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9.9.22

Memórias (XXXI)



Há 30 anos tomava posse de meu cargo de escriturário do Banco do Brasil, vaga conquistada por concurso público

Dia 9 de setembro de 1992, numa segunda-feira, me dirigi logo cedo para a agência Rua Clélia, na região da Lapa, bairro de São Paulo, para tomar posse da vaga de escriturário do Banco do Brasil, após cumprir todas as etapas anteriores na área de gestão de pessoas do banco público. 

Prestei o concurso em 1991 e após ser aprovado tive que fazer novamente as provas porque o resultado foi cancelado por fraudes ocorridas em Brasília (DF). Felizmente passei novamente e lá estava eu dia 9 de setembro para começar a trabalhar no maior e mais antigo banco público do país. Aquele dia mudou a minha vida.

Ao me atentar à data de hoje, 9 de setembro de 2022, comecei a me lembrar de alguns momentos dessa relação de uma vida inteira entre um cidadão e uma empresa, me lembrei de diversas experiências que vivi como funcionário dessa instituição pública tão importante na história do Brasil e do povo brasileiro desde o início do século 19.

Eu me lembro que ainda nos primeiros anos de trabalho, lá na Rua Clélia, tive propostas para sair do BB e ser sócio de empresa de contabilidade, pois eu havia me formado em Ciências Contábeis. O senhor Luís, um cliente do banco, queria de todo jeito que eu fosse sócio da empresa dele. No BB, nós vivíamos o inferno na Terra com o governo de FHC (PSDB): demissões, perseguições, suicídios de colegas, PDV, o terror. Acabei optando por ficar no banco.

Agora mesmo, enquanto escrevo, são muitas lembranças dos primeiros anos de trabalho no BB, lembranças que vão se alternando em minhas memórias. O que me tornei pra vida toda teve muito a ver com o que vivenciei nos primeiros anos de banco, na relação com os colegas de trabalho e com o sindicato de nossa categoria. 

Hoje entendo que sempre tive uma natureza de servidor público, de querer servir à coletividade, de ajudar e atender às pessoas. Nunca seria um "empresário", um capitalista. Isso não tem nada a ver comigo. 

Foram 10 anos atuando no dia a dia nas agências bancárias, mais de 9 anos como caixa executivo, atendendo a clientes e público em geral. Depois vieram os desafios da representação dos colegas bancários: 4 mandatos no Sindicato dos Bancários, 3 mandatos na Confederação e um mandato na direção de nossa autogestão em saúde. 

Foram quase 27 anos de trabalho em nosso querido Banco do Brasil, sim, "querido" porque o BB pode e deve continuar sendo um agente do desenvolvimento do Brasil e do povo brasileiro, e isso nos dá um orgulho imenso em pertencer a essa instituição, a essa comunidade, a essa história do Brasil.

A FORMAÇÃO POLÍTICA ATRAVÉS DO MUNDO DO TRABALHO

Vejamos meus primeiros ensinamentos do mundo do trabalho em uma grande empresa...

Eu era estagiário do Banco do Brasil na agência do Ceagesp no ano de 1992. O estágio era pelo fato de eu ter começado a cursar faculdade de Ciências Contábeis. O dia a dia no local de trabalho sempre tinha debates e reflexões sobre a política nacional e o mundo do trabalho. Eu só havia experimentado algo parecido durante os dois anos que passei no Unibanco (1988-1990) porque lá conheci o pessoal do Sindicato, me sindicalizei e ajudei a organizar uma greve.

Naquele ano de 1992 o Brasil inteiro acompanhava as denúncias de corrupção do governo Collor e nos bancos sempre havia as fortes mobilizações da data-base da categoria em setembro. No Ceagesp vi muitas análises sobre a campanha dos bancários do ano anterior, uma campanha difícil que havia sofrido reveses por interferência dos tribunais de justiça, sempre favoráveis aos patrões e governos.

Aí comecei minha vida de funcionário do BB. Achava que a vida de jovem brasileiro seria bem melhor por trabalhar numa grande empresa estatal. Mal cheguei ao banco e chegou ao governo federal o social-democrata Fernando Henrique e o massacre do funcionalismo público começou também...

O aprendizado da organização nos locais de trabalho (OLT) foi acelerado, foi na veia. Havia organização tanto interna quanto com o apoio do Sindicato. O alvo do governo eram os trabalhadores mais antigos de banco, com maiores direitos sociais acumulados em décadas de lutas sindicais. 

Me arrepio e me emociono só de lembrar o quanto meus colegas sofreram com os ataques perpetrados pelo governo e pelos meios ideológicos dos privatistas - a tal imprensa secular, a voz da casa-grande contra as senzalas, contra a classe trabalhadora.

Como disse acima são tantas memórias que vêm umas atrás das outras ao me lembrar da minha história na comunidade de trabalhadores da ativa e aposentados do Banco do Brasil que se eu deixasse os dedos registrarem as lembranças faria um texto enorme. 

Posso resumir neste 9 de setembro de 2022 que o homem que me tornei é o resultado do aprendizado de três décadas de convivência com o mundo do trabalho numa grande empresa com organização interna por parte dos trabalhadores, é resultado de ter pertencido a uma grande categoria com sindicatos fortes e organizados.

O cidadão com consciência política que me tornei é resultado direto sobretudo da oportunidade que tive de representar com mandatos eletivos meus colegas de trabalho por quase duas décadas.

Hoje não estou mais no dia a dia dos trabalhadores do Banco do Brasil e da categoria bancária, mas carrego comigo a politização que aprendi das lutas sociais e coletivas, e procuro acompanhar as questões do mundo do trabalho e dos direitos sociais da forma que meu cotidiano particular me permite neste momento.

Desejo que o Banco do Brasil e todas as associações por nós criadas ao longo de mais de um século permaneçam em nossas vidas por muito tempo, desejo que as empresas públicas sejam preservadas e fortalecidas e que os direitos sociais voltem a ser conquistados pelo povo brasileiro após encerrarmos esse período devastador que vivemos com o crime organizado ocupando espaços de poder no Brasil.

Espero que em outubro possamos virar a página dessa tragédia que vivemos com a destruição do país e de nosso mundo da classe trabalhadora*.

Eu voto #Lula13Presidente porque quero o melhor para o Brasil e para o povo brasileiro.

William Mendes


*Post Scriptum: Lula foi eleito pela 3ª vez presidente do Brasil em outubro de 2022.


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8.9.22

História dos bancários: um olhar (V)



Opinião

200 anos de mandiocas, brochas e idiotas

"Elaborou-se o anteprojeto constitucional, a cargo de uma comissão cuja presidência coube ao deputado Antônio Carlos, irmão de José Bonifácio. Em setembro de 1823 era apresentado à Assembleia, com 272 artigos. Tendo fixado, como condição básica para a qualificação dos eleitores, divididos em 4 categorias, o critério de uma renda anual correspondente ao valor de 150, 250, 500 ou 1.000 alqueires de farinha de mandioca, o projeto foi humoristicamente apelidado pelo povo de 'Constituição da Mandioca'." (p. 15)


Ontem foi o dia 7 de setembro de 2022. No Brasil se comemorou os 200 anos de independência política da colônia brasileira de exploração em relação à metrópole imperialista Portugal. Uma data importante porque o início do século XIX foi marcado por diversos processos de independência de regiões das Américas invadidas e massacradas pelos ibéricos e demais povos do Norte.

Pois é...

Nosso 7 de setembro de bicentenário da independência foi um dia de vergonha nacional e internacional!

Fica registrado na história da pátria o discurso da autoridade máxima da nação: "- (sou) imbrochável!".

Tivemos aqui uma nova imagem construída para a data em questão. Apesar de ser uma narrativa questionável, ainda soava bem melhor a mitológica cena do grito às margens do Ipiranga "Independência ou morte!" do que a cena patética do grito de "- imbrochável!", após o sujeito inominável lascar um beijo na sua senhora no palanque do 7 de setembro.

O atual presidente da república em campanha para a sua reeleição sequestrou a data do 7 de setembro para transformar uma data importante de nossa história num palanque eleitoral, com o beneplácito das instituições públicas e autoridades brasileiras. Ele pode tudo, ele é inimputável, nada que ele pratica de irregular é irregular, pois ele continuou e continua lá desde o dia 1º de janeiro de 2019...

Pensando na história da alcunha de "Constituição da Mandioca" ao texto construído pelos constituintes em 1823, me parece que ontem o presidente em campanha quis levar ao pé da letra uma brincadeira do período da independência do Brasil, 200 anos antes, e num certo momento de seu discurso oficial de 1º mandatário (será que lembrou da mandioca?) lascou um beijo na primeira-dama e conclamou ao seu séquito de aloprados que gritassem "- imbrochável!", "- imbrochável!", "- imbrochável!"... (que vergonha...)

