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19.5.21

Memórias de mandatos eletivos - Cassi (I)


Reunião com a direção do Sindicato em Rondônia (21/8/14).
Escolhi essa foto em homenagem ao companheiro Pinheiro,
que nos deixou em 2021, vítima de Covid-19.


Um mandato de representação na área da saúde com foco no trabalho de base e na politização dos trabalhadores e suas lideranças da ativa e aposentados


Entre junho de 2014 e maio de 2018 tive a honra de ser um dos representantes eleitos da comunidade de trabalhadores da ativa e aposentados do banco público BB a participar da gestão da Caixa de Assistência dos Funcionários, a Cassi, autogestão em saúde.

Ao olhar para trás, revisitando meus registros da história de um período de muitas lutas coletivas das quais participei ativamente, percebo que fizemos um mandato que buscou realizar na prática aquilo que sempre defendemos enquanto lideranças da classe trabalhadora. 

Ao rever a agenda de compromissos que realizamos ao longo dos 4 anos de representação da base social do Banco do Brasil sentimos uma sensação boa de ter feito o melhor que pudemos para defender os direitos dos associados da Caixa de Assistência e defender a própria autogestão e seu modelo assistencial, uma pedra preciosa da comunidade BB.

Hoje, estava revendo fotos das agendas que empreendi nas primeiras semanas de mandato, visitando as bases dos associados da Cassi e as entidades representativas do funcionalismo. Sabíamos que tínhamos uma tarefa trabalhosa, mas essencial: apresentar a Cassi aos diversos públicos com os quais a associação se relacionava, porque a base social não sabia o que era a Caixa de Assistência (e ainda não sabe por uma opção política de certos grupos). 

Fomos a campo politizar os trabalhadores e seus representantes. Sem informar e formar os associados e lideranças - "(in)formação em saúde" como dizia o mural do blog A Categoria Bancária - não iríamos a lugar algum no mandato e todos perderiam com isso - os associados, a Cassi e até o patrocinador - porque o mercado privado de serviços de saúde explora os planos de autogestão até com a ajuda de seus participantes assistidos, e isso ocorre pelo fato de os associados estarem mal orientados sobre o modelo assistencial da Cassi.

Estamos em 2021. O Brasil vive um estado de anomia após o golpe de Estado que destruiu o país. Vivemos sob o poder de bandidos, máfias, manipuladores de toda ordem; gente da pior espécie ocupou os espaços de poder e tudo está se desfazendo. A política foi substituída pela violência, pela mentira como prática cotidiana, pela carteirada daqueles que têm dinheiro e poder e o povo está sem um horizonte que indique um futuro melhor e mais feliz para a vida cidadã.

É nesse cenário de 2021 que estou olhando a vivência que experimentei como dirigente com a política funcionando na vida nacional, com os trabalhadores avançando em direitos sociais e com perspectivas de futuro por causa das oportunidades que todos tinham com os governos do Partido dos Trabalhadores. O Brasil era um país ativo e altivo em sua relação com o mundo e um país que olhava para a classe trabalhadora e se importava com o povo mais necessitado do apoio do Estado.

É isso. As memórias sempre valem alguma coisa. As memórias nos mostram que se as pessoas já fizeram o que relembram é porque é possível as pessoas fazerem aquelas ações de novo.

Abaixo, registro algumas agendas realizadas por mim nos primeiros 3 meses de mandato - compromissos presenciais junto às bases sociais da Cassi -, eu era diretor de saúde e rede de atendimento, rede própria: era responsável pela gestão do modelo assistencial de Atenção Integral, Estratégia de Saúde da família, pelas unidades regionais e as unidades de atendimento em saúde, as CliniCassi, e responsável pela relação com os conselhos de usuários.

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ANO DE 2014

DISTRITO FEDERAL

No dia 11 de junho, a diretora Mirian Fochi e eu estivemos na reunião do Conselho de Usuários da Cassi DF. Começava ali a minha participação permanente nos fóruns dos conselhos de usuários da nossa autogestão, um espaço democrático de voluntariado, de fiscalização, de solução de problemas e auxílio aos participantes e de fortalecimento da Caixa de Assistência e seu modelo assistencial de Estratégia de Saúde da Família (ESF) e unidades de atendimento à saúde CliniCassi. 

Naquele momento, eu começava a conhecer como diretor de saúde as unidades regionais e as CliniCassi, as estruturas próprias da Cassi. Nos primeiros dias de mandato, já visitava e conhecia as CliniCassi no DF, a CliniCassi Brasília Norte e a CliniCassi Brasília Sul. Também já conhecia a CliniCassi São Paulo Centro (SP) porque participei da reunião do Conselho de Usuários em maio, após a eleição e antes da posse.

PARANÁ

No dia 30 de junho, uma segunda-feira, estive na unidade da Cassi PR para a inauguração de uma Sala de Amamentação na CABB de São José dos Pinhais. Na oportunidade, conheci a CliniCassi Curitiba e também conversei com lideranças do Sindicato dos Bancários, visitando a casa dos trabalhadores.

SÃO PAULO

Entre os dias 25 e 27 de julho, participei da 16ª Conferência Nacional dos Bancários, em Atibaia. Minha participação teve foco nas questões de saúde e nas questões inerentes à Cassi, muitas delas tratadas em mesas de negociação entre entidades sindicais e o patrocinador Banco do Brasil.

PORTO ALEGRE

No dia 30 de julho, uma quarta-feira, lá estava eu em Porto Alegre para participar de uma reunião do Conselho de Usuários da Cassi RS. Na oportunidade, conheci a CliniCassi Porto Alegre Centro Norte.

Também cumpri um compromisso com as lideranças dos trabalhadores, visitando o SindBancários de Porto Alegre e região.

PARANÁ

Em agosto, voltei à Curitiba para dois dias de agenda de fortalecimento da Cassi e de parcerias pelo modelo assistencial. Nos dias 6 e 7 de agosto, uma quarta e quinta-feira, me reuni com a Super BB, com entidades do funcionalismo, com o Conselho de Usuários. Ainda inauguramos a sede nova da Unidade Cassi PR e fizemos reunião com os funcionários da Cassi.

PIAUÍ

No dia 8 de agosto, estive em Teresina para participar da VII Conferência de Saúde da Cassi PI. Me reuni com as lideranças locais, com os membros do Conselho de Usuários e visitei a sede do Sindicato dos Bancários. O diretor de saúde conhecia mais uma CliniCassi, a de Teresina.

RONDÔNIA

No dia 21 de agosto, uma quinta-feira, estive em Porto Velho, para participar da I Conferência de Saúde da Cassi RO, fortalecer o Conselho de Usuários de Rondônia e visitar a sede do Sindicato dos Bancários. Na oportunidade, encontrei na cidade o representante eleito dos trabalhadores no Conselho de Administração do BB, Rafael Matos, que também cumpria agenda na região.

Mais uma unidade própria de atendimento à saúde conhecida, a CliniCassi Porto Velho.

RIO DE JANEIRO

Nos dias 27 e 28 de agosto, quarta e quinta, cumpri compromissos assumidos com as lideranças da comunidade BB do RJ e lá estive por conta própria para fortalecer a Cassi e as parcerias em defesa dos direitos dos associados e do modelo assistencial APS, ESF e CliniCassi (eu estava em férias).

Nos reunimos com a direção da AAFBB, com o Conselho de Usuários da Cassi RJ, estivemos com as lideranças do Sindicato dos Bancários e conhecemos a CliniCassi Centro.

SEDE DA CASSI - BRASÍLIA (DF)

No dia 2 de setembro, a diretora Mirian Fochi e eu recebemos as lideranças da APABB, presidida pela companheira Sandra Miranda. A Cassi sempre teve uma boa parceria com a Associação de Pais, Amigos e Pessoas com Deficiência, de Funcionários do Banco do Brasil e Comunidade.

MATO GROSSO

No dia 6 de setembro de 2014, um sábado, estivemos em Cuiabá, para participar de uma reunião com os delegados e delegadas sindicais do Sindicato dos Bancários. Cumpri essa agenda em férias ainda. Não foi uma agenda da Cassi.

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É isso, por enquanto. Registro de memórias feito. Nos primeiros 3 meses de mandato na Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil eu já conhecia e havia visitado a estrutura de 7 unidades regionais e 8 CliniCassi das 65 que existiam na autogestão.

Já havíamos falado sobre a Cassi para diversas entidades sindicais, associações de aposentados e conselhos de usuários. Era impressionante como as lideranças e entidades representativas tinham conceitos equivocados sobre a Caixa de Assistência, seu funcionamento, direitos e deveres dos associados etc.

Como disse no início, politizar a base social era um de nossos papéis como dirigente eleito e isso nós cumprimos piamente durante os 4 anos de mandato. Foram 170 agendas presenciais.

Abraços aos leitores que por acaso leram essa memória aqui no blog.

William Mendes


16.4.21

Cassi 2021 - Impressões e opiniões (III)

Opinião

Olá, colegas da comunidade Banco do Brasil! Olá, dirigentes sindicais e demais representantes da comunidade BB!

