizativas e recreativas.

Só com as associações e mensalidades que citei acima, mais o desconto do imposto de renda e os planos de saúde da família, todos da Cassi, retorna ao sistema e ao Estado 65% de meu benefício de previdência complementar. 

Sigo torcendo pelo fortalecimento de nossas empresas públicas, pelos nossos sistemas públicos de previdência e saúde, e pelas nossas caixas de previdência e assistência. E quero ver fortalecidas as entidades organizativas dos trabalhadores.

Sempre que reflito sobre a vida e sobre o país no qual vivemos, tenho claro que segmentos organizados como o nosso da categoria bancária e de funcionários de empresas públicas são segmentos que devem ser solidários com os demais segmentos sociais, porque temos privilégios que a maioria não tem, mesmo tendo sido conquistados na luta.

É isso! Toda força às lutas das classes trabalhadoras!

William


Post Scriptum: o texto anterior sobre a Cassi pode ser lido aqui.

Post Scriptum II: ao rever um vídeo que fiz em 2021 sobre a terceirização na Cassi, então hegemonizada na gestão por ideias ultraliberais de Bolsonaro, Guedes e os eleitos da época, disse que aquela estratégia de gestão não resolveria a questão da sustentabilidade econômico-financeira da autogestão em saúde. O vídeo pode ser visto aqui.



19.7.23

Cassi (II)



OPINIÃO:

A GENTE SABE O QUE QUER?

Eu me lembro perfeitamente das questões que pautavam nossas discussões relativas à saúde dos trabalhadores quando era dirigente sindical. Minhas percepções a respeito de nossas reivindicações foram mudando à medida em que minhas funções foram mudando também no movimento sindical. Aliás, as percepções eram umas quando era trabalhador da base, e passaram a ser outras já como representante dos colegas.

Quando passei a representar meus colegas da categoria bancária comecei a entender como somos levados a fazer coisas que não faríamos se tivéssemos um mínimo de noção a respeito daquilo, se tivéssemos consciência de classe. No mundo do trabalho capitalista nós vendemos nossos corpos e nossas horas de vida e querendo ou não temos que nos submeter ao que determinar o patrão, o chefe, o comprador de nossas horas de vida. A organização sindical tem papel central em exigir condições adequadas de trabalho e direitos trabalhistas.

Como trabalhador bancário desde os 19 anos de idade eu queria o que em geral todo mundo quer. Boas condições de trabalho, jornada limitada de trabalho, remuneração justa ou suficiente para se viver com dignidade, direitos básicos à assistência médica, férias etc. Quando se fala em boas condições de trabalho pode-se incluir diversas percepções do cotidiano como não sofrer violência organizacional ou assédio direto de pessoas no local de trabalho; também podemos pensar no direito a uma alimentação saudável; ambiente físico adequado, formas de ir ao trabalho e voltar etc.

Quando passei a dar atenção ao pessoal do sindicato, minhas percepções em relação ao trabalho mudaram da água para o vinho. Eu estava sendo politizado pelos nossos representantes de classe, tivesse eu clareza ou não sobre esse processo de conscientização. Ao longo do tempo de formação política, passei a explicar para os colegas que determinadas reivindicações deles não resolveriam os problemas que eles queriam resolver e algumas, ao contrário, poderiam agravar o problema. Exemplo: como caixa executivo, entrar na onda do patrão de mandar o cliente se virar sozinho nos terminais lá fora e na internet ao invés de lutar para termos mais colegas de trabalho, jornada menor, pausas para trabalho repetitivo etc. A consequência seria redução de quadros, acúmulo de função e serviço e até demissão.

Esse processo de politização se deu nos dois anos que passei no Unibanco, no CAU da Raposo Tavares, quando conheci o pessoal do sindicato, e depois de forma contínua no Banco do Brasil, um banco público que nos dava um pouco mais de estabilidade no emprego ao longo do tempo, tendo assim condições de acumular a formação política e a conscientização de classe. Minha primeira década de trabalhador do BB se deu na base, nos locais de trabalho. Me sindicalizei logo depois que voltei a ser bancário e com um tempo passei a ser o contato do sindicato nas agências onde trabalhava. Era um "delegado sindical" sem estabilidade porque os governos tucanos tinham retirado os direitos de organização dos bancos públicos.

Depois de mais de uma década como trabalhador bancário de base, virei dirigente sindical do Banco do Brasil na Grande São Paulo e aí sim posso dizer que a minha formação política foi acelerada e a percepção sobre o mundo do trabalho também mudou, passei a ver de forma mais apurada - política e técnica - as causas e consequências dos processos de trabalho e as nossas reivindicações para melhorar a vida das pessoas e as condições de trabalho mudam de patamar porque um dirigente liberado passa a ter a obrigação moral e ética de estudar o mundo do trabalho e manter-se atualizado das principais questões que envolvem a vida das pessoas e isso só é possível se conjugarmos uma série de fatores, sendo um deles manter seu contato com a base, conversar com os trabalhadores e identificar as mudanças em andamento por parte das empresas e dos patrões.

Essa breve retrospectiva sobre o processo de formação política e conscientização de um trabalhador bancário que virou dirigente sindical é para dialogar com a pergunta inicial desta primeira parte de minhas reflexões de hoje.

Na área da saúde dos trabalhadores e das pessoas em geral, a gente sabe o que quer? 

