Páginas

8.3.22

Memórias (XX)



Osasco, 8 de março de 2022. Dia dedicado às lutas das mulheres. Todo apoio às justas causas das mulheres do mundo.


Memórias de dezembro de 2013: fortalecendo o sindicalismo nacional, com formação, e internacional, com apoio brasileiro aos trabalhadores norte-americanos

Na postagem de hoje, trago algumas lembranças das agendas sindicais nas quais estive envolvido no final do ano de militância de 2013. Foram dias intensos como tenho relatado aqui nestas Memórias no blog. Para ver as 10 postagens daquele mês é só clicar aqui.

Naquele período eu era diretor do Sindicato dos Bancários de São Paulo Osasco e região, era o secretário de formação de nossa confederação, a Contraf-CUT, e estava como coordenador nacional da Comissão de Empresa dos Funcionários do Banco do Brasil, COE-BB ou CEBB.

Havíamos fechado uma boa campanha salarial da categoria em 2013. Na mesa específica do BB, que coordenei, tivemos avanços importantes (ver propostas aprovadas aqui).

Na área sob minha responsabilidade na Contraf, a formação, estávamos coordenando a 8ª turma do curso de formação PCDA - Sindicato, Sociedade e Sistema Financeiro -, um curso em 3 módulos de imersão, organizado e patrocinado pelas próprias entidades do movimento, a Contraf, federações e sindicatos e com o apoio do Dieese e suas equipes técnicas.

---

Turma do 2º módulo do 8º curso PCDA.

FORMAÇÃO

Ao organizar minhas pilhas de papéis e documentos, me deparei com a pasta que continha os materiais do 2º módulo do curso que estávamos realizando com a 8ª turma de dirigentes e assessores sindicais bancários.

O material é de uma riqueza imensa em termos de conhecimentos técnicos e políticos que compartilhamos com as companheiras e companheiros que participaram do curso. 

Durante 3 módulos foram 32 pessoas de diversas bases sindicais envolvidas com a construção de conhecimento coletivo para a luta da classe trabalhadora - 26 alun@s e 6 pessoas permanentes da equipe da Contraf e Dieese, fora os palestrantes que passaram pelo curso. 

É uma pena ter que me desfazer de tantos papéis acumulados em anos de participação nas lutas da classe trabalhadora brasileira. Na postagem sobre o curso, pelo menos anotei a programação do 2º módulo ocorrido em dezembro de 2013 (ver aqui).

A nota triste foi lembrar que 3 pessoas que estiveram conosco faleceram de lá para cá. Deixo aqui uma lembrança saudosa dos amigos e companheiros Valtinho, da Contraf, Paquetá, do Sindicato do Rio, e Carlos, do Sul Fluminense. Companheiros: presente!

---


ESTADOS UNIDOS: CONTRIBUINDO COM A LUTA DOS BANCÁRI@S

Na primeira semana daquele mês de dezembro, estivemos em Nova York, nós sindicalistas brasileiros e sindicalistas norte-americanos, para nos reunirmos com o Banco do Brasil.

Nós havíamos avançado aqui no Brasil no Acordo Marco entre o BB, a Contraf-CUT e a UNI Américas e o banco público brasileiro havia se comprometido a respeitar as legislações locais e os termos do acordo no que tange à organização sindical onde o banco tinha operações e instalações.

Nós brasileiros, após décadas de avanços na organização sindical bancária e na conquista de direitos para os trabalhadores, contratados em Convenção Coletiva e Acordos Coletivos, estávamos numa parceria com o sindicalismo norte-americano (no caso, a CWA) e de todas as Américas para organizar sindicatos e direitos de trabalhadores de instituições financeiras. 

Para vocês terem uma ideia, categorias organizadas em sindicatos têm muito mais direitos que categorias sem sindicalização nos Estados Unidos. Os bancários não tinham sindicato lá em 2013 e tinham poucos direitos. 

Questões básicas como férias, licença-maternidade, 13º salário, vales refeição e alimentação não existiam ou eram bem menores para as bancárias e bancários do BB em Nova York e Miami. Não era uma questão só do BB, era de todos os bancários norte-americanos em relação aos bancários brasileiros.

As parcerias sindicais foram no intuito de organizar os trabalhadores do ramo financeiro de lá. Estive por duas vezes nas equipes brasileiras que foram contribuir com essa luta, por ser coordenador da CEBB da Contraf-CUT e pelo fato de o BB ter conosco o Acordo Marco. Clique aqui e veja a postagem sobre a reunião nos EUA.

---

É isso! Boas lembranças de participação nas lutas da classe trabalhadora brasileira e de outros países.

Trabalhadores do mundo, uni-vos!

William


Clique aqui para ler o texto anterior, Memórias (XIX).

Para ler o texto seguinte (XXI), clique aqui.


28.2.22

Memórias (XIX)


Conversando com associados da Cassi MS (out/2016).

Cassi e Cassems, exemplos de autogestão em saúde


Opinião

Nesta semana que passou conversei com um colega aposentado do Banco do Brasil a respeito de nossa Caixa de Assistência e da Caixa de Assistência dos Servidores do Estado do Mato Grosso do Sul. Ele está desenvolvendo um trabalho acadêmico que aborda questões sobre essas instituições de trabalhadores e como tive a oportunidade de ser gestor de nossa autogestão o colega avaliou que eu poderia compartilhar com ele algumas impressões e experiências que tive como gestor de saúde. Tivemos uma boa conversa.

Tenho boas lembranças a respeito dessas autogestões. As histórias dessas duas caixas de assistência à saúde são belíssimas, são exemplos de realização coletiva a partir do desejo do bem comum, são instituições que têm em sua raiz o desejo de solidariedade de classe. 

CASSEMS

Da Cassems tenho informações essenciais, públicas, li o livro comemorativo dos 15 anos de existência da autogestão e estive em contato com a instituição durante o mandato eletivo que exerci de diretor de saúde da Cassi (2014/18). Tenho uma leitura geral sobre a Cassems em relação à estratégia que os associados adotaram para a Caixa de Assistência (operadora) se estabelecer no agressivo mercado de saúde privado brasileiro. 

A palavra é essa mesma - "agressivo mercado" - porque ao se conhecer por dentro a forma como opera essa "indústria" fica claro o quanto pesa a questão do lucro e retorno financeiro nos objetivos dos vendedores de serviços de saúde. É uma grande indústria capitalista essa da saúde/doença como mercadoria.

Aliás, para vocês conhecerem a pujança da Cassems eu sugiro que vocês naveguem pelo site da autogestão. É de encher os olhos, lá vocês vão ver informações sobre os 10 (dez) hospitais próprios dos servidores do Estado. Conheço a história da aquisição e funcionamento de cada um deles porque li a respeito no livro comemorativo. 

Os servidores sul-mato-grossenses enfrentam os abusos cometidos pelo mercado privado de saúde (valores abusivos nos preços da rede credenciada) de igual para igual ao terem estruturas próprias de saúde em todos os níveis. 

CASSEMS: GESTÃO DO CUSTO SEM DEIXAR DE TER O SERVIÇO - Outra vantagem dessa estrutura verticalizada da Cassems é a gestão do custo da saúde. Uma coisa é comprar tudo fora como faz a Cassi, outra coisa é conhecer por dentro as operações dessa "indústria" que movimenta bilhões de reais por ano. Tendo estrutura própria, como faz o mercado privado que visa lucro, a Cassems pode direcionar boa parte de sua demanda por saúde para sua própria rede, ficando alguma coisa para ser feita em credenciados dos empresários-médicos do mercado.

Para vocês terem uma ideia, a Cassi chega a pagar mais de 1/2 bilhão de reais ao ano somente para 1 (um) prestador de serviços. Por não gerirmos estruturas de saúde de 2º e 3º graus, estruturas de procedimentos de alto custo, ficamos nas mãos dos médicos-capitalistas, cooperativas médicas por área profissional, médicos-empresários que faturam mais quanto mais procedimentos fazem em nossos participantes do sistema Cassi (fee for service), dentre outras desvantagens que o mercado oferece, como criar desejos que não são necessidades das pessoas e usar materiais que custam várias vezes mais que outros de mesma qualidade. 

CASSI OPTA POR FICAR NA DEPENDÊNCIA DO MERCADO PARA TUDO - A Cassi do Brasil pós-golpe não quer ter estruturas próprias de saúde (por opção da direção porque tem recursos para isso). A direção da Cassi está se desfazendo até da estrutura baratíssima de atenção primária e medicina de família, e assim a forma para "gerir custos" acaba sendo reduzir a rede prestadora e tirar os fornecedores do mercado de saúde que cobram mais caro. Vejam o exemplo da rede do novo plano que a direção atual lançou no "mercado". Um plano chamado Cassi Essencial com menos direitos, coberturas, rede, e com coparticipação e taxa de internação. 

(Cassi Essencial: o usuário acha que vai economizar em relação ao plano Cassi Família II, acha..., e vai perceber na hora que precisar que a coisa não é bem assim...)

