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19.7.23

Cassi (II)



OPINIÃO:

A GENTE SABE O QUE QUER?

Eu me lembro perfeitamente das questões que pautavam nossas discussões relativas à saúde dos trabalhadores quando era dirigente sindical. Minhas percepções a respeito de nossas reivindicações foram mudando à medida em que minhas funções foram mudando também no movimento sindical. Aliás, as percepções eram umas quando era trabalhador da base, e passaram a ser outras já como representante dos colegas.

Quando passei a representar meus colegas da categoria bancária comecei a entender como somos levados a fazer coisas que não faríamos se tivéssemos um mínimo de noção a respeito daquilo, se tivéssemos consciência de classe. No mundo do trabalho capitalista nós vendemos nossos corpos e nossas horas de vida e querendo ou não temos que nos submeter ao que determinar o patrão, o chefe, o comprador de nossas horas de vida. A organização sindical tem papel central em exigir condições adequadas de trabalho e direitos trabalhistas.

Como trabalhador bancário desde os 19 anos de idade eu queria o que em geral todo mundo quer. Boas condições de trabalho, jornada limitada de trabalho, remuneração justa ou suficiente para se viver com dignidade, direitos básicos à assistência médica, férias etc. Quando se fala em boas condições de trabalho pode-se incluir diversas percepções do cotidiano como não sofrer violência organizacional ou assédio direto de pessoas no local de trabalho; também podemos pensar no direito a uma alimentação saudável; ambiente físico adequado, formas de ir ao trabalho e voltar etc.

Quando passei a dar atenção ao pessoal do sindicato, minhas percepções em relação ao trabalho mudaram da água para o vinho. Eu estava sendo politizado pelos nossos representantes de classe, tivesse eu clareza ou não sobre esse processo de conscientização. Ao longo do tempo de formação política, passei a explicar para os colegas que determinadas reivindicações deles não resolveriam os problemas que eles queriam resolver e algumas, ao contrário, poderiam agravar o problema. Exemplo: como caixa executivo, entrar na onda do patrão de mandar o cliente se virar sozinho nos terminais lá fora e na internet ao invés de lutar para termos mais colegas de trabalho, jornada menor, pausas para trabalho repetitivo etc. A consequência seria redução de quadros, acúmulo de função e serviço e até demissão.

Esse processo de politização se deu nos dois anos que passei no Unibanco, no CAU da Raposo Tavares, quando conheci o pessoal do sindicato, e depois de forma contínua no Banco do Brasil, um banco público que nos dava um pouco mais de estabilidade no emprego ao longo do tempo, tendo assim condições de acumular a formação política e a conscientização de classe. Minha primeira década de trabalhador do BB se deu na base, nos locais de trabalho. Me sindicalizei logo depois que voltei a ser bancário e com um tempo passei a ser o contato do sindicato nas agências onde trabalhava. Era um "delegado sindical" sem estabilidade porque os governos tucanos tinham retirado os direitos de organização dos bancos públicos.

Depois de mais de uma década como trabalhador bancário de base, virei dirigente sindical do Banco do Brasil na Grande São Paulo e aí sim posso dizer que a minha formação política foi acelerada e a percepção sobre o mundo do trabalho também mudou, passei a ver de forma mais apurada - política e técnica - as causas e consequências dos processos de trabalho e as nossas reivindicações para melhorar a vida das pessoas e as condições de trabalho mudam de patamar porque um dirigente liberado passa a ter a obrigação moral e ética de estudar o mundo do trabalho e manter-se atualizado das principais questões que envolvem a vida das pessoas e isso só é possível se conjugarmos uma série de fatores, sendo um deles manter seu contato com a base, conversar com os trabalhadores e identificar as mudanças em andamento por parte das empresas e dos patrões.

Essa breve retrospectiva sobre o processo de formação política e conscientização de um trabalhador bancário que virou dirigente sindical é para dialogar com a pergunta inicial desta primeira parte de minhas reflexões de hoje.

Na área da saúde dos trabalhadores e das pessoas em geral, a gente sabe o que quer? 

Ao olhar para trás e ao ver neste exato momento em que escrevo sobre as reivindicações e os desejos relativos à saúde, ou seja, com décadas de diferença entre o passado e o presente, eu tenho tranquilidade em afirmar que as reivindicações dos trabalhadores, das pessoas em geral e de seus representantes políticos não mudaram muito, em linhas gerais, do que se desejava desde os anos oitenta. E, infelizmente, os desejos que pautam as pessoas são os desejos pautados pela indústria privada e capitalista da saúde. E as nossas representações políticas reivindicam o que seus representados cobram e o que eles querem não vai resolver seus problemas de saúde.

O que se quer e o que se pauta na saúde, inclusive no sistema público, é mais rede de atendimento, mais estruturas de diferentes níveis de atendimento médico disponíveis para mais procedimentos curativos nas pessoas. O que se reivindica são mais oportunidades de cirurgias, mais próteses e mais intervenções, são mais tipos de medicamentos e materiais, são mais leitos, mais isso e mais aquilo voltado para a intervenção na saúde depois das pessoas já estarem na condição de não saúde. E assim seguimos, inclusive no mundo do trabalho. 

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MAIS CURA (E NÃO MAIS PREVENÇÃO) - Essa é uma questão óbvia para o capitalismo: cura custa caro e gera lucro para capitalistas e prevenção é barata e não gera procedimentos e lucro para os capitalistas. Percebem por que a pauta e criação de desejos é na cura e não na prevenção?

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É lógico que os representantes dos trabalhadores seguem lutando por melhores condições de trabalho, por direito a plano de saúde e por preços factíveis para se acessar atendimento médico aos trabalhadores e familiares etc. Não estou dizendo que nosso lado não faz o que é imediato nas pautas de saúde dos trabalhadores. A questão é o norte da coisa, a tendência e rumo das questões de saúde dos trabalhadores...

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A ÚNICA CHANCE DA CASSI DE SUSTENTABILIDADE É PELA PREVENÇÃO (PELA CURA A CAIXA DE ASSISTÊNCIA QUEBRA)

Vou argumentar abaixo sobre:

1. Como cheguei à gestão pensando como todo mundo e como mudei a percepção após compreender os processos da saúde humana 

2. Por que a Cassi pode ser diferente do mercado ou indústria da saúde?

3. Por que a estrutura própria da Cassi era fundamental e deveria ser retomada? Funcionários assalariados acolhem pacientes e geram demandas assertivas; "parceiros" e "terceiros" são capitalistas e atendem clientes, geram demandas desnecessárias, visam lucro

4. A percepção de como somos, a cultura brasileira de não saúde, de adoecimento e de não prevenção, de checkup e hábitos não saudáveis 

5. Algo sobre o foco equivocado da Cassi em planos de mercado ao invés do foco no Plano de Associados, que vai demandar a Cassi por décadas a custos maiores e talvez judicializados (lógica do mercado curativo)

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1. Como cheguei à gestão pensando como todo mundo e como mudei a percepção após compreender a lógica da indústria curativa da saúde 

Quando fui eleito pelos associados para ser diretor de saúde da Cassi, eu tinha uma boa experiência em negociações coletivas, em organização de pessoas, em formação política e em comunicação, essas eram minhas habilidades de trabalho, e era formado em Ciências Contábeis e Letras e tinha um curso de extensão em economia pela Unicamp.

Nossa plataforma de campanha eleitoral na Cassi propunha o que todo mundo do campo progressista e de esquerda quer na área da saúde: manutenção da solidariedade; melhoria na rede de atendimento; mais foco na saúde dos trabalhadores; mais direitos em saúde. Básico isso. Fiz uma campanha na base me comprometendo a ampliar a democracia e a participação social na Cassi e ter uma relação intensa com as entidades associativas que representavam os associados e trabalhadores.

Os primeiros meses de gestão foram centrais para mudar minha percepção do que era a Cassi, de onde ela vinha e para onde deveria avançar; para entender o que era a Cassi atuando no mercado privado de saúde; para compreender os pontos fortes e os pontos fracos da Cassi em relação ao mercado da saúde privada, aos seus participantes no sistema e a sua relação difícil com o patrocinador, um banco.

Estudei a história da Caixa de Assistência, sendo ela hoje um sistema suplementar de saúde; as conquistas dos trabalhadores do BB que foram se incorporando ao sistema Cassi ao longo de décadas; percebi a impotência da Cassi perante a indústria privada da saúde; descobri a riqueza do modelo assistencial de Estratégia de Saúde da Família (ESF) e as CliniCassi próprias, o melhor modelo de APS após a reforma estatutária de 1996. 

A DESCONHECIDA CASSI - E percebi o quanto a Cassi era e segue sendo uma total desconhecida dos seus "stakeholders" (risos): as partes interessadas na relação com a Cassi não tratam a Cassi pelo que ela é, uma associação de trabalhadores da ativa e aposentados, uma Caixa de Assistência. E desse desconhecimento se dá a maioria dos equívocos decisórios em sua gestão e busca de soluções para o seu funcionamento, a sua manutenção e a sua sustentabilidade.

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2. Por que a Cassi pode ser diferente do mercado ou indústria da saúde?

Ao conhecer a Cassi e a legislação à qual ela está submetida, ao ter noções de como funciona a indústria da saúde que vende serviços curativos caríssimos, ao conhecer sua história e suas leis - estatuto, regulamentos, contratos - e ao compreender seus objetivos centrais - prevenir doenças e atuar de forma permanente e suplementar na saúde de seus participantes ao longo do tempo - foi possível fazer um planejamento estratégico na nossa diretoria para atingir objetivos bem concretos durante 4 anos.

Durante o mandato na saúde da Cassi, nós apresentamos a Caixa de Assistência às partes interessadas: sindicatos, associações e conselhos de usuários que representavam os participantes do sistema Cassi; aos gestores do Banco do Brasil nesse extenso país continental, que viam e seguem vendo a Cassi como uma agência bancária ou um plano de saúde de mercado; aos funcionários da Cassi, que ao serem contratados precisam entender que a Caixa de Assistência é diferente dos outros locais que haviam trabalhado no mercado privado.