(brincadeira minha, ele é um ignorante que engana idiotas e ignorantes, ele não deve saber da questão de história sobre a Constituição da Mandioca, na constituinte frustrada de 1823...)

O Brasil não é para amadores...

Fica registrado o fato nos anais da história. (aff... lá vamos nós com expressões esquisitas)

Sinceramente, brochei ao saber desse discurso que marcou os 200 anos de nossa independência. Aqui é realmente uma terra estranha... e com gente esquisita (ao pensar naquela multidão de verde e amarelo gritando "- imbrochável!").

Dia 2 de outubro de 2022 é dia de apertar #Lula13Presidente e marcarmos uma nova independência do Brasil.

William


Bibliografia:

História do Banco do Brasil - Texto do Prof. Afonso Arinos de Melo Franco. Colaboração do Prof. Herculano Gomes Mathias. Edição de junho de 1988, produzida pela diretoria do Banco do Brasil.


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7.9.22

História dos bancários: um olhar (IV)



A independência do Brasil

"Ao deixar o Brasil, em abril de 1821, o rei D. João VI, que confiara a Regência de nosso País a seu filho D. Pedro, não alimentava dúvidas sobre a nossa Independência. Tornou-se famosa a frase em que recomendava ao herdeiro que, no caso da separação, pusesse a coroa na cabeça não permitindo que ninguém lhe tomasse a dianteira.

Na realidade, expressara-se da seguinte forma: 'Pedro, se o Brasil se separar, antes seja para ti, que me hás de respeitar, do que para alguns desses aventureiros'." (p. 13)


Hoje é 7 de setembro de 2022. Há 200 anos o Brasil se tornava politicamente independente de Portugal. Em situações normais, hoje seria um dia de grandes comemorações por parte de tod@s os brasileiros. Como vivemos num Estado tomado pelo crime organizado desde o golpe de Estado em 2016, a data nacional foi capturada pelo regime de exceção para ser utilizada como evento político de manipulação de parte do povo para que se mantenha os criminosos no poder central.

Como a história é feita diariamente pelos seres humanos, vamos seguir adiante, fazendo história e recuperando a independência verdadeira do Brasil e do povo brasileiro, lutando para que haja eleições diretas e democráticas em outubro de 2022, e lutando para nos libertarmos dessa máfia que assumiu o poder por fraudes diversas e golpes em 2018. Vamos eleger Lula presidente do Brasil, governadores progressistas e parlamentares do campo popular, de esquerda e apoiadores do projeto de Brasil soberano liderado por Lula.

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A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL DE FATO OCORREU E TEMOS QUE REFLETIR SOBRE O 7 DE SETEMBRO DE 1822 E OUTROS 7 DE SETEMBRO

Hoje pela manhã, li o ponto de vista de alguns intelectuais que respeito e ponderei a respeito da opinião deles sobre críticas exageradas que se fazem sobre o 7 de setembro.

Opiniões que li no site do Brasil247:

- O economista Paulo Nogueira diz que é um erro dizer que o Brasil se tornou uma colônia da Inglaterra após a independência em 7 de setembro de 1822. Ele afirma que havia divergências políticas entre as elites luso-brasileiras e os ingleses. Eu já disse isso que ele afirma, quando comentei capítulos do livro Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado. Posso ter exagerado, reconheço isso sem problemas. Segundo Paulo Nogueira, a integridade territorial brasileira foi fruto do acerto entre D. João VI e D. Pedro I, veja o acerto na citação acima na abertura da postagem.

Também li opiniões do sociólogo Jessé Souza, do ex-ministro Aldo Rebelo, do presidente do PCO Rui Costa Pimenta e do professor e filósofo Alysson Mascaro e todos eles enaltecem a data do 7 de setembro. A dependência que seguimos tendo até hoje é uma dependência muito atrelada ao imperialismo e ao capitalismo em relação aos países do Norte. E nossa luta pela independência segue firme nesse sentido, a busca de soberania popular em todas as dimensões sociais.

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HISTÓRIA DO BRASIL E DO BANCO DO BRASIL

Voltando à história dos bancários e ao texto de Afonso Arinos em comemoração aos 180 anos de criação do Banco do Brasil, ao reler o capítulo III sobre a independência do Brasil, tive um olhar menos crítico do que a primeira vez que reli dias atrás. 

Afonso Arinos nos lembra do risco que o BB correu logo no início de sua existência ao ficar sem recursos financeiros assim que a Corte retornou a Portugal em 1821.

"(...) Com a partida de D. João, em abril do ano anterior, entrara o meio comercial em pânico. O Banco do Brasil, fora posto em risco pelas retiradas de dinheiro. As dívidas dos que tinham ido para Lisboa ficavam por receber, inclusive a da rainha Carlota Joaquina..." (p. 14)

O Banco do Brasil estava quase falindo já naquela ocasião.

O capítulo III tem subdivisões que nos atualizam bastante sobre o período: A independência; As guerras da independência; A consolidação do império e as dificuldades econômicas do período; O empréstimo de Londres; A Assembleia Constituinte de 1823; A Constituição de 1824.

É por causa desses acontecimentos e dos empréstimos seguidos que o Brasil tomou dos Ingleses, tanto para acertar sua independência em relação a Portugal quanto para se manter internamente, que muitos de nós já fala logo que a independência foi um faz de conta. 

O Brasil se tornou independente de forma política, mas se manteve dependente de forma econômica não só da Inglaterra naquele momento, mas dos imperialismos por causa da hegemonia do modo de produção capitalista no mundo. 

É isso. Seguiremos escrevendo alguns comentários sobre o Brasil e o nosso querido Banco do Brasil e a categoria bancária conforme eu vá relendo materiais que me ajudaram a ser mais politizado.

William


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O texto seguinte desta série (o nº V) pode ser lido aqui.


1.9.22

História dos bancários: um olhar (III)



História do Banco do Brasil - Afonso Arinos

O texto do professor Afonso Arinos de Melo Franco, com colaboração do professor Herculano Gomes Mathias é um dos materiais antigos que tenho em minha biblioteca de estudos sindicais, meu centro de documentação da história da categoria bancária (Cedoc do William rsrs).

O texto veio a público em 1988, encomendado pela diretoria do Banco do Brasil em comemoração aos 180 anos da história de nosso banco público mais antigo. Eu ganhei a edição de um dos gerentes com os quais trabalhei nos anos noventa, quando estava na agência Rua Clélia, dependência fechada após o golpe de 2016, neste duro momento de esvaziamento do papel do BB.

Apesar do formato de revista desse texto, ele é praticamente um livro contendo 14 capítulos. Estou lendo o material e o conteúdo tem muita coisa que me desagrada por ser muito baseado naquela história oficial que nos passaram a vida toda. Basta ver as imagens que ilustram os textos para se ter uma ideia dos lugares-comuns. Mas vamos nos lembrar que o material é de 1988 e o mundo daquele momento era um e o de hoje é outro.

As histórias do Brasil e dos povos e do mundo passaram a ter olhares mais diversos nas últimas décadas e isso foi muito importante para refletirmos sobre o caminhar da humanidade ao longo do tempo. As versões oficiais dos donos do poder passaram a conviver com outros olhares e outras interpretações da história. Imaginem no nosso caso como isso foi impactante...

Enfim, já li 4 capítulos e alguns dados são interessantes porque os autores se basearam em documentos de época e a versão de Afonso Arinos e daquela diretoria sobre a história do Banco do Brasil tem seu valor, assim como outras histórias do banco e dos trabalhadores também têm os seus valores.

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CRIAÇÃO DO BANCO DO BRASIL EM 1808

No capítulo I vemos no texto aquelas versões clássicas de história do Brasil: A expansão territorial; Fundação do Rio de Janeiro; Os bandeirantes; Os tratados de Madri e Santo Ildefonso; Os ciclos econômicos - o Pau-Brasil e o açúcar; o ouro e os diamantes; As limitações impostas por Lisboa.

No capítulo II veremos a parte que conta sobre a criação do BB assim que a corte portuguesa chegou ao Brasil e precisou de uma instituição pública para lidar com as questões financeiras do Estado, no caso a Corte.

Os subtítulos do capítulo: A Corte no Brasil; A abertura dos portos; Importação e Exportação; Fundação do primeiro Banco do Brasil; Primeiros passos da econômica brasileira como nação quase independente; D. Pedro assume a regência do Brasil.

"A desordem na administração financeira era completa, quando a Corte se estabeleceu no Rio de Janeiro.