A Cassems se estabeleceu de forma sólida em duas décadas de existência e hoje avança promovendo saúde e cuidando de uma população de quase 200 mil beneficiários. Eu continuo com a opinião que o modelo de verticalização da Cassems deveria ser estudado e implantado na autogestão da comunidade Banco do Brasil.

CASSI

A Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil foi criada em 1944 por colegas do banco e ao longo de décadas de existência foi incluindo novos participantes e avançando em direitos após lutas históricas do movimento sindical e associativo do quadro de trabalhadores desse banco público bicentenário.

Não vou aqui descrever a história da Cassi (fiz isso ao longo de centenas de postagens quando fui gestor eleito). 

O importante é destacar que nas primeiras 5 décadas de existência (de 1944 a 1995) a Caixa de Assistência foi uma mera pagadora de serviços de saúde do mercado empresarial privado. Ela praticamente ressarcia as despesas de seus associados. Modelos assim tendem a ter sérios problemas de déficit porque a inflação médica e as novas tecnologias e demandas de saúde sempre vão impactar no valor da compra de serviços em relação à capacidade do plano de saúde em arrecadar recursos para fazer frente às despesas assistenciais - nem sempre necessárias ou adequadas à saúde dos assistidos.

A reforma estatutária de 1996 mudou a essência da Caixa de Assistência, que passou a fazer - ou deveria - a gestão da saúde de uma determinada população ao longo do tempo e definiu um modelo assistencial para cumprir esse objetivo de Atenção Integral à Saúde. O modelo escolhido foi um dos mais exitosos no mundo quando se avalia modelos assistenciais e sistemas de saúde: um modelo baseado na medicina de família e comunidade (MFC), muito adequado para o perfil da população de associados e familiares que o sistema Cassi continha. 

Entre 1996 e 2001 foram feitos pilotos sobre o melhor modelo assistencial para se atingir o objetivo de Atenção Integral à Saúde, objetivo estatutário do sistema Cassi cuja essência e base é o Plano de Associados (e não planos de mercado x ou y). 

A Cassi e os patrocinadores definiram que a instituição (operadora) passaria a cuidar de sua população assistida através de um modelo de medicina de família, a Estratégia de Saúde da Família (ESF), uma das formas de se fazer Atenção Primária em Saúde (APS). A base do modelo definido e aprovado pela Cassi era ter uma estrutura PRÓPRIA de CliniCassi com equipes de família PRÓPRIAS e programas de saúde adequados aos diversos grupos de risco e populacionais identificados e acompanhados pelas CliniCassi, que seriam coordenadas por unidades regionais, em todas as capitais do país.

O que interessa registrar nesta postagem de Memórias é que a experiência de gestão e os estudos dedicados à Cassi e à gestão de modelos de saúde me permitiu ter claro algumas questões a respeito do tema. Uma coisa é o custeio e outra é o modelo assistencial, por exemplo. Uma é como se arrecada os recursos da Caixa de Assistência, outra é como se utiliza os recursos arrecadados. 

Como disse acima, a Caixa de Assistência sempre teve problemas de déficits em suas décadas de história e alguns motivos são claros como, por exemplo, os custos elevados e crescentes dos serviços comprados e a dificuldade de aumentar receitas para fazer frente às despesas assistenciais, em sua imensa maioria de procedimentos curativos e não preventivos.

CASSI COMPROVA EFICIÊNCIA DO MODELO APS/ESF/CLINICASSI - Estudos realizados na diretoria de saúde durante o nosso mandato comprovaram a eficiência do modelo de Estratégia Saúde da Família a partir da estrutura própria de atenção primária e gestão local do modelo, as CliniCassi com equipes de família e as unidades regionais da Cassi nos Estados e DF.

Nossas equipes técnicas desenvolveram metodologia própria inédita no mercado para demonstrar que populações cadastradas e vinculadas por um determinado tempo no sistema ESF/CliniCassi tinham custos assistenciais menores, menos internações, menos idas ao pronto socorro/atendimento, de acordo com determinados graus de complexidade e isso mesmo nas faixas etárias maiores. 

Chegamos a demonstrar estudos onde o crescimento de despesas assistenciais de faixas etárias de 60 e 70 anos de populações cadastradas e vinculadas à ESF era menor que o crescimento de despesas assistenciais de não cadastrados nas primeiras faixas etárias, de 30 e 40 anos. 

Demonstramos que mesmo dentro da curva A, grupo com os participantes de maior custo em um plano de saúde, as despesas assistenciais eram quase 15% menores nos vinculados à ESF em relação a não cadastrados. Estou falando de um grupo cujas despesas assistenciais chegam a um bilhão de reais, conforme o ano avaliado.

---

Enfim, essas postagens cansam tanto quem escreve quanto os raros leitores que leem. A Cassi fez uma reforma estatutária para melhorar a questão do custeio em 2019 e teria tudo para avançar no modelo próprio de APS/ESF/CliniCassi e se tornar menos dependente do mercado como faz a Cassems. 

Mas... a direção que passou a comandar a autogestão fez o inverso, passou a apostar todas as fichas no mercado privado, desfazendo algo que havia sido comprovado que era o que de melhor tinha na Cassi, seu modelo assistencial solidário, próprio e autônomo e que nos levaria a sermos menos dependentes do mercado consumidor de recursos dos planos.

Fim dessas Memórias e reflexões sobre autogestões em saúde, instituições associativas de trabalhadores.

William


Para ler o texto de Memórias (XVIII), clique aqui.

Clique aqui para ler o texto seguinte, o XX.


18.2.22

Memórias (XVIII)


Eu e Miguel no FSM, Belém do Pará, 2009.
Foto de Paulo de Tarso.

Fórum Social Mundial, Cursos de Formação da Contraf-CUT em parcerias com o Dieese e entidades sindicais e curso de formação na Organização Internacional do Trabalho (OIT) foram algumas das agendas sindicais nas quais me envolvi em 2009


Ao revisitar uma agenda do ano de 2009 pude relembrar alguns momentos sindicais que compuseram minha formação política daquele ano e minhas contribuições para a organização dos trabalhadores na luta de classes.

Para complementar minhas memórias, aproveitei para dar uma repassada nas 211 postagens de meu blog sindical A Categoria Bancária (ver aqui), pois naquele momento eu já estava acrescentando à agenda de papel uma espécie de agenda sindical pública, uma prestação de contas de minha representação dos trabalhadores e entidades sindicais.

---

#FSM2009 - No mês de janeiro fui um dos representantes da Contraf-CUT e de nossas entidades sindicais bancárias paulistas a participar da edição do Fórum Social Mundial, ocorrida em Belém do Pará. Eu e o companheiro Miguel Pereira tivemos uma oficina sobre questões do ramo financeiro (foto que abre a postagem, feita por Paulo de Tarso).

---

OLT - As visitas e reuniões nos locais de trabalho foram intensas nos meses de janeiro (aqui) e fevereiro (aqui). Na agenda sindical constam reuniões em diversas agências e departamentos do Banco do Brasil. Também tivemos reuniões com delegad@s sindicais. Eu sempre pautei todo tipo de assunto para os bancários que representava, assim o líder sindical politizava a categoria que representava. Um sindicato cidadão politiza todas as questões do mundo do trabalho e da cidadania das pessoas.

Terminei o ano da forma que comecei: estando na base e discutindo questões sensíveis aos trabalhadores do BB relativas à ascensão profissional. Foi no dia 30/12/09, ver registro aqui.

---

Eu e o companheiro Genésio no ato contra a FSP.

ATO CONTRA FOLHA DE SÃO PAULO "DITABRANDA" - No mês de março de 2009 participei de uma atividade na porta do jornal Folha de São Paulo, que havia dito que no Brasil a ditadura teria sido "branda" (ver postagem aqui). Durante o mandato na Contraf-CUT como secretário de imprensa eu me envolvi muito com a temática de comunicação. Foi uma lição para toda a vida.

O mês de março foi bem agitado. Estive em várias bases sindicais a trabalho. Fui ao Paraná e ao Rio de Janeiro para participar de questões relativas ao Banco do Brasil. A Contraf-CUT estava organizando seu congresso e com isso tivemos muitas agendas e grupos temáticos. Ver aqui postagens do mês.

---

30 ANOS DE RETOMADA DO SINDICATO (1979-2009) - Ainda em março, tivemos um evento comemorativo da histórica retomada do Sindicato dos Bancários de São Paulo Osasco e região da mão dos pelegos que serviam à ditadura daquela época. Gushiken foi o grande homenageado, junto a outros companheiros que contribuíram para a formação do Novo Sindicalismo brasileiro. Ler postagem aqui.

---

2º CONGRESSO DA CONTRAF-CUT - Em abril, a delegação do congresso de nossa confederação elege a nova diretoria para o triênio 2009/12. O companheiro Vagner Freitas deixa a presidência e assume o comando da entidade o companheiro Carlos Cordeiro. Fui eleito secretário de formação e o companheiro Ademir assumiu a secretaria de imprensa. Novos desafios e nova aprendizagem começavam ali para todos nós. Ver postagem aqui.