Ao olhar para trás e ao ver neste exato momento em que escrevo sobre as reivindicações e os desejos relativos à saúde, ou seja, com décadas de diferença entre o passado e o presente, eu tenho tranquilidade em afirmar que as reivindicações dos trabalhadores, das pessoas em geral e de seus representantes políticos não mudaram muito, em linhas gerais, do que se desejava desde os anos oitenta. E, infelizmente, os desejos que pautam as pessoas são os desejos pautados pela indústria privada e capitalista da saúde. E as nossas representações políticas reivindicam o que seus representados cobram e o que eles querem não vai resolver seus problemas de saúde.

O que se quer e o que se pauta na saúde, inclusive no sistema público, é mais rede de atendimento, mais estruturas de diferentes níveis de atendimento médico disponíveis para mais procedimentos curativos nas pessoas. O que se reivindica são mais oportunidades de cirurgias, mais próteses e mais intervenções, são mais tipos de medicamentos e materiais, são mais leitos, mais isso e mais aquilo voltado para a intervenção na saúde depois das pessoas já estarem na condição de não saúde. E assim seguimos, inclusive no mundo do trabalho. 

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MAIS CURA (E NÃO MAIS PREVENÇÃO) - Essa é uma questão óbvia para o capitalismo: cura custa caro e gera lucro para capitalistas e prevenção é barata e não gera procedimentos e lucro para os capitalistas. Percebem por que a pauta e criação de desejos é na cura e não na prevenção?

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É lógico que os representantes dos trabalhadores seguem lutando por melhores condições de trabalho, por direito a plano de saúde e por preços factíveis para se acessar atendimento médico aos trabalhadores e familiares etc. Não estou dizendo que nosso lado não faz o que é imediato nas pautas de saúde dos trabalhadores. A questão é o norte da coisa, a tendência e rumo das questões de saúde dos trabalhadores...

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A ÚNICA CHANCE DA CASSI DE SUSTENTABILIDADE É PELA PREVENÇÃO (PELA CURA A CAIXA DE ASSISTÊNCIA QUEBRA)

Vou argumentar abaixo sobre:

1. Como cheguei à gestão pensando como todo mundo e como mudei a percepção após compreender os processos da saúde humana 

2. Por que a Cassi pode ser diferente do mercado ou indústria da saúde?

3. Por que a estrutura própria da Cassi era fundamental e deveria ser retomada? Funcionários assalariados acolhem pacientes e geram demandas assertivas; "parceiros" e "terceiros" são capitalistas e atendem clientes, geram demandas desnecessárias, visam lucro

4. A percepção de como somos, a cultura brasileira de não saúde, de adoecimento e de não prevenção, de checkup e hábitos não saudáveis 

5. Algo sobre o foco equivocado da Cassi em planos de mercado ao invés do foco no Plano de Associados, que vai demandar a Cassi por décadas a custos maiores e talvez judicializados (lógica do mercado curativo)

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1. Como cheguei à gestão pensando como todo mundo e como mudei a percepção após compreender a lógica da indústria curativa da saúde 

Quando fui eleito pelos associados para ser diretor de saúde da Cassi, eu tinha uma boa experiência em negociações coletivas, em organização de pessoas, em formação política e em comunicação, essas eram minhas habilidades de trabalho, e era formado em Ciências Contábeis e Letras e tinha um curso de extensão em economia pela Unicamp.

Nossa plataforma de campanha eleitoral na Cassi propunha o que todo mundo do campo progressista e de esquerda quer na área da saúde: manutenção da solidariedade; melhoria na rede de atendimento; mais foco na saúde dos trabalhadores; mais direitos em saúde. Básico isso. Fiz uma campanha na base me comprometendo a ampliar a democracia e a participação social na Cassi e ter uma relação intensa com as entidades associativas que representavam os associados e trabalhadores.

Os primeiros meses de gestão foram centrais para mudar minha percepção do que era a Cassi, de onde ela vinha e para onde deveria avançar; para entender o que era a Cassi atuando no mercado privado de saúde; para compreender os pontos fortes e os pontos fracos da Cassi em relação ao mercado da saúde privada, aos seus participantes no sistema e a sua relação difícil com o patrocinador, um banco.

Estudei a história da Caixa de Assistência, sendo ela hoje um sistema suplementar de saúde; as conquistas dos trabalhadores do BB que foram se incorporando ao sistema Cassi ao longo de décadas; percebi a impotência da Cassi perante a indústria privada da saúde; descobri a riqueza do modelo assistencial de Estratégia de Saúde da Família (ESF) e as CliniCassi próprias, o melhor modelo de APS após a reforma estatutária de 1996. 

A DESCONHECIDA CASSI - E percebi o quanto a Cassi era e segue sendo uma total desconhecida dos seus "stakeholders" (risos): as partes interessadas na relação com a Cassi não tratam a Cassi pelo que ela é, uma associação de trabalhadores da ativa e aposentados, uma Caixa de Assistência. E desse desconhecimento se dá a maioria dos equívocos decisórios em sua gestão e busca de soluções para o seu funcionamento, a sua manutenção e a sua sustentabilidade.

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2. Por que a Cassi pode ser diferente do mercado ou indústria da saúde?

