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18.3.24

História dos bancários: um olhar (XV)



O conteúdo dos cursos de formação que fizemos para dirigentes e assessores sindicais ainda hoje seriam de muita valia para a categoria bancária


MEMÓRIAS SINDICAIS

Estava revendo hoje a programação de um dos módulos do curso que fizemos durante o período no qual fui secretário de formação da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro, a Contraf-CUT. Avalio que até hoje o conteúdo tem sua importância para alguém que lida com o Sistema Financeiro Nacional e as complexidades em trabalhar neste setor da economia.

O conteúdo do Módulo II do curso Sindicato, Sociedade e Sistema Financeiro que organizamos para as entidades sindicais da Fetec Centro-Norte em 2011 pode ser lido aqui. O curso foi feito em parceria com o Dieese e foi financiado pelas próprias entidades sindicais filiadas à confederação.

Alguns textos que utilizamos e que eram lidos em voz alta por todos os participantes passaram a compor um repertório de textos que gosto muito porque nos colocam a pensar o mundo e a vida.

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CRÔNICA DE RUBEM ALVES

O texto de Rubem Alves, "O Nome" é um deles, que texto maravilhoso! As leitoras e leitores interessados podem ler o texto clicando aqui.

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EFEITO MULTIPLICADOR DA MOEDA 

Outro texto técnico e sobre economia que gosto bastante é sobre o multiplicador bancário. Aprendi sobre isso ainda quando fiz graduação em Ciências Contábeis e depois vi como os antigos sistemas financeiros podiam atuar na economia de um país com o efeito de reter ou liberar mais recursos para circular na economia. 

Tenho uma postagem com um exemplo de efeito multiplicador da moeda, caso haja interesse em ver como se dá o fenômeno econômico é só clicar aqui.

Imagino que os Estados nacionais e os bancos centrais e governos vêm perdendo a capacidade de controle sobre suas economias com a quantidade de novas formas de circulação de recursos sem controle do governo e do sistema bancário tradicional. Isso é péssimo para a soberania e para a economia dos países.

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IMPORTÂNCIA DE BANCOS E COOPERATIVAS REGIONAIS E LOCAIS

No módulo II do curso, todo ele voltado para o setor financeiro, usávamos o exemplo do Banco Palmas para explicar como é importante para uma comunidade qualquer reter seus recursos na própria economia local gerando renda e crescimento para a própria comunidade.

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CONSENSO DE WASHINGTON

Hoje, eu resumiria as regras econômicas e fiscais inventadas por imperialistas como as regras para ferrar e destruir os países dos outros.

Eis as dez regras básicas (para destruir um país e seu povo, na minha opinião)

- Disciplina fiscal

- Redução dos gastos públicos

- Reforma tributária (redução de impostos)

- Juros de mercado

- Câmbio de mercado

- Abertura comercial

- Investimento estrangeiro direto, com eliminação de restrições

- Privatização das estatais

- Desregulamentação (afrouxamento das leis econômicas e trabalhistas e dos fluxos de capitais)

- Reconhecimento do direito à propriedade intelectual

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FILMES SUGERIDOS E VISTOS NO CURSO

Em todos os cursos nós utilizávamos alguns filmes para variar as mídias utilizadas para abrir discussões e reflexões.

Neste módulo em questão nós disponibilizamos os filmes Norma Rae (1979), dirigido por Martin Ritt, com Sally Field; o filme Inside Job - Trabalho Interno (2010), documentário dirigido por Charles H. Fergunson e Audrey Marrs e o filme Capitalismo, uma história de amor (2009), de Michael Moore.

O curso foi ministrado num período posterior à crise do subprime nos Estados Unidos e essa temática era a discussão do momento.

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FREI BETTO: A MÃO INVISÍVEL DO MERCADO

Terminamos o módulo com um texto bem reflexivo sobre a chamada mão invisível do mercado, que só mete a mão no bolso dos pobres para transferir os recursos públicos e privados para os ricos.

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Aprendemos muito durante esses cursos de formação que fizemos entre 2009 e 2015 na direção da nossa confederação da categoria bancária. Foram mais de 400 participantes em diversos cursos ao longo dos dois mandatos na secretaria de formação.