Ainda no mês de abril nós tivemos os congressos de BB (20º) e Caixa Federal em Brasília. Fiz artigo no mês falando sobre "Melhorar renda, condições de trabalho e a vida da classe trabalhadora" (ler aqui). Também fiz um artigo sobre "Formação e informação". Gostei do conteúdo ao reler o texto (aqui). Segue bem atual a questão pautada nele.

---

ENCONTROS ORGANIZATIVOS - Os meses seguintes foram meses de preparação para diversos encontros e congressos da estrutura sindical brasileira. Tivemos eventos da corrente política Articulação Sindical, tivemos CECUT e CONCUT, seminários e fóruns preparatórios e organizativos da campanha dos bancários, dentre outros eventos políticos. Na Contraf-CUT realizamos nosso planejamento de gestão.

E mesmo com agenda intensa da estrutura sindical, lá está o registro de minhas visitas às bases sindicais, conversando com os trabalhadores que representava (OLT).

Em relação à secretaria de formação, organizamos um encontro nacional com as entidades afiliadas à Contraf-CUT e do Comando Nacional. Ler aqui. (como já comentei diversas vezes, os links de nossas entidades sindicais normalmente dão a mensagem "error", ou seja, não temos mais o conteúdo virtual: história apagada, deletada)

---

Participação em curso na OIT, Turim, Itália.

PARTICIPAÇÃO EM CURSO DA OIT, REPRESENTANDO A CUT

No mês de setembro, estive por 3 semanas em um curso de formação na Organização Internacional do Trabalho (OIT), com sede em Turim, Itália. A pauta principal do encontro era a crise mundial causada pela crise do subprime e as consequências para a classe trabalhadora. Foram representantes sindicais de diversos países sul-americanos e da América Central e Caribe.

As duas primeiras semanas foram na sede da OIT na Itália e a última semana do curso foi em Madri, Espanha, na sede das CCOO. Fui indicado na vaga da CUT pela nossa confederação e ramo financeiro.

---

GREVE DE 15 DIAS - Em outubro, tivemos a campanha nacional dos bancários e como era prática dos banqueiros não apresentarem proposta razoável em mesa de negociação, a categoria foi à luta e a campanha teve uma boa greve para arrancar uma proposta melhor dos banqueiros na mesa única da campanha geral e propostas nas mesas específicas dos bancos públicos. Ver aqui.

---

Na foto: Miguel Huertas, Regina, Carlindo,
eu, Magaly e Cardoso. Não tenho o nome
do autor da foto.

1º CURSO DE FORMAÇÃO DA CONTRAF-CUT/DIEESE - SINDICATO, SOCIEDADE E SISTEMA FINANCEIRO

Entre os dias 26 e 30 de outubro, realizamos em Minas Gerais o 1º módulo do 1º curso de uma longa série de cursos de formação numa parceria da Confederação, Dieese e entidades sindicais, que patrocinaram a formação de seus dirigentes e assessores. Ver uma postagem sobre o módulo do curso aqui.

Tivemos o privilégio de estar à frente de um curso muito exitoso, com a participação de centenas de pessoas ao longo de 6 anos na secretaria de formação. Praticamente tod@s completaram os 3 módulos do curso de PCDA. As lideranças que não concluíram tiveram agendas complicadas em suas bases de representação.

A convivência com os amig@s e companheir@s do Dieese e convidad@s palestrantes foi uma escola de vida para mim e para as pessoas que passaram pelos cursos. E aprendemos muito uns com os outros, cada pessoa passava o conhecimento que tinha. Sem dúvida, os anos de formação sindical foram alguns dos melhores anos de minha lembrança na vida sindical.

O 2º módulo ocorreu no Rio de Janeiro (ver aqui) e o 3º módulo fechou o curso da 1ª turma (aqui).

---

FALECIMENTO NA FAMÍLIA - No mês de novembro de 2009 sofremos uma grande perda em família, faleceu a nossa querida tia Alice, lá em Minas Gerais, em decorrência de um câncer. Tia Alice era funcionária da Prefeitura de Uberlândia, cuidava de uma praça onde cresci - bairro Marta Helena - e sempre foi muito amada por todos nós. Saudades imensas de tia Alice! Eu sempre tive orgulho de ser um dirigente sindical porque pensava em melhorar a vida do povo simples brasileiro como era a tia Alice.

---

Enfim, termino aqui mais um momento de Memórias. Foram horas trabalhosas de pesquisa e leitura, mas valeu a pena para deixar registrado momentos singelos de lutas da classe trabalhadora. 

Os momentos que vivi não são só meus, são nossos. Somos indivíduos, mas somos legião. Se estivermos organizados e com projetos claros e bem estruturados para nos engajarmos, temos chances de boas lutas contra os capitalistas, mas isolados e com cada um cuidando de seus interesses, só temos derrotas e sofrimentos acumulados.

É isso!

William


Para ler o texto anterior, Memórias (XVII) clique aqui.

E clique aqui para ler o texto seguinte, o XIX.


11.2.22

Memórias (XVII)



Revendo anotações de um velho caderno do ano de 2005

A vez do escrutínio de papéis velhos foi a do velho caderno de anotações com a bela capa colorida de nossa antiga gráfica do Sindicato. Deu pra reduzir bastante o volume de páginas de anotações episódicas. O que ficou é muito interessante. As anotações do processo de formação de chapa do Sindicato para as eleições de 2005. 

Amig@s, montar uma chapa eleitoral como a de nosso Sindicato é um processo bastante complexo. Emociona relembrar aqueles meses de reuniões com a militância, com os dirigentes e rever os dilemas que enfrentamos para definir alguns nomes em meio a tanta gente boa disposta a contribuir com a luta. Sem dúvida, a política é a melhor forma de resolver as coisas na sociedade humana. 

Pelas anotações, me lembrei do quanto eu tinha contatos e militância em meu trabalho do dia a dia de OLT (Organização por Local de Trabalho). Contei perto de 40 militantes de minha lista de contatos. Muitos deles, amigas e amigos até hoje.

CONTEXTO - Eu era da Executiva do Sindicato, era secretário de organização, uma pasta que compunha o que chamávamos de Comitê Administrativo: Presidência, Secretaria Geral, Sosa e Finanças. 

Eu estava terminando meu primeiro mandato no Sindicato. Como já disse em outras postagens, a minha formação política neste mandato foi exponencial, foi acelerada. Ao final daquela formação de chapa, nosso Coletivo BB definiu que eu fosse para a representação de São Paulo na Comissão de Empresa dos Funcionários do BB e outro companheiro assumiu a nossa vaga na Executiva do Sindicato.

ANOS DE FORMAÇÃO POLÍTICA

Tivemos a campanha salarial de 2003 com rejeição em assembleia das propostas feitas pelas direções de BB e Caixa Federal após aprovação da proposta geral da Fenaban, era o 1º ano de Governo Lula. Tivemos uma greve fulminante no BB em 3 dias (se não me engano, na Caixa foram 8 dias) e tiramos grandes conquistas após a greve. 

CONQUISTAS - O BB cumpriu o reajuste da categoria (Fenaban), conquistamos o direito à PLR nos moldes da PLR da categoria, sem excluir ninguém (autorização do Dest por gastar mais de 6,25% do LL), passamos a ter um valor maior de cesta-alimentação (isonomia com CCT), 5 dias de abonos para os pós-1998 (isonomia com os mais antigos) e o direito de eleger delegados sindicais com estabilidade. 

Em 2004 tivemos uma campanha salarial duríssima, com uma boa proposta construída em mesa de negociação com a Fenaban e bancos públicos (aumento real, boa PLR e um direito novo: a 13ª cesta-alimentação) e rejeição da proposta em assembleia com uma greve de 30 dias e julgamento no TST, que reduziu direitos conquistados em mesa negocial e ordem de compensar dias de greve, coisa que não havia acontecido em 2003. A 13ª cesta-alimentação só viria como direito na CCT em 2007.

E tivemos ainda uma tentativa de divisão de base em nosso Sindicato, em uma de nossas regionais, a de Osasco e região. Os novatos da chapa eleita em 2002 tiveram que aprender política rapidamente naquele mandato que se encerrava em 2005. 

Eu era o responsável político do Coletivo BB por questões específicas do banco em duas regionais do Sindicato, a da Oeste e a de Osasco. Tínhamos poucos dirigentes na diretoria. Me envolvi diretamente na peleja de manutenção da base sindical porque eu pertencia a ela, eu era da agência Vila Iara - Osasco. 

Enfim, era muito trabalho político para administrar na base do Banco do Brasil. Após um período nas duas regionais, acabei sendo o responsável político pelas questões BB na regional Centro e pelo complexo do BB no Edifício da São João, eram 22 dependências no prédio. Eu não quis deixar de fazer base ao virar membro da Executiva e seria mais fácil realizar OLT no prédio ao lado do Martinelli.

Posso afirmar que aprendi muito em 3 anos. Ainda tivemos a reforma da sede do Martinelli, eu era do Comitê Administrativo e tivemos muito trabalho naquela bela reforma que foi feita.

William


Post Scriptum: minhas memórias sindicais e políticas não têm intenções de ficar expondo nem a militância nem as nossas instituições organizativas das lutas de classes. Sempre que possível, registro alguma memória sem citar nomes de pessoas, o que vale é a lembrança e o aprendizado político, nas vitórias e nas derrotas do dia a dia da organização sindical.