(...) Naquele tempo as pessoas de recursos recusavam os bilhetes do Real Erário, pois sabiam que o mesmo estava falido. Essa situação perigosa, que já durava desde antes da vinda da Corte, é que levou alguns administradores e estudiosos a pensar na fundação de um Banco de Estado, que viesse atenuar as dificuldades financeiras com as quais se debatia o governo português, tanto em Lisboa como no Rio de Janeiro. O banco cogitado era mais um instrumento de auxílio das finanças públicas do que uma instituição destinada ao progresso da economia particular, quer dizer, da economia do País como um todo e não do governo, como um grupo." (p. 9)

E o autor Afonso Arinos segue em 1988 falando do papel do banco público desde sua criação em 12/10/1808 como um instrumento de Estado.

"Desde os primeiros planos, sempre houve a intenção de fazer do Banco do Brasil um instrumento auxiliar da administração pública, missão que ele, com o progresso do País e as novas normas da administração financeira, continuou sempre realizando e que tem sido a vida dos seus 180 anos.

É datado de 12 de outubro de 1808 o alvará (lei) que criou o Banco do Brasil. Esse documento começa reconhecendo que o Real Erário não tinha condições para realizar os fundos de que depende a manutenção da monarquia. Por isso criava-se, no Rio de Janeiro, um banco público que 'facilite os meios e os recursos de que as rendas reais e as públicas necessitarem para ocorrer às despesas do Estado'." (p. 10)

Fecho as citações dessa parte com uma que tem muita relação com o momento que vivemos no Brasil após o golpe de Estado em 2016, que diz que o BB vai bem ou mal de acordo com o momento político e econômico do país.

"Então, como hoje, como sempre, o Banco do Brasil destinava-se a atender às necessidades do planejamento financeiro do governo e, também, realizar transações com particulares, firmas ou pessoas. As grandes dificuldades que o Banco do Brasil atravessou na sua vida refletiram, sempre, crises internas da nacionalidade. Seus sucessos e fracassos foram o espelho dos momentos de progresso ou recesso nacional..." (p. 10)

BANCO DO BRASIL VIVEU GRANDE MOMENTO NOS GOVERNOS DO PT

Durante os 3 governos do Partido dos Trabalhadores (2003-2014), o BB e demais bancos públicos tiveram papel central de apoio às políticas públicas de Estado para o desenvolvimento do país e de seu povo. Basta citar o papel anticíclico dos bancos públicos na crise mundial de 2008/09 - crise do subprime. BB, Caixa Federal e BNDES financiaram a economia e os setores produtivos do país e o Brasil lidou bem com a crise mundial. Basta ver que o desemprego em 2014 era menos de 5% mesmo com a crise mundial e o desemprego altíssimo no restante dos países centrais e periféricos.

É isso.

À medida que for lendo esse material, vou comentando alguma coisa por aqui. Em 1829, o primeiro BB seria encerrado por lei também... mas essa parte fica para depois.

William Mendes


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29.8.22

História dos bancários: um olhar (II)



Eleições presidenciais de 1989

A categoria bancária brasileira sempre esteve na vanguarda das lutas sociais e ao longo de sua história contou com lideranças políticas concatenadas com as demandas imediatas e também históricas da classe trabalhadora e do povo brasileiro à frente das entidades sindicais. Nas eleições presidenciais de 1989 não foi diferente. Membros da Executiva nacional do BB e outras lideranças sindicais declararam apoio à Frente Brasil Popular e à candidatura de Lula/Bisol, pelo Partido dos Trabalhadores.

Mais de três décadas depois, vivemos em 2022 momentos decisivos da história do país e do povo brasileiro. E essa categoria de lutas e conquistas novamente se coloca na vanguarda tanto ao enfrentar os banqueiros em mais uma dura campanha salarial na qual os bancos estão intransigentes nas mesas de negociação e ameaçam direitos coletivos importantes, quanto é vanguarda ao vermos a imensa maioria das lideranças bancárias apoiando a candidatura de Lula para que o país possa retomar a esperança e as oportunidades para o povo como um todo.

Segue abaixo a reprodução de trechos do material que tenho em meus arquivos pessoais relativo às eleições que ocorreriam no dia 15 de novembro de 1989 para a presidência do Brasil (aos 100 anos de "República"). Eram as primeiras eleições diretas para presidente desde o início dos anos sessenta e após mais de duas décadas de regimes ditatoriais e o povo escolheria entre mais de duas dezenas de candidatos. A eleição se deu após a Constituinte iniciada em 1986 e após a promulgação da nova Constituição Federal, a Constituição Cidadã de 1988.

Materiais como este me ensinaram muito - como liderança nos locais de trabalho e depois como dirigente eleito pelos colegas - e aprendi que era importante nos posicionarmos sobre todas as questões relativas à vida da classe trabalhadora que representávamos.

William Mendes

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FRENTE DO JORNAL

LULA VESTE A CAMISA DO BANCO DO BRASIL POR QUE VESTE A CAMISA DO BRASIL

O funcionalismo do BB já sabe: o futuro do Banco (e do Brasil) está em jogo nessa eleição

Os últimos cinco anos foram muito ricos para o aprendizado político dos bancários do BB. A retomada das greves, a luta pelo salário e pelas condições de trabalho, a defesa perante o ataque permanente ao banco, seu papel social e ao conjunto das estatais criaram e desenvolveram uma consciência da necessidade de lutar permanentemente contra projetos políticos que visavam enfraquecer os bancos estatais e consolidar o sistema financeiro como instrumento de concentração de renda, via especulação financeira.

Nesse período, o movimento sindical cresceu e ampliou-se dentro do BB; a conquista dos sindicatos mais importantes do país por direções combativas e sérias criou as condições para a recomposição salarial no BB e a melhoria de nosso acordo coletivo, com novas cláusulas sociais e sindicais, ampliadas a cada ano.

Ao mesmo tempo em que a luta do funcionalismo torna-se uma referência no movimento sindical, o governo Sarney, sempre pronto a atender as orientações dos banqueiros e do FMI, implementa o plano de esvaziamento do BB, através da redução do papel social do banco, das restrições à admissão de pessoal, da total falta de transparência na administração de seus recursos.

A luta do funcionalismo ajuda a barrar uma parte significativa dos ataques, mas aponta para os trabalhadores do BB a necessidade de uma luta bem mais ampla que passa pelo engajamento na luta político-partidária, na discussão dos diferentes projetos, para o sistema financeiro e para a democratização da sociedade como um todo, a começar pelos locais de trabalho e pela administração nas empresas estatais.

DEFENDER O BB É DEFENDER O BRASIL

Nesse processo, o discurso neoliberal tenta localizar no Estado a origem de todos os males. Tenta debitar aos servidores públicos e de estatais a prática clientelista e corrupta das elites; tenta caracterizar as conquistas dos trabalhadores de algumas estatais como odiosos privilégios. Tudo isso para abrir caminho para o tão sonhado leilão de ações de estatais lucrativas, que converteria em capital sem risco o dinheiro multiplicado pela ciranda financeira, que corre risco cada vez maior de se tornar apenas papel, diante da inviável dívida interna, multiplicada pela irresponsável política de Maílson.

Nesse cenário, é fundamental (para eles) destruir o BB, até mesmo como símbolo nacional de estatal eficiente, como atesta a pesquisa do Datafolha. No caminho, o ataque permanente ao funcionalismo serve como cortina de fumaça para as negociatas de Maílson e Berard. O anúncio de prejuízo é seguido pela queda das ações na bolsa e uma súbita compra pela corretora de Roberto Marinho. Roubo!!?

O QUE QUEREMOS PARA OS PRÓXIMOS ANOS

Nessas eleições presidenciais, estão em jogo projetos que podem levar o país para diferentes caminhos. Um deles se apresenta ao eleitor com toda a clareza, sem um discurso mitificador e sem demagogia de palanque. É um projeto que aponta na participação e na democratização as saídas para um país rico, com a pior distribuição de renda de toda a América Latina; aponta para o fim da especulação financeira, canalizando os recursos do sistema para o crédito produtivo; aponta para a defesa das estatais, com o controle de seus funcionários e da sociedade. É um projeto que está à frente da defesa do BB e que tem investido na organização da classe trabalhadora como forma de sustentar politicamente as principais mudanças estruturais que serão feitas para garantir que o Brasil seja o país do presente, não o país de um incerto futuro, apontado pelas elites como o pote de ouro do final do arco-íris.

Este projeto tem seu vetor apontado para a eleição do dia 15 de novembro. Está representado pela Frente Brasil Popular, pela candidatura LULA, pelos compromissos assumidos junto aos setores que vêm lutando contra a miséria, e exploração, a dilapidação do patrimônio público. No dia 15, você tem um compromisso: defender o BB, defender o Brasil, conosco.