William Mendes


Cancelamento na esquerda é falta de solidariedade

 


Cancelamento na esquerda é falta de solidariedade de classe

Opinião

 

CENÁRIO DESAFIADOR PARA A CLASSE TRABALHADORA

As classes exploradas e despossuídas do mundo vivem um cenário pra lá de desafiador neste momento da história humana, século 21, ano de 2024. Ao invés de utopias, as tendências são distópicas (o futuro caminha para ser pior, não melhor). Desemprego de nosso lado, concentração de riqueza e poder maior ainda do lado dos ricos; carências de tudo no lado do povo: alimentação, saúde, educação, moradia, segurança, cultura. Destruição do planeta pelo capitalismo. Belluzzo escreveu nestes dias: caminhamos para um “Estado de mal-estar social”.

Além do drama da emergência climática, cujo efeito é parecido ao de bombas atômicas porque os países ricos e hegemônicos fazem as merdas e as consequências extrapolam os quintais, já que o efeito radioativo e os efeitos climáticos se sentem em todo o globo terrestre (pois felizmente ou infelizmente a Terra não é plana), temos o drama da mudança radical de comportamento humano, fruto do neoliberalismo e das ferramentas de manipulação das big techs: o que era uma utopia de liberdade e reencontros de amigos no início do século, internet e as redes sociais, viraram máquinas de divulgação de ódio e rupturas de amigos e familiares. Nos transformaram em animais baseados em instintos e paixões, ninguém tem mais tolerância nem ouvidos para opiniões diferentes.

Sobre as ferramentas que dominaram o mundo e nossas mentes e comportamentos, ainda temos pessoas que acham que vão vencer os algoritmos dos donos das big techs. Doce ilusão! (amarga ilusão, pois isso impede ações para combater os algoritmos desses poucos donos do poder mundial, poder que extrapola fronteiras de países inteiros: vide o Brexit, todo mundo se ferrou, menos meia dúzia de articuladores da manipulação do povo)

Enfim, após essa introdução de minha leitura do cenário desafiador para a classe trabalhadora mundial, para os 99%, em oposição ao 1%, que pra mim deveria ser identificado claramente como nossos inimigos no mundo humano, vou registrar o que penso sobre a ferramenta social da atualidade que podemos denominar “cancelamento”.

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TERÍAMOS AVANÇADO NOS DIREITOS DO POVO SE HOUVESSE CANCELAMENTOS COMO HOJE NA CONSTRUÇÃO DO NOVO SINDICALISMO?

É óbvio que gostaria de ir direto para o ponto sobre o que penso dessa ferramenta desumana de cancelar pessoas, mas para poder ao menos pensar a respeito olhando para trás, eu preciso me perguntar se haveria o Partido dos Trabalhadores (1980), a Central Única dos Trabalhadores (1983), o Movimento Nacional dos Trabalhadores Sem-Terra (1984), o movimento pelo fim da ditadura e pela volta da democracia “Diretas Já” (1985), e se haveria os militantes de esquerda porretas que contribuíram decisivamente na Constituinte para a Constituição Cidadã de 1988... acho difícil!

Fico pensando se teríamos uma Central com 17 (dezessete) correntes e forças políticas como a CUT chegou a ter na sua origem ou mesmo se teríamos criado a Articulação Sindical como a tendência hegemônica em congressos e fóruns democráticos, e com isso em diversos sindicatos de categorias importantes, caso o fenômeno do cancelamento e do banimento de qualquer voz dissonante fosse a regra naquele período...

Minha opinião: nunca! Até porque a estratégia da Articulação para se constituir como maioria no movimento sindical foi justamente juntar pessoas e grupos que já não estavam comprometidos com as correntes do chamado centralismo democrático: convergência socialista, os comunistas e outras forças políticas com longa trajetória de lutas no mundo.

Tenho a leitura racional que jamais teria passado a minha vida contribuindo para as lutas e conquistas da Articulação Sindical se não fosse a paciência da dirigente sindical Deise Lessa à época que me conheceu numa agência do Banco do Brasil. A ética sindical daquela geração dela ouvia e respeitava pessoas que pensam diferente! Não fosse essa ética daquela época da Articulação e do Novo Sindicalismo, eu teria ficado nos grupos que viviam me convidando para as reuniões que só falavam mal da diretoria do sindicato.

A prática de se buscar o consenso progressivo de todas as formas possíveis, antes de simplesmente contar votos e ter vitórias de Pirro no campo da classe trabalhadora, dividindo forças políticas o tempo todo, não resistiria a meia dúzia de cancelamentos à época, fazendo de conta que “esqueceram” de convidar fulano ou cicrana para um fórum importante.