Ao conhecer a Cassi e a legislação à qual ela está submetida, ao ter noções de como funciona a indústria da saúde que vende serviços curativos caríssimos, ao conhecer sua história e suas leis - estatuto, regulamentos, contratos - e ao compreender seus objetivos centrais - prevenir doenças e atuar de forma permanente e suplementar na saúde de seus participantes ao longo do tempo - foi possível fazer um planejamento estratégico na nossa diretoria para atingir objetivos bem concretos durante 4 anos.

Durante o mandato na saúde da Cassi, nós apresentamos a Caixa de Assistência às partes interessadas: sindicatos, associações e conselhos de usuários que representavam os participantes do sistema Cassi; aos gestores do Banco do Brasil nesse extenso país continental, que viam e seguem vendo a Cassi como uma agência bancária ou um plano de saúde de mercado; aos funcionários da Cassi, que ao serem contratados precisam entender que a Caixa de Assistência é diferente dos outros locais que haviam trabalhado no mercado privado.

E além de apresentarmos o modelo assistencial de Estratégia de Saúde da Família (ESF) aos segmentos intervenientes da Cassi, explicar dezenas de vezes em todas as capitais do país ao longo do mandato para que serviam as CliniCassi e as equipes de família, os programas de saúde e por que era importante procurar a Cassi primeiro ao invés de acreditar piamente no que o mercado privado propunha de intervenção curativa etc, nós desenvolvemos na diretoria estudos para comprovar a eficiência do modelo ESF em participantes vinculados a ele por mais de 3 anos. Os resultados foram extraordinários!

Até 2018 a ESF concentrava grandes contingentes
de populações das faixas etárias maiores de 59 anos.
Mesmo assim, a ESF tinha resultados excelentes.


A Cassi ainda hoje pode ser diferente do que há de possibilidades no mercado da saúde porque nenhum sistema privado tem 375 mil participantes (Plano de Associados, 1T23) que tendem a permanecer por décadas no sistema. E esses participantes têm baixo risco de inadimplência e podem fazer parte de um processo educativo em saúde e de pertencimento para melhor uso dos recursos como nenhum outro grupo instável do mercado privado. Que empresa privada tem essas características positivas que a Cassi tem?

Mesmo sendo um universo de participantes que tende ao envelhecimento, nós provamos que faixas etárias maiores vinculadas à ESF tinham comportamento de crescimento de despesas assistenciais melhores que faixas etárias mais novas sem vínculo à ESF (quadro acima).

Só a Cassi tem essa possibilidade de vínculo longevo entre a autogestão e seus 375 mil associados no país. Estou falando algo básico para quem faz gestão de saúde.

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3. Por que a estrutura própria da Cassi era fundamental e deveria ser retomada? Funcionários assalariados acolhem pacientes e geram demandas assertivas; "parceiros" e "terceiros" são capitalistas e atendem clientes, geram demandas desnecessárias, visam lucro

O subtítulo já é autoexplicativo. Uma coisa é termos funcionários da Cassi na área administrativa e na área médica, outra é ser terceirizada a estrutura. Toda empresa visa lucro, resultado, retorno. Todo funcionário assalariado trabalha com outra lógica. Por isso lutei tanto pelos funcionários da Cassi durante os 4 anos de nossa gestão. Os funcionários da Cassi sempre foram um patrimônio de nossa autogestão, um patrimônio dos associados.

Durante 4 anos trabalhando e conversando com os profissionais da Cassi eu percebia a diferença na satisfação dos nossos funcionários quando comparavam o trabalho que realizavam em saúde nas CliniCassi e o que realizavam nos outros locais onde trabalhavam (hospital público ou empresa privada). Eles me diziam que na Cassi eles viam o resultado de seus trabalhos ao longo do tempo nas equipes de família. Nos outros locais de trabalho, às vezes até ganhavam mais, mas não davam a satisfação que eles tinham ao ver os pacientes cuidados e em evolução em seus quadros de saúde.

O desfazimento das estruturas próprias da Cassi e a opção pela terceirização até das CliniCassi e também a opção pelos atendimentos de telemedicina fora da Cassi são decisões equivocadas, é uma insensatez, é algo muito ruim para o atingimento dos objetivos da Cassi e para a perenidade de nossa autogestão em saúde. O foco não é saúde, o foco é resultado (dinheiro, capital).

Essas empresas visam lucro! Na indústria da saúde o que gera lucro não é prevenção, é intervenção curativa. Se eu mantiver 375 mil participantes com consciência social em manutenção de suas saúdes, as terceirizadas terão menos lucros e ou aumentarão seus preços ou darão um jeito de gerar mais intervenções curativas, demandas por novidades em saúde etc. 

Volto a afirmar o que disse por 4 anos: é muito mais barato e eficaz manter uma estrutura própria da Cassi numa localidade (uma CliniCassi e uma equipe de família) para cuidar de algumas centenas de pessoas com diversos graus de comorbidade do que pagar uma dúzia de intervenções curativas do mesmo grupo de pessoas nas estruturas do mercado privado, atendimento que a lei em geral garante e se sensibiliza muito mais juízes leigos por aí em atender procedimentos caríssimos e questionáveis do que se a demanda fosse evitada através de controle preventivo anterior e educação em saúde.