E além de apresentarmos o modelo assistencial de Estratégia de Saúde da Família (ESF) aos segmentos intervenientes da Cassi, explicar dezenas de vezes em todas as capitais do país ao longo do mandato para que serviam as CliniCassi e as equipes de família, os programas de saúde e por que era importante procurar a Cassi primeiro ao invés de acreditar piamente no que o mercado privado propunha de intervenção curativa etc, nós desenvolvemos na diretoria estudos para comprovar a eficiência do modelo ESF em participantes vinculados a ele por mais de 3 anos. Os resultados foram extraordinários!

Até 2018 a ESF concentrava grandes contingentes
de populações das faixas etárias maiores de 59 anos.
Mesmo assim, a ESF tinha resultados excelentes.


A Cassi ainda hoje pode ser diferente do que há de possibilidades no mercado da saúde porque nenhum sistema privado tem 375 mil participantes (Plano de Associados, 1T23) que tendem a permanecer por décadas no sistema. E esses participantes têm baixo risco de inadimplência e podem fazer parte de um processo educativo em saúde e de pertencimento para melhor uso dos recursos como nenhum outro grupo instável do mercado privado. Que empresa privada tem essas características positivas que a Cassi tem?

Mesmo sendo um universo de participantes que tende ao envelhecimento, nós provamos que faixas etárias maiores vinculadas à ESF tinham comportamento de crescimento de despesas assistenciais melhores que faixas etárias mais novas sem vínculo à ESF (quadro acima).

Só a Cassi tem essa possibilidade de vínculo longevo entre a autogestão e seus 375 mil associados no país. Estou falando algo básico para quem faz gestão de saúde.

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3. Por que a estrutura própria da Cassi era fundamental e deveria ser retomada? Funcionários assalariados acolhem pacientes e geram demandas assertivas; "parceiros" e "terceiros" são capitalistas e atendem clientes, geram demandas desnecessárias, visam lucro

O subtítulo já é autoexplicativo. Uma coisa é termos funcionários da Cassi na área administrativa e na área médica, outra é ser terceirizada a estrutura. Toda empresa visa lucro, resultado, retorno. Todo funcionário assalariado trabalha com outra lógica. Por isso lutei tanto pelos funcionários da Cassi durante os 4 anos de nossa gestão. Os funcionários da Cassi sempre foram um patrimônio de nossa autogestão, um patrimônio dos associados.

Durante 4 anos trabalhando e conversando com os profissionais da Cassi eu percebia a diferença na satisfação dos nossos funcionários quando comparavam o trabalho que realizavam em saúde nas CliniCassi e o que realizavam nos outros locais onde trabalhavam (hospital público ou empresa privada). Eles me diziam que na Cassi eles viam o resultado de seus trabalhos ao longo do tempo nas equipes de família. Nos outros locais de trabalho, às vezes até ganhavam mais, mas não davam a satisfação que eles tinham ao ver os pacientes cuidados e em evolução em seus quadros de saúde.

O desfazimento das estruturas próprias da Cassi e a opção pela terceirização até das CliniCassi e também a opção pelos atendimentos de telemedicina fora da Cassi são decisões equivocadas, é uma insensatez, é algo muito ruim para o atingimento dos objetivos da Cassi e para a perenidade de nossa autogestão em saúde. O foco não é saúde, o foco é resultado (dinheiro, capital).

Essas empresas visam lucro! Na indústria da saúde o que gera lucro não é prevenção, é intervenção curativa. Se eu mantiver 375 mil participantes com consciência social em manutenção de suas saúdes, as terceirizadas terão menos lucros e ou aumentarão seus preços ou darão um jeito de gerar mais intervenções curativas, demandas por novidades em saúde etc. 

Volto a afirmar o que disse por 4 anos: é muito mais barato e eficaz manter uma estrutura própria da Cassi numa localidade (uma CliniCassi e uma equipe de família) para cuidar de algumas centenas de pessoas com diversos graus de comorbidade do que pagar uma dúzia de intervenções curativas do mesmo grupo de pessoas nas estruturas do mercado privado, atendimento que a lei em geral garante e se sensibiliza muito mais juízes leigos por aí em atender procedimentos caríssimos e questionáveis do que se a demanda fosse evitada através de controle preventivo anterior e educação em saúde.

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4. A percepção de como somos, a cultura brasileira de não saúde, de adoecimento e de não prevenção, de checkup e hábitos não saudáveis 

Quando fazia a gestão da saúde das populações atendidas pela nossa Caixa de Assistência e me debruçava sobre os números de cada Estado e DF e cada equipe de família e quando observava os resultados dos exames periódicos de saúde que fazíamos em 100 mil trabalhadores do BB era fácil entender as possibilidades que tínhamos para atuar na educação em saúde e na prevenção de doenças e nas oportunidades perdidas porque não tínhamos um trabalho de equipe ideal entre a direção do Banco e seus milhares de administradores, as centenas de entidades representativas e a própria Cassi junto aos 375 mil participantes (hoje) do Plano de Associados nas 27 Unidades da Federação, o Brasil.

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A Cassi foi pensada para oferecer Atenção Integral à Saúde ao longo de décadas para uma população relativamente estável no tempo sabendo que tem recursos limitados pela folha de pagamento e de benefícios de BB e Previ e que o custo curativo da saúde oferecido pela indústria da saúde é impossível e impagável. Por isso que os estudos entre 1996 e 2001 definiram a ESF como o melhor modelo de APS para essas características que descrevi do universo do Plano de Associados.
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Prezad@s administradores da Cassi e colegas do conglomerado Banco do Brasil, a cultura brasileira não vai mudar tão cedo. Seguiremos sendo estimulados a beber cada vez mais, a comer o que faz mal à saúde e traz doenças crônicas; cada dia estamos mais expostos às violências diversas e cada dia seremos estimulados a consumir mais "novidades" das diversas áreas capitalistas da saúde. 

Aliás, após os últimos anos de negacionismo, estamos com mais riscos de doenças endêmicas e o SUS terá desafios maiores a cada dia, até um sistema básico de salvamento como o Samu pode dificultar nossas demandas emergenciais de saúde curativa. Para ser salvo de um acidente ou crise aguda em saúde em um hospital credenciado é preciso ser levado até a emergência por um resgate...

Volto a me perguntar e a sugerir a reflexão aos intervenientes e pensadores do sistema Cassi se é o suficiente para a sustentabilidade do Plano de Associados seguir focando na terceirização e contratação no mercado privado das principais estruturas de saúde da nossa Caixa de Assistência para as próximas décadas. Nossas estruturas próprias e baratas de Atenção Primária seguirão à mercê dos lucros dos capitalistas privados?

Oferecer atendimento por telemedicina terceirizada para as 375 mil vidas do Plano de Associados sem essa população estar vinculada à ESF ao longo do tempo como era o objetivo até 2018 é uma temeridade, na minha opinião. A telemedicina da Cassi hoje me parece mais um ponto de atendimento, de atenção, uma porta de entrada, sem o trabalho que fazíamos a partir das Unidades Cassi nos Estados e DF e as equipes de família nas CliniCassi.

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5. Algo sobre o foco equivocado da Cassi em planos de mercado ao invés do foco no Plano de Associados, que vai demandar a Cassi por décadas a custos maiores e talvez judicializados (lógica do mercado curativo)

Sobre os planos de saúde que a Cassi dispõe no momento, francamente, o melhor deles segue sendo de longe o Cassi Família II. É lamentável a própria Cassi ficar criando diversos planos que imagino concorrem com o CF II.

Enquanto a direção do Banco do Brasil e da Cassi não entenderem que a Cassi não é concorrente dos planos de mercado, sejam eles medicina de grupo, seguradoras, cooperativas médicas, conglomerados hospitalares etc, a Cassi seguirá se expondo perigosamente num mercado que não é para ela. Nem a legislação da saúde facilita isso... A Cassi tem outra lógica!

Fiz esse debate como gestor por 4 anos, tinha argumentos sólidos e não me convenci do contrário nesses anos posteriores. Eu sei como funciona a onda de mercado, ela é forte no capitalismo, porém essa ideia de ser plano de mercado não tem nada a ver com a nossa Caixa de Assistência.

Que canseira essa temática de planos de mercado...

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É isso! Essas são minhas reflexões sobre a Cassi em 2023, seus novos déficits atuais, seus andamentos por caminhos duvidosos e posso dizer a vocês que minha opinião não é de leigo. São impressões, é claro, porque vejo a autogestão como associado.

É verdade que o texto é longo. Eu fico impressionado e às vezes me pergunto se as centenas de pessoas que têm lido meus textões são IA (risos) ou são nossos colegas que por um tempo me deram a honra de ler o que escrevia durante os anos em que os representava.

Em relação às estratégias recentes de incluir algumas especialidades nas unidades CliniCassi, acho a decisão interessante. Tínhamos projetos nesse sentido quando desenvolvemos estudos para ampliar a verticalização de nossas estruturas de saúde.

Abraços fraternos aos leitores e leitoras e desejo muita saúde aos nossos participantes do sistema Cassi. Reforço que sigo torcendo por nossos administradores e por conquistas de nossas entidades associativas.

William Mendes


Post Scriptum: o primeiro texto sobre essa temática pode ser lido aqui. Esses dois textos deram muito trabalho, são reflexões honestas e acabo escrevendo sobre a Cassi porque me sinto na obrigação de compartilhar o que sei sobre o tema.

Post Scriptum II (ago/2023): retomo o tema Cassi para falar dos reajustes nos planos Cassi e da oportunidade perdida ao não se ampliar a ESF para o conjunto dos participantes do sistema de saúde Cassi. Ler aqui.


16.7.23

Cassi (I)

 


OPINIÃO: 

DILEMAS SOBRE A SAÚDE HUMANA


Que tipo de reflexão eu poderia fazer sobre o tema saúde humana? Que noções eu tenho sobre o tema saúde humana para exercer meu livre direito constitucional de expressar minha opinião e meus pensamentos sobre esse tema, a saúde humana? 

Em relação à população em geral, talvez eu conheça um pouquinho mais sobre o tema, ou seja, talvez eu tenha algumas noções a mais sobre saúde humana em relação aos leigos porque durante o percurso de minha vida adulta tive alguns contatos com o tema de forma técnica ou profissional.

Tive uma experiência marcante em minha vida, fui gestor de saúde por quatro anos e essa oportunidade me proporcionou conhecimentos na área de assistência à saúde que eu jamais imaginaria ter não fosse essa experiência. Eu diria que posso fazer reflexões ao menos sobre gestão de sistemas de saúde como o da autogestão Cassi.