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Na atualidade, não querem minha opinião sequer sobre uma das temáticas mais complexas do movimento sindical e que sei alguma coisa – gestão de autogestão em saúde – e outro dia, numa manifestação de rua, conversando com duas lideranças do meu sindicato de base, me perguntaram se eu havia gravado um vídeo sobre os 100 anos do Sindicato e ao dizer que ainda não, me disseram que eu iria ser contatado... pensei comigo no dia: doce ilusão! (provavelmente eu vá ser lembrado quando morrer... uma lembrança burocrática, talvez)

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A ESQUERDA NÃO DEVERIA ABRIR MÃO DE QUADROS COM HISTÓRIA E CONHECIMENTO POR CAUSA DE PICUINHAS DA BUROCRACIA

Após uma vida vivida dentro do movimento sindical bancário brasileiro, desde adulto jovem com 18 anos até os 50 anos de idade, a gente pode dizer que viu muita coisa no seio do movimento social de nosso país, de nossa classe trabalhadora. Modéstia à parte, eu vivenciei muitos momentos importantes e diria até decisivos para a nossa história, senão da classe, mas também, ao menos da categoria, e com certeza do segmento da categoria chamado bancários do Banco do Brasil.

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“Não tem que tolerar a religião dos outros, tem que respeitar” (Frei Betto)

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Antes de terminar esta reflexão, deixo claro algumas coisas:

É evidente que escrevo porque em mim dói alguma coisa também, mas falar sobre o tema cancelamento é uma necessidade inadiável no campo da esquerda. Faz tempo que essa “ferramenta” vem enfraquecendo e diluindo nossas frentes de esquerda nas lutas centrais contra o verdadeiro inimigo de nossa classe. Isso precisa parar, sem a recuperação da solidariedade e do fazer político verdadeiro, onde todas as pessoas e grupos sejam ouvidos e os debates ocorram com a tentativa de construção de unidade, as forças extremistas à direita, que são vozes ou ferramentas dos donos do poder (1%), e estão sendo organizadas de forma mundial, vão nos cancelar a todos, a todos.

Eu não sou e não quero ser candidato a mais nada, não quero representar ninguém, já valeram as duas décadas de representação desde a sindicância de condomínio até as representações sindicais no movimento dos bancários. Aliás, nunca me coloquei em disputas de candidaturas a nada, nunca, sempre que fui representante eleito de algum grupo é porque esses grupos debatiam e me convidavam, me procuravam para pedir que eu disponibilizasse meu nome para aquela causa (muitas delas com um sacrifício pessoal imenso).

Então, repito, escrevo sobre cancelamento porque tenho opinião e experiência de décadas na luta da esquerda, quero o bem de nosso povo, e afirmo que essa ferramenta vai inviabilizar nossas vitórias nas lutas de classe. Sozinhos ou de bolha em bolha de gente de ideias idênticas não vamos a lugar algum na luta de classes.

NÃO SE JOGA FORA CONHECIMENTO E EXPERIÊNCIA

O movimento organizado tem uma característica extraordinária de criar bons quadros políticos com conhecimentos de mundo formados no dia a dia das lutas. Os conhecimentos de um dirigente sindical, político, estudantil ou de outros movimentos específicos – identitários ou por moradia e pela terra pra plantar etc – são conhecimentos gerais e muitas vezes técnicos que não se adquirem nos estabelecimentos formais de educação.

Por isso acho um desserviço essa ferramenta do banimento, cancelamento, esquecimento, invisibilização e retirada do acesso de lideranças de qualquer movimento aos espaços de organização das próprias lutas em si. É uma prática pouco inteligente. E isso vem se ampliando exponencialmente ano após ano, e na última década a coisa chegou aos limites da insanidade.

Por décadas, li e estudei e tomei conhecimento do pensamento de lideranças e forças políticas diversas da minha porque os via falando, defendendo as ideias deles, porque tinham direito a escrever teses nos congressos, tinham espaço para falar nas assembleias, que eram presenciais. Agora é raro, cada dia mais impossível, ouvir alguém falar algo diferente do que a direção de determinado sindicato, grupo, movimento pensa. Pior ainda, dentro da mesma força política, se a pessoa perguntar ou questionar algo e a chefa ou chefe não gostar, adeus àquela vítima... ela será esquecida e nunca mais terá existido na face da Terra.