Ao pensar em algumas questões relativas à Cassi para conversar com um grupo de bancários e bancárias do BB de Belo Horizonte e região, acabei inferindo sobre o futuro do nosso Plano de Associados, a razão de ser da autogestão Cassi, associação criada em 1944 por um grupo de colegas do banco, nossa Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil. 

Ao projetar a Cassi no amanhã, vi um filme com final triste... fiquei descabriado, como dizemos lá em Minas Gerais. Desacorçoei, deu até dor na região abdominal...

A companheira Luciana, diretora do Sindicato e liderança dos bancários, me pediu para abordar 3 questões:

1. Problemas atuais da Caixa de Assistência (Cassi)

2. Perenidade do plano (aí que pensei sobre o Plano de Associados)

3. Importância de eleitos com apoio do movimento sindical

Ontem à noite, estava lendo dois livros que me deixaram bastante pensativo, e ao colocar o cérebro pra pensar, o verdadeiro criador de tudo, como diz o neurocientista Miguel Nicolelis, rapidamente me peguei a pensar nossas cores, nossas coisas, nossos jeitos, nossos dramas... Pau-Brasil, como diria o escritor modernista Oswald de Andrade. 

A Cassi é uma coisa tão nossa... não tem nada igual! A Cassi não é um plano de mercado, não é da Europa, não é dos Estados Unidos, não é da burocracia do banco; tem saúde da família, mas não é o SUS; deve acolher da mesma forma o escriturário, o gerente e o diretor, tanto nas CliniCassi quanto na rede credenciada. A Cassi tem sua própria poesia (Pau-Brasil!). 

Antes de iniciar minha opinião e inferência sobre os 3 temas que vamos abordar, lembro aqui que não tenho nenhum problema pessoal com membros da direção da nossa Cassi, pois são todos colegas nossos associados. Tenho ponto de vista diferente a respeito de alguns atos de gestão, e isso é normal na política.

RELATÓRIO ANUAL 2020 - Quanto ao Relatório Anual que vai à votação na próxima segunda 19, já disse nas postagens que entendo que as informações foram verificadas por órgãos e conselhos responsáveis e por auditoria independente. Cabe agora uma boa participação dos associados e que se manifestem a respeito, pois isso é um exercício de democracia.

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Para falar sobre a Cassi é importante ter claro que as pessoas participantes do sistema não têm uma noção clara do que é a Cassi porque os responsáveis pela Caixa de Assistência e o patrocinador Banco do Brasil não atuam para que os associados saibam o que é a Cassi, principalmente no que diz respeito ao Plano de Associados e em relação ao modelo assistencial - Atenção Integral, com Atenção Primária (APS), através das CliniCassi e da Estratégia de Saúde da Família (ESF).

O que é a Cassi? Seria um plano de saúde? Seria o mesmo que as Unimed? Ou seria o mesmo que a Amil? Seria uma empresa concorrente do plano de saúde do Bradesco? A Cassi seria uma "empresa" e agora vai diversificar seus "produtos" para beneficiar seus "clientes"? (não, a Cassi não é nada disso, por enquanto!)

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1. QUAIS SÃO OS PROBLEMAS ATUAIS DA CASSI no meu ponto de vista, o ponto de vista do trabalhador, de uma pessoa que representou os trabalhadores por quase duas décadas de vida?

Do ponto de vista econômico-financeiro a Cassi está em equilíbrio neste momento, é o que diz o Relatório Anual 2020, assinado pela direção e aprovado pelos órgãos da gestão e com parecer favorável da auditoria independente. Por direito, os associados vão se manifestar agora sobre o relatório.

Mas quais os problemas atuais da Cassi, para dialogar com os associados e seus representantes? 

COPARTICIPAÇÃO - Alguns problemas já são apontados pelos sindicatos: os bancários estão pagando uma coparticipação muito alta e isso é injusto e indevido, porque a coparticipação está sendo usada como receita do Plano de Associados, o plano dos funcionários da ativa e aposentados. Os sindicatos exigem, e com razão, que a direção reduza os percentuais de coparticipação aos patamares de 2018 porque as justificativas que a direção deu para aumentar sem consultar os usuários do plano NÃO SE JUSTIFICAM MAIS! Além do fato óbvio de a Cassi estar superavitária e ter plenas condições de reduzir a coparticipação de seus associados, donos do Plano de Associados.

DOENTES CRÔNICOS SEM MEDICAMENTOS - Outro problema já em discussão pelos sindicatos é que a direção reveja seu ato de gestão de desmontar um dos principais programas de saúde da Cassi, o Programa de Assistência Farmacêutica (PAF), que foi drasticamente reduzido em tudo, tanto na lista de materiais e medicamentos abonáveis (LIMACA), quanto no acesso ao direito ao PAF porque a direção desmontou a distribuição por operador logístico, que garantia equidade no acesso para doentes crônicos tanto das grandes cidades quanto das cidades e regiões com escassez de fornecedores. Mais de 13 mil crônicos perderam o acesso aos benefícios do PAF. Com o caos atual no país os preços dos remédios de uso contínuo dispararam e com a pandemia muitos crônicos do grupo de risco podem estar sem acesso aos medicamentos. Ler aqui artigo a respeito do PAF.

(D)EFICIÊNCIA OPERACIONAL - A Cassi apresenta um índice de eficiência operacional inaceitável. Falei sobre isso durante 4 anos na gestão da associação. De lá para cá, as coisas pioraram! O que significa o índice de 5,5%, enquanto as demais autogestões têm índice de 8% e as demais operadoras de saúde têm índice de 9%? Significa que a Cassi está se desfazendo de sua capacidade própria de gestão do sistema de saúde Cassi. A autogestão está se desfazendo por dentro e isso é o inverso do que o setor inteiro está fazendo. É um equívoco sério de gestão, na minha opinião. 

A autogestão deveria investir em sua estrutura própria de saúde porque é barato e o custo-benefício é de grande retorno porque mais de 90% das receitas da Cassi vão embora para o mercado privado e com características de oligopólio dos conglomerados de hospitais e prestadores de serviços de saúde. A inflação do setor é na casa de 10% a 20% ao ano. Quanto menos estrutura própria, menos capacidade a direção terá para controlar custos básicos na operação de saúde. Isso é uma coisa óbvia!

A Cassi deveria ampliar sua estrutura de Atenção Primária (via ESF), investir um pouco em atenção em 2º grau para seus participantes cadastrados na ESF, com especialidades nas CliniCassi para monitoramento cada vez melhor de seus participantes. Só assim, seria possível usar melhor os recursos ao necessitar comprar serviços caros na rede prestadora. A Cassi poderia investir em pequenas estruturas em regiões específicas como faz a autogestão Cassems no Estado do Mato Grosso do Sul, que tem 10 hospitais próprios. O mercado da saúde atua assim. Controle de custo das operações de saúde em toda a rede de atenção. É outra questão meio óbvia! Olhem o setor de saúde, o mercado!

A cada dia, a Cassi se torna menos capaz de cuidar de seus mais de 650 mil assistidos porque terceiriza para os empresários da saúde sua estrutura, seu conhecimento, sua capacidade de fazer promoção de saúde, prevenção de doenças, monitoramento de doentes crônicos e perde sua característica de autogestão com Atenção Integral à Saúde (cuja Atenção Primária só funciona bem por ser realizada através da Estratégia de Saúde da Família, centralizada a partir das CliniCassi e suas equipes de família). Foram duas décadas de experiências para o modelo exitoso da Cassi estar em funcionamento. (Não confundam questões de financiamento e custeio - quanto cada parte paga - com a operação do modelo assistencial da Cassi, que é testado e aprovado e está sendo desfeito por terceirização)

A direção quer implantar porta de entrada em seu sistema e ao mesmo tempo quer fazer isso com "parceiros" e terceirizando tudo. É um contrassenso isso. Os conglomerados de hospitais e planos de saúde que vendem planos de saúde com porta de entrada fazem isso por terem controle de custo de toda a rede para instituir porta de entrada. A Cassi quer fazer o inverso, quer apostar em "parceiros" privados como se eles fossem fiéis eternamente, coisa duvidável porque empresa visa lucro e assim que a Cassi não pagar o que eles querem, eles simplesmente deixam de ser "parceiros". Mas a Cassi ficará com as obrigações registradas na ANS da mesma forma. Sem estrutura própria mínima, isso não vai acabar bem. (o tal piloto de terceirização "Bem Cassi" não é a solução para a perenidade da Cassi!)

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2. PERENIDADE DO PLANO (Plano de Associados e os diversos planos de mercado que a Cassi quer lançar)

Ano ............................ Plano Associados

2004 .......................... 400.506

2009 .......................... 403.281

2014 .......................... 418.335

2017 .......................... 409.405 (-5.704)

2018 .......................... 403.701 (-6.951)

2019 .......................... 396.750 (-8.077)

2020 .......................... 388.673


O Plano de Associados não teve uma perda tão grande de participantes em duas décadas de existência após a reforma estatutária de 1996. A gestão dos tucanos foi traumática e quase destruiu o banco com o PDV/PAQ e as reestruturações, mas depois estabilizamos em 400 mil assistidos por décadas.