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PRIMEIROS CONTATOS

Na infância, trabalhei por alguns meses em uma drogaria e até aplicava injeções. Por incrível que isso possa parecer hoje, nos anos oitenta isso foi possível, legal ou ilegalmente, porque não sei se a drogaria onde eu trabalhava de entregador de medicamentos poderia me pedir para aplicar injeções musculares e venosas nos clientes. O fato concreto é que eu apliquei muita injeção durante alguns meses de trabalho. Os clientes ao ligarem na drogaria pediam que eu fosse aplicar as injeções porque eu tinha a "mão boa" e as injeções não doíam, nem as musculares nem as venosas. Que loucura pensar nisso hoje! Eu era uma criança entre meus 14 e 15 anos de idade.

Depois de já ser adulto e trabalhar no Banco do Brasil, eu iniciei uma graduação em Educação Física e cursei o bacharelado por dois anos. Estudei na Faculdade do Clube Náutico Mogiano e modestamente posso dizer que me dei muito bem com as disciplinas que fiz. Eu já era formado em Ciências Contábeis e voltar a estudar com mais idade foi muito positivo porque minha dedicação aos estudos fazia toda a diferença. Aprendi muito com as disciplinas das áreas médicas como, por exemplo, "Anatomia" e "Bioquímica e Nutrição". Infelizmente eu não pude concluir o curso por não ter recursos para pagar as mensalidades.

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GESTÃO EM SAÚDE NA CASSI

Meu terceiro contato técnico ou profissional com a área de saúde humana foi uma das maiores experiência de minha vida. Entre 2014 e 2018, no auge de minha maturidade política e intelectual, fui eleito gestor de saúde da autogestão dos trabalhadores do Banco do Brasil, a Cassi. Eu já vinha de uma intensa formação política na luta por direitos em saúde da categoria bancária, pois era dirigente sindical e coordenava as negociações entre capital e trabalho, nas mesas entre os bancários e o Banco do Brasil e Fenaban. Nunca estudei tanto em minha vida! Nunca fiz tanto esforço em transmitir o que aprendi em saúde e gestão de saúde para a coletividade. E ao transmitir conhecimento, a gente aprende e aperfeiçoa o conhecimento.

O nosso mandato de gestão de saúde foi exercido durante um período complexo da vida do país. Quando eu fui eleito para ser diretor de saúde na autogestão do maior banco público do país, o governo federal era gerido pelo Partido dos Trabalhadores, por Dilma Rousseff. Ao longo do mandato, o país sofreu um golpe de Estado, e os golpistas assumiram a gestão do país a partir do dia 17 de abril de 2016, com Michel Temer. Tudo mudou drasticamente na vida do povo trabalhador brasileiro e nas instituições do Estado nacional naquele período. Evidentemente, mudou também as relações internas nas empresas públicas e nas agências reguladoras e controladoras.

Durante o período no qual fizemos parte da gestão da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil havia um forte embate entre capital e trabalho, embate iniciado já nos governos do PT e que se agravou após o golpe de Estado. O patrocinador da Cassi, o banco estatal, alegava não poder investir mais recursos na autogestão, da qual detinha a metade do controle administrativo e era o responsável direto pela gestão das áreas contábeis, econômico-financeiras, presidência, controles e auditoria etc. O embate entre capital e trabalho tinha um foco central: aumentar a contribuição dos associados e dependentes e reduzir direitos em saúde. Esse embate permaneceu enquanto estivemos lá. Os associados não perderam direito algum até terminar nosso mandato.

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PREVENIR E EVITAR DOENÇAS OU VENDER A CURA E A ILUSÃO DA CURA?

Enfim, vivemos dilemas sobre a saúde humana, desde sempre. Eu diria que os dilemas começam pelas escolhas feitas pelos gestores de sistemas públicos e privados de saúde (escolha política): se o objetivo do sistema gerido é promover saúde e evitar adoecimentos ou aplicar os mais diversos meios disponíveis (e caros) para reparar doenças e amenizar consequências de doenças e traumas na saúde das pessoas.

Minhas noções sobre saúde humana foram ampliadas após uma vida de representação da classe trabalhadora por causa das disputas entre patrão e trabalhadores em relação às condições de trabalho e adoecimento por causa da venda de nossa força de trabalho. De cara, posso afirmar que um dos embates é tentar prevenir o adoecimento dos trabalhadores, mas a disputa com o patrão nesta questão é dura, a gente acaba adoecendo mesmo.

Ser gestor de saúde e de sistemas de saúde me deu oportunidade de conhecer por dentro como funciona a chamada indústria da saúde, tanto pública como privada. É evidente que meu aprendizado, minhas noções, foram muito mais relativas à realidade da Caixa de Assistência, uma autogestão, com um modelo de saúde que vinha sendo implementado após um longo debate interno entre patrocinador, associados e corpo técnico. 

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DE ONDE VEM E PRA ONDE VAI A NOSSA CASSI?

O modelo de Estratégia de Saúde da Família (ESF), escolhido entre os modelos de Atenção Primária em Saúde (APS) era uma decisão acertada na Cassi e nós demonstramos isso em números durante nossa gestão como responsável pela diretoria de saúde. A Cassi conseguiu brilhar interna e externamente em relação ao modelo assistencial mesmo enquanto se debatia a questão do déficit e do custeio, uma área específica e problemática da indústria da saúde. A ESF se mostrou a melhor opção para o futuro da Cassi.

De repente, após 2018, mudaram tudo na Cassi. Em tese, o problema mais imediato foi resolvido, o custeio recebeu uma grande injeção de recursos já a partir do final daquele ano e após a reforma estatutária na qual se aprovou tudo o que o patrocinador queria. 

Os associados passaram a pagar bem mais pela assistência à saúde, o banco público diminuiu seus investimentos no sistema (a proporção), novas gestões vieram, tanto as indicadas pelos governos Temer e Bolsonaro, quanto os grupos eleitos após 2018 foram grupos antissindicais, do espectro da direita, distantes do dia a dia da luta da classe trabalhadora e muito mais próximos dos ideais patronais, defensores do mercado e de ideias como a terceirização de tudo. 

E não é que a Cassi está com um déficit enorme de novo! O Visão Cassi do primeiro trimestre nos apresenta um déficit operacional de 98 milhões! Se fizeram tudo o que queriam, por que os resultados não vieram? Vão dizer que a culpa é dos associados de novo?

Enfim, eu tenho visto os novos gestores se esforçando para fazer um bom trabalho na Cassi, tanto os eleitos em 2022 como os indicados pelo novo governo (2023), tenho visto o movimento sindical se reunindo e cobrando os direitos em saúde dos trabalhadores e aposentados, e me parece que não é só o nosso querido Sistema Único de Saúde (SUS) que vive momentos decisivos para o presente e o futuro da saúde humana, nossa autogestão também está num momento decisivo. 

Nossa Cassi vai seguir a tendência adotada nas gestões (e governos) anteriores? Será que algo não está errado nas opções que fizeram nos últimos 6 anos? O recurso novo entrou, os direitos diminuíram ou ficaram mais caros e o déficit está crescendo de novo. Não seria a hora de repensar o rumo adotado nos últimos 6 anos e se debater o sistema e o modelo atual da Cassi?

Eu sigo na torcida pelo acerto da nossa direção da Cassi e pelo acerto do nosso governo Lula.

Contudo, entendo que a Cassi deveria retomar a ampliação do modelo assistencial da Estratégia de Saúde da Família (ESF) como o modelo de APS a ser disponibilizado para o conjunto dos associados e participantes. 

Tenho a impressão de que da forma como está hoje, a chamada Atenção Integral via APS (faz uma telemedicina aí!) passou a ser só mais um ponto de atenção, uma porta de entrada sem o efeito longitudinal esperado de acompanhamento do participante no tempo, que a ESF tinha. 

O resultado da ESF ao longo do tempo nos participantes vinculados e aderentes ao modelo por mais de 3 anos nós demonstramos e não vejo por que não seguir com o que é bom e dá resultado.

É uma opinião, e não é de leigo.

William Mendes


Post Scriptum: o texto sequência deste pode ser lido clicando aqui.

18.6.23

Memórias (XXXVIII)


Na mesa de assembleia com grandes lideranças:
Deli, Vaccari, Marcolino e Sasseron. Foto: Pepe.


Evocações

A leitura do livro Evocación, de Aleida March, me levou aos prantos. Aleida é uma mulher revolucionária, foi combatente na Revolução Cubana e companheira de Ernesto Che Guevara. A leitura de suas recordações e resgates de momentos vividos ao lado de Che me fez refletir sobre muita coisa e também me fez recordar o passado de lutas.

Em suas recordações, ela vai nos contando sua infância e adolescência, vivida em meio às dificuldades materiais e sob a violência que o povo sofria por parte do governo de Fulgencio Batista, ditador que assumiu o poder após o golpe de Estado de 1952. Ela encontrou a si mesma ao ler aos 20 anos de idade A história me absolverá, alegação de defesa de Fidel Castro no julgamento dos jovens revolucionários que atacaram o quartel de Moncada, em 26 de julho de 1953. 

Aleida disse: "sentí que en ese documento se expresaban todos mis ideales y la ruta a seguir para conquistar la plena dignidad patria."

Ao longo do livro o leitor passa a conhecer um Che Guevara que não se conhece lendo a farta biografia positiva e negativa que existe sobre ele. É diferente de outras biografias ler Aleida March compartilhando conosco a sua vida comum com Che, seu comandante, depois seu chefe, depois seu marido e pai de seus quatro filhos. Seu amante, seu amigo, seu professor e seu inspirador. Seu eterno apaixonado. 

Ao ler sobre o momento no qual Che se despede de Aleida e dos filhos em 1965, deixando fitas gravadas com declamações dos poemas que mais gostavam, para partir para a guerrilha de libertação do povo no Congo, foi impossível não chorar como ela diz que chorou...

Che acreditava na construção de um "homem novo", um novo ser humano, um ser humano educado, com cultura, com um forte espírito criador e focado na busca de uma sociedade mais justa e igualitária. Era muito forte em sua concepção e prática revolucionária a questão da ética e do caráter que as pessoas deveriam ter tanto nas questões pessoais e coletivas quanto nas relações sociais.