(e pensar que a referência negativa na Articulação Sindical era o chamado stalinismo, com aquele lugar-comum de até apagar fotos de lideranças que viraram desafetos etc)

Agora não se fazem mais teses, não se fazem mais assembleias e congressos presenciais (são raros), o que impera são as redes sociais das big techs, que permitem cancelar e bloquear ideias diferentes e invisibilizar vozes e pensamentos assim como as big techs fazem com as esquerdas mundo afora...

NÃO SE ACHAM MILITANTES DE ESQUERDA AOS MONTES POR AÍ (ENTÃO RESPEITEM OS QUE EXISTEM)

Às vezes, militantes são grandes especialistas em temas e questões que estudaram e foram acumulando conhecimento anos a fio, são o resultado das nossas lutas contra os verdadeiros inimigos de nossa classe, mas como têm opiniões fortes, muitas vezes não concordam com a proposta ou tese que o/a líder daquele espaço defende, e então são vetados, banidos de qualquer fórum que vá tratar daquele tema. Quem ganha com isso? O nosso lado da classe?

Digam se isso não acontece no seu espaço de militância hoje em dia.

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FALTA DE SOLIDARIEDADE E CUMPLICIDADE DAQUELAS PESSOAS QUE NÃO FAZEM NADA PARA QUE OS CANCELAMENTOS ACABEM NA ESQUERDA

Penso que não adianta ficar chorando o leite derramado, tivemos na última década muitas divisões em nossa classe trabalhadora, coincidentemente após aquelas manifestações de junho de 2013 - movimentações sabidas hoje que não foram “espontâneas” porque eram parte de um processo global de guerras híbridas.

Temos que retomar os diálogos, a paciência de ouvir, temos que respeitar as opiniões diferentes, e não “tolerar” como diz Frei Betto, temos que nos reunir em fóruns de nossa classe e construir consensos que evitem que as extremas-direitas, o movimento fascista global, nos derrotem, derrubem ou inviabilizem governos como o do presidente Lula.

Entendo que é uma obrigação ética ter mais solidariedade no campo da esquerda. Quantas lideranças forjadas em décadas de lutas estão por aí, apagadas, canceladas, invisibilizadas, por parte das direções dos movimentos sindicais, partidários, estudantis etc?

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Eu cobro responsabilidade de toda aquela e aquele que não se posiciona em seu espaço de poder e representação pelo fato dele/a saber que alguém está cancelado e não fazer nada a respeito. Quando eu fazia a fala inicial aos novos funcionários do BB explicava a eles que nunca achassem normal serem assediados, a violência organizacional, a humilhação etc. Não se pode achar “normal” apagarem da história uma militância e não se questionar internamente essa atitude... isso está errado na ética política da esquerda, que quer mudar o mundo hegemonizado pelo capitalismo e por seus agentes.

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A UNIDADE É A MELHOR CHANCE PARA A ESQUERDA

Eu me dirijo aos dirigentes bancários e militantes tanto da ativa quanto aposentados em relação à luta para que esses cancelamentos deixem de acontecer em suas bases sindicais.

Por que será que uma liderança local, que contribuiu de forma importante para a nossa história, nunca mais apareceu em debates e eventos de seus fóruns? Pode ser que ela tenha decidido descansar mesmo, nada mais justo, mas pode ser que ela nunca mais tenha sido convidada a contribuir com seus conhecimentos e experiências para os desafios atuais da direção do movimento por algum motivo pessoal de alguém ou até sem motivo. Isso é justo, é legítimo, é ético? Pensem a respeito.

Dias atrás, fui cobrado para me posicionar sobre a eleição da Cassi, autogestão em saúde dos funcionários do Banco do Brasil. É algo no mínimo inusitado. Desde as eleições de 2020, fui “esquecido” pelo meu sindicato de base na hora dos debates dos fóruns para se debater os temas. Isso se repetiu em 2022, esqueceram de mim na primeira semana de dezembro de 2021. E estamos com eleições em 2024. O que penso sobre isso?

Como ninguém quis ouvir o que eu pensava sobre o tema, e eu conheço alguma coisa sobre a Cassi e autogestões e modelo de saúde, e como eu teria contribuições a fazer, achei descabido me cobrarem posicionamento. Fui cancelado pelo meu sindicato, praticamente com foto apagada como aquelas da URSS, e entendi que o melhor seria seguir morto politicamente – CPF cancelado -, apesar de estar vivo civilmente e biologicamente.