A CANDIDATURA LULA CRESCE EM TODO PAÍS

(...) A candidatura Lula só é possível porque se apoia inteiramente no trabalho consciente de milhões de pessoas que lutam por seus salários, por democracia, por moradia, por terra, em defesa da ecologia e pelos direitos humanos. É esta a força da candidatura Lula: a luta do povo por uma vida melhor.

(...) Nesta eleição, quem representa o novo é LULA.

Por que o novo, num país onde as elites estão há tanto tempo no poder, significa respeito ao povo e democracia em todos os níveis

(Frente Brasil Popular - PT, PSB, PCdoB)


VERSO DO JORNAL

PROPOSTAS DA FRENTE BRASIL POPULAR PARA O BANCO DO BRASIL

1 - Exclusividade como agente do Tesouro: todos os fundos públicos devem estar centralizados no BB. Arrecadação de impostos, pagamentos do governo, contas de todas as estatais, etc. A administração desses recursos deve priorizar a aplicação em projetos de interesse da população, garantindo o financiamento, com juros e prazos favoráveis, do crescimento da produção e do consumo.

2 - Financiamento para agricultura de consumo interno: as linhas de financiamento à agricultura devem priorizar as culturas para consumo interno, e não para exportação. Prazos e juros devem ser extremamente diferenciados de acordo com o tamanho e tipo de propriedade rural. Em caso de programas incentivados com juros negativos o tesouro deve remunerar o banco, pagando o eventual spread negativo.

3 - Financiamento da pesquisa e implementação de tecnologia de ponta: criação de linhas especiais de crédito para pesquisa, através de aplicações de prazo mais dilatado e fatias dos depósitos à vista de pessoas jurídicas.

4 - Reativar e desenvolver o MIPEM: o financiamento e acompanhamento das pequenas e médias empresas contribui para a distribuição de renda e para a ampliação da capacidade de produção e geração de empregos na indústria e no comércio.

5 - Valorizar e profissionalizar o funcionalismo: profissionalizar o funcionalismo, enquanto bancários, dando formação e oportunidade de desenvolvimento na empresa, ampliando seu conhecimento do processo de produção, retirando o caráter de máquina que o BB e outros bancos têm e humanizando o trabalho bancário.

6 - Democratizar o BB, a partir dos locais de trabalho: criar condições democráticas dentro do banco, descentralizando as decisões, ampliando ao máximo a democracia interna, envolvendo o funcionalismo num projeto de banco social, motivando a participação e garantindo transparência nos rumos da instituição a partir de cada agência, através da participação do funcionalismo e da comunidade na definição de prioridades para aplicação de recursos. Realizar, em curto prazo, concurso público para preenchimento das vagas e garantir a abertura das mais de 400 agências prontas, sem inaugurar. Reformular o Plano de Cargos e Salários e Plano de Cargos Comissionados, para eliminar as distorções e facilitar o desenvolvimento profissional, dentro de critérios democráticos de avaliação.

7 - Democratização da Cassi e Previ: as duas caixas, cujos benefícios devem estar voltados aos funcionários, devem ser administradas por funcionários eleitos, com a direção do banco limitando-se ao papel de fiscalização e acompanhamento. Realizar auditoria nessas caixas para verificar a existência de malversação ou corrupção nas administrações passadas.

8 - Auditoria do BB: realizar auditoria nas contas do banco nos últimos vinte anos para apurar denúncias de utilização política dos recursos do BB, durante os últimos governos.

9 - Exclusividade na regulamentação e fiscalização do Comércio Exterior: é fundamental manter o controle do Comércio Exterior pela CACEX, a fim de manter um total acompanhamento do processo de exportação/importação.

10 - Levantamento e cobrança dos grandes inadimplentes históricos: regularização de todos os débitos, com a devida atualização monetária, e responsabilização das direções anteriores por prejuízos causados.

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Estes companheiros lutam em defesa do Banco do Brasil

E POR ISSO APOIAM LULA E BISOL

Membros da Executiva Nacional do BB que apoiam Lula:

Maia (POA); Ivan (Florianópolis); Rui e Tadeu (Curitiba); Lúcio Prieto, Deli e Paulo Assunção (SP); Amaral, Imaculada, Joel e Fernanda (RJ); Eder e Angela (BH); Lessivan (Salvador); Zé Roberto (Alagoas); Enaide e Fernando Duarte (Recife); Pimentel e Sofia (Fortaleza); Sérgio Taboada (Acre).

Outros apoios no BB:

Ricardo Berzoini (Seeb SP e presidente do DNB); Samuel Lima (presidente Seeb Florianópolis); José Luís (ex-diretor Seeb Porto Alegre e diretor eleito da CASSI); Zé Reis (Seeb Porto Alegre); Ana Júlia (Oposição Sindical do Pará); Magela e Jaques (Alternativa Bancária de Brasília); Regina Souza (Seeb Piauí); Jorge Streit (presidente Seeb Rondônia); Luisinho (Seeb SP); Simon (Oposição sindical de Goiás); Nelson (presidente do Seeb Ceará); Jandira (Seeb PB); Zeca (ex-diretor Seeb MS); Paulo Pinto (presidente Seeb ES) e muitos outros companheiros, dirigentes sindicais e funcionários em todo o país.

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História dos bancários: um olhar (I)

 


Um olhar pessoal da história dos bancários brasileiros

Dia 28 de agosto é o dia dos bancários e das bancárias do Brasil. Dia 28 de agosto também é aniversário de criação da maior e mais importante central sindical do Brasil, a Central Única dos Trabalhadores (CUT), que completou 39 anos de existência e, na minha opinião, segue sendo uma instituição estratégica para a classe trabalhadora brasileira.

Ao longo de três décadas trabalhei como bancário, 2 anos no Unibanco e quase 27 anos no Banco do Brasil, primeiro como estagiário e depois como funcionário concursado. Durante mais da metade dessa jornada laboral, atuei como um dirigente eleito pelos colegas para representá-los em espaços de organização e negociação de direitos coletivos. Foi o que fiz de melhor em minha vida.

Quando cheguei eleito ao Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região, em 2002, já era bancário do Banco do Brasil sindicalizado há uma década. Já era um pouco politizado pelo mundo do trabalho, mas não era tão politizado quanto passei a ser ao virar sindicalista. Minha formação política de esquerda foi de certa forma tardia, após os 30 anos de idade, ao ser dirigente estudioso e presente nas bases, porque antes minha participação nas lutas sociais e estudantis eram voluntariosas, mas sem consciência histórica e de classe.

Nos primeiros anos de movimento sindical, era minha característica prestar atenção em tudo e em todos, ouvir com atenção as lideranças mais experientes e das diversas forças políticas que havia, ler e guardar os materiais impressos que existiam sobre nossa história de organização e lutas etc. E assim me formei no dia a dia da representação e nas lutas da categoria e da classe trabalhadora. Minha base formativa foi o Sindicato e mais especificamente o coletivo de diretores e diretoras do Banco do Brasil no Sindicato e no movimento nacional do BB.

Exerci mandatos sindicais e de representação por praticamente duas décadas. Saí do movimento sindical, da vida política e de representação e do Banco do Brasil em 2019. Após meu afastamento dos espaços de organização e lutas da categoria à qual militei a vida toda passei a viver uma realidade bastante diferente daquela que vivia. Sair do topo das organizações sociais para o seio de sua casa e ainda enfrentar dois anos de isolamento pela pandemia mundial é um choque traumático. A mudança é muito radical e se a pessoa não encontrar um certo equilíbrio emocional e novos sentidos e significados pode ser que ela pire. Eu ainda estou buscando sentidos. Isso é normal.

Acumulei durante a vida de estudos e representação de classe uma quantidade enorme de materiais relativos à nossa história. Sabendo que é necessário mexer nessas coisas, se desfazer de boa parte delas e seguir adiante buscando sentidos para o viver, venho olhando os materiais, avaliando o que não dá para jogar fora, o que se poderia fazer com alguns dos materiais etc. Algumas coisas são muito interessantes. 

Pode ser que alguns dos documentos de nosso passado de lutas valham a pena serem citados, comentados e ou transcritos no blog A Categoria Bancária, uma página na internet para a qual dediquei muito tempo de minha vida durante os mandatos que exerci, um espaço de formação e informação dos leitores, de prestação de contas e de registro da história coletiva de uma categoria de lutas e conquistas importantes do povo brasileiro.