---

Para ler o texto anterior, o Memórias (XVI), clique aqui.

E aqui para ler o texto seguinte, o Memórias (XVIII).


10.2.22

Memórias (XVI)



Associativismo e cooperativismo são essenciais para a classe trabalhadora. A Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil é um belo exemplo da história de uma comunidade que se organiza há séculos


Osasco, 10 de fevereiro de 2022.

Ao olhar papéis, revistas e documentos antigos e diversas postagens em meu blog sindical me vêm à memória as imagens e as lembranças de muitos anos de participação na organização das lutas por direitos dos trabalhadores da comunidade Banco do Brasil, uma comunidade com mais de dois séculos de existência na sociedade brasileira.

Entre ontem e hoje reli no blog algumas matérias publicadas entre 2006 e 2010, marcadas com a categoria "Previ", relativas às nossas lutas por melhorias de direitos e benefícios em nosso fundo de pensão, a Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil. 

Ao ler a matéria sobre o acordo e distribuição do superávit do Plano 1 na Revista Previ nº 157, de fevereiro de 2011, me dei conta do quanto o associativismo e o cooperativismo são essenciais na vida da classe trabalhadora. A começar pela constituição dos sindicatos e associações de classe e incluindo as caixas e fundos financeiros para darem suporte aos trabalhadores e seus familiares nos momentos difíceis e pós-laborais.

Eu tive a oportunidade de ser dirigente eleito dos bancários e representante dos colegas da comunidade Banco do Brasil ao longo de quase duas décadas. Durante o período de representação eu estudava muito as questões técnicas de nossas duas caixas, a de previdência e a de assistência à saúde (Cassi). E uma característica que marcou meus mandatos foi a presença nas bases conversando com os trabalhadores sobre essas questões. Os registros no blog mostram isso.

Como representante de dezenas de milhares de bancárias e bancários do BB e do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região e da CNB/CUT e depois Contraf-CUT participei de diversas negociações relativas ao nosso fundo de pensão. Me lembro, por exemplo, de ter contribuído para as negociações nacionais sobre o uso do Fundo Paridade e a redução do valor da Parcela Previ e sobre os superávits do Plano 1 da primeira década dos anos dois mil.

A Revista Previ que cito nesta postagem traz o resultado final das negociações relativas ao superávit que gerou o Benefício Especial Temporário (BET), que melhorou os benefícios dos associados durante um determinado tempo*, e outras melhorias contínuas nos benefícios dos aposentados e pensionistas e futuros aposentados do Plano 1.

Estou olhando e avaliando um grande volume de papéis e documentos acumulados ao longo de uma vida de dirigente sindical. Não dá mais para guardar toda essa papelada. Alguma coisa vou acabar guardando porque é difícil se desfazer de coisas que nos lembram o que fomos e o que fizemos ao longo de nossa existência.

Os rascunhos de estudos, anotações que geraram processos negociais e organizativos e muitos documentos que valeram para a época não têm como serem guardados, mas alguma revista, algum jornal ou documento a gente acaba separando. 

As novas gerações apostam todas as fichas na internet e nos materiais virtuais. Acho isso um equívoco imenso! Opinião minha. 

Os próprios sites de nossas instituições da comunidade Banco do Brasil, tanto as caixas de previdência e assistência à saúde quanto as páginas das associações e sindicatos não conservam quase nada de história, tudo que fica é coisa recente, se alguém quiser coisa antiga (uma década é "antigo", imaginem décadas) vai ficar sem a informação. Quando tem o link a resposta é "error" ou não existe.

------------------------------

CASSI - Quando vejo a destruição que vem ocorrendo em nossa Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, conhecida como Cassi, vejo o quanto chegamos longe no desconhecimento da essência do que deveria ser uma caixa de assistência para uma comunidade de trabalhadores e familiares. 

As pessoas que estão na gestão neste momento estão desfazendo toda a essência solidária da autogestão e o modelo assistencial próprio de Estratégia de Saúde da Família (ESF), apostando no mercado privado e reforçando o que o capitalismo tem como essência: a saúde como mercadoria para quem pode pagar e não como um direito. 

É triste! Mas são os tempos. Eles acham que o mercado vende prevenção e saúde... fala sério! O mercado vendo intervenção cirúrgica, remédios, próteses, fetiches etc. E a conta é cara!

------------------------------

Vou guardar essa Revista Previ nº 157. Quando eu morrer, a pilha de coisas guardadas da história de lutas da categoria profissional e comunidade às quais me fiz cidadão trabalhador ficará para o expurgo feito por outra pessoa.

William

*Post Scriptum: os fundos específicos desses benefícios especiais temporários duraram até o final do exercício de 2013. A direção da Previ informou aos associados no início de 2014 que a Previ precisaria cumprir o artigo 18 da Resolução CGPC 26/2008, recompondo a Reserva de Contingência do Plano 1. Com isso os associados voltaram a contribuir mensalmente e cessaram os recursos extraordinários do BET. 

---

Para ler o texto anterior, o Memórias (XV), clique aqui.

Se quiser ler o seguinte, o XVII, clique aqui.


16.1.22

Memórias (XV)



Estudando para ampliar a possibilidade de compreender e alterar o mundo 

"A principal tarefa do historiador não é julgar, mas compreender, mesmo o que temos mais dificuldade para compreender." (HOBSBAWM, 2006, p. 15)


Cada vez que paro para pensar na influência que teve em minha vida o Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região tenho claro que a influência foi decisiva naquilo que sou hoje, um homem com consciência política, uma pessoa com posição política definida, uma pessoa de esquerda, que pensa um mundo socialista ou comunista, um mundo que tenha superado o capitalismo.

A primeira etapa de formação política formal em minha vida foi durante o período no qual fui bancário do Unibanco e depois do Banco do Brasil, associado ao Sindicato e em contato com os dirigentes e funcionários políticos da entidade. Mesmo que de forma esporádica, pude vivenciar os momentos de organização de base e lutas coletivas por direitos sociais, políticos e até civis. Ao ser estimulado a contribuir na organização das lutas, pude me politizar bem mais que antes, quando lutava de forma pessoal contra as injustiças diárias em nossa sociedade. 

Vale registrar que sempre fui um bom sindicalizador do Sindicato como bancário de base, cheguei até a ganhar prêmios em campanhas de sindicalização.

A segunda etapa de formação política formal em minha vida foi quando fui convidado a integrar uma chapa que disputaria e venceria a eleição do Sindicato em 2002. Eu já era bancário desde 1988 e depois fui entender que no BB fazia o papel de delegado sindical há muitos anos, durante os governos tucanos, de péssima memória para nós pelo que sofríamos diariamente nos locais de trabalho. Até dezenas de suicídios vivenciamos durante os anos entre 1995 e 1999. Os tucanos eliminaram 50 mil postos de trabalho.

Ao assumir o papel político de dirigente sindical de um dos maiores sindicatos da América Latina, eu me transformei radicalmente após o dia 5 de agosto de 2002, meu primeiro dia de liberado das funções diárias na bateria de caixas da agência Vila Iara, em Osasco, para passar a atuar exclusivamente na representação de meus colegas bancários. De cara me tornei uma pessoa mais responsável, passei a pensar melhor antes de falar ou fazer qualquer coisa porque a partir daquele momento eu não era só um cidadão brasileiro bancário, eu era um representante de meus pares, meus colegas de trabalho e categoria. 

Os anos como dirigente sindical foram de muita aprendizagem para mim, aprendizagem de todas as formas possíveis. O movimento de lutas dos trabalhadores é uma universidade com um leque de conhecimentos muito maior que o leque de disciplinas e referências que temos acesso em cursos universitários. Muito maior! Como estive em 3 cursos de graduação posso afirmar a vocês com conhecimento prático sobre a questão. Compartilho da opinião de intelectuais que criticam o excesso de especialização e fragmentação do conhecimento humano que virou a regra nas últimas décadas. As pessoas são especialistas em algo e absolutamente ignorantes em tudo.

Como dirigente sindical e representante da classe trabalhadora tive por dezesseis anos uma agenda de vida completamente voltada para as causas que abraçava e defendia. Uma vida assim tem seus ônus e seus bônus. Posso resumir os 16 anos afirmando que valeu a pena o período que dediquei de minha vida ao movimento sindical e à organização da categoria bancária, da classe trabalhadora e dos direitos sociais, políticos e civis do povo brasileiro. 

Como disse no primeiro parágrafo, atribuo influência decisiva ao homem que me tornei após os 20 anos de idade ao meu contato e convívio com o sindicato da categoria profissional na qual passei boa parte de minha vida. Sou grato à existência das organizações sindicais e associativas da classe trabalhadora. Sem a união, a unidade e a solidariedade de classe nós não somos nada. Nada! Não há "meritocracia" que dê conta de nos salvaguardar dos efeitos do capitalismo. 

Além de grato, me esforço para ser associado e contribuir para a manutenção das entidades de classe relacionadas com a comunidade profissional na qual passei a minha vida laboral e de cidadão brasileiro. Juro que é difícil, mas ainda hoje sou associado a diversas entidades associativas e representativas dos bancários e da comunidade BB.