Estive em um fórum de pessoas construindo conhecimentos sobre autogestão nesta semana e me pareceu que eu tive algo a contribuir, fiquei feliz e não fiz mais do que me exigiria a ética política de passar adiante o conhecimento que adquiri nas lutas da classe trabalhadora.

Sempre, sempre estive à disposição de todas as entidades sindicais, políticas, organizativas e outras para contribuir com o pouco que sei de alguns temas e assuntos que adquiri saber nas lutas diárias do movimento sindical. Sigo à disposição no que puder contribuir.

Quanto à eleição da nossa autogestão, eu tenho opinião, como ser politizado aprendi que é importante se posicionar, estudando o tema antes se necessário, e achei muito ruim o nosso campo da esquerda se dividir dando chances à chapa do outro campo. As bases sociais brasileiras estão muito polarizadas. Acho um risco. Espero que as forças mais à esquerda ganhem e que as chapas 2 e 55 não voltem para a gestão da nossa Caixa de Assistência.

Mas se realmente quisessem minha opinião, poderiam ter me chamado em qualquer fórum sindical que ajudei a fortalecer nas últimas décadas. Eu sigo à disposição do movimento sindical.

William Mendes


10.3.24

Diário e reflexões: autogestões

 


Autogestão: uma modalidade das operadoras da saúde suplementar que por suas características pode ousar desenvolver modelos de Atenção Primária e Medicina de Família

Osasco, 10 de março de 2024. Domingo.


"O óbvio é aquilo que nunca é visto até que
alguém o manifeste com simplicidade
" (Kahlil Gibran)


Para fazer um bate-papo com gestores e operadores de uma autogestão em saúde, decidi visitar minhas memórias sobre os conhecimentos e experiências que tive o privilégio de adquirir ao ter sido eleito diretor de saúde de uma das maiores operadoras do Brasil na modalidade autogestão: a Cassi dos trabalhadores do maior banco público do país.

Fiquei pensando nos últimos dias quais temáticas poderia abordar para contribuir com a direção e operadores de uma autogestão em saúde. Fui buscar na memória quais informações mais me surpreenderam e foram novidade quando cheguei à Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil para atuar na diretoria justamente responsável pelo modelo assistencial daquela autogestão.

Uma característica pessoal que deve ter contribuído para minha percepção relativamente rápida do que se tratava a autogestão na qual fazia parte da direção é gostar de ler e estudar. Isso facilitou minha passagem de quatro anos pela direção da Cassi. Outro fator essencial foi a qualidade das equipes que trabalhavam conosco na gestão, pois sem os ensinamentos dos profissionais da Cassi e sem os debates francos e fraternos não teria aprendido o que sei sobre gestão de saúde.

As autogestões fazem parte das modalidades de operadoras da saúde suplementar reguladas e fiscalizadas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Elas têm algumas características diferentes das outras modalidades que operam no sistema de saúde. Não são planos de saúde comerciais como os demais que operam no mercado, como as medicinas de grupo, as seguradoras de saúde e as cooperativas médicas. Para o bem e para o mal, os pontos positivos e os negativos das autogestões precisam ser conhecidos tanto por seus gestores quanto pelos participantes da modalidade.

Como gestor da maior autogestão do país, rapidamente entendi o que deveria fazer em quatro anos de gestão e após um planejamento estratégico feito em nossa diretoria, persegui disciplinadamente os eixos dos objetivos traçados por nossas equipes para fortalecer a operadora em si, o modelo assistencial definido após a reforma estatutária (1996) que deu as características atuais da Cassi e para defender os direitos em saúde e de participação na gestão dos associados da Caixa de Assistência.


A SAÚDE SUPLEMENTAR NO BRASIL

Peguei para ler um livro que estou achando bastante interessante, um livro com um excelente conteúdo técnico sobre saúde suplementar. Já li um terço do material e fico contente por ter percebido que meus conhecimentos não se perderam sobre o tema. Se trata do livro "Fundamentos, Regulação e Desafios da Saúde Suplementar no Brasil", de Sandro leal Alves, lançado em 2015. O autor escreve muito bem, o que facilita bastante a leitura.