Com a leitura das evocações de Aleida March, foi inevitável reviver minhas próprias evocações dos tempos de lutas...

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NA REPRESENTAÇÃO DE CLASSE, PROCUREI FAZER NA PRÁTICA O QUE DEFENDÍAMOS NO CAMPO DAS IDEIAS DA ESQUERDA

Figuras humanas como a do médico revolucionário Ernesto Che Guevara sempre inspiraram o campo político da esquerda. No nosso caso brasileiro, a figura do metalúrgico humanista Luiz Inácio Lula da Silva nos inspira há décadas, sendo Lula um grande homem da prática como exemplo de vida e representação política.

Ao longo das evocações de Aleida March, relembrando posturas éticas e princípios inquebrantáveis no líder revolucionário Che Guevara, tive também as minhas recordações dos tempos de lutas sindicais e representação eletiva da classe trabalhadora. As evocações me trouxeram uma leveza que ninguém poderá me tirar, porque a ética foi a minha prática no dia a dia da luta empreendida entre capital e trabalho.

No movimento sindical, minha escola de formação política foi o Sindicato dos Bancários e depois a tendência política na qual militei por décadas. No dia a dia sindical, a minha formação foi sendo construída diariamente a partir das visitas às bases sociais e nas reuniões políticas e formativas do coletivo de banco ao qual eu pertencia, o do Banco do Brasil. 

Como dizíamos, tínhamos dois ouvidos e uma boca, então era importante ouvir a base e não só fazer pregação sem ouvir o outro lado. Fiz isso a vida toda. Sempre que estudamos um grande líder do nosso campo político - o democrático -, vemos que essa prática é central: ouvir as pessoas.

Dei sorte de vivenciar o momento áureo do sindicalismo bancário e cutista brasileiro. A divergência de opiniões e ideias era a prática e ninguém era excluído ou desconsiderado (hoje dizem "cancelado") por ter opinião própria, estávamos abertos a mudar de ideia e, por haver tolerância e paciência, todos saíam fortalecidos e unidos com os debates e as decisões construídas por consenso progressivo.

Com o passar do tempo na condição de dirigente eleito, fui assumindo novas tarefas no movimento e ao passar a coordenar e liderar temas importantes ou setores estratégicos, me esforcei para pôr em prática tudo o que havia aprendido no dia a dia da formação política advinda da relação com a base, com o coletivo de banco, com o conjunto da direção do Sindicato e com as demais forças políticas que atuavam no movimento e que eram "oposição" à corrente política que eu representava. E também exerci a ética e prática sindical na relação com o patronal, o capital.

Ao longo do livro de recordações de Aleida March, ela nos conta passagens nas quais Che não aceitava absolutamente nenhuma ação que pudesse parecer privilégio, não admitia nenhum excesso de gasto pessoal com o recurso que era coletivo, era de uma disciplina incrível nas ações e práticas que exercia em nome da revolução e da causa pela qual lutava, a leitura e o estudo permanentes eram uma questão de princípio, educação e formação para construir-se o homem novo para uma nova sociedade.

De certa forma essas foram as mesmas concepções e práticas sindicais que embasaram a minha formação política de esquerda, através do movimento que ganhou o nome de Novo Sindicalismo a partir do final dos anos setenta, com a luta de metalúrgicos, bancários, professores e outras categorias contra a carestia, pela volta da democracia e por um Brasil mais justo e igualitário. Os anos oitenta foram o momento áureo dessas lutas: a criação do Partido dos Trabalhadores, a Conclat e depois a CUT, o MST, as Diretas Já, a Constituinte e a Constituição Cidadã de 1988 deram as bases ideológicas ao movimento sindical ao qual me integrei no final dos anos oitenta e ao longo das décadas seguintes.

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EVOCAÇÕES SINDICAIS (2003-2018)

A formação da minha ética política se deu nos primeiros anos do movimento sindical. E seguiu ano após ano, nas lutas constantes e dilemas vividos nas funções que desempenhei como dirigente da classe trabalhadora.

Diria até que minha ética de trabalhador de categoria organizada sindicalmente e nacionalmente se deu assim que entrei na categoria bancária em 1988, e com embates reais entre capital e trabalho. No entanto, a ética como liderança se deu após 2003.

TER OPINIÃO DIFERENTE NÃO É SER INIMIGO DA DIREÇÃO DO SINDICATO - Ainda como trabalhador de base nos anos noventa, me lembro, por exemplo, de quando o nosso sindicato entrou com ação judicial contra o governo federal para que os trabalhadores bancários da base pudessem abater todas as despesas com educação. Falei com a direção sindical que isso iria dar merda...

Eu já era formado em Ciências Contábeis e entendi que isso tinha um risco enorme de dar errado e a liminar ser cassada porque os bancários vivem no mesmo mundo do restante da classe trabalhadora. Por que só nós teríamos esse direito, esse privilégio?

Não deu outra... liminar cassada e teve trabalhador que precisou vender carro para pagar o fisco. Os bancários ficaram bravos pra caramba com o sindicato. Eu avisei onde trabalhava que era uma fria utilizar essa liminar. A intenção do sindicato até era legítima, mas estava na cara que esse atalho para se fazer justiça tributária não era o mais adequado. 

A FORMAÇÃO POLÍTICA COMO DIRIGENTE SINDICAL

Me lembro das assembleias decisivas dos bancários do Banco do Brasil naquele primeiro ano sob o governo do presidente Lula (2003). 

Era uma segunda-feira quando veio a proposta final do governo para ser apreciada em assembleia à noite na Quadra dos Bancários. 

Eu havia dito ao nosso coordenador da comissão de negociação que seria difícil a aprovação da proposta arrancada na mesa de negociação porque os trabalhadores esperavam ao menos uma proposta idêntica ao índice que a categoria havia conseguido na mesa da Fenaban. 

Isonomia e campanha unificada eram eixos congressuais nossos, mesmos direitos entre todos os bancários, de bancos privados e públicos em geral. 

Defendemos a aprovação da proposta negociada em mesa - isso é uma ética de mesa de negociação entre capital e trabalho. Os bancários rejeitaram a proposta e construímos uma forte greve entre a terça e a quinta-feira. 

A direção do Sindicato foi impecável em nossa ética sindical, os trabalhadores decidiram e nós encaminhamos uma greve muito forte. 

Na quinta-feira, iríamos apreciar nova proposta negociada com o governo e patrão sob uma correlação de forças melhor - a greve forte - e agora com o índice cheio da categoria (12,6%), e com diversas conquistas novas: um acordo de PLR que não havia nos bancos públicos, isonomia nos tíquetes e auxílio-creche que eram menores no BB, um aumento grande na cesta-alimentação, 5 dias de abonos para funcionários pós-1998, a volta do direito de eleger delegados sindicais com estabilidade, e abono dos dias de greve. Uma proposta vitoriosa mediante a greve daqueles 3 dias.

A assembleia à noite foi tensa, quadra lotada. 

Na passeata que fizemos durante a tarde, parte da militância me disse que queria aceitar a proposta e encerrar a greve vitoriosa. Outra parte queria rejeitar a proposta e queria muito mais, talvez a revolução (rsrs). 

Na reunião da direção nos bastidores da assembleia, decidimos que eu faria uma das defesas da proposta, eu já tinha muita inserção na base social. 

Foi difícil aquela fala com a massa de trabalhadores, gente querida gritando e ofendendo, queriam continuar a greve. 

Aprovamos a proposta e a categoria saiu vitoriosa daquela campanha. 

Eu me sentei atrás do palco e chorei. Foi tenso demais. Iniciei ali uma relação de liderança com a categoria baseada em muita honestidade e ética sindical. Eu fiz a coisa certa naquele momento.

A militância que ficou brava na hora depois me procurou e nos deu razão. Foi uma campanha vitoriosa.

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A LIBERDADE DE OPINIÃO FOI CENTRAL NA MINHA FORMAÇÃO POLÍTICA

Depois dessa primeira assembleia decisiva em 2003, fiz nas assembleias em São Paulo as defesas das propostas finais das negociações entre a direção do Banco do Brasil e nós das confederações de bancários da CUT (CNB e Contraf) entre os anos de 2004 e 2013, foram 11 anos de muitos debates com a massa de trabalhadores bancários de nossa categoria.

Cada ano, uma história. A campanha de 2004 e a greve de 30 dias. A campanha de 2005 (e essa tem uma história antes mesmo de começar)... e assim sucessivamente até a última campanha que atuei no sindicato e na confederação em 2013. Em 2014 fui eleito para a direção da Caixa de Assistência dos Funcionários do BB (Cassi) e no congresso daquele ano deixei a coordenação do movimento no banco.

Estabeleci uma relação ética com os trabalhadores e com as lideranças de todas as forças políticas que atuavam na categoria bancária. Essa ética na postura e na defesa daquilo que acreditava marcou momentos políticos interessantes em nossas vidas de direção sindical nos anos dois mil.

Cheguei a fazer falas em congressos de bancários dividindo tempo com pessoas da oposição contra a minha própria corrente política porque eu entendia que a proposta em questão era um absurdo completo, contrária aos princípios que norteavam as nossas bandeiras políticas da CUT. 

É claro que houve um consenso em nosso grupo de que a corrente estava dividida naquele tema e foi aberta essa possibilidade de defesa a favor e contra a proposta em questão - algo que o pessoal conhecia com o apelido de "cláusula Zé Lourenço". Nunca fui porraloca como dirigente. Minha atuação naquele momento foi consentida pelo grupo político ao qual eu pertencia. No final, a proposta "Zé Lourenço" foi rejeitada com votação apertada após contagem de crachás.

E nem por isso, ter opinião divergente de parte de minha corrente, deixei de ser uma liderança nacional, coordenador de nossas bancadas e negociações etc. Havia uma ética no movimento sindical que permitia a opinião divergente e o debate de ideias sem a pessoa ser demonizada e cancelada por isso. Todos ganhavam com a construção do consenso progressivo, a Política e a Democracia eram fortalecidas.

Essa política saudável de debate de ideias e construção de consensos foi sumindo do seio de nossa democracia sindical e partidária na última década. Avalio que isso não é bom para o movimento dos trabalhadores. Isso não fortalece a unidade e o pertencimento às causas que defendemos.