Fico por aqui no primeiro texto de memórias do ano de 2022, 15º texto desta série. Sigo estudando muito, como disse no título desta postagem. Se não tivesse estudado ao longo dos 16 anos de mandatos o movimento sindical, suas correntes políticas, a história das lutas de classe e das organizações do movimento, eu teria muito mais dificuldades para compreender por que algumas coisas acontecem em nossos sindicatos e na organização do movimento sindical. 

Estudando e refletindo compreendo um pouco melhor o fato de não ter sido incluído nos debates sobre Previ e Cassi em meu sindicato de base em dezembro passado. Como diz Hobsbawm, a questão principal não é julgar, é compreender, mesmo quando temos dificuldades para compreender as atitudes e ações tomadas por pessoas e instituições de nossa vida social.

Tenho ouvido alguns intelectuais que estão me fazendo pensar e refletir sobre minha vida no movimento sindical e sobre o nosso país: Mauro Iasi, Sabrina Fernandes, José Paulo Netto, Miguel Nicolelis são alguns dos intelectuais que têm me ajudado a entender o mundo. E sigo com a literatura, lógico, porque um ser humano sem leitura de cultura é um ser humano com menos ferramentas para o viver.

William


Para ler o texto anterior, Memórias (XIV), clique aqui.

E aqui para ler o texto seguinte, o Memórias (XVI).


Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos - O breve século XX 1914-1991. São Paulo. Companhia das Letras, 1995. 2ª edição, 33ª reimpressão, 2006.


23.12.21

Memórias (XIV)

Momento de descanso do sindicalista
admirador de Che Guevara.

A importância do sentimento de pertencimento a determinadas comunidades e causas sociais


INTRODUÇÃO

Hoje é véspera da véspera de Natal do ano de 2021. O cidadão que escreve suas memórias aqui no blog A Categoria Bancária está retirado das lutas do movimento sindical bancário. Sou beneficiário de nossas caixas de previdência e de assistência à saúde, associações criadas por nós do Banco do Brasil lá no século passado. Pertencer a instituições criadas pela classe trabalhadora nos dá algum sentido de pertencimento num mundo onde impera o capitalismo e o individualismo.

Pertenço a uma certa comunidade humana. O custo disso é pesado, mas acho importante pertencer a alguma coisa. Sou participante de um fundo de pensão, de uma caixa de assistência, sou sindicalizado, sou associado a algumas associações da comunidade Banco do Brasil.

Estou revisitando minhas postagens do ano de 2007 neste blog sindical. 

---

REESTRUTURAÇÃO NO BB, PLR COM PRÁTICA ANTISSINDICAL, REFORMA ESTATUTÁRIA DA CASSI E REMUNERAÇÃO VARIÁVEL QUE DISCORDEI

Aquele ano foi um ano de muitas lutas. Tivemos a reforma estatutária da Cassi, tivemos uma reestruturação ruim e danosa para os funcionários do BB feita pela direção do banco, tivemos uma proposta de remuneração variável pensada pelo movimento sindical para debater com os banqueiros que eu não concordei com ela e pedi licença à corrente política Articulação Sindical, a qual pertencia, para não votar a favor dela.

Tivemos em março de 2007 uma proposta de PLR sacana e antissindical por parte da direção do Banco do Brasil (acordo para pagar a 2ª parcela de 2006), feita para tirar alguns reais dos grevistas da campanha salarial e feita para criar um clima de punição aos lutadores e para quebrar a solidariedade no movimento de lutas. Falei sobre a questão aqui.

Os caras que bolaram a sacanagem eram naquele momento gestores do BB do governo Lula. Queriam interromper o ímpeto grevista da militância que vinha num crescendo desde a greve de 2003, primeiro ano de governo democrático e popular. Eles plantaram uma semente do individualismo e contribuíram para diminuir o espírito de solidariedade na categoria e no BB. Parabéns para eles!

No acordo coletivo de PLR da campanha salarial de 2007/08 (fechada em outubro de 2007) nós exigimos que o acordo de PLR fosse anual e não mais semestral, para evitar sacanagens como aquela que ocorreu em março para pagar a 2ª parcela do ano anterior. Ler aqui.

---

CONQUISTA DA 13ª CESTA-ALIMENTAÇÃO

Um dos objetivos alcançados na campanha daquele ano de 2007 foi incorporar a 13ª cesta-alimentação à Convenção Coletiva de Trabalho (CCT). Ler aqui.

HISTÓRIA - Nós (a Executiva Nacional dos Bancários) havíamos conseguido negociar com os banqueiros esse direito na campanha de 2004 e a 13ª cesta-alimentação seria incorporada à convenção. A proposta final dos banqueiros foi rejeitada pelas assembleias. A campanha teve um desenvolvimento complexo, uma longa greve de 30 dias e julgamentos no TST. Isso fez com que o direito não fosse mantido ao final da campanha de 2004. Só em 2007 implantamos esse direito.

Outra questão que avançamos na organização do movimento após a campanha de 2004 foi ampliar a Executiva Nacional para o Comando Nacional dos Bancários nos anos seguintes.

---

2007 FOI UM ANO DE MUITA SINDICALIZAÇÃO, TRABALHO DE BASE E POLITIZAÇÃO DOS TRABALHADORES

Ao revisitar as 227 postagens que fiz no blog A Categoria Bancária naquele ano de lutas e representação sindical, avalio que a minha formação política teve como base a organização nos locais de trabalho (OLT), que se mostrou constante durante minha vida de bancário do Unibanco (1988-90) e do Banco do Brasil (1992-2019) - falei sobre isso aqui -, mesclada com o dia a dia da formação política que tinha na convivência com as companheiras e companheiros do movimento sindical.

Estamos na véspera de Natal e Ano Novo. Me lembrei que em todos os anos de minha representação sindical passava esses dias nos locais de trabalho do Banco do Brasil.

Em 2007, nos dias 26 e 27 de dezembro, lá estava eu conversando com meus colegas do BB nas agências e departamentos na região central de São Paulo, distribuindo materiais do Sindicato e da Contraf-CUT: agendas, Folha Bancária, revista O Espelho etc. (ver aqui)

O movimento sindical brigava com o governo e com a direção do banco o tempo todo para contratar mais funcionários. No banco público a contratação se dá por concurso. Felizmente, passei o ano todo de 2007 indo às posses de novos bancários e bancárias em São Paulo, às segundas-feiras. 

SINDICALIZAÇÃO - Além de apresentar o Sindicato e a história de lutas da categoria bancária e da classe trabalhadora, sindicalizei dezenas e dezenas de colegas em seus primeiros dias de trabalho no Banco do Brasil. Coisa boa de se lembrar!

Como disse no início desta postagem de memórias, pertencer a alguma coisa, um lugar, uma comunidade, é importante para dar sentidos à nossa natureza social. Não é fácil nos mantermos pertencentes às nossas associações hoje em dia, juro que não é. Mas é importante sermos sindicalizados e associados a nossas entidades de classe.

É isso. Fim de mais uma postagem de memórias sindicais e de lutas. Terminei a revisita a 2007. Agora vou revisitar o ano de 2008 em meu blog.

William


Clique aqui para ler a postagem seguinte, Memórias (XV).

Para ler o texto anterior, o Memórias (XIII), clique aqui.


10.12.21

Memórias (XIII)



Entre 1988 e 2018, tive uma formação política e sindical construída a partir do local de trabalho (OLT). Sou grato ao movimento sindical pela oportunidade de ter contribuído para as lutas de classe. Apesar de excluído dos fóruns políticos neste momento, desejo boas lutas ao meu lado da classe


INTRODUÇÃO

Estou revisitando meus registros e anotações sindicais e refletindo a respeito de minha formação política enquanto cidadão bancário do Unibanco e Banco do Brasil, sindicalizado ao Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região desde o final dos anos oitenta, com uma interrupção entre a saída de um banco e a entrada por concurso no BB. 

As bases de consultas de minhas Memórias são principalmente meus registros no blog A Categoria Bancária, de 2006 adiante, e subsidiariamente sites de entidades representativas. Fuço também em minhas pilhas de guardados em papel - jornais, revistas, livros, papéis e mais papéis.

Hoje quero relembrar um pouco do meu aprendizado - minha formação política - a respeito dos fóruns democráticos nos quais aprendi como nós fazíamos política nos anos noventa e dois mil. Como bancário sindicalizado, aprendi política de forma orgânica ao participar dos diversos fóruns políticos do movimento sindical ao qual eu pertencia enquanto bancário de base e depois como dirigente eleito pelos trabalhadores.

Eu compreendi mais tarde, depois de me politizar, que fui um militante brigador contra as injustiças que via por aí desde muito cedo, adolescente, mas não era um militante político orgânico a um movimento organizado, era um rapaz voluntarioso, como boa parte das pessoas que não aguenta ver coisa errada e não fazer nada a respeito.

Enfim, vamos refletir um pouco.