Refletindo a respeito do que poderia abordar com operadores e gestores de uma autogestão em saúde e relembrando o que compreendi ao estudar o modelo assistencial da Cassi e o sistema de saúde no qual ela operava - o mercado privado de venda de serviços de saúde - entendo que os objetivos que persegui durante quatro anos de mandato são boas referências para um bate-papo, uma troca de informações.

1. As autogestões precisam ser conhecidas por seu próprio público, pelos chamados "stakeholders", pelas partes envolvidas e interessadas na operação da autogestão. Infelizmente, a tendência é gerirem a autogestão como se ela fosse uma empresa do mercado de saúde suplementar como as medicinas de grupo ou seguradoras de saúde, por exemplo. Só de não atuar com a informação correta na apresentação da autogestão para os seus operadores e participantes, já teremos pela frente uma enormidade de problemas que resultarão no consumo inadequado dos recursos da operadora. E insatisfação, muita insatisfação e até judicialização.

2. Feita a lição de casa básica, compreender que a autogestão é uma autogestão e que isso dá a ela características bem distintas das demais operadoras de saúde que operam no mercado de venda de serviços e produtos de saúde, desenvolver a melhor forma de usar os recursos para cuidar da saúde de seus participantes ao longo do tempo. 

Uma operadora do sistema de saúde suplementar, dependendo mais ou menos de alguma estrutura própria de saúde que tenha, atua no sistema (mercado) usando seus recursos (receitas) para comprar procedimentos e produtos caríssimos num mercado que visa lucro com a doença das pessoas. 

Esse fato precisa ser tratado com a realidade devida, se os participantes das operadoras de saúde tiverem boa saúde os capitalistas que vendem serviços e produtos terão leitos vazios e lucros menores. Um modelo preventivo na autogestão vai diminuir o lucro do mercado e os hospitais, médicos, clínicas e vendedores de OPMEs não vão ficar contentes com isso. Entendem? Os recursos da autogestão serão utilizados de forma mais adequada também.

É fundamental, por isso, que os stakeholders da autogestão compreendam que ela tem menos liberdade para escolher sua carteira de "clientes" (público é definido por lei), tem dificuldade de repassar para as mensalidades toda a inflação médica para reequilibrar anualmente o balanço, e o perfil de seus participantes em geral contém faixas etárias maiores que as operadoras do mercado que visam lucro.

3. Tendo claro que uma autogestão não é um plano de saúde comercial (que visa lucro), que ela tem algumas limitações para compor sua carteira de usuários, reajustar mensalidades e comprar serviços no mercado de saúde através de contratos com redes credenciadas, a direção e os operadores devem desenvolver objetivos realistas com a natureza da autogestão e definir estratégias para isso. 

4. Uma das principais características das autogestões para atuar na prevenção de doenças e na qualidade da saúde da população assistida é o longo prazo de permanência dos participantes no sistema. Em geral, são grupos de trabalhadores que passarão décadas dentro da modalidade, tanto os titulares do plano quanto seus dependentes e familiares permitidos pela legislação. Aí entram os modelos de saúde que monitoram e atuam com cada indivíduo assistido ao longo de muitos anos, permitindo com um bom gerenciamento do modelo, orientar o melhor uso das redes credenciadas, protegendo tanto os participantes quanto os recursos da autogestão.

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TER UM MODELO ASSISTENCIAL DE ATENÇÃO INTEGRAL À SAÚDE

Minha sugestão é a autogestão criar e fortalecer um modelo de Atenção Primária que conheça seu público e o acompanhe ao longo da vida e trabalhar fortemente a comunicação com educação em saúde e criação de um espírito de pertencimento à autogestão como um patrimônio daquele grupamento. Os planos de mercado têm dificuldade em fazer isso, porque seus públicos entram e saem. As autogestões tendem a ter seus públicos por décadas!

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NÃO HÁ RECURSOS QUE PAGUEM O QUE O MERCADO DA SAÚDE TEM A OFERECER

Estas reflexões são linhas gerais que considero importantes para serem avaliadas em planejamentos estratégicos de uma autogestão em saúde.

As contradições nesta área do saber e da economia são enormes. De um lado, temos os setores que operam na geração das despesas assistenciais, vendendo serviços, materiais, medicamentos, diagnoses e culturas estéticas e do outro temos pessoas e planos de saúde com recursos sempre limitados sendo incentivados ou forçados (até pela justiça) a comprarem aquelas ofertas caras de procedimentos e produtos, ofertas ora necessárias ora desnecessárias. A conta não fecha!