Vamos ver se a vida e o momento atual me permitem dedicar algumas horas da semana para compartilhar um pouco de história da categoria bancária sob o meu olhar e com as minhas lembranças. Quase todo o material que acumulei é material que serviu de estudos para eu me tornar o dirigente que fui entre o início dos anos dois mil e meados de 2018, quando encerrei meu último mandato de representação. Tudo que li, estudei e aprendi no fazer sindical me transformou como ser humano. Eu mudei, o mundo mudou e tudo segue mudando. A mudança é a essência do que somos: natureza.

William Mendes


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10.8.22

Memórias (XXX)


Foto: edição de folha bancária do
Sindicato da categoria em Pernambuco.

Cursos de formação política de dirigentes e assessores bancários

Após minhas experiências como diretor do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região atuando nas bases no dia a dia, e também na Executiva da entidade e nas negociações do Banco do Brasil (na Comissão de Empresa), comecei novas tarefas na confederação da categoria. Primeiro fui secretário de imprensa em 2006 e depois passei a ser o responsável pela secretaria de formação da Contraf-CUT, a partir de 2009.

A missão que a diretoria da confederação confiou a mim era de retomar um curso feito nos anos noventa na antiga Confederação Nacional dos Bancários (CNB). Na época, o curso havia sido muito bem avaliado na formação de lideranças da categoria. E assim fizemos. Em parceria com o Dieese, organizamos um curso de formação em 3 módulos de 5 dias para disponibilizarmos para as federações e sindicatos filiados à Contraf-CUT e parceiros do Comando Nacional.

O curso foi pensado para ser realizado nas bases sindicais da confederação e com isso tivemos que pensar uma organização que demoveu os esforços de muita gente, a começar pelas equipes de assessoria da Contraf-CUT, do Dieese e das entidades sindicais que desde o início em 2009 até o final de nossas realizações formativas se disponibilizaram para que tudo corresse bem. O esforço dos participantes foi imenso porque tinham que se ausentar por uma semana de seus cotidianos e famílias. Foi uma parceria histórica em favor da formação política e sindical.

Os cursos foram acontecendo com participação exitosa e empolgada ao longo do primeiro mandato à frente da secretaria de formação e também no segundo mandato, até 2015. Entre 2009 e 2012 realizamos 5 turmas do curso Sindicato, Sociedade e Sistema Financeiro. Os cursos foram um Programa de Capacitação de Dirigentes e Assessores (PCDA), organizado pela Contraf-CUT e Dieese com financiamento das próprias entidades sindicais da estrutura da confederação.

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3ª TURMA DO CURSO PCDA "SINDICATO, SOCIEDADE E SISTEMA FINANCEIRO" - NORDESTE

Ao manusear o material do curso ministrado à 3ª turma, rememorei um período que marcou muito minha vida. Como aprendi! Como aprendemos uns com os outros! Os 3 módulos foram realizados entre os meses de maio e junho de 2010 em Pernambuco. Eu saía muito diferente de cada módulo, de cada curso, e as pessoas diziam a mesma coisa, criamos muita coisa boa durante aqueles quase 6 anos formativos.

O 1º módulo aconteceu nos primeiros dias de maio e o curso se deu em Itamaracá, porque um dos pedidos que fazíamos às entidades sindicais envolvidas era que o curso ocorresse fora das capitais para que a ideia de imersão fosse possível. Para ver a programação do 1º módulo basta clicar aqui. O 2º módulo foi em maio também e o 3º módulo foi em junho, na cidade de Gravatá (PE).

Naquele primeiro encontro refletimos muito sobre a sociedade e o mundo do trabalho. Pela programação é possível ver que variávamos as mídias e fontes dos materiais com os quais trabalhávamos. Revivemos juntos a história do movimento sindical brasileiro e internacional e o quanto a política, as mídias e os governantes impactam na vida de todos, mesmo as pessoas dizendo que não ligam pra política.

Reli alguns textos nesta semana como, por exemplo, os textos de Eric Hobsbawm, Rubem Alves, César Benjamin e Leo Huberman. Que textos! Que reflexões nos trazem esses textos ao vermos como estamos neste momento em relação ao mundo do trabalho!

O texto de José Roberto Torero - "Papo-cabeça no MSN" (2009) - adiantava o que viria mais adiante (hoje!) sobre os jovens e as referências que balizam suas informações e conhecimentos. Preocupante demais! Se uma década atrás o Google era a referência e isso era complicado, hoje são "influenciadores" que muitas vezes não têm conhecimento algum daquilo que falam...

No 2º módulo (ver aqui) a programação era muito focada na área à qual atuávamos como trabalhadores, o sistema financeiro e bancário, e a programação trazia um panorama de mais de um século de história do setor, mudanças e padrões que formataram a sociedade como nós a conhecemos. Era um módulo bem denso e de muita matéria de economia.

Por fim, no 3º módulo trabalhávamos bastante com os desafios daquele momento na categoria bancária (ver aqui). Para onde caminhava o emprego no setor, saúde, igualdade de oportunidades, terceirização, regulamentação ou não do sistema financeiro, as negociações coletivas com o patronato, segurança e outros temas da agenda das entidades sindicais.

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BOAS MEMÓRIAS

Por ser muito apegado à história - história de lutas dos trabalhadores, história do mundo, das sociedades humanas, da arte e da cultura - acabo por guardar quantidades impossíveis de materiais diversos em casa. Sei que tenho que me desfazer de muita coisa. Mas tenho uma dificuldade grande de fazer isso cada vez que pego um material como este do curso...

Enfim, memórias como essas são memórias boas, saudosas, saudáveis.

William


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28.7.22

Memórias (XXIX)


Outubro de 2016, indo ao
19º Congresso da Unidas.


A saúde vai mal quando não temos instituições públicas e privadas focadas na formação de cidadãos com consciência política, educação em saúde e uma ética humanista


Opinião

As postagens de memórias neste blog que utilizei para prestar contas dos mandatos eletivos que exerci ao longo de quase duas décadas de vida pública são postagens que mesclam sentimentos diversos e até antagônicos como, por exemplo, gratidão, dor, alegria, tristeza, raiva, resignação; às vezes esperanças, às vezes.

O conhecimento que adquirimos ao longo de nossa existência é algo essencial para o que somos: seres humanos da espécie homo sapiens. O que nos diferencia do restante dos seres vivos no planeta Terra é a cultura, o saber acumulado, a capacidade de criação, a história, a razão e a consciência, ou seja, são os atributos humanos oriundos de nosso cérebro constituído por 86 bilhões de neurônios, como nos ensina o neurocientista Miguel Nicolelis.

Ao longo de minha vida de representação da classe trabalhadora fui adquirindo conhecimentos novos através das mais diversas formas de educação e cultura: a vivência na militância política é uma excelente escola de vida; os estudos formais e os específicos das áreas nas quais atuava também; os conhecimentos gerais que almejo conhecer para me tornar uma pessoa melhor e mais preparada para contribuir para a sociedade humana ainda me movem pelos caminhos a se abrirem, já que o poeta diz não haver caminhos.

A última representação que exerci foi na área de saúde, fui gestor de uma autogestão com um potencial incrível de realizações na área de saúde dos trabalhadores e na questão de realizar experiências exitosas em sistemas de saúde que poderiam ser referência para as sociedades humanas em relação a modelos fechados de atenção primária e medicina de família e comunidade e inclusive referência para sistemas integrados de saúde nos mais diversos graus de complexidade. A autogestão poderia ser... mas não é mais uma referência, na minha opinião, e avalio que a autogestão dos bancários do Banco do Brasil terá muitas dificuldades de seguir existindo nas próximas décadas.

PARA ONDE ESTAMOS INDO EM RELAÇÃO À SAÚDE HUMANA?

Quando digo que a saúde vai mal por falta de instituições públicas e privadas focadas na formação de cidadãos com consciência política, educação em saúde e uma ética humanista quero dizer com isso que pode existir esperança num amanhã melhor caso haja investimento em formação e educação: basta mudarmos a partir de hoje, pois nossos cérebros humanos são flexíveis e mudam assim que são estimulados para isso; por outro lado, há enormes perspectivas de piora no quadro da saúde humana caso as coisas continuem como estão neste exato momento em que escrevo esse texto de memórias.

Ao olhar a saúde no Brasil - olhar com o conhecimento que adquirimos ao vivenciarmos a experiência de gestão de sistemas de saúde - ao olhar os sistemas públicos e privados e as pessoas que deles dependem, a gente se segura para não chorar e não cair numa depressão profunda. O quadro é desesperador! Faço uma comparação com uma savana ou selva na natureza. Estamos sós como presas numa savana repleta de predadores vorazes; não estamos sequer reunidos em manadas de presas que se protegem umas às outras em meio aos ferozes predadores. Que cenário ruim pra nós, presas a serem predadas! Não temos quem nos proteja neste momento da história.