---

REPRESENTATIVIDADE A PARTIR DA OLT

UNIBANCO

Trabalhei no Unibanco entre abril de 1988 e maio de 1990. Meu local de trabalho era o Centro Administrativo do Unibanco (CAU) na Raposo Tavares. Foi lá que conheci o pessoal do Sindicato. Faz muito tempo isso, mas nossa memória seletiva guarda instantes marcantes em nossa vida. 

Me lembro que o representante do Sindicato me pediu para ajudar a parar a agência dentro do CAU, onde eu trabalhava. Eu deveria organizar por dentro a paralisação e, no dia da greve, eu deveria chegar às 5 horas da manhã para garantir que ninguém entraria para trabalhar. Deu certo! Foi um momento que meu cérebro guardou. Depois fui aprender que isso era Organização no Local de Trabalho (OLT).

O banco depois foi pra cima de todos nós, os militantes que organizavam os trabalhadores. Eu fui transferido para outro bloco do centro administrativo. Minha vida ficou mais difícil no departamento. Acabei saindo depois de não aguentar mais encheção de saco do chefe. Falei umas merdas pra ele e fui mandado embora. A experiência no Unibanco foi um começo de politização de forma orgânica.

---

BANCO DO BRASIL

Passei no concurso nacional do Banco do Brasil em 1991. Foi uma alegria imensa. Depois de uma adolescência de trabalhos braçais, seria um funcionário de banco público. Cancelaram o concurso por fraude em Brasília... meu sonho se foi da noite para o dia. Em 1991, eu fazia faculdade de Ciências Contábeis e já conhecia um pouco do ambiente do BB em 1992 porque era estagiário na agência Ceagesp. Tive que prestar o concurso de novo. Ufa! Passei novamente e tomei posse em setembro de 1992.

Voltei a receber a visita de representantes do Sindicato na agência onde trabalhava e alguns meses depois voltei a me sindicalizar: em fevereiro de 1993. Tomei posse no BB sob a gestão Collor, depois Itamar e depois vivi todo o martírio dos 8 anos tucanos de FHC: programas de demissão (PDV), transferências compulsórias (PAQ), destruição da vida das pessoas, dezenas de suicídios de colegas do banco, redução de 50 mil postos de trabalho entre 1995 e 1999. O caos! Durante o PDV, nossa agência, Rua Clélia, fechou na sexta-feira com 21 colegas e abriu na segunda-feira com 10 colegas pra fazer o mesmo serviço. Algo assim, se estiver errado o número é coisa mínima.

A OLT foi muito importante pra nós naqueles anos de FHC. Me aproximei do pessoal do Sindicato. O Sindicato me procurava quando precisava de alguma organização interna na agência, eu procurava o Sindicato quando alguma merda estava acontecendo conosco. Eu me reunia com os colegas da agência no bar, na rua, na casa de alguém e definíamos como enfrentar o assédio que rolava contra nós. O mesmo com o Sindicato, eu ia até a sede ou o Sindicato vinha até mim. Depois fui descobrir que isso era o papel de um delegado sindical.

CONVITE PARA SER CANDIDATO A DIRETOR DO SINDICATO

Dessa relação política de companheirismo nas lutas e da OLT surgiu o convite para que eu compusesse a chapa da situação para uma eleição que ocorreria em 2000. Não deu certo nas discussões internas da formação de chapa e não fui para a direção do Sindicato. A vida seguiu e em 2002 algumas lideranças do Sindicato me procuraram de novo propondo que eu dispusesse meu nome para os debates de formação de chapa. Acabei aceitando participar do processo interno. Foi assim que virei representante dos trabalhadores na diretoria do Sindicato.

MANDATO SINDICAL DE 2002 A 2005

Se eu tivesse que escolher uma palavra para sintetizar a minha experiência do 1º mandato sindical eu escolheria a palavra qualificativa INTENSO(A). Foi uma experiência intensa em todos os sentidos. Acho que me tornei um dirigente sindical "intenso" (rsrs) depois de "sobreviver" ao 1º mandato no Sindicato. 

O pessoal que fui conhecendo nas regionais e nos coletivos de bancos e na militância do BB dizia que eu não passaria do 1º mandato porque só mexia em vespeiro. Era um encrenqueiro de carteirinha.

ESTUDOS - Por achar que não tinha conhecimento político e histórico suficiente para estar na representação de milhares de colegas, me tornei um cara que passava 24 horas por dia tentando recuperar um suposto tempo perdido em não saber tudo sobre o movimento sindical brasileiro. 

Mudei até meu comportamento pessoal, passei a ser mais sério, mais sisudo, mais responsável etc. Tinha um sentimento ético de que eu não poderia errar, me desviar do bom caminho, porque meu papel era muito importante, eu representava aqueles colegas que estavam sofrendo toda aquela desgraça que os tucanos e os banqueiros faziam conosco em nosso mundo do trabalho.

Enfim, o foco desta postagem é a questão da representação política e os processos democráticos dentro do movimento, principalmente o sindical, no qual aprendi a fazer política. Vou resumir essa história que vinha contando daqui adiante. Tempos depois de ter entrado na direção do Sindicato, fui entender que eu pertencia à corrente política Articulação Sindical da CUT.

---

CONCEPÇÃO E PRÁTICA SINDICAL

A maior parte do meu aprendizado político como dirigente sindical se deu no dia a dia da convivência com o coletivo de diretores e diretoras do Banco do Brasil no Sindicato (Coletivo BB), nos espaços do Sindicato com dirigentes e funcionári@s e no contato permanente com a base, principalmente do BB - militância e colegas em geral - e subsidiariamente dos demais bancos, quando fiz micro com diversos bancos no roteiro. Mais adiante, fui entender que nossas referências na prática sindical eram os princípios da Central Única dos Trabalhadores. Algumas práticas cito abaixo.

MANTENHA CONTATO COM A BASE SOCIAL QUE REPRESENTA - Aprendi com o Coletivo BB que nunca deveria deixar de fazer base, nunca! Ao longo da vida sindical é importante se dar bem com as lideranças e forças políticas internas do Sindicato e do movimento, mas quem nos garante de verdade é a base, é a representatividade que você conquista nos locais de trabalho. A OLT é um dos princípios cutistas que a corrente política a qual nós pertencíamos tinha como base. Esteja onde estiver na estrutura sindical, vá a base, converse com os trabalhadores, seja franco com eles, ouça o que eles têm a dizer, receba as críticas, pondere e apresente argumentos para construir uma relação de respeito entre pares.

O mesmo deve se dar quando estamos numa representação da estrutura vertical do sindicalismo, numa federação ou confederação, na central sindical ou até mesmo numa associação de classe como, por exemplo, uma caixa de assistência ou previdência. Normalmente, quem indica nomes e composições de chapas eleitorais para essas entidades são os sindicatos de base. Ouvir e prestar contas do mandato para as entidades que nos indicaram é trabalho de base.

ESTUDE E CONHEÇA A EMPRESA EM QUE TRABALHA - Outro aprendizado que o Coletivo BB sempre apontava como algo fundamental para nos tornarmos referência dos trabalhadores na base era estudarmos e conhecermos o banco no qual trabalhávamos. Você pode ser popular entre seus colegas da direção do Sindicato e até de seus colegas do banco, mas se não souber apontar as questões centrais que afetam o dia a dia dos trabalhadores, se não conhecer o histórico dos problemas, possíveis soluções etc, você não será um bom dirigente e não terá a representatividade necessária nas horas decisivas. Você tem que ser um bom trabalhador! Ouçam o personagem de Gianfrancesco Guarnieri em Eles não usam Black Tie (1981).

ESTUDE E CONHEÇA A HISTÓRIA DAS LUTAS E OS DIREITOS CONQUISTADOS - Essa recomendação é decisiva para sermos um representante de nossos pares num mandato político e sindical. Por isso disse acima que mudei radicalmente ao entrar no Sindicato. Todo dia era dia de estudar e aprender algo novo sobre nossa história, da categoria, do banco público, das lutas por direitos, acordos coletivos, greves históricas, vitórias e derrotas, lições tiradas com as lutas a cada ano etc. O patronato tem domínio de toda a estrutura de comunicação da burguesia, do capital, para jogar o trabalhador(a) contra nós. Temos que desconstruir as mentiras (fake news é coisa antiga) e ilações o tempo todo. 

Produção de textos - O pessoal do Coletivo BB me ensinou desde cedo algo que levei pra vida toda: após estudar e fazer contato com a base, escreva! A prática da escrita é importante, não podemos escrever qualquer coisa, escrever exige um mínimo de pesquisa e informação. Escreveu, está registrado. Então seja criterioso no que escreve.

Paro por aqui algumas das lições que foram muito úteis no 1º mandato sindical e que levei para a vida toda de representação, mesmo quando fui convencido a ocupar outras posições políticas na estrutura do movimento e outras instâncias de classe - executiva do Sindicato ainda no 1º mandato, representação da Comissão de Empresa (CEBB) pela Fetec CUT SP, secretarias de imprensa e formação da Contraf-CUT, coordenação das negociações nacionais no BB (CEBB) e inclusive na diretoria de saúde da Cassi, eleito pelos associad@s com o apoio da ampla maioria dos sindicatos e entidades associativas da comunidade BB.