Após o golpe de 2016, e após as mudanças que vêm sendo promovidas pela direção atual do banco e da Cassi, o Plano de Associados perdeu 20.732 participantes em 3 anos, uma redução drástica de 5,33%.

Ao ver as apresentações da direção da Cassi em relação ao Relatório Anual 2020 - dados contábeis e atos de gestão -, algumas falas me chamaram a atenção: 

- TELEMEDICINA: a telemedicina virou uma espécie de panaceia (pretenso remédio universal para todos os males, um "emplasto Brás Cubas"), virou a solução de todos os problemas dos planos de saúde. Acho positivo a telemedicina ser incluída como mais uma opção de atendimento aos participantes (na Cassi o conceito é "acolhimento"), mas me parece que há um exagero na questão. Ficou claro que a telemedicina contribui muito na redução de custo das operações, mas isso não significa necessariamente solução em saúde na ponta, para os assistidos pelo plano, principalmente depois do primeiro atendimento (que não é Atenção Primária).

Me parece que a Cassi está mesclando dois conceitos e ou ferramentas de gestão de sistemas de saúde: Atenção Primária e Telemedicina. Repito: minha impressão até agora é que há uma confusão entre "Atenção Primária" e "primeiro atendimento". Bom, esse não é o tema dessa postagem, mas acho que é preciso se falar mais sobre isso. 

- TERCEIRIZAÇÃO DA ESSÊNCIA DA CAIXA DE ASSISTÊNCIA: o piloto em Curitiba, o "Bem Cassi" é isso. Faço um apelo aos sindicatos e associações e conselhos de usuários que reforcem suas atenções a esse piloto de terceirização das CliniCassi e da ESF/equipes de família. O risco de se desfazer a estrutura do nosso modelo assistencial é enorme. O Plano de Associados e os associados serão os prejudicados na hora que isso não seguir adiante.

- DIVERSOS PLANOS DE MERCADO: lançamento de diversos planos de mercado para um suposto público-alvo (familiares até 4º); seriam milhões de novos "clientes" a se prospectar. Segundo a direção, isso iria contribuir para que a operadora Cassi melhorasse suas margens contábeis no balanço consolidado dos planos, tanto o dos associados como os de mercado. 

Falaram em um plano "Cassi essencial" que custaria uns 30% menos que o Cassi Família disponível hoje. E têm pressa em lançar outros "produtos", um plano para "alta renda" ou executivos, outros regionais etc. Para os planos custarem menos, teriam menos direitos e coberturas que o plano disponível hoje. E os clientes vão pagar coparticipação, que não existe no Cassi Família.

A direção da Cassi comentou nas apresentações que tem associados que disseram ter interesse em sair do Plano de Associados e comprar algum desses planos de mercado porque seria mais vantajoso para eles. É muito importante que se alerte esses bancários e ou aposentados que não façam isso, por diversas razões. Uma delas é que ao sair do plano não é possível retornar, o plano é de custeio solidário e mutualista e inclusive o patrocinador BB é obrigado a pagar 4,5% por associado da ativa e aposentados. Outra razão básica, não cobra por idade.

Francamente, são tantas coisas envolvidas neste ato de gestão de lançar diversos planos Cassi, são tantos riscos que o texto ficaria enorme para citar alguns dos riscos mais sérios. Pelo conhecimento que acumulei na gestão da Cassi, fica claro para mim que essa opção da direção pode comprometer de forma irreparável a perenidade do Plano de Associados - a razão de ser da Caixa de Assistência desde sua criação em 1944 -, criada pelos trabalhadores do banco público.


Algumas preocupações e inferências sobre o ato de gestão sobre os diversos planos de mercado, com direitos e mensalidades diferenciados:

- O Plano de Associados vai sofrer perdas maiores ainda e isso comprometerá a capacidade de sustentabilidade do plano. Pode ser que saiam os maiores salários e benefícios e os mais jovens por motivos episódicos, momentâneos. A Cassi e os participantes só têm a perder com a redução do Plano. O único que ganha com isso é o patrocinador banco, porque cada vez que sai um associado, reduz o valor que o banco é obrigado a investir por força estatutária.

- Mesmo com a ideia de que os diversos planos terão bom público e carteira, um grande problema desses planos é a longevidade deles, as pessoas acabam saindo e eles ficam com sinistralidade reversa, só ficam os que mais precisam e mais usam. Se às vezes já temos problemas de equilíbrio no Cassi Família I (grupo fechado, sem entrada de novos clientes), imaginem termos diversos planos assim daqui alguns anos.

- Os planos de saúde são regidos por uma legislação draconiana e que é feita com muito lobby das empresas privadas de saúde e conglomerados e multinacionais. A ANS é a agência reguladora e se baseia na legislação e já penalizou a Cassi de forma equivocada, na minha opinião, quando proibiu a entrada de novos funcionários ao Plano de Associados por índices de reclamação como se o Plano fosse um desses de mercado. Imaginem a hora que a Cassi tiver vários planos com clientela revoltada judicializando tudo contra a Cassi!

- Tenho diversas outras preocupações sobre esses planos. Só mais uma: Como pode a Cassi lançar diversos planos para disputar mercados locais com operadoras que têm toda a rede local própria e controle fortíssimo de custo assistencial? A Cassi não terá a mínima condição de vencer essa disputa no mercado terceirizando tudo.

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3. IMPORTÂNCIA DE ELEITOS COM O APOIO DO MOVIMENTO SINDICAL

Enfim, acho fundamental a relação entre eleitos em nossas associações e instituições da comunidade BB e os sindicatos de trabalhadores, essa questão é uma opinião de quem atuou junto aos trabalhadores e representou a categoria bancária e os colegas do Banco do Brasil por muitos anos.

O sindicato é a casa do trabalhador e da trabalhadora, fortaleçam nossas associações de organização e luta por direitos coletivos.

EFEMÉRIDES

Hoje é um dia importante para a classe trabalhadora, em especial para os bancários de São Paulo, Osasco e região e para os trabalhadores do Banco do Brasil. 

O Sindicato comemora 98 anos e é uma história fantástica de lutas e conquistas. Tive a honra de participar das direções da entidade por 12 anos, eleito pelos bancários. Vida longa ao nosso Sindicato.

A nossa Caixa de Previdência, a Previ, completa hoje 117 anos. É um dos maiores fundos de pensão do mundo e nosso patrimônio tem uma das gestões mais modernas do país. A Previ é gerida por nós mesmos, os associados.

Parabéns, parabéns!

Abraços,

William

14.4.21

Cassi 2021 - Impressões e opiniões (II)

Opinião

Olá, colegas bancários e colegas de entidades representativas da comunidade Banco do Brasil!

Como disse no texto anterior (ler aqui), o primeiro dessa série que vou fazer sobre algumas impressões e opiniões a respeito da nossa Caixa de Assistência (Cassi), vejo com preocupação algumas estratégias adotadas pela autogestão para atingir alguns objetivos desejados por todos os intervenientes ("stakeholders") da associação de trabalhadores para prestar Atenção Integral à Saúde a seus participantes.

A Cassi é para todos da comunidade BB ou só para uma parcela dos trabalhadores da ativa e aposentados? A Cassi é solidária ou só para aqueles que momentaneamente podem arcar com os altos custos da saúde? A questão central é: a Cassi é direito de todos ou privilégio?

Vou apresentar minha impressão e minha opinião a respeito de algumas das estratégias da Cassi que pedem atenção de seus associados e lideranças das entidades representativas, principalmente daquelas pessoas que conhecem minimamente temas como direitos trabalhistas, direitos sociais, gestão de saúde, direitos em saúde, sistemas de saúde, temáticas importantes para termos opinião sob a ótica dos trabalhadores e não só o olhar dos capitalistas e do patronato através de seus representantes indicados.

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ASSISTÊNCIA FARMACÊUTICA A CRÔNICOS (PAF: MAIS AUTONOMIA?)

Ano............................ crônicos assistidos

2017.......................... 53.308

2018.......................... 51.613

2019.......................... 47.859

2020.......................... 39.898

(dados dos relatórios anuais da Cassi)


Essa redução do acesso ao direito de uso do Programa de Assistência Farmacêutica, rápida redução de 13.410 pessoas, participantes, doentes crônicos, é uma coisa boa? Sob qual ótica? Ela foi boa para as pessoas? Será que essa redução de acesso aos materiais e medicamentos foi boa para os participantes do Plano de Associados? Quais serão os segmentos de participantes que não se beneficiaram do direito ao PAF em 2020? Seriam pessoas com mais ou menos recursos? Seriam pessoas residentes em grandes cidades ou em pequenas cidades? Seriam pessoas com mais acesso à tecnologia e ajuda de terceiros ou menos acesso a ajudas? Existe alguma tendência de redução de crônicos na atualidade? Será que as pessoas estão mais sadias nos últimos anos? Por fim, será que os doentes crônicos do Plano de Associados da Cassi estão medicados, estão estabilizados em suas condições crônicas? 