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NA COMUNICAÇÃO E NA FORMAÇÃO POLÍTICA O CORPO FALA, A PRESENÇA NO AMBIENTE É CENTRAL (ONTEM E HOJE)

A leitura das evocações de Aleida March, companheira de Che Guevara, me trouxe várias lembranças ao longo dos quatro dias de leitura. Várias. Tem uma passagem no livro onde ela fala do incomodo do Che quando algum companheir@ deixava de participar dos eventos presencialmente.

"Es en esta época en que el Che comienza a asistir a las recepciones de gobierno, porque entendía que era un compromiso ineludible y una escuela de formación para los nuevos cuadros de la Revolución. En realidad se molestaba muchísimo cuando algún compañero no asistía, al considerarlo como parte de sus funciones. Como siempre, iba vestido con su uniforme verde olivo, que ya en la noche había sufrido el rigor de la faena de todo el día: reuniones, actos, en fin, las tareas cotidianas." (ALEIDA March, Evocación, p. 102)

Aproveito a passagem acima para refletir em uma postagem de Memórias no blog sobre essa questão da "escuela de formación" quando se trata da participação presencial em eventos formais da política. 

Tenho observado que algumas das direções sindicais e partidárias deixaram de fazer encontros e assembleias presenciais quando o assunto pode gerar algum enfrentamento político. 

Entendo todas as alegações que as direções apresentam para só fazerem assembleias e eleições virtuais, mas acho uma perda de oportunidade não aproveitar esses eventos políticos para educar e formar a classe trabalhadora que se quer organizar e representar.

Em uma assembleia ou congresso de trabalhadores, tudo ensina, tudo educa. Até as movimentações dos grupos políticos pelos cantos, definindo as posições e as defesas, demonstram aos participantes a pujança da política e do debate de ideias. Demonstra inclusive que as pessoas com ideias diferentes não são inimigas, só têm ideias diferentes... a política deve ser civilizada, ela é para se evitar a violência e a guerra.

Quando eu coordenava as negociações nacionais do Banco do Brasil e os congressos e assembleias, sempre pedia para a nossa militância fazer falas e defesas que fossem didáticas ao falar para o plenário. Não era necessário ficar só nas provocações com os outros grupos. A fala deveria ser formativa. Quem atuou comigo vai se lembrar disso.

Ao fazer uma defesa sobre a campanha unificada, ou sobre o porquê de ser melhor reivindicar ganho real ao invés de perdas desde Cabral, ou por quê salário fixo é melhor que remuneração variável, eu pedia que o dirigente desse o histórico do tema para centenas de participantes que iriam votar a seguir. A política deve educar o trabalhador e a trabalhadora.

Outra questão muito importante é a própria postura das mesas que coordenam congressos e assembleias, os ritos democráticos, se não existir eventos presenciais toda essa construção democrática desaparece. Ela sempre foi meio consuetudinária, ritos construídos entre nós trabalhadores e não registrados em papéis. E funcionavam!

Outro dia, fui a uma assembleia presencial do meu condomínio e ao ver a desorganização e a falta de tato para coisas básicas, precisei pedir o microfone e dar algumas orientações sobre apresentação de propostas, processos de defesas, questão de ordem, que não se fala ou debate durante período de votação etc. As pessoas perderam a noção de quase tudo.

Enfim, como vamos convencer a classe trabalhadora a ir para as ruas defender ideias abstratas como democracia, direitos trabalhistas e previdenciários, meio ambiente etc se não exercitarmos a participação presencial em uma assembleia ou congresso de trabalhadores para decidir a vida imediata deles como o emprego, o salário etc? É o mínimo para se preparar uma pessoa a participar de algo como ir para as ruas lutar contra um golpe militar ou golpe fascista chamá-la para ir a uma assembleia umas duas vezes ao ano!

FAZER OU NÃO FAZER ASSEMBLEIA PARA COMEÇAR UMA CAMPANHA SALARIAL?

Fecho esta Memória com uma evocação lá de 2005, quando eu estava em meu primeiro mandato eletivo como dirigente da classe trabalhadora.

Íamos começar os processos democráticos de organização das bases de trabalhadores bancários. As assembleias de base são os fóruns onde tudo começa. É assim há séculos... não é exagero. Essa prática democrática das assembleias vem de muito longe...

Na assembleia é onde as forças políticas se apresentam, onde se definem eixos de campanha e quem vai representar e liderar a categoria nos fóruns decisórios de uma campanha salarial. Já falei acima sobre os ritos democráticos numa assembleia presencial.

Em um certo momento interno em nosso sindicato, a direção procurou todas as forças políticas que atuavam na categoria em nossa base e em nome da unidade desenhou-se uma distribuição da delegação que participaria dos fóruns estaduais e no fórum nacional que definiria a pauta de reivindicações daquele ano.

Assim que eu entendi direito a proposta, questionei o método definido naquele fórum interno porque não haveria assembleia de base. Aleguei que definir as delegações assim, por distribuição de forças políticas sem a assembleia da categoria era uma opção que deseducaria a base e nós mesmos, dirigentes cutistas.

Aberta a polêmica, todas as pessoas da direção envolvidas naquela fase de decisões foram ouvidas e como não houve consenso progressivo porque eu não concordei, a reunião foi suspensa e remarcada para que cada participante fizesse suas consultas e se organizasse para a definição do método dias depois.

Bom, felizmente, fui feliz no meu questionamento democrático. Após idas e vindas, prevaleceu a decisão de se fazer assembleia de base para definir as questões centrais e as delegações para as etapas seguintes da campanha salarial daquele ano de 2005.

Foi algo muito parecido com aquele clássico filme "Doze homens e uma sentença". Nossa democracia interna baseada na paciência e na construção de política ouvindo a divergência, o consenso progressivo, evitou que iniciássemos em 2005 na maior base bancária do país, uma campanha sem assembleia inicial.

Tenho uma leitura do momento atual de que se isso acontecesse hoje, eu não seria ouvido, a opinião divergente sequer teria sido ouvida e a proposta inicial seria automática... campanha salarial sem assembleia de base...

Juro pra vocês que isso aconteceu em 2005. Foi um aprendizado para todos nós da direção do Sindicato. Fizemos uma ótima campanha salarial naquele ano.

William


Post Scriptum: para ler o texto de Memorias XXXVII anterior, é só clicar aqui. O capítulo seguinte pode ser lido aqui.


26.5.23

Previ sob ataque - Nota de repúdio da Contraf-CUT



Comentário e opinião:

Previ sob ataque: trabalhadores e associad@s devem se unir e repudiar interferências na governança


Começo meu comentário citando a filósofa Marilena Chaui ao dissertar sobre a diferença entre a justiça distributiva e a justiça participativa, que se refere ao exercício do poder e à igualdade:

"A justiça participativa se refere ao que só pode ser participado, ou seja, ao poder político, que pertence a todos os cidadãos igualmente. Uma política é injusta, neste caso, no sentido exatamente inverso ao da justiça distributiva, isto é, quando trata desigualmente os iguais, excluindo uma parte dos cidadãos do exercício do poder. A prática democrática pertence a essa justiça." (CHAUI, Leituras da crise. p. 19) 

Não é de hoje que as forças políticas de direita, conservadoras e ou reacionárias, que falsamente se dizem "liberais" (mentira!), notadamente representativas da casa-grande brasileira e dos donos do capital de forma geral, vêm desenvolvendo estratégias para excluir do poder o nosso lado da classe, a classe trabalhadora. Toda sorte de exigências inventadas através de certificados e currículos e outros que tais é para impedir lideranças dos trabalhadores de chegarem ao poder.

Ao longo de minha vida de representação sindical e política (desde 1999 e até 2018), vi surgirem várias dessas estratégias direitistas nos espaços de poder político da sociedade e no mundo do trabalho. Vou comentar algumas delas e finalizar me solidarizando com a vítima da vez, a Previ e o presidente João Fukunaga, indicado pelo Banco do Brasil dentro das regras atuais para a função, os que tais: certificados e currículos.

Vale registrar que em várias das situações que vou citar abaixo, muitas vezes tivemos uma divisão em nosso lado, pois parte da classe trabalhadora acaba sendo convencida pela ideologia de nossos inimigos de classe de que a técnica - às vezes chamada até de "meritocracia" - deve prevalecer sobre a política. É um equívoco isso!

Quer um exemplo: a tal "ficha limpa". Em 2010 fui contra e escrevi sobre isso, o apoio da esquerda para se instituir essa coisa que evidentemente seria usada contra o nosso lado da classe para nos tirar dos espaços de poder político.

Ouçam Marilena Chaui! Igualdade na democracia só é possível quando há justiça participativa, não se pode excluir ninguém do exercício do poder político. Meus colegas de classe precisam entender isso. Caso contrário, jamais teremos igualdade na representação nos espaços de poder social.

Já nos anos noventa, quando os governos dos fernandos (Collor e FHC) começaram a destruir as estatais e empresas públicas, privatizando boa parte delas e sucateando aquelas que não foram privatizadas, atacando fortemente os direitos dos trabalhadores, algumas teses "liberais" ou do patronato foram implantadas. 

Os salários foram substituídos por remuneração variável, antiguidade e experiência no serviço foram demonizadas e vários direitos foram perdidos ou via acordos coletivos rebaixados pela correlação de forças ruim ou através da "justiça", que nunca é favorável à classe trabalhadora, nunca mesmo, quando há vitórias do nosso lado ou são individuais ou se ganha uma a cada cem perdidas. Ou se ganha, mas não se leva...

No BB, após os processos de reestruturação dos fernandos, começaram a criar barreiras para impedir os funcionários mais antigos de concorrerem às funções com maior remuneração e chamadas cargos de confiança. Exigências de diplomas disso e daquilo, certificados e outras regras foram excluindo excelentes profissionais e lideranças, com experiências e resultados comprovados naquilo que faziam.

Depois foram forçando a exigência de diversos documentos e títulos e diplomas e certificados para que um(a) trabalhador(a) do Banco do Brasil pudesse inclusive concorrer para funções eletivas. É aquilo que Chaui chama de poder político, que não se pode restringir a participação de todas e todos. É para isso que existem os corpos técnicos e de carreira, para exercerem a governança nas empresas, tipo Cassi e Previ. 