---

FÓRUNS DE DEBATES E INDICAÇÕES PARA FORMAÇÃO DE CHAPAS E CANDIDATURAS NO MOVIMENTO SINDICAL CUTISTA

Ao longo de aproximadamente 25 anos de militância e representação sindical aprendi o modelo cutista de organização das bases e das estruturas políticas e sindicais.

Em linhas gerais, a representação sindical começa nos locais de trabalho, quando a pessoa se destaca na organização dos colegas (OLT). Dessa atuação, pode vir uma indicação de lideranças do sindicato para que aquela pessoa seja mais observada e até convidada para cursos de formação política e para participar de fóruns diversos do movimento.

O movimento de lutas e a política são muito ecléticos. É comum também acontecer o inverso desse roteiro que citei acima. Às vezes, temos pessoas que convidam a si mesmas para tudo quanto é cargo e função, pleiteiam vaga em qualquer eleição que aconteça, são candidatas eternas a tudo. Não vejo nada de errado nisso. Mas posso afirmar a vocês que esse nunca foi o meu perfil! Nunca fui nem seria candidato de mim mesmo a nada.

As funções que ocupei no movimento sindical bancário entre abril de 2002 e maio de 2018 foram funções decididas em coletivo, em processos de debates que geralmente discutiam projetos, alianças e perfis possíveis para desempenhar aqueles projetos. Minha história no movimento sindical foi construída assim por 25 anos de militância, poderia até dizer 30 anos como contei acima, de 1988 a 2018. 

AGRADECIMENTO - Antes de mais nada, afirmo aqui que sou grato às oportunidades que tive de representar os trabalhadores e as entidades sindicais durante esse período de uma vida porque mudei como pessoa e acho que me tornei um ser humano melhor. As oportunidades de participação nas lutas bancárias começaram e terminaram com o meu sindicato de base, o Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região. E de mais ou menos 1996 adiante, as oportunidades foram todas oriundas de meu coletivo de banco, o Coletivo BB.

---

EXPURGADO PELA ARTICULAÇÃO SINDICAL DE SP (MAS SIGO TORCENDO PELO SUCESSO DAS LUTAS QUE SERÃO EMPREENDIDAS)

Nesta sexta-feira, 10 de dezembro de 2021, está acontecendo um dos fóruns democráticos desses que citei acima. Uma das principais correntes políticas da Central Única dos Trabalhadores e trabalhadoras, a Articulação Sindical, está reunida debatendo temas importantes para a categoria bancária do segmento do Banco do Brasil: projetos, arcos de alianças e perfis para processos eleitorais de entidades do movimento para o ano de 2022.

Os fóruns democráticos do campo cutista têm um percurso organizativo que começa sempre a partir das bases sociais de 1º grau, os sindicatos. Isso ocorre tanto quando vai começar uma campanha de data-base de uma categoria profissional como quando vai haver processos eleitorais de caráter nacional ou regional. O pertencimento e a militância ao movimento começam pelo sindicato de base, tanto para o segmento da ativa quanto dos aposentados no caso das empresas e bancos públicos.

Nesta semana que se encerra hoje ocorreu nos mais diversos cantos do país um desses processos organizativos e deliberativos da Articulação Sindical da CUT. Os sindicatos e federações foram orientados a levar para a reunião nacional os debates feitos e acumulados a respeito da pauta em debate. A base sindical na qual me formei politicamente desde 1988 se reuniu também, a começar pelo meu sindicato (o Coletivo BB) e depois a federação cutista de SP.

Entendi de uma vez por todas que fui expurgado do Coletivo BB da Articulação Sindical de SP. Fiquei um pouco surpreso desta vez, confesso, porque aparentemente vínhamos numa relação saudável de construções políticas conjuntas. Nos últimos meses fui convidado a contribuir com diversas questões a respeito de uma das pautas em debate hoje. Encontros diversos, cursos de formação etc. Não achei que fossem fazer comigo o mesmo que ocorreu em 2020. 

Fiquei surpreso com o expurgo. Achei que teria o que contribuir nas discussões sobre projetos, arcos de aliança e perfis para os projetos do ano de 2022 no Banco do Brasil.

Durante o tempo todo em que fui dirigente sindical e inclusive das instâncias ditas "superiores" do movimento, nós tínhamos processos sempre difíceis de devolução de algum militante para a base ou a exclusão de participação formal do movimento, mas havia algum processo. As pessoas eram ouvidas e tinham o direito de serem avaliadas e de se defenderem. Isso não ocorre mais, me parece.

Desejo boa sorte para a companheirada da Articulação Sindical e da CUT para os difíceis processos organizativos e de lutas que teremos pela frente neste Brasil tão complexo em que nos encontramos após o golpe de Estado de 2016.

É isso, me alonguei bastante nesta postagem de memórias sindicais sobre minha formação política e os fóruns e espaços coletivos de organização do movimento de lutas dos bancários e dos trabalhadores e trabalhadoras.

William


Para ler o texto de Memórias (XIV), clique aqui.

Caso queira ler o texto anterior, está aqui.


6.12.21

Memórias (XII)



Histórias sobre a PLR no Banco do Brasil: onde há remuneração variável, há disputa de classes, ou seja, o patrão vai jogar trabalhador(a) contra trabalhador(a)


Estou escrevendo um pouco a respeito das lutas do movimento sindical bancário, mais especificamente do período no qual fiz parte dele como dirigente e representante d@s trabalhadores: de 2002 a 2018. 

A minha fonte principal de consultas e fio condutor das memórias são as minhas postagens no blog A Categoria Bancária - e sites sindicais subsidiariamente - porque o blog se tornou uma ferramenta de trabalho na comunicação com a categoria e com as entidades e lideranças sindicais e vejo no blog uma fonte interessante de registros de uma época.

INTRODUÇÃO

Dia desses escrevi memórias sobre o mês de março de 2007 (ler aqui) e o tema mais destacado naquele mês foi o embate entre nós do movimento sindical e a direção do Banco do Brasil. Alguns caras da direção decidiram prejudicar os bancários e bancárias que participaram da greve da campanha nacional da categoria em 2006, momento em que definimos os acordos coletivos e a convenção da categoria.

São muitas as formas dos representantes do capital para prejudicarem a classe trabalhadora. Não falta imaginação na hora de pensar sacanagens para vender caro direitos conquistados na luta organizada. A cada campanha salarial, a cada data-base e greve dos anos dois mil, alguns dos negociadores da parte do BB, que representavam o governo do PT, tiravam da cartola uma proposta marota, que tinha algum tipo de casca de banana para atingir algum segmento do movimento.

ATENÇÃO: durante os governos Lula e Dilma, tivemos muita gente boa nas áreas de gestão de pessoas e negociações com entidades representativas. Os avanços nos direitos contaram com a contribuição de muita gente dentro dessas áreas. Mas, às vezes, tinha uns caras difíceis como, por exemplo, quando fui coordenador da Comissão de Empresa: tivemos dois diretores do banco que ficaram marcados por quererem ser mais realistas que o rei. O movimento sindical da época com certeza sabe quem são esses caras. Faz parte...

Digo isso por conhecimento prático e isso não quer dizer que eu não tenha noção clara de que é muito melhor negociar com governos progressistas e democráticos como foram os governos de Lula e Dilma, que apesar de terem sido governos de composição com forças conservadoras (a tal governabilidade), foram governos melhores para a classe trabalhadora que todos os outros na história do país, na minha opinião. 

Vai tentar negociar com o PSDB ou com esses governos de ultradireita e fascistas como os dois após o golpe de 2016 - Temer e Bolsonaro. Tenta negociar com essa gente!

Enfim, o tema agora é a Participação nos Lucros e Resultados (PLR) no Banco do Brasil.

---

PLR NOS BANCOS FEDERAIS, CONQUISTA DA UNIDADE

Como no blog tem muitos textos sobre a história da conquista da PLR no BB e bancos federais, não vou me alongar em detalhes (o essencial já será textão). Para ler alguns textos a respeito basta clicar aqui e ver as postagens do embate entre nós e o BB na 1ª quinzena de março de 2007. Em linhas gerais, é o seguinte a história da PLR:

CUT E FENABAN ACORDAM PLR EM 1995 - Os bancários brasileiros de bancos signatários da Convenção Coletiva negociada e assinada entre a Fenaban e a CNB/CUT conquistaram em 1995 a PLR com regras que garantiam a remuneração para todos os bancári@s, independente de qualquer questão pessoal como alguma ausência no semestre de referência, resultado na dependência de trabalho, não cumprimento de meta etc. O banco deu lucro, todos recebiam PLR baseada em valores mínimos estabelecidos no Acordo Coletivo de PLR. Recebiam essa remuneração variável trabalhadores de bancos privados e de bancos estaduais e regionais que assinavam com a CUT o acordo.