Qual deveria ser o objetivo dos programas de saúde de um sistema de saúde cujo objetivo é promoção de saúde, prevenção de doenças, recuperação e reabilitação dos participantes identificados com problemas de saúde, inclusive doenças crônicas? Não seria fundamental medicar e monitorar os participantes crônicos de forma a mantê-los estáveis e sem agudizações de suas condições crônicas? Entregar o medicamento na casa dos doentes crônicos como fazíamos antes era interesse direto da Cassi porque dava qualidade de vida aos doentes e reduzia as despesas assistenciais na utilização da rede credenciada de alto custo.

Os associados do Plano de Associados têm os mesmos direitos na hora da procura por socorro, atendimento, isso é uma questão básica perante os contratos e leis, e se os crônicos não estiverem medicados e estabilizados e vierem a ter piora em suas condições de saúde, o plano de saúde vai ter que arcar com as despesas exponencialmente maiores como consequência da utilização de estruturas mais caras e complexas na rede prestadora de serviços. (infartos, AVC, amputação de membros nos casos de diabetes etc)

Pergunto: não seria interessante manter medicados e estabilizados justamente os participantes crônicos do Plano de Associados para evitar agudizações e piora de saúde e consequentemente procura por rede credenciada e internações, estejam eles onde estiverem, ou seja, naquelas localizações onde há oferta de estrutura de saúde e de medicamentos e naquelas localizações onde NÃO há estrutura adequada ou nenhuma, como alguns milhares de municípios do Brasil?

Pergunto de novo: deveria haver alguma diferença de tratamento na medicalização de pacientes crônicos de acordo com o local onde vivem, estejam eles nas capitais e metrópoles com toda infraestrutura de farmácias e drogarias, estejam eles naqueles milhares de municípios brasileiros e regiões onde não há praticamente estrutura alguma de saúde e de medicamentos?

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"Com isso, a Instituição estende a facilidade de acesso aos medicamentos de uso contínuo aos participantes de todo o país, residentes tanto na capital e regiões metropolitanas, quanto no interior dos Estados. Mais do que comodidade, a Cassi garante equidade no acesso a serviços e tecnologias em saúde e qualidade do cuidado de seus participantes." (matéria do site da Cassi)

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Em março de 2018, a Cassi anunciava aos associados que finalmente havia conseguido igualar para o conjunto dos pacientes crônicos do Plano de Associados o direito a receber materiais e medicamentos por operador logístico, ou seja, a partir daquele momento TODOS os participantes estariam exercendo da mesma forma o uso do direito ao PAF ao receber em suas casas, todas as capitais e regiões do país, localidades com oferta de estrutura ou desabastecidas de estrutura de fornecimento de medicamentos, os remédios e materiais necessários para sua condição satisfatória de saúde, evitando assim agudizações de suas condições crônicas. O PAF havia sido aperfeiçoado por mais de 14 anos na Cassi.

REDUÇÃO DRÁSTICA DA LIMACA

                                   Antes         Depois        Redução

Princípio ativo..........  365 ...........  92 ............74,8%

Medicamentos.......... 2.985 ........ 1.167 .........60.9%

Materiais................... 143 ............ 31 ............78,3%

(Fonte: matéria site do Sindicato dos Bancários de São Paulo em 10/9/20)


Tenho a impressão e opinião de que a redução drástica da LIMACA e o desfazimento da distribuição de medicamentos e materiais por operador logístico aos associados de TODOS os municípios e regiões do país não foi uma opção vantajosa para os doentes crônicos da Cassi, porque um sistema de saúde tem que ser isonômico e atuar para atender a todos da forma mais igualitária possível, isso é solidariedade. 

O PAF operacionalizado na forma anterior (ver aqui a reprodução da notícia de 13/3/18 da Cassi em matéria deste blog), após mais de uma década de aperfeiçoamento pela Cassi, era um programa de saúde solidário e isonômico, e contribuía para reduzir as despesas assistenciais na rede prestadora de serviços (o mercado e seus produtos), a rede onde a Cassi compra serviços com uma inflação médica que varia de 10% a 20% ao ano, com serviços de alta complexidade e mercado onde a Cassi tem capacidade limitada de impor tabelas de preços a pagar pelo serviço/produto vendido pelo conglomerado médico. 

Entendo que todos ganharão caso avancem as negociações entre a Cassi, o patrocinador Banco do Brasil e as entidades representativas dos associados no sentido de ampliar as alternativas disponíveis na Lista de Materiais e Medicamentos Abonáveis Cassi (LIMACA) e na forma de se acessar o direito ao Programa de Assistência Farmacêutica (PAF), de forma que o conjunto dos participantes acometidos de uma ou várias doenças crônicas possam estar medicados e estabilizados, estejam eles nas capitais e regiões metropolitanas dos Estados, estejam eles nos interiores e regiões carentes de estruturas de saúde.

E VEM MAIS PROBLEMAS POR AÍ (COVID-19, FARMÁCIA POPULAR)

Aliás, por falar em doentes crônicos, alguém já leu alguma matéria a respeito das consequências duradouras dos efeitos do terrível vírus Sars-Cov-2 (Covid-19)? Os estudos têm demonstrado um número impressionante de sequelados após contraírem o novo coronavírus. Ao que parece, teremos daqui adiante uma população mundial, brasileira e de participantes da Cassi com mais problemas de saúde do que tínhamos antes de 2020. Não é uma preocupação a mais em mantermos estabilizados e medicados todos os nossos doentes crônicos como fazíamos na Cassi antes das reduções drásticas do PAF?

Matéria no Jornal da USP alerta para os prejuízos que serão causados ao Sistema Único de Saúde e o aumento dos custos no sistema de saúde por causa dos ataques que o programa Farmácia Popular vem sofrendo. Vejam abaixo e reflitam se não é a mesma preocupação que expressei acima em relação aos crônicos da Cassi e a redução dos direitos ao PAF.

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"Fim do Programa Farmácia Popular pode elevar custos da saúde

Sílvia Storpirtis afirma que internações hospitalares devem aumentar em decorrência das doenças crônicas se o programa, que distribui medicamentos gratuitamente, for extinto

A justificativa para acabar com o Programa Farmácia Popular é o plano de reformulação de políticas sociais do governo, que prevê cortes no orçamento. Em novembro de 2017, o governo já havia demonstrado a intenção de acabar com o programa, chegando a fechar 400 lojas da rede própria. No ano seguinte, cogitou reformular o modelo de pagamento para estabelecimentos particulares credenciados. Com 28 mil farmácias cadastradas, somente em 2019, o sistema foi responsável por atender 21,3 milhões de pessoas, oferecendo medicamentos gratuitos ou com descontos de até 90% para a população. Entre os remédios oferecidos estão os de uso contínuo para tratamento da asma, rinite, dislipidemia, diabete, hipertensão arterial, osteoporose e muitos mais.

“Como consequência do fim do Farmácia Popular, os custos dos sistemas de saúde vão aumentar muito, dado o elevado número de internações hospitalares em decorrência das doenças crônicas, que poderiam ser evitadas”, cita Sílvia Storpirtis, professora formada e aposentada pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Farmácia Clínica. O prejuízo será maior para o SUS, o que já vem ocorrendo nos últimos anos pela falta de investimentos. Segundo a professora Sílvia, “este não é um programa que deva ser extinto, mas aprimorado, porque é um avanço em relação à saúde no nosso país”.
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Fonte: Jornal da USP, 17/9/20

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Próximos temas que pretendemos abordar em postagens:

- (D)EFICIÊNCIA OPERACIONAL (5,5%)

TERCEIRIZAÇÃO DO MODELO ASSISTENCIAL DA CASSI ("BEM CASSI")

ATENÇÃO PRIMÁRIA TERCEIRIZADA (ESF SOB RISCO SÉRIO DE CONTINUIDADE)

- NOVOS PLANOS DE MERCADO (ALTO RISCO PARA A CASSI)

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Esses temas elencados acima são outros temas que tenho algumas impressões e opiniões a respeito deles. Conhecendo um pouco a Cassi, a "indústria" da saúde e as tendências do mercado entendo que são questões preocupantes e que merecem atenção dos associados da autogestão.

Abraços,

William


13.4.21

Cassi 2021 - Impressões e opiniões (I)

Opinião

Olá, colegas da comunidade Banco do Brasil e colegas de entidades representativas dos bancários!

Durante 4 anos fui um dos dirigentes eleitos pelos associados da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, entidade de saúde de autogestão mais conhecida por todos como Cassi. Minha contribuição formal à gestão da associação e à luta dos trabalhadores em relação aos direitos em saúde se deu entre junho de 2014 e maio de 2018. Ou seja, as mais de 600 postagens neste blog durante o mandato de diretor de saúde eram opiniões e impressões de uma pessoa pública, era o meu lugar de fala.

De junho de 2018 até o presente momento, abril de 2021, muita coisa mudou. Aliás, o mundo mudou absurdamente em pouquíssimo tempo. Para dar um exemplo de mudanças radicais em nossa vida por um evento de efeito planetário temos aí a pandemia mundial de Covid-19. Para falar de mudanças que já estavam em andamento em 2018 e que trouxeram consequências negativas incalculáveis para o país e para o povo brasileiro, temos os efeitos do golpe de Estado em 2016, da operação lesa-pátria chamada Lava Jato e da fraude nas eleições de 2018, eventos nacionais que trouxeram como consequência esse governo inqualificável de um sujeito inominável: diria que estamos sob a banalidade do mal, para usar uma expressão de Hannah Arendt.