Foi-se perdendo a razoabilidade nas exigências que a burocracia do poder impôs às empresas e espaços de poder público (sim, porque no privado o filho do dono da empresa pode ser o que quiser nela) e as compliances da vida foram estabelecendo regras cada vez mais impossíveis de se cumprirem para se exercer o poder político. Quem hoje pode ser candidato a uma vaga na governança da Cassi e da Previ ou associações de trabalhadores do tipo?

Não vou me alongar no texto, só quero trazer a reflexão sobre essa questão. O poder político não pode ser limitado por essas burocracias impostas pelos donos do poder real: burgueses e capitalistas e seus lacaios na máquina estatal dos três poderes. ISSO NÃO É JUSTO NEM DEMOCRÁTICO.

Ao fim e ao cabo, basta ver que as regras limitantes da participação do poder político só valem para o nosso lado da classe ou são desconsideradas quando os alvos são apaniguados e protegidos da casa-grande e do capital. 

Só nestes dias, tiraram o juiz Eduardo Appio da 13ª Vara de Curitiba, a da Lava Jato, de forma absolutamente irregular e inconstitucional segundo o jurista e professor Pedro Serrano, que disse hoje que será advogado de Appio no processo. Nunca impediram o ex-juiz Moro de fazer as irregularidades absurdas que fez e contrárias às leis. 

Tentaram impedir Jorge Viana de tomar posse na presidência da Apex através de invenções não razoáveis (inglês fluente), sendo a função uma indicação do poder político. Ao ser indicado pelo governo, ele cumpriu todas as regras estabelecidas, os que tais. Um juiz e um fulano acharam que não era suficiente.

E agora, mesmo com todas as regras cumpridas, atacam a nossa Caixa de Previdência e o presidente João Fukunaga, legitimamente indicado pelo Banco do Brasil e certificado pelo órgão responsável por isso. 

E o pior é que tem algumas pessoas que se dizem representantes nossas, do corpo de funcionários da ativa e aposentados, que apoiam essa aberração de interferência em nossa Previ. Essas pessoas NÃO nos representam!

Espero que essa interferência indevida do poder judiciário seja revista o mais rápido possível e que nossa Previ e seu corpo diretivo possam seguir trabalhando para cumprir o que nossos estatutos e regras definem para a governança da Caixa de Previdência.

William Mendes
Ex-diretor eleito da Cassi

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Contraf-CUT repudia ataques contra fundo de pensão do Banco do Brasil

26/05/23 - 11:02

Movimento sindical repudia decisão de juiz pelo afastamento do presidente da Previ: de viés político, sem base e que desrespeita processos de elegibilidade do BB e da própria Previ, aprovados por órgão regulador

Nota de repúdio aos ataques à Previ

A Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) repudia decisão do juiz substituto da 1ª Vara Cível do Distrito Federal, Marcelo Gentil Monteiro, que atendeu a pedido de um deputado para afastar o presidente da Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ), João Fukunaga, do cargo. Uma decisão que fere instâncias democraticamente instituídas como o Conselho Deliberativo do Banco do Brasil e a Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc), entidade pública responsável por gerenciar as operadoras de previdência privada no país, que habilitaram João Fukunaga para exercer o cargo.

Todos os ritos de governança foram respeitados, desde a indicação até a posse de João Fukunaga, que atendeu às exigências previstas nos processos de elegibilidade tanto do Banco do Brasil, patrocinador do fundo de pensão, quanto da própria Previ.

A decisão também é mais um ataque contra o movimento sindical, uma vez que Fukunaga, além de funcionário de carreira do Banco do Brasil e associado do plano Previ Futuro, tem histórico na luta pelos direitos dos trabalhadores bancários nas entidades representativas.

A determinação pelo afastamento do dirigente, portanto, é absolutamente política, sem base técnica alguma. Além disso, coloca em risco o equilíbrio das instituições, desrespeitando órgãos reguladores, necessários para manutenção do sistema de freios e contrapesos, sem os quais não há Estado Democrático de Direito.

Continuamos acreditando no Poder Judiciário e aguardamos pela revogação da liminar, dada a fragilidade jurídica da decisão que se configura como mais um ataque à Previ e ao futuro previdenciário de seus participantes.

Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT)

Fonte: Contraf-CUT

7.4.23

Memórias (XXXVII)



Sou um dos milhares de militantes do movimento social brasileiro de esquerda que torcem diariamente por nosso governo e pela classe trabalhadora

Osasco, 7 de abril de 2023. Sexta-feira Santa.


Estamos no mês de abril. Ano ímpar. No país onde vivo e na comunidade à qual pertenço - funcionários da ativa e aposentados do Banco do Brasil - não temos corridas eleitorais no país, nem na Caixa de Previdência (Previ) nem na Caixa de Assistência (Cassi). Temos eleições sindicais e associativas em algumas de nossas entidades bancárias. O Sindicato ao qual sou associado há 3 décadas terá eleições com chapa única, então todos nós votaremos na Chapa 1 para fortalecermos as companheiras e companheiros que nos representam na organização do movimento sindical.

A nossa Caixa de Assistência disponibilizou seu Relatório Anual nesta semana e os associados e associadas terão direito de se manifestar sobre ele nos próximos dias. Já tentaram retirar o nosso direito de manifestação na Cassi assim como nos foi retirado por intervenção externa na Previ, ainda no período do governo do PSDB, se não me falha a memória (intervenções em 2001 e 2002), mas na Cassi nós interviemos a tempo e nossa manifestação segue garantida. Eu tenho uma viagem marcada para as próximas semanas e isso tem me tirado um pouco do tempo livre para leituras e estudos. Estou um pouco focado na viagem que farei*.

Fico me perguntando se leio o Relatório Anual 2022 com olhar crítico ou se simplesmente voto "sim" seguindo as recomendações dos colegiados que já leram e aprovaram as contas e as decisões estratégicas que a direção de nossa Caixa de Assistência tem tomado nos últimos anos, e no ano de 2022, ano ao qual o relatório faz referência. São 165 páginas e para uma leitura adequada, do meu jeito, teria que ler outro relatório, de outro ano a escolher, para poder ter uma referência em relação ao que fizeram com a nossa Cassi. Não sei realmente se vale a pena esse esforço com o tempo que me resta antes da viagem ou se deixo pra lá. Tenho responsabilidade e não faria manifestações indicando rejeição do relatório porque isso é ato político menor. Ler o relatório seria mais para ter consciência e noção do que estou votando, apenas isso.

Até dezembro de 2022 eu tinha leitura clara a respeito do que estavam fazendo com a nossa Caixa de Assistência, era o governo Bolsonaro que regia a nossa autogestão e o patrocinador Banco do Brasil, era Bolsonaro que indicava a metade da gestão e a outra metade era eleita por nós associados. Então tenho uma boa noção do que vieram fazendo com a nossa Cassi até o final do mandato de Bolsonaro: terceirização absurda e desnecessária e mudança radical no modelo assistencial de ESF para outra coisa, que chamaram de APS. Até Lula, que não é nenhum esquerdista radical, ficou chocado com a terceirização no Palácio do Planalto, e disse que iria mandar rever aquilo. Será que a fala do presidente da república vale para o BB e para a Cassi?

Só que agora em 2023 a direção indicada não é mais responsabilidade daquele sujeito apreciador de armas, violência e joias. Agora a responsabilidade do que acontecer na Cassi e no Banco do Brasil e na Previ e nas nossas instituições públicas ou de economia mista ou com ligação com estas será do presidente Lula. E sou eleitor e apoiador do governo eleito por nós. Se o nosso governo fizer coisas ruins para o Brasil e para nós, todos nós teremos um pouco de responsabilidade, assim como nenhum álcool-gel desinfeta as mãos de quem votou em Bolsonaro e tudo o que ele significa e fez. O sangue derramado pela política de ódio de Bolsonaro segue sendo responsabilidade de quem votou e apoia ele.

INVISIBILIZAÇÃO...

Eu nunca soube por que fui cancelado e apagado da história que ajudei a construir no movimento sindical bancário e na comunidade do Banco do Brasil por parte de algumas lideranças do movimento sindical de onde tenho origem, nunca soube e isso é que é estranho. Nós tínhamos a prática de nos reunirmos em avaliações políticas sempre que chegavam os momentos de definições de novas chapas e composições políticas para qualquer de nossas entidades. Às vezes eram debates duros, mas eram francos, honestos, até fraternos, mesmo quando decidíamos em coletivo que alguém não faria mais parte dos colegiados que estávamos montando. Isso não aconteceu comigo. 

Até hoje eu não sei por que o meu Sindicato decidiu me excluir das discussões políticas que aconteceriam para o ano calendário de 2022, quando a nossa coordenação política na Contraf-CUT chamou reuniões nos fóruns sindicais para definir as políticas que adotaríamos para as eleições de Previ e Cassi para o ano de 2022. Simplesmente, não fui incluído nas discussões que aconteceriam naquela semana de dezembro de 2021. Até a véspera, eu fazia parte da coordenação da Articulação Sindical do grupamento do Banco do Brasil. Participava e contribuía com estudos, textos, pesquisas, palestras, auxiliava em negociações sobre a Cassi, assessorava etc. Simplesmente na semana do início das discussões fui cancelado, e ponto. Por quê?

CAMPANHA UNIFICADA - Meu histórico no movimento sugeriria um pouco mais de respeito. Me lembro de quando iniciamos as discussões sobre campanha unificada entre bancos públicos e privados no início do governo Lula. A companheirada dos públicos era contrária à proposta, era um debate justo. Com Lula eleito, achavam que tinham que recuperar sozinhos tudo que nos tiraram na década de noventa. As oposições bancárias à CUT e Articulação Sindical eram fortes oponentes à campanha unificada. Como jovem liderança do maior sindicato do país e da Articulação, viajei às bases com mais bancos públicos para fazer o debate fraterno e convencer as lideranças do acerto da campanha unificada. Tudo deu certo e o movimento ganhou muito com esse acerto. Assim como essa história, em muitas outras tive participação importante, eu e várias pessoas hoje esquecidas ou canceladas.