Quando gestor da maior operadora de autogestão do país, criamos uma metodologia de aferição dos resultados em saúde e no uso dos recursos de uma população assistida por um modelo assistencial de Estratégia de Saúde da Família (ESF) no qual os participantes que estavam fidelizados há três anos ou mais tinham resultados no uso dos recursos do plano muito melhores que seus correspondentes das mais diversas faixas etárias que não eram cuidados pela ESF. Os números eram impressionantes, mesmo nas curvas A de despesas do plano.

Durante quatro anos, mesmo enquanto a operadora redefinia sua estrutura de custeio, pois enfrentava à época mais uma série de déficits que acompanham a Cassi há oito décadas, nós apresentamos aos stakeholders o que era a autogestão, seu modelo assistencial ESF/CliniCassi e programas de saúde, aumentamos os cadastrados na ESF em nível nacional, empoderamos as lideranças locais no modelo assistencial e os estudos que fizemos deram coesão na defesa do modelo por ser mais sustentável no tempo.

Enfim, para esse artigo já dei algumas ideias sobre caminhos a serem seguidos por autogestões em saúde pensando em como lidar com suas populações assistidas.

William Mendes


6.3.24

Diário e reflexões



Esquecer o passado ou falar sobre o passado? Até quando a esquerda vai seguir se dividindo e cancelando quem pensa diferente?

Osasco, 6 de março de 2024. Quarta-feira.


INTRODUÇÃO

Durante muitos anos este blog de política sindical foi base de prestação de contas de mandatos eletivos e de apresentação de ideias, reflexões e proposições do mundo do trabalho. Como exerci mandatos nas áreas de comunicação e de formação política, o blog era uma ferramenta de formação, informação e história, como se observa no mural da página inicial.

Durante alguns períodos da vida nacional, da categoria bancária e até da vida pessoal o blog foi uma ferramenta essencial em minha vida. Após as mudanças ocorridas no país com as manifestações de junho de 2013, depois com o golpe de Estado em 2016 e durante os governos de extrema-direita de Temer e Bolsonaro, muitas vezes compartilhei o que pensava em relação à política aqui neste espaço, até 2018 como um representante da classe trabalhadora, e depois como um cidadão politizado.

Mais recentemente, o blog acabou sendo um espaço onde escrevi um livro de memórias das lutas sindicais, foram 39 capítulos escritos em mais ou menos dois anos. Os textos tiveram uma leitura que me impressionou, mais de 80 mil acessos. Fiquei contente ao perceber que ainda temos leitoras e leitores. Às vezes, me preocupa a ideia da diminuição dos leitores na sociedade atual.

No blog Refeitório Cultural, meu blog de cultura, tenho uma categoria de textos que chamo de "Diário e reflexões", é uma categoria antiga, quase da idade do blog. Nela, cabe de tudo, pois é escrita ao sabor do instante do escritor. No entanto, ficaria um pouco deslocado no blog de cultura uma série de textos mais vinculados com este blog do mundo sindical e do trabalho. Por isso, pensei em criar aqui também, uma categoria de "Diário e reflexões". Eu não estou mais no movimento, nem tenho mandato eletivo. Mas não esqueci tudo que aprendi ao longo de uma vida de militância política.

SOLIDARIEDADE E UNIDADE

Aliás, é sobre isso que talvez eu fale na categoria "Diário e reflexões" deste blog A Categoria Bancária. Ao longo de três décadas de vida política e sindical, sempre aprendi princípios basilares no campo da esquerda organizada. A solidariedade era uma das nossas premissas do movimento de lutas da classe trabalhadora. Outra coisa que me lembro muito dos ensinamentos a partir da militância mais experiente era nunca deixar um companheiro/a para trás. Me lembro até dos discursos que fazia nas reuniões de base quando dizia que militante não se acha em qualquer esquina, então é necessário valorizar e respeitar os militantes de esquerda, independente de suas preferências partidárias ou tendências sindicais.

DEVEMOS ACEITAR CALADOS OS CANCELAMENTOS NO CAMPO DA ESQUERDA?