O QUE É A CASSI?

A Cassi é uma entidade privada de saúde coletiva. É uma caixa de assistência de um segmento de trabalhadores do país, os bancários do banco público BB. Ambos, o banco e a caixa de assistência, têm décadas de existência e histórico de participação social interna e na vida da sociedade brasileira. Eu não estou falando como um técnico de algum tema específico, estou falando como um trabalhador com conhecimentos suficientes em determinadas áreas nas quais atuei ao longo da jornada de vida laborativa, que passou a vida no Banco do Brasil e que aprendeu política nessa comunidade por causa do histórico de organização e das lutas democráticas desse segmento social brasileiro.

Quando cheguei eleito à Cassi, com um grupo de pessoas eleitas comigo em uma chapa, passamos a vivenciar a gestão da entidade, e passamos a conhecer o dia a dia de uma entidade de saúde nacional, regida por leis internas e externas, estatuto, regimentos, contratos, e por toda a legislação brasileira de saúde. Como operadora de saúde, a Cassi pertence ao sistema de saúde suplementar do Brasil, suplementar ao SUS, Sistema Único de Saúde. E por ter estudado profundamente tudo que envolvia o mandato, acabei conhecendo bastante a realidade do setor onde a Cassi opera. E posso dizer com tranquilidade que as pessoas que utilizam e precisam dos sistemas de saúde em operação no Brasil não têm sequer as noções básicas a respeito disso. Eu também não tinha.

Por que digo isso, da falta de noção das pessoas em relação aos sistemas de saúde e aos direitos em saúde? Porque um dos objetivos de nosso mandato como diretor de saúde foi justamente tentar levar essas noções ao conjunto das entidades sindicais e associativas dos trabalhadores da ativa e aposentados da comunidade Banco do Brasil. Foram 4 anos perseguindo esse objetivo e naquela época conseguimos melhorar um pouco o nível de conhecimento e reduzir a desinformação (não saber, ignorância) pelo menos das centenas de lideranças dos associados da Cassi. 

Apresentar a Caixa de Assistência aos seus legítimos donos, os associados, era fundamental para que pudéssemos criar algum grau de pertencimento em relação à própria autogestão, ao seu modelo assistencial revolucionário, aos direitos em saúde que a Cassi proporcionava aos participantes da ativa e aposentados e aos direitos de participação social (democracia) que os trabalhadores tinham em relação à sua autogestão em saúde.

RELATÓRIO ANUAL CASSI 2020

Enfim, hoje de manhã vi a apresentação do Relatório Anual da Cassi, e algumas lideranças sindicais nos perguntam a respeito de diversas questões destacadas pela direção da nossa autogestão. Eu não me debrucei sobre as dezenas de páginas do relatório, coisa que fiz durante tanto tempo, pois estudei os relatórios e balanços da Cassi do início dos anos noventa até os anos em que estive na gestão, 2018 (quase 30 anos de relatórios). Já li as mensagens da direção, os pareceres da auditoria e dos conselhos e entendo que os dados do relatório são fidedignos como atestam os órgãos responsáveis. 

Durante as 170 agendas de gestão que fiz junto aos associados e suas entidades representativas tinha o hábito de incentivar as pessoas a lerem os relatórios e documentos técnicos e políticos relativos a Caixa de Assistência e aos direitos em saúde. Como disse acima, meu lugar de fala era de um dirigente eleito, era de representante formal que prestava contas e opinava sobre as coisas. Por isso tivemos uma produção gigante de textos e informações: porque era nosso papel (in)formar as lideranças, algo como aprendemos na CUT - um curso de formação de formadores -, eu escrevia para mais de mil formadores de opinião. Acredito que isso foi importante à época, pois colocamos a comunidade BB/Cassi e representações lutando por objetivos comuns.

NOÇÕES

Hoje, não tenho o nível de informações que têm os dirigentes da nossa Caixa de Assistência. Tenho noções das coisas. Tenho impressões sobre os rumos que as coisas estão tomando, tenho opiniões a respeito de algumas coisas relativas à Cassi. E, sobretudo, tenho uma gratidão enorme pela comunidade à qual pertenço - a categoria bancária e o movimento sindical e a comunidade BB -, o que sou como pessoa é o resultado do aprendizado e da vivência com a categoria bancária e com a luta dos trabalhadores.

Se avaliar que tenho alguma contribuição a fazer sobre questões relativas à Cassi, vou postar aqui no blog para os dirigentes sindicais e lideranças que tiverem interesse na nossa opinião e impressão sobre alguns temas. Muito me preocupa a terceirização total do modelo assistencial da Cassi, isso será muito prejudicial para a sequência da existência da Caixa de Assistência que criamos. Já disse nas postagens recentes que eu não tenho nada contra os colegas que administram a nossa autogestão neste momento. Tenho divergências importantes às opções ideológicas que estão sendo tomadas em relação ao presente e futuro da "empresa" como a direção atual diz.

Já escrevi bastante para o início de conversa sobre minhas impressões e opiniões a respeito da autogestão Cassi. A Estratégia de Saúde da Família (ESF), a estrutura própria de saúde da Cassi (CliniCassi, equipes de saúde, programas de saúde) e os direitos dos bancários da ativa e aposentados em pertencer ao Plano de Associados da Cassi estão sob sério risco, sério mesmo. 

A Cassi 2021 que se apresenta neste momento e para o futuro é outra, não uma Caixa de Assistência de todos os Funcionários (inclusive aposentados) do Banco do Brasil.

Abraços,

William


20.3.21

PAF da Cassi - Os crônicos estão medicados em 2021?


Rel. Anual Cassi 2016. À época, 55 mil crônicos
eram beneficiados pelo PAF da Cassi.

Opinião:

Pergunto aos meus botões e também aos participantes do Plano de Associados da Cassi e aos seus representantes das entidades de trabalhadores da ativa e aposentados do Banco do Brasil: será que as dezenas de milhares de pacientes crônicos da Cassi estão medicados neste momento e estabilizados em suas condições de saúde? Será mesmo que os crônicos das mais de 4 mil cidades onde eles residem estão conseguindo obter seus medicamentos de uso contínuo? Tenho sérias dúvidas sobre isso!


Ao ver as notícias nos meios de comunicação em relação às dificuldades dos pacientes crônicos conseguirem adquirir materiais e medicamentos básicos para estabilizar suas condições de crônicos e com isso levarem uma vida normal e com saúde (evitando agravamento e necessidade de recorrer a hospitais e internações), é impossível não lamentar o desmonte que ocorreu após 2018 no Programa de Assistência Farmacêutica (PAF) da Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, a autogestão Cassi.

Fui dar uma rápida olhada na rede mundial e vi uma matéria do dia 15 de dezembro de 2020 sobre a falta de medicamentos crônicos e a dificuldade de acesso a eles por parte dos doentes crônicos. Vejam um trecho abaixo:

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"Cenário do desabastecimento de medicamentos no SUS é revelado por pesquisa da Biored Brasil 

O cenário do desabastecimento de medicamentos de alto custo, no último semestre de 2020, é relevado pelo resultado da pesquisa realizada com 3.600 pacientes voluntários que conviviam com as seguintes doenças: dermatologia (68), doenças raras (218), doenças reumáticas (2308), doença inflamatória intestinal (828), doenças neurológicas (177) e oncologia (126).

Os dados apurados indicam que 39 medicamentos de uso contínuo tiveram irregularidades no fornecimento, 88% dos pacientes chegaram a ficar sem nenhuma dose do medicamento, 32% ficaram sem medicamento por mais de 2 meses, 28% esperaram mais de 30 dias pela regularização no fornecimento. Na avaliação geral, 78% dos pacientes declaram que a pandemia, teve impacto negativa sobre a manutenção do tratamento de sua doença crônica não transmissível." (fonte: Bioredbrasil.com.br, texto aqui)

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Durante 4 anos (jun/2014 a mai/2018) demos a nossa contribuição na gestão do modelo assistencial da Cassi como diretor de saúde eleito pelos associados e nós percorremos o país explicando como funcionava o PAF, porque era um dos principais programas dentro do gerenciamento de pacientes em condições crônicas e porque era um programa solidário ao distribuir os medicamentos na casa dos participantes de Norte a Sul, de Leste a Oeste, do Oiapoque ao Chuí, a um custo acessível mesmo para aqueles que tinham dificuldades de acesso aos materiais e medicamentos.

Ao final de nosso mandato, a Cassi publicou em março de 2018 matéria que informava que a autogestão (que acolhe participantes em todo o território nacional) havia conseguido atingir um de nossos objetivos à época para o PAF, que era garantir o acesso aos medicamentos na casa dos pacientes crônicos em todo o território nacional. Sempre explicamos que uma coisa é a facilidade para quem está em uma grande cidade ir até as farmácias comprar medicamentos, outra é o crônico conseguir seu remédio em mais de 3 mil municípios com pouca ou nenhuma rede farmacêutica. 