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4. A percepção de como somos, a cultura brasileira de não saúde, de adoecimento e de não prevenção, de checkup e hábitos não saudáveis 

Quando fazia a gestão da saúde das populações atendidas pela nossa Caixa de Assistência e me debruçava sobre os números de cada Estado e DF e cada equipe de família e quando observava os resultados dos exames periódicos de saúde que fazíamos em 100 mil trabalhadores do BB era fácil entender as possibilidades que tínhamos para atuar na educação em saúde e na prevenção de doenças e nas oportunidades perdidas porque não tínhamos um trabalho de equipe ideal entre a direção do Banco e seus milhares de administradores, as centenas de entidades representativas e a própria Cassi junto aos 375 mil participantes (hoje) do Plano de Associados nas 27 Unidades da Federação, o Brasil.

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A Cassi foi pensada para oferecer Atenção Integral à Saúde ao longo de décadas para uma população relativamente estável no tempo sabendo que tem recursos limitados pela folha de pagamento e de benefícios de BB e Previ e que o custo curativo da saúde oferecido pela indústria da saúde é impossível e impagável. Por isso que os estudos entre 1996 e 2001 definiram a ESF como o melhor modelo de APS para essas características que descrevi do universo do Plano de Associados.
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Prezad@s administradores da Cassi e colegas do conglomerado Banco do Brasil, a cultura brasileira não vai mudar tão cedo. Seguiremos sendo estimulados a beber cada vez mais, a comer o que faz mal à saúde e traz doenças crônicas; cada dia estamos mais expostos às violências diversas e cada dia seremos estimulados a consumir mais "novidades" das diversas áreas capitalistas da saúde. 

Aliás, após os últimos anos de negacionismo, estamos com mais riscos de doenças endêmicas e o SUS terá desafios maiores a cada dia, até um sistema básico de salvamento como o Samu pode dificultar nossas demandas emergenciais de saúde curativa. Para ser salvo de um acidente ou crise aguda em saúde em um hospital credenciado é preciso ser levado até a emergência por um resgate...

Volto a me perguntar e a sugerir a reflexão aos intervenientes e pensadores do sistema Cassi se é o suficiente para a sustentabilidade do Plano de Associados seguir focando na terceirização e contratação no mercado privado das principais estruturas de saúde da nossa Caixa de Assistência para as próximas décadas. Nossas estruturas próprias e baratas de Atenção Primária seguirão à mercê dos lucros dos capitalistas privados?

Oferecer atendimento por telemedicina terceirizada para as 375 mil vidas do Plano de Associados sem essa população estar vinculada à ESF ao longo do tempo como era o objetivo até 2018 é uma temeridade, na minha opinião. A telemedicina da Cassi hoje me parece mais um ponto de atendimento, de atenção, uma porta de entrada, sem o trabalho que fazíamos a partir das Unidades Cassi nos Estados e DF e as equipes de família nas CliniCassi.

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5. Algo sobre o foco equivocado da Cassi em planos de mercado ao invés do foco no Plano de Associados, que vai demandar a Cassi por décadas a custos maiores e talvez judicializados (lógica do mercado curativo)

Sobre os planos de saúde que a Cassi dispõe no momento, francamente, o melhor deles segue sendo de longe o Cassi Família II. É lamentável a própria Cassi ficar criando diversos planos que imagino concorrem com o CF II.

Enquanto a direção do Banco do Brasil e da Cassi não entenderem que a Cassi não é concorrente dos planos de mercado, sejam eles medicina de grupo, seguradoras, cooperativas médicas, conglomerados hospitalares etc, a Cassi seguirá se expondo perigosamente num mercado que não é para ela. Nem a legislação da saúde facilita isso... A Cassi tem outra lógica!

Fiz esse debate como gestor por 4 anos, tinha argumentos sólidos e não me convenci do contrário nesses anos posteriores. Eu sei como funciona a onda de mercado, ela é forte no capitalismo, porém essa ideia de ser plano de mercado não tem nada a ver com a nossa Caixa de Assistência.

Que canseira essa temática de planos de mercado...

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É isso! Essas são minhas reflexões sobre a Cassi em 2023, seus novos déficits atuais, seus andamentos por caminhos duvidosos e posso dizer a vocês que minha opinião não é de leigo. São impressões, é claro, porque vejo a autogestão como associado.

É verdade que o texto é longo. Eu fico impressionado e às vezes me pergunto se as centenas de pessoas que têm lido meus textões são IA (risos) ou são nossos colegas que por um tempo me deram a honra de ler o que escrevia durante os anos em que os representava.

Em relação às estratégias recentes de incluir algumas especialidades nas unidades CliniCassi, acho a decisão interessante. Tínhamos projetos nesse sentido quando desenvolvemos estudos para ampliar a verticalização de nossas estruturas de saúde.

Abraços fraternos aos leitores e leitoras e desejo muita saúde aos nossos participantes do sistema Cassi. Reforço que sigo torcendo por nossos administradores e por conquistas de nossas entidades associativas.

William Mendes


Post Scriptum: o primeiro texto sobre essa temática pode ser lido aqui. Esses dois textos deram muito trabalho, são reflexões honestas e acabo escrevendo sobre a Cassi porque me sinto na obrigação de compartilhar o que sei sobre o tema.

Post Scriptum II (ago/2023): retomo o tema Cassi para falar dos reajustes nos planos Cassi e da oportunidade perdida ao não se ampliar a ESF para o conjunto dos participantes do sistema de saúde Cassi. Ler aqui.