A vida seguiu para todo mundo, lógico. Eu segui militando nas ruas, nas campanhas contra Bolsonaro e a favor de Lula e da democracia, nos contatos que sempre tive com o país todo, mesmo diminuindo porque fui apagado depois de dezembro de 2021, quem é do movimento sabe como isso funciona. Depois encontrei um espaço na militância do Partido dos Trabalhadores da região onde moro, o pessoal da região faz um trabalho de base muito bonito, digno, do jeito que aprendi no movimento sindical. Nunca mais fui ouvido sobre os assuntos que mais entendo e acumulei em décadas, os assuntos sobre a história de lutas e conquistas do movimento sindical e a Cassi, por exemplo, que estudei mais que tudo na vida durante os 4 anos em que fui diretor de saúde e dei a minha vida e a minha saúde defendendo os direitos dos associados e o modelo de saúde. Nenhum direito foi perdido até o dia em que estive lá. Nenhum.

Tenho comigo que esse cancelamento e invisibilização é um pouco a característica do que nós viramos no movimento sindical e político no campo da esquerda brasileira. Isso nos enfraquece. Não adianta eu ficar elucubrando os porquês do que nosso Sindicato fez comigo, tenho leitura de diversas possibilidades para explicar os motivos de ser excluído das discussões políticas do grupo ao qual ajudei a construir em décadas, mas nunca me foi dito formalmente por que me excluíram. Isso não foi algo digno do que nós construímos nas últimas décadas. No entanto, a cada dia de vida entendo mais como as coisas funcionam, é algo até chato, mas a gente vai compreendendo o mundo onde vivemos.

Sigo na torcida pelo sucesso do nosso lado da classe, a classe trabalhadora, de nosso governo Lula, e de nossas lutas dos trabalhadores e trabalhadoras, lideradas por nossas entidades de classe.

Como diz o jornalista Ricardo Kotscho, vida que segue.

William


*Foi minha primeira viagem para Cuba, uma república socialista localizada no Mar do Caribe. Passei duas semanas por lá e a experiência foi muito interessante.


Post Scriptum: o texto de Memórias anterior pode ser lido clicando aqui. O capítulo seguinte pode ser lido aqui.

Post Scriptum II: ano passado, na ocasião do 99º aniversário do nosso Sindicato, fiz um texto de Memórias, caso tenham interesse é só clicar aqui. Nele, falo da questão de minhas andanças defendendo a campanha unificada e minhas relações com a base. (lógico que esse texto me faz chorar rsrs)


9.2.23

Memórias (XXXVI)


Eu, Miguel, Vagner, Carlão e Plínio,
parte da direção da Contraf-CUT 2006.

Fazíamos planejamento estratégico e tínhamos ao menos noção de onde queríamos chegar e quais as etapas que tínhamos que cumprir...

Osasco, 09 de fevereiro de 2023. Quinta-feira.


De vez em quando, acabo pegando essa folha de papel virtual em branco e registro algumas lembranças e sentimentos do período no qual ajudei a construir uma das maiores estruturas sindicais da classe trabalhadora brasileira: a Contraf-CUT, sucessora da CNB/CUT, sucessora do DNB/CUT, uma estratégia ousada dos bancários organizados dentro da Central Única dos Trabalhadores, criada em 1983, após a Conclat.

Ao separar mais um volume de papéis para expurgo, me deparei com o Relatório de Planejamento para o ano de 2007 da direção da Contraf-CUT. A confederação havia sido criada no início do ano de 2006 e o 1º congresso havia sido realizado em abril, se não me falha a memória. Tive o privilégio de ser indicado no congresso para compor a direção da entidade, atuaria na área de comunicação.

O planejamento foi realizado em Itapecerica da Serra (SP), entre os dias 13 e 15 de dezembro de 2006, e contou com a presença de 20 dirigentes e com assessorias, inclusive do Dieese, que coordenou os trabalhos do planejamento.


Veja abaixo o enunciado do projeto da Contraf-CUT que definimos para os doze meses do ano de 2007:

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"A Contraf-CUT irá organizar, representar, de fato e de direito e contratar para todos os trabalhadores e trabalhadoras do ramo financeiro articulada com as federações e principalmente sindicatos"

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A prática de planejar a organização da luta da classe trabalhadora me deu uma formação essencial para ser o dirigente que acabei sendo por 16 anos de mandatos eletivos. 

Os coletivos políticos e sindicais acabaram definindo minha caminhada política nesse período. Estive na Executiva do Sindicato, na representação da Comissão de Empresa dos Funcionários do BB (CEBB ou COE) e depois fui coordenador, estive na secretaria de imprensa e depois formação da confederação e estive da direção da Caixa de Assistência em saúde do BB, a Cassi. 

Desde que fui eleito para o 1º mandato de representação em 2002, no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região, fui me politizando e me tornando um dirigente que sabia o que era, o que deveria fazer e aonde queria chegar em cada momento sindical que vivi. A prática das reuniões políticas com a base, com a direção e os planejamentos me davam uma segurança em relação ao que fazer.

No sindicato, fazíamos planejamento da diretoria. No coletivo de banco (Coletivo BB) ao qual pertencia, fazíamos planejamento para o mandato, para o ano, para as regiões do sindicato, para cada dirigente e fazíamos reuniões periódicas para avaliar o trabalho de cada um, para alinhar estratégias e táticas e nos ajudarmos mutuamente. 

Repito: desde que virei dirigente sindical, eu sabia o que deveria fazer enquanto representante dos trabalhadores em um sindicato combativo e importante como a entidade na qual militei como bancário de base e como dirigente por muitos anos: três décadas na categoria.

CASSI

Depois de mais de uma década de planejamentos, objetivos, estratégias e táticas vivenciados no dia a dia da organização do movimento sindical bancário e da CUT, cheguei eleito a maior e mais antiga autogestão em saúde do país, a Caixa de Assistência dos Funcionários do BB.

A autogestão Cassi é uma das organizações da classe trabalhadora mais interessantes que eu já conheci. Ao começar os trabalhos na associação, fui obrigado a estudá-la profundamente em pouquíssimo tempo e o que nos deu condição de gerir a Diretoria de Saúde e Rede de Atendimento da Cassi ao longo do mandato de 4 anos foi o planejamento que fizemos logo nos primeiros 3 meses de gestão. Eu tinha metas e tarefas para cada ano do mandato e cumpri religiosamente cada etapa.

A Caixa de Assistência passava por uma de suas crises econômico-financeiras, algo que se repete desde a sua criação em 1944 por causa das características intrínsecas a ela e externas em relação ao mercado no qual atua. Felizmente, atravessamos os 4 anos de mandato sem que os associados perdessem direito algum em saúde e ainda fortalecemos o modelo assistencial da Cassi, a Estratégia de Saúde da Família (ESF).

Posso afirmar categoricamente neste registro de memória que se não fossem os estudos que realizamos, a equipe de profissionais que tínhamos, o apoio de entidades representativas e o trabalho permanente de esclarecimento às bases sociais ao longo do mandato, não teríamos conseguido manter os direitos dos associados e o modelo assistencial e, no plano de custeio, não teríamos conseguido manter a solidariedade, que só foi retirada após nossa saída da gestão.

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ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO NA ESQUERDA É ESSENCIAL

O planejamento estratégico por parte das organizações sociais é algo essencial para dar um norte, um senso de objetividade aos militantes da classe trabalhadora. Para perseguirmos nossas utopias com um mínimo de organização.

Sem objetivos, estratégias e táticas definidos, sem distribuição de tarefas, e sem formação e politização dos grupos, sem comunicação adequada, as pessoas podem até trabalhar (militar) até o limite de suas forças, mas talvez não consigam ver o resultado de seus trabalhos.

E se o planejamento for feito somente pelas cúpulas (os tais "capas"), sem ouvir e envolver o conjunto das direções sindicais, políticas e militâncias, a tendência é a não realização dos objetivos coletivos e não se chegar a lugar algum. Sem dar pertencimento a quem milita no movimento não se vai muito longe.

Eu desejo muito que as organizações sindicais e as partidárias de esquerda estejam preparadas ou se preparando para o duro embate que temos com nossos adversários, que agora são mais que isso, talvez inimigos. Vejam o exemplo da extrema-direita que nos quer mortos e eliminados da face da Terra.

Olhando para trás, analisando a história da categoria bancária que vivemos juntos, sou testemunha que a classe trabalhadora pode mudar a realidade social e avançar em conquistas coletivas em todas as dimensões sociais, mesmo quando os adversários - patronato - são os donos do capital, os banqueiros e capitalistas.

Deixo meu fraterno abraço e desejo de conquistas e realizações às militâncias e às direções das entidades de luta da classe trabalhadora.

William Mendes


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8.1.23

Memórias (XXXV)



Ao olhar para trás e ver minha vida de trabalho e dedicação aos mandatos eletivos que representei, avalio que valeu a referência em figuras como o presidente Lula, que tanto admiro


Osasco, 8 de janeiro de 2023. Domingo. (15h12)


As imagens históricas da posse do presidente Lula no dia 1º de janeiro me trouxeram lembranças de muita coisa em minha vida. Me lembrei de minha entrada na política como militante sindical bancário, me lembrei do período no qual tive mandatos eletivos e me lembrei do Brasil que havíamos construído nos dois primeiros decênios do século.

Aquele mar de gente em Brasília me trouxe a lembrança da posse de Lula no dia 1º de janeiro de 2003, duas décadas antes. Foi lindo demais aquele dia e foi inesquecível. Me lembrei da posse de Dilma Rousseff no dia 1º de janeiro de 2011. Que dia simbólico e inesquecível também: a primeira presidenta do país. O Brasil tinha se tornado o país com o povo mais feliz do mundo durante aqueles anos de governos do Partido dos Trabalhadores. As oportunidades eram para todos e todas.

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REPRESENTAÇÃO POLÍTICA - ANOS DE MUITO TRABALHO

O ano de 2002 foi o ano no qual minha vida mudou radicalmente, virei dirigente eleito da categoria bancária. Antes, eu já era próximo da direção do Sindicato porque era o contato da entidade nos locais de trabalho, tanto no Banco do Brasil, onde já trabalhava há dez anos, quanto no Unibanco, onde trabalhei por dois anos e conhecia as lideranças do Sindicato da Regional Osasco. 

Anos depois, o ano de 2018 viria a mudar radicalmente minha vida de novo. Deixei de ser dirigente da categoria em junho e minha saída foi da pior maneira possível, sem festas, sem despedidas e perseguido pela direção da empresa num processo de lawfare que durou até que eu me desligasse do banco no ano seguinte. Tive que manter um silêncio de morte, um cancelamento forçado.