Ao olhar pessoas e empresas dos sistemas de saúde ao nosso redor - hospitais, clínicas, profissionais diversos, planos de saúde, fornecedores de materiais e medicamentos, reguladores e demais envolvidos no setor - alternamos aqueles sentimentos que disse acima: poderíamos estar muito bem, felizes e esperançosos, mas infelizmente estamos muito mal, muito aquém do que poderíamos estar, caso houvesse interesse dos donos do poder político e econômico em orientar, educar e formar pessoas conscientes, inclusive para a necessária convivência sustentável com o setor de saúde.

Chegamos a um momento fantástico do conhecimento humano nas áreas de intervenções cirúrgicas, medicamentos, materiais do setor, saberes para se evitar os adoecimentos. No entanto, talvez tenhamos chegado também ao momento mais dramático da história humana em relação à falta de ética e de visão humanista neste mundo dominado pelos valores ideológicos do capitalismo. Não valemos mais nada como seres humanos. No mercado de saúde, somos meios para que capitalistas ganhem dinheiro com a mercadoria saúde. E assim, o potencial incrível que teríamos para as pessoas viverem melhor se transformou numa savana onde nossos corpos, nossa saúde, são meios (presas) para se ganharem dinheiro às custas até de nossas vidas.

Cirurgias invasivas e dolorosas às vezes desnecessárias, medicamentos questionáveis, próteses e materiais de altíssimo custo e marca exigidos pelos profissionais de saúde (os doutores, os deuses) que poderiam ser substituídos por outros de mesmo efeito e eficácia, publicidades e propagandas agressivas manipulando pessoas (presas) para a realização de procedimentos que poderiam ser adiados ou evitados... sem instituições públicas e privadas que nos protejam nessa selva de predadores estamos vulneráveis, muito vulneráveis. Afinal de contas não temos o saber dessa área, a palavra final dos especialistas é como sentenças de vida ou morte para nós leigos dos saberes de saúde. E assim estamos neste momento da história humana e brasileira.

E A AUTOGESTÃO EM SAÚDE DA COMUNIDADE DOS TRABALHADORES DO BANCO DO BRASIL?

Vi nesta semana uma matéria da confederação dos bancários da CUT (Contraf) apontando preocupações com novos déficits da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil. Os associados entraram com novos recursos através de reforma estatutária em 2019 para que a entidade tivesse equilíbrio econômico-financeiro e promovesse o avanço do modelo testado e aprovado de Atenção Integral à Saúde, que na Cassi se dava através da Estratégia de Saúde da Família (ESF), uma forma de Atenção Primária à Saúde (APS), desenvolvida na associação desde a reforma estatutária de 1996 cujas bases eram uma estrutura própria de saúde (as unidades CliniCassi) e equipes próprias de profissionais e programas de saúde adequados a cada participante do sistema. 

A estrutura própria de saúde da autogestão Cassi atuaria para mapear, orientar e acompanhar ao longo da vida toda a população assistida pelo Plano de Associados, cerca de 400 mil pessoas, tanto durante a fase laboral dos associados e seus dependentes quanto após essa fase, durante o gozo da aposentadoria. Infelizmente, os gestores eleitos e indicados após a reforma estatutária de 2019 (com exceção da parte da gestão que chegou agora em 2022) decidiram por conta própria se desfazerem do modelo testado e aprovado por décadas e passaram a orientar a associação para uma lógica terceirizada de modelos do mercado de saúde, onde a saúde das pessoas não é o foco, nunca foi, o foco é o lucro com a mercadoria "saúde".

Vi também nesta semana a campanha da direção da Cassi para a indicação de parentes para a venda de planos de saúde - os planos para familiares de associados. Entrei no site da Cassi, olhei, olhei, e concluí que as coisas vão mal e as perspectivas não são boas para nós associados da Caixa de Assistência. 

OPINIÃO - Ao olhar os números atuais da Cassi e os participantes de seus "planos de saúde" vi o quanto continuo acreditando nos conhecimentos que adquiri durante a gestão da associação. Focar todos os esforços da autogestão nesses planos de mercado é um tremendo equívoco e gasto de energia por parte da direção da Cassi. Não se fala em outra coisa na "empresa" Cassi que não seja o plano "Cassi Essencial" e mesmo assim até agora não chegaram sequer a 4 mil planos vendidos... Isso é um absurdo! Falei isso durante anos! A direção deveria estar centrada na ESF para os 378 mil participantes do Plano de Associados que tendem a permanecer no sistema por décadas. Nós mostramos os resultados da ESF em participantes vinculados ao modelo. Os custos com a compra de serviços de saúde no mercado dessa população vinculada à ESF são até 40% menores. Esqueceram tudo isso... ou fazem de conta que não sabiam.

A CASSI NÃO É PLANO DE SAÚDE... É CAIXA DE ASSISTÊNCIA, E OS PARTICIPANTES DEVERIAM SER ORIENTADOS SOBRE ISSO

PONTOS FORTES - Quais são os pontos fortes da Cassi, os potenciais de realização dos objetivos centrais da Caixa de Assistência: cuidar da saúde dos seus associados e dependentes? Num resumão geral, posso dizer que o melhor potencial da Cassi é o Plano de Associados com os seus 378 mil participantes, conhecidos, monitorados e orientados ao longo das próximas décadas através das equipes de família e dos programas de saúde das unidades CliniCassi existentes e a serem criadas. Provamos com estudos que os vinculados ao modelo tinham um custo assistencial bem menor ao usar os recursos na rede prestadora do mercado, mesmo nas faixas etárias maiores! 

Se quisessem, os donos do poder político no sistema Cassi - a direção do patrocinador e a direção da associação, juntamente com as entidades representativas - teriam uma capacidade considerável de educação e orientação em saúde e no uso do sistema Cassi em relação ao modelo ESF e no uso da rede de prestadores quando necessário.

PONTOS FRACOS - Quais são os pontos fracos da Cassi e as apostas que tendem a dar errado e prejudicar o sistema de saúde da autogestão? O maior equívoco é querer disputar mercado com os planos de mercado! Acordem! Nem se a Cassi quisesse poderia competir em igualdade com o mercado porque a Cassi é uma autogestão e a legislação jamais vai permitir a ela as flexibilidades que os planos de saúde do mercado têm! Será que é tão difícil entender isso? Desfazer as estruturas próprias de gestão e atendimento de saúde de atenção primária e ESF é outra coisa bizarra! A estrutura própria da Cassi - Central de atendimento, de unidades regionais Cassi e CliniCassi - é muito barata pelo que realiza (o menor custo adm. do mercado de saúde: 6,1% de (d)eficiência operacional para abril/2022 - Visão Cassi). Cada equipe nuclear de família que cuida de algumas centenas de participantes gera uma economia exponencial no uso dos recursos na rede prestadora. Nossos vinculados deixam de ser "presas" nessa savana de geração de procedimentos para enriquecer capitalistas do mercado privado.

Durante os quatro anos nos quais estivemos na direção da associação, como diretor eleito de saúde, tomamos conhecimento do que era a Cassi, para que havia sido criada, quais os objetivos em saúde que as gerações anteriores a nós tinham definido como norte da autogestão e procuramos seguir aquilo que era a essência da associação: cuidar da saúde de seus associados e dependentes através de um modelo preventivo e sustentável. A Cassi nunca foi nem deveria querer ser uma empresa de saúde de planos de mercado. Nunca!

Não vou ficar de blá-blá-blá repetindo o que demonstramos por 4 anos em centenas de textos e apresentações e com dados reais. A Cassi recebeu recursos novos para avançar no modelo que nós havíamos comprovado a eficácia: APS/ESF/CliniCassi. Mudaram tudo! A direção acha que a Cassi vai concorrer com o mercado privado de planos de saúde... francamente, até um jovem estudante da área (politizado, claro!) saberia que isso não vai dar certo. O foco da sustentabilidade da Caixa de Assistência deveria ser seus participantes do Plano de Associados e o modelo preventivo e mais eficaz da ESF.

Que canseira ver a repetição daquilo que não dá certo! É minha opinião, e ela não é de leigo sobre a autogestão em saúde de nossa comunidade do Banco do Brasil. É opinião política e técnica, de alguém que estudou muito a nossa Caixa de Assistência.

Enquanto a Cassi segue se desfazendo, quem de nós tem confiança plena nos tais terceirizados dos atendimentos por tela (telemedicina, que deveria ser atendimento complementar, não ferramenta principal) que não nos conhecem nem conhecem o nosso histórico de saúde como as equipes de profissionais dos modelos de medicina de família e comunidade conhecem (as equipes ESF no caso da Cassi)? Difícil...