BANCOS FEDERAIS NÃO PAGARAM A PLR DA CATEGORIA ENTRE 1995 E 2002 - Os trabalhadores de bancos públicos federais não recebiam PLR acordada entre a CUT e a Fenaban porque o governo de plantão se aproveitava de diversos subterfúgios para não pagar a remuneração aos bancários. Ficaram sem PLR assinada com a CUT entre 1995 e 2002 bancári@s do BB, Caixa Federal, BNB, BASA, BNDES. Durante o governo FHC, o BB criou um programa provisório monstrengo para pagar uma grana para certos segmentos preferenciais definidos pela direção do banco. A base da pirâmide recebia alguns reais, uns trocados, e o topo da pirâmide recebia valores dezenas de vezes maiores. Por 9 semestres os bancários da base da pirâmide recebiam uns 200 reais ou pouco mais e a direção do banco recebia dezenas de milhares de reais. Milhares de funcionários da base não recebiam nada por motivos estapafúrdios: uma ausência, a agência foi assaltada e não teve resultado positivo etc.

SOMOS BANCÁRIOS, QUEREMOS OS DIREITOS DOS BANCÁRIOS - Já no final dos anos noventa, os congressos de trabalhadores dos bancos públicos federais debatiam a importância da unidade geral da categoria bancária. Com o início do governo Lula, vimos uma oportunidade de realizar esse objetivo antigo da categoria, uma mesa única e uma convenção coletiva que abrangesse trabalhadores de bancos públicos e privados. Deu trabalho, mas conseguimos a unidade.

Em 2003, BB e Caixa Federal são forçados a negociar com os trabalhadores alguma forma de PLR porque as greves daquele ano foram fortes e a saída exigiu o atendimento de questões específicas, além do cumprimento das conquistas da categoria assinadas com a Fenaban. No BB, foi a nossa 1ª PLR com regras gerais, sem excluir nenhum(a) bancário(a) por motivos esdrúxulos. 

(ALIÁS, o movimento sindical e o governo Lula CORRIGIRAM a injustiça feita aos bancários que não receberam aqueles valores de "PLR" provisória da era tucana. Negociamos com o governo Lula o pagamento retroativo para todos que não receberam a remuneração naqueles 9 semestres.)

PLR NO BB AVANÇA COM PAGTO LINEAR DE PARTE DO VALOR - Depois da conquista da PLR com regras gerais em 2003, veio a conquista do módulo de distribuição linear de parte do lucro, 4% no BB. Regra que a categoria vinha discutindo em seus fóruns para ampliar o valor da distribuição de lucros e resultados. 

Como se sabe, negociação pressupõe conciliar interesses de ambas as partes (com ou sem "pegadinhas" ou sacanagens). No BB, a direção queria contratar algum tipo de remuneração por resultados locais, para estimular o cumprimento de metas, óbvio, e premiar as funções do topo da pirâmide funcional. Em 2005, já contratávamos com o BB regras gerais de distribuição de PLR, definidas por nós no ACT, sem excluir ninguém, e o banco se utilizava dos benefícios da lei de PLR para o seu módulo bônus, com valores determinados por ele. Mesmo assim, nós negociávamos as linhas gerais, valores mínimos etc. Nosso foco sempre foi contratar benefícios para os trabalhadores em geral.

Antes, ainda em 2003, para o BB acordar conosco as regras gerais semelhantes à do Acordo Coletivo CNB/CUT e FENABAN (adaptadas ao BB) foi preciso autorização de órgãos do governo para que o BB distribuísse aos funcionários mais que 6,25% do resultado porque as regras gerais da PLR da categoria faziam com que os bancos federais gastassem mais que os grandes bancos privados (porque tinham mais funcionários, porque o lucro era diferente etc).

Amig@s leitores, essa descrição acima é um resumão feito de memória, pois vivi intensamente cada negociação de PLR entre 2003 e 2013, como uma das lideranças dos funcionários do BB. São tantas, mas tantas histórias a cada ano que iríamos longe aqui.

---

A PLR DE 2006/2007 E A PRÁTICA ANTISSINDICAL POR PARTE DA DIREÇÃO DO BB: QUEBRA DA SOLIDARIEDADE E VITÓRIA DO INDIVIDUALISMO

As negociações sobre distribuição de lucros e resultados entre nós representantes dos trabalhadores e a direção do Banco do Brasil e dos banqueiros em geral sempre foram balizadas por algumas lógicas ou princípios gerais. 

Os representantes do capital querem puxar a sardinha pro lado de seus "capatazes", ideólogos do patronato e líderes na gestão dos modelos de remuneração e nós queremos regras sempre mais gerais, que beneficiem todos que produziram aqueles resultados astronômicos dos bancos, e se tiver que escolher segmentos da pirâmide por causa do valor que os bancos apartaram para distribuir (cobertor curto), vamos priorizar a base da pirâmide, porque ao longo do ano cada pessoa já recebeu uma remuneração de acordo com a função desempenhada na empresa. Isso em linhas gerais, logicamente.

Nos congressos de trabalhadores, via de regra, definimos propostas de PLR que simplifiquem a distribuição para todos como, por exemplo, "n" salários + valores em reais, sem definir tetos gastos pelos bancos. As regras contratadas no final das negociações são as possíveis, num movimento estica e puxa entre nós e os banqueiros. Quanto maiores os valores fixos em reais, melhor para a base da pirâmide. Se não estipular alguma regra em relação à quantidade de salários, o montante do programa pode favorecer o topo da pirâmide em relação à base.

A PLR do BB vinha sendo uma referência para a categoria desde que inovamos em mesclar uma parte linear (4%) + um valor fixo em reais + uma porcentagem da remuneração da função (45% do Valor de Referência, VR, sendo a ref. E6 para escriturários e caixas). Essas eram as regras gerais, que não excluíam nenhuma pessoa, como conquistamos em 2003, as bases da PLR da categoria. Ainda negociávamos um módulo baseado em resultados, o módulo bônus, mas todos estavam garantidos na regra geral.

SUBSTITUIÇÃO DE FUNÇÃO - Uma das práticas mais comuns no dia a dia dos 100 mil funcionários do BB era a substituição de função nos locais de trabalho. A prática era importante tanto para a empresa quanto para os trabalhadores. Ausências por férias, aposentadorias, licenças diversas, cursos de formação eram comuns nas dependências e as substituições de funções por outros trabalhadores tanto supriam as necessidades da empresa quanto eram oportunidades de treinamento para os bancári@s e uma remuneração maior no final do mês. 

O fato concreto é que boa parte dos funcionários substituíam, às vezes, o semestre inteiro em algumas funções como, por exemplo, caixas, assistentes, analistas, gerências médias e até gerências gerais. 

PRÁTICA ANTISSINDICAL - A direção do BB, para acordar o pagamento da 2ª parcela da PLR, relativa ao 2º semestre de 2006, decidiu usar o programa para tentar refrear o impulso de luta do funcionalismo que vinha num crescendo desde 2003 e nas negociações para fechar a parcela a ser paga em março de 2007 decidiu agir de forma antissindical e com assédio moral institucional. 

A direção do BB propôs pagar o valor da PLR SEM CONSIDERAR A SUBSTITUIÇÃO NO SEMESTRE INTEIRO por causa de alguns dias de greve da data-base da categoria, dias de greve que aliás eram compensados até data definida em acordo coletivo. Ou seja, nenhuma justificativa para prejudicar os substitutos.

Durante duas semanas de negociações com as entidades sindicais, os "colegas" da direção do BB, funcionários de carreira da empresa, não abriram mão de penalizar os substitutos que fizeram greve e apostaram que as maiorias aprovariam isso nas assembleias, pensando em si mesmas. A Contraf-CUT e as lideranças sindicais indicaram a rejeição da proposta para que pudéssemos reverter essa sacanagem por parte da direção do BB, mas a proposta foi aprovada.

Como disse acima, ao ler os registros no blog no mês de março, ler em ordem cronológica é melhor, é possível ver o embate que fizemos com a direção do banco e nossa postura nas assembleias defendendo a solidariedade entre os colegas e dizendo "não" ao individualismo.

Ao longo dos anos, foram várias as artimanhas da direção do BB para nos dividir, como se o BB fosse um banco privado, gerido pela banca. São as contradições do mundo capitalista.

O texto foi longo, deu trabalho para fazer, mas entendo que é importante resgatar a história de luta dessa categoria tão aguerrida e que tanto contribuiu para as conquistas da classe trabalhadora brasileira.

---

Tenho outras histórias para contar e relembrar sobre PLR como, por exemplo, a PLR dos colegas do Banco do Brasil cedidos para trabalhar na nossa Caixa de Assistência, a CASSI. Quando cheguei lá na autogestão como diretor de saúde eleito pelos trabalhadores (2014), o programa de PLR dos bancários do BB era bancado pela associação em saúde e não pelo banco e fiz uma luta pesada para corrigir isso. A insistência me custou muito caro (dezenas de milhares de reais... rsrs), mas fiz o que tinha que ser feito por um princípio ideológico: nunca recebi um centavo de PLR da Cassi. A luta que empreendi gerou (e gera) uma economia de milhões de reais para a Cassi. Muita gente que estava lá na gestão sabe disso. Qualquer hora eu conto essa história pra vocês.

William


Para ler o texto seguinte, o Memórias (XIII), clique aqui.

E aqui para ler o texto anterior.