Ao ver jornalistas e cientistas políticos avaliarem que o presidente Lula trabalhou nos primeiros dias de seu 3º mandato em 2023 mais do que o inominável miliciano havia trabalhado em meses de mandato na presidência do país, também me lembrei de alguns momentos de minha vida nos mandatos eletivos que exerci no movimento dos trabalhadores entre 2002 e 2018. Trabalhei pra caramba! Trabalhei como o presidente Lula sempre trabalhou! Não à toa, Lula sempre foi uma referência para mim.

Durante os mandatos eletivos de secretário de formação da Confederação (2009-15) e coordenação da Comissão de Empresa dos Funcionários do Banco do Brasil (2012-14) - duas funções complexas -, eu trabalhava cerca de 90 horas por semana, de duas a três jornadas de trabalho da categoria que eu representava. O que nos move nas funções políticas é o compromisso ético que assumimos com as pessoas que nos confiaram seus votos. É raro nos preocuparmos com a nossa saúde e com a vida pessoal e familiar. Somos máquinas atuando 24 horas por dia nas causas às quais nos engajamos.

Em 2014, quando achava que seria impossível trabalhar mais do que eu trabalhava como coordenador das negociações nacionais do Banco do Brasil e como secretário de formação da categoria fazendo cursos Brasil afora - com apoio da equipe do Dieese -, algumas lideranças do movimento sindical me convidaram para outro desafio de representação: ser diretor de uma autogestão em saúde disponibilizando meu nome para concorrer às eleições da Cassi, Caixa de Assistência dos Funcionários do BB.

É necessário registrar que nunca pleiteei cargo ou função alguma no movimento dos trabalhadores. Nunca! Como diria minha mãe, nunca fui oferecido, nunca fui de me convidar para isso ou aquilo. Não é meu perfil. E respeito quem é candidato(a) a tudo. Eu não sou assim. Por outro lado, sempre fui muito solícito e tive dificuldades para negar quando me escolhiam para ocupar posições de liderança e gestão, às vezes até sofria com a missão, mas cumpria com empenho a tarefa dada pelo movimento. Foi assim que me vi representante do movimento estudantil, membro do Conselho de Usuários da Cassi SP, síndico do meu condomínio... e na vida sindical fui diretor do Sindicato, da Comissão de Empresa, da Confederação... e da Cassi.

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CASSI

Ao ler registros do período que vivi na direção da autogestão em saúde, vejo que ainda foi possível trabalhar mais do que havia trabalhado na década anterior para o movimento sindical e para a categoria bancária. Uma loucura! 

Ao compreender o desafio que pesava sobre meus ombros naquele momento, vi que teria que desenvolver uma estratégia de gestão que conciliasse estudar como nunca estudei na vida, atuar na base mais do que já atuava para educar o público do sistema- uma base nacional -, e ser o mais criativo possível na solução de problemas diários de uma instituição fadada a não existir por ser antagônica ao modus operandi do setor de saúde no qual atua, o mercado capitalista que visa lucro com a doença das pessoas, ou seja, quanto pior as pessoas estiverem, melhor para os donos do capital da "indústria da saúde".

Muito trabalho. Assim foi feito por mim, por nós da equipe de trabalho. Tanto estudei centenas e centenas de súmulas, atas, documentos técnicos da área de saúde e gestão de saúde, comportamento do mercado etc que em pouco tempo discutia de igual para igual com qualquer pessoa daquela área de conhecimento e dei dezenas de palestras de gestão de saúde. Os funcionários da autogestão me diziam que eu não os envergonhava ao falar de gestão em saúde, ao falar da Caixa de Assistência e o que ela perseguia enquanto modelo e objetivos históricos.

Ao mesmo tempo em que estudei a autogestão, mantive a rotina que tinha quando era sindicalista, rotina de estar ao lado da base social que representava, os trabalhadores da ativa e aposentados do Banco do Brasil e suas entidades representativas. Por 4 anos estive nas bases sociais informando e formando a opinião dos associados e participantes sobre a Cassi. Foi assim que tiramos da pauta a proposta patronal e liberal de quebra da solidariedade no modelo de custeio.

Quando o patrão e patrocinador percebeu que a base social estava mais coesa na defesa dos modelos assistencial e de custeio de nossa entidade e menos exposta às manipulações ideológicas e liberais, passei a sofrer boicotes internos que me impediam de avançar o modelo de saúde e o contato com a base. Segui fazendo o que tinha que ser feito, usando meus próprios recursos ou das entidades sindicais que nos ajudavam.

De maneira muito combativa, transparente e dedicada aos princípios aos quais nos baseamos chegamos ao final do mandato de diretor de saúde em 2018 mantendo todos os direitos dos associados da Cassi e com o modelo de Estratégia de Saúde da Família (ESF) e estruturas próprias de atendimento (CliniCassi) consolidados e reconhecidos como eficazes por toda a comunidade do sistema Cassi: associados, participantes, entidades representativas e patrocinador.

Como incomodei demais os adversários e o mundo jurídico e político já vinham atuando com novas ferramentas de guerra ideológica contra pessoas físicas e jurídicas - lawfare -, processos baseados em mentiras (fake news), terminei o mandato sofrendo um assédio moral violentíssimo e que depois seria arquivado por falta de provas. O objetivo desses processos é destruir as pessoas e impedir que elas possam seguir na vida política, nem que seja por um período determinado.

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3º GOVERNO LULA

A eleição do presidente Lula foi um acontecimento que ficará registrado para sempre na história do Brasil e do mundo. Vencer a máquina corrupta e fascista do bolsonarismo nas eleições foi algo épico, inacreditável! A máfia que estava instalada na estrutura do Estado brasileiro não contava com a derrota por causa da quantidade incalculável de fraudes incluídas no processo eleitoral por parte deles, bolsonaristas.

Vencemos! Para surpresa dos adversários, vencemos! Os 50,9% do resultado final das eleições equivale a algo como 60 a 70% de votos válidos numa eleição limpa, num processo normal de um país com democracia plena em vigor. Os 49,1% deles é algo inflado em mais de 15%. Vencemos tudo isso que montaram para se manterem no poder político!

Governar os 4 anos do mandato será uma nova etapa da guerra. E será muito difícil para todo mundo, para o nosso lado da frente ampla e para o lado que apoia o regime que havia tomado o Estado nacional por fraudes seguidas a começar pela operação mequetrefe lesa-pátria Lava Jato, pelo golpe de Estado em 2016, pela trágica prisão de Lula e que culminou com a eleição daquele ser inominável em 2018 e a pior bancada do Congresso em sua história. 

Digo que o período será difícil também pra eles - apoiadores do bolsonarismo - porque há uma massa de gente comum capturada, manipulada e doente, precisando de ajuda médica para se libertar da máquina fascista de manipulação.

Para nós do campo da esquerda, progressista e que defende a democracia com tudo que ela significa como, por exemplo, o respeito aos diferentes, será um período muito difícil! Muito! Pessoas que conhecem a política como eu conheço, sendo alguém que conviveu por mais de duas décadas ao lado daqueles e daquelas que chegaram ao poder, imagino o quanto será complexo tentar exercer o direito básico à opinião própria e a divergência das ideias no campo da esquerda... será difícil, ou talvez impossível!

Pessoas como eu e algumas outras figuras do movimento sindical e partidário dificilmente teriam espaço na composição de governo no atual cenário e conjuntura nacional que citei acima. Mesmo tendo uma história, tendo conhecimento em áreas do movimento como poucos militantes. 

Imagino que o governo será composto por duas metades: a da frente ampla, onde Lula não veta nem pessoas com históricos complicados, e a do lado do governo, com algumas pessoas que definem quem vai servir o governo em cargos com a promessa de obediência absoluta ao que mandarem, absoluta.

Enfim, de minha parte, desejo muito que o governo dê certo, que sobreviva aos 4 anos, que entregue algumas das promessas centrais de campanha, e que evite erros básicos dos mandatos anteriores, os dois de Lula e o único de Dilma (porque ela não pode governar após a reeleição).

Militantes que têm um pouco de opinião própria e que não se adaptam ao fazer política obedecendo pessoas cegamente estarão aqui nas bases torcendo pelo governo, criticando e cobrando também (como disse Lula) e, consequentemente, sofrendo pelo governo e talvez até dando a vida pelo governo na hora da guerra que pode acontecer a qualquer momento. 

William Mendes


Post Scriptum (às 20h16):

Comentário em face da destruição dos prédios dos três poderes da república na tarde de hoje. 

O Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o STF foram invadidos e destruídos hoje pelos terroristas bolsonaristas, conduzidos até lá pelas forças policiais e de segurança de Brasília. Mais uma vez, atos golpistas e terroristas previstos aconteceram e nada foi feito. Tudo anunciado e programado pelas redes sociais. Qualquer investigador em início de carreira saberia que a merda iria acontecer e como seria, quem financia, quem vai participar etc.

Dias atrás, conversando com um contato que tem informações sobre a transição e a distribuição de cargos e nomeações do novo governo, fiquei indignado ao saber que algumas lideranças históricas nossas, com competência comprovada na gestão de instituições estatais e coligadas, foram vetadas por parte das pessoas que estão com o poder da caneta no governo. Eu já imaginava que isso fosse acontecer. Isso é mais antigo que andar pra frente.

A destruição de hoje e a forma como a coisa se deu deixa claro para quem entende de política: o NOSSO governo é conciliador, é da natureza dos governos Lula ser assim, e por causa disso temos um "ministro da defesa" conivente com as milícias nas portas dos quartéis (sem veto), por causa disso temos uma "ministra" envolvida com as milícias cariocas (sem veto), por causa disso que só tem trânsito na transição quem fala amém a tudo dentro de nosso campo da esquerda.

Sigo na torcida por nosso governo, mas uma coisa a história já nos ensinou: não se concilia com o nazifascismo, com o terrorismo, com o autoritarismo. Enquanto o nosso lado só nomeia gente que fala amém pra tudo, o outro lado arregaça tudo na base da violência. Não dá para dar as costas aos fascistas, eles matam na "crocodilagem", por trás. Fascistas são covardes, mas são maus.

Que saco! Estou tão indignado quanto qualquer pessoa decente está ao ver tudo o que aconteceu hoje à tarde no Brasil.


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