Imaginem como seria importante a distribuição naquele modelo do PAF neste cenário com o risco de morte ao sair de casa em meio à pandemia de Covid-19 para procurar medicamentos em farmácias? Ou alguém acha que nos interiores do país existem as mesmas facilidades que existem nas capitais como São Paulo, Rio de janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Brasília dentre outras cidades gigantes? Mas os associados estão em TODOS os lugares do país.

Se já era difícil para os pacientes crônicos conseguirem os medicamentos de uso contínuo antes da pandemia, imaginem agora com o caos instalado no país e nos sistemas de saúde e medicamentos. Que dirá depois que o PAF foi todo desfigurado com as reduções drásticas de princípios ativos, medicamentos, materiais e fim da distribuição ao domicílio, fazendo com que muita gente desista de tomar o remédio ou até de pedir reembolso, pelas dificuldades evidentes no processo?

Durante o tempo em que estivemos na direção da autogestão, representando os trabalhadores da ativa e aposentados, passamos os 4 anos explicando com toda a paciência do mundo o que era o PAF, como funcionava, porque era daquela forma, as melhorias que estávamos fazendo, o quanto o custo benefício do programa era central para o modelo assistencial da Cassi - Atenção Primária (APS) e Estratégia de Saúde da Família (ESF) - e o quanto cuidar de crônicos reduzia as despesas assistenciais mesmo dos pacientes mais idosos e mais adoecidos. E, claro, através de centralização nas CliniCassi, que conheciam os pacientes crônicos.

Eu sofro só de pensar em quantos colegas da ativa e aposentados estão neste momento sem tomar os seus medicamentos de uso contínuo e podem estar agravando suas condições de saúde crônicas. A assistência farmacêutica que tínhamos era fundamental para a saúde dos participantes do Plano de Associados da Cassi. Era um investimento e não uma despesa desnecessária para a Cassi. O foco era a saúde de seus associados.

Para quem tiver interesse em ver uma publicação onde explicávamos os avanços do PAF em março de 2018 e como funcionava o programa é só clicar aqui, é uma postagem do blog, da prestação de contas do mandato naquela época. O texto do boletim que fazíamos está reproduzido na postagem e traz um pouco mais de informações sobre o programa, só não tem mais o link do PDF (o link da Contraf não existe mais, o que é uma pena!), mas o conteúdo da postagem é autoexplicativo.

Sabemos que o equilíbrio do Plano de Associados é importante, mas sempre discutimos com os trabalhadores uma questão central na Cassi: a Caixa de Assistência deveria ser solidária e estar em função do conjunto dos associados e não somente de parte deles, caso contrário ficaria sem sentido uma autogestão em saúde que não fosse de acesso a todos e todas da comunidade BB.

Abraços a tod@s e boa sorte aos participantes com doenças crônicas de nossa comunidade Banco do Brasil. 

William Mendes

18.3.21

Cassi - Desmonte do modelo assistencial é bom?



Opinião:

Deixo abaixo do registro da minha opinião uma nota da Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela Democracia (seção Paraná) denunciando o desmonte do modelo de Atenção Básica em Curitiba. A nota foi divulgada pelo site Vi o Mundo no dia 15 de março. O desmonte da estrutura de atenção primária e medicina de família em Curitiba é um exemplo do que pode ocorrer com a Cassi dos funcionários do Banco do Brasil. Por sinal, a direção da Cassi está com piloto de terceirização do modelo assistencial justamente em Curitiba (o "Bem Cassi").

Registro mais uma vez a minha preocupação e posição contrária aos projetos de terceirização total do modelo de Atenção Integral à Saúde da Cassi, modelo definido desde a reforma estatutária de 1996 após experiências que definiram que a Caixa de Assistência teria uma estrutura própria de Atenção Primária à Saúde (APS), através da Estratégia de Saúde da Família (ESF) e das CliniCassi. Quando terminamos a gestão na diretoria de saúde (em maio de 2018) a Cassi tinha cerca de 150 equipes de família, 182 mil cadastrados no modelo e 66 unidades de atendimento em saúde CliniCassi.

QUAL SERÁ O PERFIL DOS USUÁRIOS DE SISTEMAS DE SAÚDE NO PRÓXIMO PERÍODO?

Não é preciso ter bola de cristal nem fazer exercício de futurologia para perceber as tendências das condições de saúde do povo brasileiro e dos participantes do sistema Cassi do Banco do Brasil neste momento de crises diversas, sanitária, política, econômica, social, humanitária. Teremos uma multidão de gente com problemas psicológicos e doenças crônicas das mais variadas.

Por conhecer o perfil dos participantes do sistema Cassi, os 700 mil assistidos à época em que estivemos na gestão do modelo de saúde (2014-2018), e por ver minimamente o que está acontecendo no Brasil após o golpe de Estado em 2016 e sob os governos Temer e Bolsonaro, não é difícil fazer inferências sobre o que vem por aí.

As pessoas terão mais problemas de saúde crônicos do que já tinham. A população Cassi já era mais específica que a população que tem algum tipo de plano de saúde do mercado, que filtra a entrada e expulsa pessoas para ter lucro nas operações. Já tinha população com faixas etárias maiores, tinha um grande contingente de crônicos, tinha uma população considerável de pessoas com algum tipo de deficiência etc. Agora teremos os sequelados da Covid-19 para acolher e cuidar nas próximas décadas.

Vocês acham que a terceirização do modelo próprio da Cassi vai ser boa para a população de assistidos da Caixa de Assistência? Me desculpem, mas fico impressionado com a pessoa minimamente consciente e informada sobre esses sistemas que achar que desfazer a estrutura própria da Cassi vai ser bom para nós, participantes do modelo.

CASSI PRECISA AMPLIAR A ESTRUTURA PRÓPRIA APS/ESF/CLINICASSI

Quem tem algum tipo de conhecimento não pode deixar de externar opinião a respeito dele e é por isso que preciso me posicionar sobre o andamento das coisas na Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, uma autogestão em saúde, com quase oito décadas de existência e cujos objetivos não são compatíveis com modelo algum do mercado privado de saúde. É impossível ter como base o mercado porque essa "indústria" visa lucro com a doença das pessoas e isso é antagônico com os objetivos da Caixa de Assistência que criamos, uma associação de trabalhadores da empresa pública Banco do Brasil, autogestão em saúde com espírito cooperativista e solidário.

A autogestão Cassi investiu duas décadas na construção de um sistema de saúde próprio (ESTRUTURA PRÓPRIA, BARATA E EFICIENTE) de atenção primária e medicina de família que foi responsável por cuidar de uma população assistida com características muito peculiares e totalmente diferentes dos interesses capitalistas dos planos e empresas de saúde do mercado. A população da Cassi é mais idosa que a média do mercado, é crônica como o povo brasileiro, e vive mais que a média dos planos de mercado. Por isso, o mercado filtra todos os segmentos que não quer atender - exclui idosos, crônicos e pobres -, "clientes" que dão prejuízo. A Cassi passou duas décadas aperfeiçoando um sistema que dá resultados mesmo atendendo a perfis que não interessam ao mercado - FIZEMOS ESTUDOS E PROVAMOS ISSO NA GESTÃO 2014-2018 - e agora querem terceirizar e desfazer esse sistema.

Volto a repetir: após ampliarem a terceirização da Atenção Primária (APS) e a ESF, a Cassi vai desfazer sua estrutura de saúde construída por nós durante longo tempo e perderemos o acesso à saúde com um custo solidário na comunidade Banco do Brasil. Os aposentados, pensionistas, as pessoas com comorbidades, a grande maioria que ganha menos no sistema Cassi (uns 70% de ativos e aposentados) não conseguirão ficar no Plano de Associados e já nem teremos o SUS - Sistema Único de Saúde - para nos socorrer como acontecia no passado e como acontece nas diversas regiões do interior dos estados onde não há rede privada de saúde. A CASSI HOJE TEM RECURSOS E DEVERIA AMPLIAR SUA ESTRUTURA PRÓPRIA DE APS/ESF/CLINICASSI.

Fico impressionado ao ver o silêncio das entidades representativas em relação a isso. Mas sigo registrando minha preocupação com o desmonte do modelo de saúde exitoso que construímos na Cassi.

Repito o que já disse também. A pandemia mundial de Covid-19 pode até ser uma desculpa para que não se faça nada a respeito do tema - projetos de terceirização do modelo assistencial da Cassi -, o desmonte das empresas públicas como o BB também pode ser outra desculpa, mas as lideranças da comunidade Banco do Brasil poderiam também aproveitar toda a crise e chamar reuniões, debates, envolver dezenas de entidades representativas em temas como saúde e previdência porque são temas que poderiam agregar diferentes segmentos políticos e ideológicos. Mas não vendo ilusões, não seria do dia para a noite o engajamento nos temas, é necessário criar pertencimento e isso não existe no momento, na minha opinião.Feito mais um registro sobre o risco de desmonte da Cassi. Volto a dizer que não tenho nada contra as pessoas que estão na gestão desse processo, não é pessoal, é uma questão de visão de mundo, de ideologia, o que está acontecendo é ruim para o conjunto das pessoas que dependeriam da Cassi nas próximas décadas de vida. Não acho que a Cassi deve ser uma empresa para os poucos que poderão pagar, acho que A CASSI DEVERIA SER PARA TODOS E TODAS.