À medida que as coisas foram mudando na política brasileira com a ascensão das forças conservadoras a partir de 2013 e as forças progressistas passaram a ter que dividir os espaços públicos com um grupamento de gente que não estávamos acostumados a ver nas ruas e espaços comuns, me parece que se acelerou o processo de criação de bolhas de grupos de ideias homogêneas inclusive no campo das esquerdas. Como havia risco de perda de espaço e poder, a esquerda embarcou na mesma lógica de exclusão das opiniões divergentes das pessoas que eram do mesmo espectro político. Divergiu de um(a) líder, tchau!

O mundo é complexo, a sociedade humana é complexa, e não se tem explicação simplória para coisas complexas. As forças de direita atuam bastante através da estratégia de reduções rasteiras e simplórias das coisas. É muito mais fácil manipular pessoas com explicações simplórias e falsas em contextos de crise e em momentos de busca de explicações para insatisfações pessoais e coletivas do que buscar as explicações das dificuldades da vida humana na realidade material, na histórica luta de classes, nas causas e consequências da exploração de maiorias por minorias privilegiadas.

Na última década de militância e mandatos de representação, fui vendo rachas e divisões absurdas no seio de nosso campo político e na esquerda de uma forma geral. A começar pelos rachas em diretorias de sindicatos, federações, confederações e até das centrais sindicais. Como nada é simples, os rachas sempre tiveram uma gama de motivações aparentes. Personalismo, ideias divergentes mesmo, ausência de risco de perda do poder para o verdadeiro inimigo, os capitalistas e donos do poder real, e uma motivação horrível em especial: intolerância! Enfim, motivações variadas levaram a esquerda a um período de grandes divisões que só favoreceram o nosso inimigo de classe.

Durante décadas, a classe trabalhadora construiu grandes frentes de lutas em prol de agendas comuns que eram colocadas como prioridade em relação a agendas corporativas em momentos duros da vida nacional e da maioria do povo, aquela maioria que não pertence ao pequeno universo dos abastados e privilegiados.

ATÉ QUANDO AS ESQUERDAS VÃO SE DIVIDIR?

Hoje, estamos no início do segundo ano do terceiro mandato do presidente Lula, às vésperas de um enfrentamento com os campos conservadores, reacionários e de extrema-direita como nunca vimos antes, uma ordem mundial organizada, e o que eu vejo é o nosso lado dividido até mesmo em eleições corporativas como a da Cassi, autogestão dos funcionários do Banco do Brasil. Duas chapas do nosso campo e uma chapa do inimigo. É impressionante! É um verdadeiro absurdo porque se mostra claramente que a esquerda não aprende nada com a história, nada! Qual o sentido em bases com públicos polarizados 50/50 termos duas chapas de esquerda e uma de direita?

Enfim... Devemos falar sobre o passado, entendê-lo, interpretá-lo ou devemos fazer de conta que o passado não existiu?

Deixar o passado para trás, sem tratá-lo como se deveria é o que vigora no Brasil há séculos. A extrema-direita e os donos do poder estão mais uma vez convencendo o nosso lado a fazer os devidos acordos para se deixar quieto o passado e começar do zero as coisas (falo dos militares golpistas).

No nosso campo, que deveria ser baseado na unidade e na solidariedade de classe, vigoram os cancelamentos e apagamentos de qualquer militância que alguém em algum lugar julgar ter sido contestado ou contrariado em algum momento da história da vida toda. Uma coisa absolutamente improdutiva e desagregadora no parco campo da esquerda, muito menor que o restante da sociedade humana.

Talvez eu tenha paciência para escrever um pouco sobre isso aqui neste blog de política, blog que já me salvou a vida num momento de lawfare por parte das forças conservadoras que montaram um desses processos mequetrefes de assassinato de histórias de vida e de aniquilamento de lideranças da classe trabalhadora. O blog me salvou pela forma como eu exercia nossos mandatos publicizando tudo que fazíamos.

O que vem por aí é pavoroso em relação à classe trabalhadora mundial. O amanhã não será melhor que o presente, inclusive por causa da emergência climática. Sem unidade no campo da esquerda, seremos pouco combativos em qualquer frente de luta na qual estivermos empenhados.

Vamos continuar nos dividindo até quando? Até quando a esquerda vai repetir os erros do passado que nos levaram ao retrocesso do golpe de 2016 e ao bolsonarismo? Vamos seguir burocratizados e sem um processo estratégico de politizar a classe trabalhadora?

William Mendes