16.7.23

Cassi (I)

 


OPINIÃO: 

DILEMAS SOBRE A SAÚDE HUMANA


Que tipo de reflexão eu poderia fazer sobre o tema saúde humana? Que noções eu tenho sobre o tema saúde humana para exercer meu livre direito constitucional de expressar minha opinião e meus pensamentos sobre esse tema, a saúde humana? 

Em relação à população em geral, talvez eu conheça um pouquinho mais sobre o tema, ou seja, talvez eu tenha algumas noções a mais sobre saúde humana em relação aos leigos porque durante o percurso de minha vida adulta tive alguns contatos com o tema de forma técnica ou profissional.

Tive uma experiência marcante em minha vida, fui gestor de saúde por quatro anos e essa oportunidade me proporcionou conhecimentos na área de assistência à saúde que eu jamais imaginaria ter não fosse essa experiência. Eu diria que posso fazer reflexões ao menos sobre gestão de sistemas de saúde como o da autogestão Cassi.

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PRIMEIROS CONTATOS

Na infância, trabalhei por alguns meses em uma drogaria e até aplicava injeções. Por incrível que isso possa parecer hoje, nos anos oitenta isso foi possível, legal ou ilegalmente, porque não sei se a drogaria onde eu trabalhava de entregador de medicamentos poderia me pedir para aplicar injeções musculares e venosas nos clientes. O fato concreto é que eu apliquei muita injeção durante alguns meses de trabalho. Os clientes ao ligarem na drogaria pediam que eu fosse aplicar as injeções porque eu tinha a "mão boa" e as injeções não doíam, nem as musculares nem as venosas. Que loucura pensar nisso hoje! Eu era uma criança entre meus 14 e 15 anos de idade.

Depois de já ser adulto e trabalhar no Banco do Brasil, eu iniciei uma graduação em Educação Física e cursei o bacharelado por dois anos. Estudei na Faculdade do Clube Náutico Mogiano e modestamente posso dizer que me dei muito bem com as disciplinas que fiz. Eu já era formado em Ciências Contábeis e voltar a estudar com mais idade foi muito positivo porque minha dedicação aos estudos fazia toda a diferença. Aprendi muito com as disciplinas das áreas médicas como, por exemplo, "Anatomia" e "Bioquímica e Nutrição". Infelizmente eu não pude concluir o curso por não ter recursos para pagar as mensalidades.

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GESTÃO EM SAÚDE NA CASSI

Meu terceiro contato técnico ou profissional com a área de saúde humana foi uma das maiores experiência de minha vida. Entre 2014 e 2018, no auge de minha maturidade política e intelectual, fui eleito gestor de saúde da autogestão dos trabalhadores do Banco do Brasil, a Cassi. Eu já vinha de uma intensa formação política na luta por direitos em saúde da categoria bancária, pois era dirigente sindical e coordenava as negociações entre capital e trabalho, nas mesas entre os bancários e o Banco do Brasil e Fenaban. Nunca estudei tanto em minha vida! Nunca fiz tanto esforço em transmitir o que aprendi em saúde e gestão de saúde para a coletividade. E ao transmitir conhecimento, a gente aprende e aperfeiçoa o conhecimento.

O nosso mandato de gestão de saúde foi exercido durante um período complexo da vida do país. Quando eu fui eleito para ser diretor de saúde na autogestão do maior banco público do país, o governo federal era gerido pelo Partido dos Trabalhadores, por Dilma Rousseff. Ao longo do mandato, o país sofreu um golpe de Estado, e os golpistas assumiram a gestão do país a partir do dia 17 de abril de 2016, com Michel Temer. Tudo mudou drasticamente na vida do povo trabalhador brasileiro e nas instituições do Estado nacional naquele período. Evidentemente, mudou também as relações internas nas empresas públicas e nas agências reguladoras e controladoras.

Durante o período no qual fizemos parte da gestão da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil havia um forte embate entre capital e trabalho, embate iniciado já nos governos do PT e que se agravou após o golpe de Estado. O patrocinador da Cassi, o banco estatal, alegava não poder investir mais recursos na autogestão, da qual detinha a metade do controle administrativo e era o responsável direto pela gestão das áreas contábeis, econômico-financeiras, presidência, controles e auditoria etc. O embate entre capital e trabalho tinha um foco central: aumentar a contribuição dos associados e dependentes e reduzir direitos em saúde. Esse embate permaneceu enquanto estivemos lá. Os associados não perderam direito algum até terminar nosso mandato.

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PREVENIR E EVITAR DOENÇAS OU VENDER A CURA E A ILUSÃO DA CURA?

Enfim, vivemos dilemas sobre a saúde humana, desde sempre. Eu diria que os dilemas começam pelas escolhas feitas pelos gestores de sistemas públicos e privados de saúde (escolha política): se o objetivo do sistema gerido é promover saúde e evitar adoecimentos ou aplicar os mais diversos meios disponíveis (e caros) para reparar doenças e amenizar consequências de doenças e traumas na saúde das pessoas.

Minhas noções sobre saúde humana foram ampliadas após uma vida de representação da classe trabalhadora por causa das disputas entre patrão e trabalhadores em relação às condições de trabalho e adoecimento por causa da venda de nossa força de trabalho. De cara, posso afirmar que um dos embates é tentar prevenir o adoecimento dos trabalhadores, mas a disputa com o patrão nesta questão é dura, a gente acaba adoecendo mesmo.