William Mendes

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ABMMD – Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela Democracia -PR

Nota contra o fim da Atenção Básica de Curitiba

O município de Curitiba já foi modelo de atenção básica para o Brasil, com suas unidades de saúde, acesso ampliado, agentes comunitários indo de casa em casa de cada cidadão, desenvolvendo ações de promoção e prevenção.

O município também tem importância por influenciar modelos de gestão de cidades da região metropolitana e de todo Paraná.

Por isto, fazemos este alerta, a fim de informar a setores da sociedade sobre os graves fatos em curso no Sistema de Saúde da cidade.

Já não é de agora que a gestão atual executa fechamento de Unidades de Pronto Atendimento (UPA) [1], redução do número de equipes de saúde que atuam na atenção básica e mudanças nos processos de trabalho de várias equipes que deixaram de atuar no formato da Saúde da Família antes mesmo da pandemia.

De acordo com dados oficiais do Ministério da Saúde [2 e 3], o município tinha em março de 2016, 227 equipes de saúde da família e 919 agentes comunitários de saúde (ACS), para em março de 2020 (mês do início da epidemia no Estado) termos 182 equipes e 388 ACS, uma redução de 20% e 58% respectivamente.

Trilhando o mesmo caminho e ao mesmo tempo paradoxalmente, a gestão atual enfraquece ainda mais a Atenção Básica da cidade com o fechamento recente de tantas Unidades Básicas de Saúde (UBS).

Fechamento a princípio anunciado como transitório, por poucas semanas, o que já seria grave, mas preocupa ainda mais dado o andamento da pandemia e o ocorrido em 2020, quando dezenas de UBS permaneceram fechadas por muitos meses.

Além disso, transformou várias unidades em “postinhos de vacinação”, o que nos faz retroceder aos anos 70, e descaracterizou o funcionamento de todas as demais.

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde [4], das 111 unidades de saúde que existem, 53 estão completamente fechadas, restando hoje apenas 42 a realizar atendimentos simples do tipo queixa-conduta, 10 que realizam somente vacinação e atendimentos básicos às gestantes e crianças, e ainda 6 que estão atuando somente como postos de vacinação contra Covid-19.

É estarrecedor que este desastre sem precedentes do SUS curitibano seja anunciado pelas equipes de marketing como grande feito da administração municipal.

Na prática, o acesso à saúde para a população caiu em mais da metade em 5 anos.

E quem consegue acessar uma UBS deixou de conseguir, na maioria das vezes, ser atendido pelos profissionais das equipes com quem já tinha vínculo de confiança construído ao longo do tempo, justo quem teria melhor condições de lhe amparar com cuidados adequados em momento de crise.

As mudanças impostas à Atenção Básica impactarão de maneira profundamente negativa na saúde da população, uma vez que a paralisação dos atendimentos das condições crônicas e de diversas outras linhas de cuidado se manifestará de forma desastrosa, resultando em agravamento destes problemas e gerando ainda mais mortes evitáveis [5].

Neste momento de pandemia, onde as pessoas mais precisam de acesso, vemos tantas portas se fecharem, vemos os serviços de saúde reduzirem sua capilaridade e proximidade da população o que agrava ainda mais o efeito desproporcional da pandemia sobre os grupos socialmente mais vulneráveis [6].

Ação que vai na contramão do que muitos outros municípios brasileiros vêm fazendo, optando por fortalecer a atenção básica, o teleatendimento por parte de profissionais e equipes já vinculados e dedicados para cada comunidade, a testagem e a identificação precoce de casos, além de educação em saúde culturalmente adequadas e em contato direto com as lideranças e organizações do território de cada Unidade Básica de Saúde [7].

Nessa perspectiva, a Associação Brasileira de Médicos e Médicas para Democracia – Núcleo Paraná, reafirmando seus compromissos éticos com o SUS, vem conclamar os representantes legislativos e conselheiros municipais a pressionar a Prefeitura Municipal de Curitiba a realizar contratações emergenciais para saúde de maneira mais abrangente e contundente do que tem sido feito até agora.

De modo que seja possível garantir a reabertura de todas as Unidades de Saúde tão necessárias à nossa população e que foram fechadas neste período.

Referências

[1] RPC Curitiba. UPA que ficava no Hospital de Clínicas de Curitiba é fechada. 02/05/2017. [https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/upa-que-ficava-no-hospital-de-clinicas-
-de-curitiba-e-fechada.ghtml]. Acesso em 13/03/2021.

[2] Brasil, Ministério da Saúde. E-Gestor AB. Cobertura da Atenção Básica. [https://eges- torab.saude.gov.br/paginas/acessoPublico/relatorios/relHistoricoCoberturaAB.xhtml]. Acesso em 13/03/2021.

[3] Brasil, Ministério da Saúde. E-Gestor AB. Cobertura de ACS. [https://egestorab.sau- de.gov.br/paginas/acessoPublico/relatorios/relHistoricoCoberturaACS.xhtml]. Acesso em 13/03/2021.

[4] Curitiba, Prefeitura Municipal. [https://www.facebook.com/515514761825666/post- s/4055783744465399/?app=fbl]. Acesso em 13/03/2021.

[5] Mendes, E.V. O Lado Oculto de uma Pandemia: A Terceira Onda da Covid-19 ou o Paciente Invisível.

[6] SARTI, Thiago Dias et al. Qual o papel da Atenção Primária à Saúde diante da pandemia provocada pela COVID-19?. Epidemiol. Serv. Saúde, Brasília, v. 29, n. 2, e2020166, 2020
[http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2237-96222020000200903]. Acesso em 13/03/2021.

[7] COVID-19 e Atenção Primária: as experiências nos territórios (Rede PROFSAÚDE) / organizado por Carla Pacheco Teixeira [et al.]. -Rio de Janeiro: ANAIS/SESSÕES TEMÁTICAS / PROFSAÚDE, 2020.

16.2.21

Como está o controle social da Cassi?



Opinião:

Os participantes da comunidade BB têm mais de uma centena de entidades sindicais, dezenas de entidades associativas da ativa e aposentados e a Cassi tem 27 conselhos de usuários. 

Perguntas que deixo para as lideranças da comunidade BB e para os interessados e interessadas:

A comunidade Banco do Brasil, com dois séculos de existência, está atenta e acompanhando o que vem ocorrendo em suas instituições? Os fóruns coletivos estão acompanhando e debatendo as mudanças que vêm ocorrendo na Caixa de Assistência? Foram feitos debates sobre a terceirização na Cassi? A implantação da telemedicina foi discutida com os associados? Qual a extensão da telemedicina? Qual a última vez que se cobrou a ampliação e manutenção do modelo assistencial APS/ESF/CliniCassi? Será que desfigurar programas de saúde como o PAF é aceitável para o modelo assistencial?

A Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil, a Cassi, era até 2017 uma das experiências de sistemas de saúde mais exitosas no país e ouso dizer no mundo por causa da amplitude da população envolvida à época (695 mil participantes diretos) em relação ao seu modelo assistencial de Atenção Primária à Saúde (APS) e Estratégia de Saúde da Família (ESF) com estrutura própria - 66 unidades de atendimento em saúde (CliniCassi) e 150 equipes de família à disposição dos participantes nas 27 capitais e diversas regiões nos interiores do país. 

O sistema de Atenção Integral à Saúde da Cassi - baseado em prevenção de doenças, promoção de saúde e acompanhamento de crônicos - já havia se desenvolvido por duas décadas (1996-2017) e durante nossa gestão à frente da diretoria de saúde conseguimos aferir por mecanismos técnicos a eficiência do modelo em relação ao mercado e em relação aos participantes não vinculados ao modelo assistencial. Os avanços na área da saúde foram em função da competência e dedicação do quadro de funcionários da Cassi.

MODELOS DE SAÚDE - O mercado privado de saúde brasileiro tem um modelo descentralizado e de livre acesso por ofertas de serviços e com custos praticamente impagáveis ao longo do tempo, inverso ao modelo idealizado pela Cassi, planejado para monitorar e acompanhar sua população assistida em todo o território nacional, uma população estável e com longa permanência no tempo (décadas). 

Esse modelo mais centralizado possibilita um sistema mais eficiente no tempo, com monitoramento periódico dos participantes de acordo com os diversos graus de complexidade e com resultados melhores em saúde e no custo da compra de serviços nos prestadores do mercado: a rede credenciada e seus diversos níveis de ofertas de serviços.

Os estudos técnicos que fizemos sobre a eficiência do modelo APS/ESF/CliniCassi foram surpreendentes e foram possíveis justamente por termos uma população longeva no sistema e parte dela já estar fidelizada no modelo assistencial em funcionamento há anos nas 66 CliniCassi e 150 equipes de família (ESF). 

O que foi possível fazer com as informações que tínhamos à época? (e baseado nos direitos dos associados à época, que foram drasticamente reduzidos após 2018)

Nós conseguimos comparar o comportamento das despesas per capita entre um grupo de participantes vinculados por pelo menos 3 anos ao modelo ESF (51.821 pessoas) com um grupo não cadastrado ao modelo ESF (401.693 pessoas) por níveis de complexidade (ano base do estudo: 2015). 