William

Ex-diretor eleito da Cassi


Post Scriptum:

- Fiz um vídeo em julho de 2019 no qual falo de estratégias de negociação com o patrocinador e falo do modelo de saúde da Cassi diferenciando despesas adm. e despesas assistenciais e abordo o equívoco de reduzir a estrutura própria da autogestão. Fizeram isso nos últimos 3 anos. Ver aqui o vídeo.

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18.6.22

Memórias (XXVIII)


 

Por que os preços da gasolina e dos serviços públicos estão tão caros? Como eu fazia para explicar isso aos colegas bancários que representava como dirigente sindical eleito por eles? Era preciso muito estudo para tentar simplificar coisas complexas de forma correta. Era preciso politizar a classe trabalhadora e dar a ela noções gerais das coisas


Opinião

Um dos primeiros livros que li quando me tornei um dirigente sindical da categoria bancária no início dos anos dois mil foi o livro O Brasil privatizado - Um balanço do desmonte do Estado (1999), de Aloysio Biondi. As lições do jornalista foram centrais para eu começar a entender por onde se passavam as sacanagens do capitalismo, do liberalismo e do neoliberalismo. 

O Estado investe pesado e por anos a fio para construir as estruturas necessárias à economia do país para melhorar a vida do povo e depois vêm uns liberais de merda e repassam tudo que foi feito para uns sujeitos ganharem dinheiro por décadas às custas do povo.

Eu me politizei através do convívio com o movimento sindical. O processo de politização de um trabalhador não é simples. No meu caso, não bastou ser um bancário sindicalizado desde que virei bancário do Unibanco aos 19 anos. Nossos corações e mentes são disputados ininterruptamente pelos donos do poder desde que nascemos. Estou falando de ideologia, ideologia da classe dominante. 

Enquanto alguém do sindicato fala comigo de vez em quando, a mídia da casa-grande invade meu dia 24 horas. É foda! Difícil pros sindicalistas disputarem minha consciência numa disputa desproporcional com todos os meios midiáticos dos capitalistas. Mesmo que você jure que não sofre os efeitos da lavagem cerebral, você tem pouca capacidade para evitar isso. Os meios ideológicos dos capitalistas dominam a pauta - a agenda - do que você vai saber e falar e invisibilizam o que você não deve saber nem falar, ou falar sob a ótica deles.

Olhando para trás, avalio que não me politizei através do núcleo familiar, felizmente. A ampla maioria de meus familiares é despolitizada e parte da família compartilha ideais da extrema-direita e apoia a tragédia que vivemos no Brasil. São pessoas que vieram todas da mesma origem humilde, da pobreza, e hoje se acham da "elite" ou "classe média", são liberais ou conservadores... uns são bolsonaristas declarados, outros enrustidos... fazem parte desse 1/3 de gente que temos que derrotar nas urnas para retomarmos um Brasil da esperança e das oportunidades para todos.

Evidentemente não me politizei também durante a primeira década de trabalhos braçais que fiz desde uns onze anos de idade. Imaginem vocês que esse trabalho semiescravo uberizado dos entregadores de tudo - de moto e bicicleta - não é coisa dos anos dois mil. Aos 14 anos de idade eu trabalhava de entregador de remédios numa rede de drogarias em Uberlândia e me lembro como se fosse hoje do quanto sofríamos, os entregadores uberizados da época, quando as entregas eram nas regiões mais distantes da cidade naquelas bicicletas pesadas, sem marchas, com chuva... tudo que eu queria era que o dia terminasse, queria me deitar e dormir, mas não podia porque depois tinha que ir pra aula. A diferença hoje é a ausência total de direitos trabalhistas, presente do golpe de 2016, Temer, Moro e Bolsonaro... "com Supremo com tudo".

Meus familiares viveram tudo isso que vivi com os trabalhos e subempregos, mas eles são quase todos de direita e conservadores (uns se dizem "liberais")... a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante. Quem se desviou da regra familiar fui eu porque no meu caminho apareceu um emprego numa categoria organizada e com sindicato forte e atuante, os bancários. Em outro texto de memórias (o de número XXVI) já falei um pouco sobre isso. Ler aqui.

E mesmo sendo bancário sindicalizado, já no Banco do Brasil em 1997, fiz texto universitário criticando o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), texto daquele tipo que concorda que os sem-terra são uns invasores, uns baderneiros. Na época, usei como referência uma matéria do jornal O Estado de São Paulo (lógico...), que "denunciava" uma invasão no interior do Estado. Como disse acima, o Sindicato tinha contato esporádico comigo, já a mídia dos empresários e coronéis paulistas... 24 horas por dia.

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Texto de memórias tem a mania de ser um texto meio anárquico, sento-me pra escrever sobre o preço caro dos serviços públicos e essenciais para o povo e quando vejo estou falando a esmo sobre o passado vivido. Mas a intenção dessa memória é dar uma noção geral de por que a gasolina está tão cara após o golpe de 2016, após Lava Jato, Temer e Bolsonaro. Minha companheira me perguntou sobre o preço da gasolina ontem e como ando sem paciência disse que depois falava a respeito.

Já no final dos anos noventa, Aloysio Biondi explicava como foram as sacanagens das privatizações dos tucanos, do período FHC. O Estado brasileiro tinha investido bilhões de dinheiros nas estruturas modernizantes das principais empresas públicas do país como as da área de energia elétrica e telecomunicações e aí os desgraçados "liberais" entregaram as empresas de mão beijada, a preço de banana, para uns parças deles ganharem bilhões de dinheiros para si mesmos cobrando altos preços das tarifas de serviços essenciais.

Como noção geral é importante lembrar que privatizar é tornar algo privado, é privar o acesso e o direito que antes eram de todos para aqueles que podem pagar por aquilo. É trocar o interesse público e coletivo pelo interesse de uns caras acionistas doidos pra receber lucros nas veias. A ideologia dominante, dos capitalistas, consegue convencer a gente da minha classe que tirar os nossos direitos é algo bom pra nós. Nos dias que correm, os paulistanos estão se f... com os trens da CPTM privatizados pelos tucanos recentemente e a forma como a mídia empresarial apresenta o problema manipula a realidade de forma impressionante. Os jornais mostram o caos, ficam cobrando melhoria do que piorou e falando em multas, enquanto os acionistas querem saber é do lucro a distribuir. E o povo ó...

GASOLINA, DIESEL E GÁS DE COZINHA - Por que os combustíveis estão com os preços mais altos de nossa história brasileira? Para encher de dinheiro o rabo dos acionistas. É por isso! Durante os governos do Partido dos Trabalhadores - Lula e Dilma - os preços do petróleo no mundo variaram de algumas dezenas de dólares o barril para quase 150 dólares e o preço desse produto essencial na vida do povo brasileiro era de dois a três reais e o gás de cozinha teve o mesmo preço por mais de uma década. O foco da empresa pública Petrobras era servir ao povo brasileiro e à economia do país. São os preços das tarifas públicas que deveriam ser controladas pelo Estado pelo interesse geral da nação.

Uma das primeiras medidas dos golpistas após o golpe de 2016 foi mudar a regra de preço dos combustíveis da Petrobras - uma canetada dentro da empresa que tem os administradores indicados pelo governo (hoje, o Bolsonaro) - regra agora baseada no preço lá fora em dólar, para encher o rabo de dinheiro dos acionistas, mesmo o Brasil tendo capacidade de manter os preços como eram na época do PT (temos produção pra isso). A Petrobras não é mais uma empresa com o objetivo de servir ao povo brasileiro. Não é preciso viajar muito nas ideias pra entender isso. BASTA TER NOÇÕES GERAIS DAS COISAS! A Petrobras deu lucro durante todo o período dos governos do PT, e mesmo assim a empresa contribuiu com a economia e com o povo brasileiro.

O mesmo se dá com todas as privatizações dos serviços e produtos essenciais na vida do país, privar o povo do acesso às coisas para encher as burras de uns caras bilionários é o objetivo central das privatizações, dos capitalistas. É o predomínio do interesse privado sobre o interesse público.

É nauseante e revoltante ver o enganador na presidência e a mídia golpista manipulando parte dos brasileiros, aqueles idiotizados por décadas, com essa questão do preço dos combustíveis no Brasil de Temer, Moro e Bolsonaro (e os Marinho, claro!). Para enganar o povo vale até os caras no Congresso Nacional ferrarem os Estados brasileiros para seguirem com a manipulação tirando a principal fonte de receita dos entes federados... É revoltante!

É isso. 

William


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7.6.22

Memórias (XXVII)


É a luta e a participação social que garantem direitos,
não órgãos de Justiça. Foto: C. Ribas, 25º CNFBB.