Ser gestor de saúde e de sistemas de saúde me deu oportunidade de conhecer por dentro como funciona a chamada indústria da saúde, tanto pública como privada. É evidente que meu aprendizado, minhas noções, foram muito mais relativas à realidade da Caixa de Assistência, uma autogestão, com um modelo de saúde que vinha sendo implementado após um longo debate interno entre patrocinador, associados e corpo técnico. 

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DE ONDE VEM E PRA ONDE VAI A NOSSA CASSI?

O modelo de Estratégia de Saúde da Família (ESF), escolhido entre os modelos de Atenção Primária em Saúde (APS) era uma decisão acertada na Cassi e nós demonstramos isso em números durante nossa gestão como responsável pela diretoria de saúde. A Cassi conseguiu brilhar interna e externamente em relação ao modelo assistencial mesmo enquanto se debatia a questão do déficit e do custeio, uma área específica e problemática da indústria da saúde. A ESF se mostrou a melhor opção para o futuro da Cassi.

De repente, após 2018, mudaram tudo na Cassi. Em tese, o problema mais imediato foi resolvido, o custeio recebeu uma grande injeção de recursos já a partir do final daquele ano e após a reforma estatutária na qual se aprovou tudo o que o patrocinador queria. 

Os associados passaram a pagar bem mais pela assistência à saúde, o banco público diminuiu seus investimentos no sistema (a proporção), novas gestões vieram, tanto as indicadas pelos governos Temer e Bolsonaro, quanto os grupos eleitos após 2018 foram grupos antissindicais, do espectro da direita, distantes do dia a dia da luta da classe trabalhadora e muito mais próximos dos ideais patronais, defensores do mercado e de ideias como a terceirização de tudo. 

E não é que a Cassi está com um déficit enorme de novo! O Visão Cassi do primeiro trimestre nos apresenta um déficit operacional de 98 milhões! Se fizeram tudo o que queriam, por que os resultados não vieram? Vão dizer que a culpa é dos associados de novo?

Enfim, eu tenho visto os novos gestores se esforçando para fazer um bom trabalho na Cassi, tanto os eleitos em 2022 como os indicados pelo novo governo (2023), tenho visto o movimento sindical se reunindo e cobrando os direitos em saúde dos trabalhadores e aposentados, e me parece que não é só o nosso querido Sistema Único de Saúde (SUS) que vive momentos decisivos para o presente e o futuro da saúde humana, nossa autogestão também está num momento decisivo. 

Nossa Cassi vai seguir a tendência adotada nas gestões (e governos) anteriores? Será que algo não está errado nas opções que fizeram nos últimos 6 anos? O recurso novo entrou, os direitos diminuíram ou ficaram mais caros e o déficit está crescendo de novo. Não seria a hora de repensar o rumo adotado nos últimos 6 anos e se debater o sistema e o modelo atual da Cassi?

Eu sigo na torcida pelo acerto da nossa direção da Cassi e pelo acerto do nosso governo Lula.

Contudo, entendo que a Cassi deveria retomar a ampliação do modelo assistencial da Estratégia de Saúde da Família (ESF) como o modelo de APS a ser disponibilizado para o conjunto dos associados e participantes. 

Tenho a impressão de que da forma como está hoje, a chamada Atenção Integral via APS (faz uma telemedicina aí!) passou a ser só mais um ponto de atenção, uma porta de entrada sem o efeito longitudinal esperado de acompanhamento do participante no tempo, que a ESF tinha. 

O resultado da ESF ao longo do tempo nos participantes vinculados e aderentes ao modelo por mais de 3 anos nós demonstramos e não vejo por que não seguir com o que é bom e dá resultado.

É uma opinião, e não é de leigo.

William Mendes


Post Scriptum: o texto sequência deste pode ser lido clicando aqui.

28.7.22

Memórias (XXIX)


Outubro de 2016, indo ao
19º Congresso da Unidas.


A saúde vai mal quando não temos instituições públicas e privadas focadas na formação de cidadãos com consciência política, educação em saúde e uma ética humanista


Opinião

As postagens de memórias neste blog que utilizei para prestar contas dos mandatos eletivos que exerci ao longo de quase duas décadas de vida pública são postagens que mesclam sentimentos diversos e até antagônicos como, por exemplo, gratidão, dor, alegria, tristeza, raiva, resignação; às vezes esperanças, às vezes.

O conhecimento que adquirimos ao longo de nossa existência é algo essencial para o que somos: seres humanos da espécie homo sapiens. O que nos diferencia do restante dos seres vivos no planeta Terra é a cultura, o saber acumulado, a capacidade de criação, a história, a razão e a consciência, ou seja, são os atributos humanos oriundos de nosso cérebro constituído por 86 bilhões de neurônios, como nos ensina o neurocientista Miguel Nicolelis.

Ao longo de minha vida de representação da classe trabalhadora fui adquirindo conhecimentos novos através das mais diversas formas de educação e cultura: a vivência na militância política é uma excelente escola de vida; os estudos formais e os específicos das áreas nas quais atuava também; os conhecimentos gerais que almejo conhecer para me tornar uma pessoa melhor e mais preparada para contribuir para a sociedade humana ainda me movem pelos caminhos a se abrirem, já que o poeta diz não haver caminhos.

A última representação que exerci foi na área de saúde, fui gestor de uma autogestão com um potencial incrível de realizações na área de saúde dos trabalhadores e na questão de realizar experiências exitosas em sistemas de saúde que poderiam ser referência para as sociedades humanas em relação a modelos fechados de atenção primária e medicina de família e comunidade e inclusive referência para sistemas integrados de saúde nos mais diversos graus de complexidade. A autogestão poderia ser... mas não é mais uma referência, na minha opinião, e avalio que a autogestão dos bancários do Banco do Brasil terá muitas dificuldades de seguir existindo nas próximas décadas.

PARA ONDE ESTAMOS INDO EM RELAÇÃO À SAÚDE HUMANA?

Quando digo que a saúde vai mal por falta de instituições públicas e privadas focadas na formação de cidadãos com consciência política, educação em saúde e uma ética humanista quero dizer com isso que pode existir esperança num amanhã melhor caso haja investimento em formação e educação: basta mudarmos a partir de hoje, pois nossos cérebros humanos são flexíveis e mudam assim que são estimulados para isso; por outro lado, há enormes perspectivas de piora no quadro da saúde humana caso as coisas continuem como estão neste exato momento em que escrevo esse texto de memórias.

Ao olhar a saúde no Brasil - olhar com o conhecimento que adquirimos ao vivenciarmos a experiência de gestão de sistemas de saúde - ao olhar os sistemas públicos e privados e as pessoas que deles dependem, a gente se segura para não chorar e não cair numa depressão profunda. O quadro é desesperador! Faço uma comparação com uma savana ou selva na natureza. Estamos sós como presas numa savana repleta de predadores vorazes; não estamos sequer reunidos em manadas de presas que se protegem umas às outras em meio aos ferozes predadores. Que cenário ruim pra nós, presas a serem predadas! Não temos quem nos proteja neste momento da história.

Ao olhar pessoas e empresas dos sistemas de saúde ao nosso redor - hospitais, clínicas, profissionais diversos, planos de saúde, fornecedores de materiais e medicamentos, reguladores e demais envolvidos no setor - alternamos aqueles sentimentos que disse acima: poderíamos estar muito bem, felizes e esperançosos, mas infelizmente estamos muito mal, muito aquém do que poderíamos estar, caso houvesse interesse dos donos do poder político e econômico em orientar, educar e formar pessoas conscientes, inclusive para a necessária convivência sustentável com o setor de saúde.

Chegamos a um momento fantástico do conhecimento humano nas áreas de intervenções cirúrgicas, medicamentos, materiais do setor, saberes para se evitar os adoecimentos. No entanto, talvez tenhamos chegado também ao momento mais dramático da história humana em relação à falta de ética e de visão humanista neste mundo dominado pelos valores ideológicos do capitalismo. Não valemos mais nada como seres humanos. No mercado de saúde, somos meios para que capitalistas ganhem dinheiro com a mercadoria saúde. E assim, o potencial incrível que teríamos para as pessoas viverem melhor se transformou numa savana onde nossos corpos, nossa saúde, são meios (presas) para se ganharem dinheiro às custas até de nossas vidas.

Cirurgias invasivas e dolorosas às vezes desnecessárias, medicamentos questionáveis, próteses e materiais de altíssimo custo e marca exigidos pelos profissionais de saúde (os doutores, os deuses) que poderiam ser substituídos por outros de mesmo efeito e eficácia, publicidades e propagandas agressivas manipulando pessoas (presas) para a realização de procedimentos que poderiam ser adiados ou evitados... sem instituições públicas e privadas que nos protejam nessa selva de predadores estamos vulneráveis, muito vulneráveis. Afinal de contas não temos o saber dessa área, a palavra final dos especialistas é como sentenças de vida ou morte para nós leigos dos saberes de saúde. E assim estamos neste momento da história humana e brasileira.

E A AUTOGESTÃO EM SAÚDE DA COMUNIDADE DOS TRABALHADORES DO BANCO DO BRASIL?

Vi nesta semana uma matéria da confederação dos bancários da CUT (Contraf) apontando preocupações com novos déficits da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil. Os associados entraram com novos recursos através de reforma estatutária em 2019 para que a entidade tivesse equilíbrio econômico-financeiro e promovesse o avanço do modelo testado e aprovado de Atenção Integral à Saúde, que na Cassi se dava através da Estratégia de Saúde da Família (ESF), uma forma de Atenção Primária à Saúde (APS), desenvolvida na associação desde a reforma estatutária de 1996 cujas bases eram uma estrutura própria de saúde (as unidades CliniCassi) e equipes próprias de profissionais e programas de saúde adequados a cada participante do sistema. 

A estrutura própria de saúde da autogestão Cassi atuaria para mapear, orientar e acompanhar ao longo da vida toda a população assistida pelo Plano de Associados, cerca de 400 mil pessoas, tanto durante a fase laboral dos associados e seus dependentes quanto após essa fase, durante o gozo da aposentadoria. Infelizmente, os gestores eleitos e indicados após a reforma estatutária de 2019 (com exceção da parte da gestão que chegou agora em 2022) decidiram por conta própria se desfazerem do modelo testado e aprovado por décadas e passaram a orientar a associação para uma lógica terceirizada de modelos do mercado de saúde, onde a saúde das pessoas não é o foco, nunca foi, o foco é o lucro com a mercadoria "saúde".

Vi também nesta semana a campanha da direção da Cassi para a indicação de parentes para a venda de planos de saúde - os planos para familiares de associados. Entrei no site da Cassi, olhei, olhei, e concluí que as coisas vão mal e as perspectivas não são boas para nós associados da Caixa de Assistência. 