Decisão da Justiça não se discute, se cumpre? O c... Aprendi durante minha formação política que não se deve confiar cegamente na Justiça e muito menos substituir a luta e mobilização política por ações na Justiça, que é sempre de natureza conservadora e próxima às burguesias e aos donos do poder político


Pois é, lá vamos nós registrar mais um momento de memórias neste blog de militância política de um cidadão oriundo das lutas da categoria bancária. Vejamos alguns exemplos abaixo:

- Congresso bolsonarista aprova lei que autoriza bancos a tomarem imóvel único das famílias por dívida...

- Procuradores e juízes da operação Lava Jato prenderam pessoas sem condenação, sem o devido processo legal e em desrespeito à Constituição e à presunção de inocência, visando benefícios pessoais e políticos...

- É comum vermos notícias de juízes que mantêm presos mães e pais de família que roubaram algum tipo de comida em algum supermercado...

- A propriedade de seres humanos já foi lei no Brasil...

- A Justiça permitiu em dissídios coletivos que o Banco do Brasil retirasse direitos coletivos durante os governos FHC/PSDB prejudicando dezenas de milhares de trabalhadores e suas famílias...


Entrei na categoria bancária em 1988 como escriturário do Unibanco e lá onde trabalhava, no Centro Administrativo da Raposo Tavares (CAU), conheci o pessoal do movimento sindical. Uma de minhas referências à época era o funcionário político do nosso sindicato, o Marcos Martins, que depois viria a ser um grande político de Osasco - 5 vezes vereador e 3 vezes deputado estadual pelo PT. Passei dois anos na categoria, fiz greve e ajudei a organizar meus colegas no local de trabalho e saí em 1990.

Em 1992, eu era estagiário na agência do Ceagesp do Banco do Brasil, pois havia começado a fazer faculdade de Ciências Contábeis no ano anterior. Quando passei no concurso do BB em 1991 eu não era estagiário ainda, mas o concurso foi cancelado por fraude e na segunda vez que fiz as provas eu já estagiava no banco. Tive que passar duas vezes no concurso para virar bancário do maior banco público do país. Me despedi dos colegas do Ceagesp como estagiário no dia 8/9 e tomei posse na ag. Rua Clélia no BB no dia 9/9/92.

Minha formação política teve muita influência das lideranças do movimento sindical e dos colegas do Banco do Brasil. Ou seja, me formei politicamente no ambiente de trabalho, onde se dão as disputas entre capital e trabalho, entre o patrão e seus capatazes versus nós da base da pirâmide, o "chão de fábrica" ou das agências e dependências do banco. O ambiente de trabalho no BB era muito politizado, de verdade, as pessoas tinham um engajamento impressionante e política era o ar que respirávamos na época.

Entre 1988 e 1990, no Unibanco, já entendia que, em geral, a Justiça do Trabalho e as outras instâncias da Justiça só existiam pra ferrar com a gente, dizer que nossas greves eram ilegais e fazer julgamentos de dissídio coletivo favorecendo os banqueiros. Depois que entrei no Banco do Brasil então, puta merda!, aí é que ficou claro como a Justiça é patronal e só prejudica as categorias profissionais organizadas e que fazem luta de verdade como no caso dos bancários, metalúrgicos, professores e outras categorias. Claro que há exceções na Justiça, existem pessoas progressistas, mas elas são exceção no sistema!

Quando era estagiário do BB em 1992, só ouvia dizer do quanto a Justiça prejudicou os funcionários na greve de 1991, derrotando a categoria e favorecendo o Banco e o governo. Foi nessa época que comecei a ouvir falar de uma confederação pelega que mesmo sem ter base social importante - os maiores sindicatos - e sem organizar as lutas nos bancos era a entidade que era ouvida nos litígios de campanha salarial dos bancos federais... era um horror! Os bancários declaravam greve, iam pra luta e a tal confederação se unia ao patronato e melavam as lutas na justiça.

Aí veio a eleição de FHC (PSDB/DEM) em 1994 e a tragédia começou para nós bancários de bancos públicos. Os tucanos acabaram com a maioria dos bancos públicos estaduais e regionais e os federais passaram por processos terríveis de desmonte com o fim de serem privatizados. Congelamentos salariais, eliminação de direitos coletivos históricos, redução de postos de trabalho e programas de demissão etc. Foram tempos difíceis. Nunca me esquecerei das dezenas de suicídios de colegas bancários. Nunca!

E a Justiça, que papel teve nesse período terrível na história da categoria bancária e dos trabalhadores de empresas públicas? Meu aprendizado foi na prática, vendo a atuação da Justiça nos julgamentos de dissídio coletivo sempre a favor do governo e dos bancos e contra dezenas de milhares de trabalhadores. Até direitos que eram considerados direitos adquiridos foram eliminados nos anos noventa.

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TRABALHADORES NÃO DEVEM DELEGAR SEUS DESTINOS À JUSTIÇA BURGUESA

Tive dois momentos como trabalhador bancário ao longo da vida laboral: entre 1988 e meados de 2002 fui um bancário sindicalizado da base social do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região. Depois, na mesma base, tive a oportunidade que mudou a minha vida e minha visão política das coisas: me tornei dirigente sindical, eleito pelos colegas em 2002, e exerci mandatos de representação até maio de 2018. E o que aprendi em relação às lutas de classe? Aprendi que os trabalhadores devem se organizar e construir mobilização para lutar por seus direitos e nunca devem delegar o resultado de suas lutas a instância alguma da Justiça, nunca!

Além de aprender na prática como atua a Justiça contra as grandes categorias organizadas e mobilizadas, estudei a história de nossas lutas no Brasil, e também a criação da CUT e seus objetivos, a questão da CLT e a estrutura sindical brasileira, a estrutura da Justiça do trabalho, o imposto sindical etc. Depois criamos a nossa Confederação, a Contraf-CUT (em 2006), para interromper as sacanagens que a confederação pelega fazia conosco ao longo da história (principalmente após a ditadura militar de 1964 em diante). É uma longa história e seria difícil discorrer um pouco em uma só postagem.

Por que estou abordando a questão da Justiça, confiar ou não na Justiça, jogar todas as fichas em decisões judiciais etc? Por causa do momento político que estamos vivendo no Brasil pós golpe de Estado em 2016. Tudo ficou muito louco, sem sentido e ficamos sem chão, passamos a ver coisas inimagináveis após a ruptura democrática, golpe que nos trouxe ao inferno que vivemos no Brasil atual (golpe "com o Supremo com tudo" como disse um senador à época).

Enfim, acho que vou parar por aqui este texto de memórias, pode ser que eu faça outro texto falando um pouco dos aprendizados e os motivos pelos quais não devemos confiar na Justiça. Ilustrei no início a questão com alguns exemplos recentes de decisões com força de lei contrárias à maioria do povo e em benefício de castas: a Lava Jato e a lei pra bancos tomarem imóveis de famílias são dois exemplos claros. 

Durante os 16 anos de atuação como dirigente sindical, e com a formação que tive no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região, sempre tive os dois pés atrás em relação a entrar com ações coletivas ou ações judiciais das mais variadas formas para defender direitos de nossa categoria. Todos que conviviam comigo sabiam disso.

Talvez em um próximo texto de memórias eu cite alguns casos prejudiciais para nós bancários que tiveram decisões judiciais favoráveis aos banqueiros e ao governo de plantão. Na categoria bancária aprendi que o movimento sindical sempre foi contrário à interferência da Justiça do Trabalho nas negociações coletivas, por entendermos que a negociação e contratação de direitos sempre foi a melhor solução para os conflitos entre capital e trabalho.

Tem um ditado popular que diz: "a gente nunca sabe o que vai sair da cabeça de um juiz e do cu de uma galinha".

Essa frase vale para a reflexão. Não se deve delegar nossa capacidade de nos organizarmos, definir objetivos e lutar por eles e ao final dos processos negociais contratar direitos e definir regras comuns de convivência: enfim, coisas da democracia.

Resumindo: decisões da Justiça ou da cabeça de algum juiz podem desagradar a uma das partes ou a ambas. O melhor é negociar e conciliar direitos e deveres em um ambiente democrático. Foi isso que aprendi em três décadas de convívio com uma das categorias mais organizadas do país, os bancários.

Não me lembro na história da luta de classes de nenhum direito - social, civil e político - que tenha vindo de uma canetada de algum sujeito das ditas castas "superiores" nas organizações sociais e aglomerações humanas. Entendo que as leis e os costumes existem em função de determinados contextos sociais no tempo e no espaço e o que define as leis e os direitos são as correlações de força estabelecidas nas disputas de grupos sociais.

É isso por enquanto.

William


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