OPINIÃO - Ao olhar os números atuais da Cassi e os participantes de seus "planos de saúde" vi o quanto continuo acreditando nos conhecimentos que adquiri durante a gestão da associação. Focar todos os esforços da autogestão nesses planos de mercado é um tremendo equívoco e gasto de energia por parte da direção da Cassi. Não se fala em outra coisa na "empresa" Cassi que não seja o plano "Cassi Essencial" e mesmo assim até agora não chegaram sequer a 4 mil planos vendidos... Isso é um absurdo! Falei isso durante anos! A direção deveria estar centrada na ESF para os 378 mil participantes do Plano de Associados que tendem a permanecer no sistema por décadas. Nós mostramos os resultados da ESF em participantes vinculados ao modelo. Os custos com a compra de serviços de saúde no mercado dessa população vinculada à ESF são até 40% menores. Esqueceram tudo isso... ou fazem de conta que não sabiam.

A CASSI NÃO É PLANO DE SAÚDE... É CAIXA DE ASSISTÊNCIA, E OS PARTICIPANTES DEVERIAM SER ORIENTADOS SOBRE ISSO

PONTOS FORTES - Quais são os pontos fortes da Cassi, os potenciais de realização dos objetivos centrais da Caixa de Assistência: cuidar da saúde dos seus associados e dependentes? Num resumão geral, posso dizer que o melhor potencial da Cassi é o Plano de Associados com os seus 378 mil participantes, conhecidos, monitorados e orientados ao longo das próximas décadas através das equipes de família e dos programas de saúde das unidades CliniCassi existentes e a serem criadas. Provamos com estudos que os vinculados ao modelo tinham um custo assistencial bem menor ao usar os recursos na rede prestadora do mercado, mesmo nas faixas etárias maiores! 

Se quisessem, os donos do poder político no sistema Cassi - a direção do patrocinador e a direção da associação, juntamente com as entidades representativas - teriam uma capacidade considerável de educação e orientação em saúde e no uso do sistema Cassi em relação ao modelo ESF e no uso da rede de prestadores quando necessário.

PONTOS FRACOS - Quais são os pontos fracos da Cassi e as apostas que tendem a dar errado e prejudicar o sistema de saúde da autogestão? O maior equívoco é querer disputar mercado com os planos de mercado! Acordem! Nem se a Cassi quisesse poderia competir em igualdade com o mercado porque a Cassi é uma autogestão e a legislação jamais vai permitir a ela as flexibilidades que os planos de saúde do mercado têm! Será que é tão difícil entender isso? Desfazer as estruturas próprias de gestão e atendimento de saúde de atenção primária e ESF é outra coisa bizarra! A estrutura própria da Cassi - Central de atendimento, de unidades regionais Cassi e CliniCassi - é muito barata pelo que realiza (o menor custo adm. do mercado de saúde: 6,1% de (d)eficiência operacional para abril/2022 - Visão Cassi). Cada equipe nuclear de família que cuida de algumas centenas de participantes gera uma economia exponencial no uso dos recursos na rede prestadora. Nossos vinculados deixam de ser "presas" nessa savana de geração de procedimentos para enriquecer capitalistas do mercado privado.

Durante os quatro anos nos quais estivemos na direção da associação, como diretor eleito de saúde, tomamos conhecimento do que era a Cassi, para que havia sido criada, quais os objetivos em saúde que as gerações anteriores a nós tinham definido como norte da autogestão e procuramos seguir aquilo que era a essência da associação: cuidar da saúde de seus associados e dependentes através de um modelo preventivo e sustentável. A Cassi nunca foi nem deveria querer ser uma empresa de saúde de planos de mercado. Nunca!

Não vou ficar de blá-blá-blá repetindo o que demonstramos por 4 anos em centenas de textos e apresentações e com dados reais. A Cassi recebeu recursos novos para avançar no modelo que nós havíamos comprovado a eficácia: APS/ESF/CliniCassi. Mudaram tudo! A direção acha que a Cassi vai concorrer com o mercado privado de planos de saúde... francamente, até um jovem estudante da área (politizado, claro!) saberia que isso não vai dar certo. O foco da sustentabilidade da Caixa de Assistência deveria ser seus participantes do Plano de Associados e o modelo preventivo e mais eficaz da ESF.

Que canseira ver a repetição daquilo que não dá certo! É minha opinião, e ela não é de leigo sobre a autogestão em saúde de nossa comunidade do Banco do Brasil. É opinião política e técnica, de alguém que estudou muito a nossa Caixa de Assistência.

Enquanto a Cassi segue se desfazendo, quem de nós tem confiança plena nos tais terceirizados dos atendimentos por tela (telemedicina, que deveria ser atendimento complementar, não ferramenta principal) que não nos conhecem nem conhecem o nosso histórico de saúde como as equipes de profissionais dos modelos de medicina de família e comunidade conhecem (as equipes ESF no caso da Cassi)? Difícil...

William

Ex-diretor eleito da Cassi


Post Scriptum:

- Fiz um vídeo em julho de 2019 no qual falo de estratégias de negociação com o patrocinador e falo do modelo de saúde da Cassi diferenciando despesas adm. e despesas assistenciais e abordo o equívoco de reduzir a estrutura própria da autogestão. Fizeram isso nos últimos 3 anos. Ver aqui o vídeo.

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