Os estudos comprovaram que mesmo as faixas etárias mais idosas tinham uma despesa assistencial na rede prestadora muito menor do que as mesmas faixas etárias que não estavam inseridas ainda no modelo assistencial (de 10 a 40% menor). E as despesas assistenciais dos mais idosos eras menores que as das faixas etárias mais jovens sem vínculo ao modelo!

AMPLIAÇÃO DO MODELO ASSISTENCIAL MESMO EM TEMPOS DE CRISE ECONÔMICO-FINANCEIRA - A Estratégia de Saúde da Família (ESF) da Caixa de Assistência saltou de pouco mais de 157 mil cadastrados no início de nossa gestão na saúde (jun/2014) para 182 mil cadastrados ao final do mandato (mai/2018). Só em nossa gestão, incluímos quase 25 mil vidas ao modelo, mesmo a Cassi enfrentando uma grave crise de custeio, outra base importante de um sistema de saúde, debate que, na Cassi, excedia em muito a responsabilidade da diretoria de saúde e rede de atendimento.

Por que fiz este breve histórico da Cassi dos trabalhadores da comunidade Banco do Brasil?

Porque tenho a impressão que o modelo assistencial da nossa autogestão - baseado em prevenção de doenças, promoção de saúde, recuperação e acompanhamento dos participantes - foi severamente afetado pelas mudanças ocorridas após 2018. Vejamos algumas mudanças preocupantes no período:

- A reforma estatutária de novembro de 2019 que encareceu a mensalidade dos participantes;

- A direção atual que aumentou abusivamente as coparticipações em consultas e exames, afetando a essência do modelo: prevenção e acompanhamento dos doentes crônicos através de APS/ESF (o modelo faz mais consultas e exames e economiza exponencialmente em MAT/MED e em internações hospitalares);

- A redução drástica do programa de apoio medicamentoso aos crônicos, o PAF, que foi todo desfigurado com a redução de centenas de medicamentos e com o fim da distribuição em casa, que visava isonomia de acesso à população crônica, principalmente nos interiores e locais com pouca rede de venda de medicamentos. Segundo matéria na Contraf-CUT (10/9/20) a LIMACA reduziu de 365 para 92 os princípios ativos, de 2985 para 1167 medicamentos e de 143 para 31 materiais abonáveis;

- A pandemia de Covid-19 que afetou profundamente a relação dos participantes com as CliniCassi e com a rede prestadora, inclusive os vinculados à ESF, em boa parte pessoas dos grupos de risco, com algumas comorbidades e acompanhamento das equipes multidisciplinares;

- E, por fim, a implantação de um modelo de telemedicina que o mercado vem adotando em substituição ao atendimento presencial e que precisaria ser avaliado criticamente pelas representações dos associados da Cassi porque me parece que essa ferramenta tende a ser usada na Caixa de Assistência para substituir o modelo presencial na relação dos profissionais de saúde das equipes ESF com os participantes da autogestão. Uma coisa é a ferramenta ser utilizada durante a crise da pandemia e outra é ser adotada como modelo para tudo.

Por causa da pandemia de Covid-19, e também por causa de outros fatores anteriores à pandemia como, por exemplo, maior custo para os participantes após 2018, avalio que o sistema que funcionava relativamente bem de APS/ESF/CliniCassi deve ter sofrido prejuízos e ou retrocessos importantes nesse período. Mas reafirmo que isso é uma impressão pelo que conheço do sistema Cassi. Não tenho dados sobre isso e entendo que as entidades dos participantes deveriam ter esses dados formalmente, já que representam os associados.

Para piorar, a direção da Cassi pretende terceirizar a essência do modelo assistencial (piloto "Bem Cassi" no Paraná) e isso pode ferir mortalmente o modelo porque se a direção desfizer a estrutura própria construída há décadas dificilmente haverá retorno. Essa terceirização para o mercado da atividade-fim da Cassi é extremamente arriscada porque mercado é mercado. Já vimos grupos empresariais fecharem leitos de maternidade para abrirem leitos para tratamento de câncer porque dão mais lucro para os donos e profissionais das empresas de saúde. (escrevi 3 artigos a respeito do "Bem Cassi": ler aqui um deles com link para os outros)

Além do que descrevi em relação às mudanças na Cassi, temos uma tragédia em andamento no mundo do trabalho relacionado à Cassi - o Banco do Brasil - que passa por um desmonte violento desde o golpe de Estado de 2016. Só neste mês saíram 5.533 trabalhadores do banco, sendo que mais de mil pessoas saíram da comunidade BB. 

As entidades sindicais relatam diariamente o caos que está trabalhar no BB por causa da pandemia, do desmonte, do assédio moral, descomissionamentos e reduções salariais, metas impossíveis e péssimas condições de trabalho. Já saíram mais de 17 mil pessoas no período Temer e Bolsonaro. 

Enfim, os fatos e os acontecimentos indicam que provavelmente temos uma multidão de pessoas adoecidas ou em vias de adoecer na comunidade Banco do Brasil. Isso é muito preocupante.

Deixo minha solidariedade aos colegas que estão na ativa enfrentando essa situação difícil nos locais de trabalho e minha solidariedade às lutas em defesa dos direitos da comunidade BB, sejam direitos em saúde, previdência e direitos sociais como os do trabalho.

Abraços a tod@s,

William Mendes


11.2.21

Defender o BB: organização de base é fundamental



Opinião

"Organizei uma série de reuniões entre líderes do CNA e dos CIAS, tanto banidos como ainda não banidos, para discutir os parâmetros do plano. Trabalhei nele por vários meses e criei um sistema que era amplo o suficiente para adaptar-se às condições locais e ao mesmo tempo não restringisse a iniciativa individual, mas detalhado o suficiente para facilitar a ordem. A menor unidade era a célula, que em assentamentos urbanos consistia em cerca de dez casas em uma rua. Um administrador de célula seria responsável por cada uma dessas unidades. Se uma rua contivesse mais de dez casas, um administrador de rua se encarregaria dela, e os administradores de células se reportariam a ele..." (MANDELA, Longa caminhada até a liberdade, 3ª edição, 2012, p. 179)


O momento descrito acima é do início da década de 1950 na África do Sul. Nelson Mandela e os demais líderes do Congresso Nacional Africano (CNA) suspeitam que o regime de minoria branca vai colocar o CNA na clandestinidade. Para se antecipar a isso, Mandela planeja uma forma de Organização de Base para que o movimento de resistência e defesa dos direitos dos negros não perca a capacidade de luta. A história da luta dos sul-africanos negros contra o apartheid é linda e uma referência para nós da classe trabalhadora oprimida no mundo organizado atualmente através do modo de produção e exploração capitalista.

Eu entrei no Banco do Brasil em setembro de 1992, após quase um ano como estagiário do banco e após passar duas vezes no concurso público para escriturário do maior banco público do país (em 1991 o concurso foi cancelado por fraude e os aprovados tiveram que passar de novo).

Já no final de 1993 eu havia feito o curso de caixa executivo e iniciava o atendimento aos clientes na bateria de caixa da agência Rua Clélia, na região da Lapa, em São Paulo. Foi uma oportunidade ímpar porque a fila para ir para a função de caixa era demorada, em geral se esperava muitos anos pela promoção. Como os colegas veteranos estavam negociando suas férias de fim de ano com a gerência, eu me coloquei à disposição para trabalhar no caixa nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro. Valeu a pena o esforço, pois virei caixa do Banco do Brasil com praticamente um ano de banco. 

Atuei no atendimento aos clientes do BB como caixa por praticamente uma década, até o dia 5 de agosto de 2002, dia que fui liberado do local de trabalho, a agência Vila Iara, em Osasco, para cumprir o mandato de diretor eleito do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região. Tanto durante a década no atendimento aos clientes e nas lutas ao lado dos colegas do caixa, quanto no período em que fui dirigente, sempre lutei pela valorização dos caixas executivos do BB e tenho muitas histórias para contar. Durante toda a minha vida de militância sindical, sempre tive um carinho enorme e muita consideração pelos colegas que atuam na linha de frente no atendimento aos clientes, seja atuando nos caixas, nas mesas de atendimento e pelas formas telefônicas e virtuais. 

O regime neofascista que assumiu o poder após o golpe de Estado de 2016 está atuando com rapidez para enfraquecer e privatizar as empresas públicas brasileiras. O Banco do Brasil é um dos alvos do desmonte. Uma reestruturação em andamento vai fechar agências e unidades, reduzir postos de trabalho e piorar o atendimento ao povo brasileiro (5533 colegas vão sair) e reduz salários e direitos de todo mundo. É O CAOS! O governo vai reduzir salários e oportunidades, e uma das sacanagens é acabar com a efetivação da comissão de caixa executivo. Só a luta com participação dos trabalhadores, movimento de dentro para fora, pode criar dificuldades a essa destruição de nosso banco público e da vida das pessoas.

Por que citei aquela passagem da luta dos negros sul-africanos contra o apartheid e por direitos plenos em seu próprio país? Porque a organização de base, ou Organização por Local de Trabalho (OLT) foi uma das primeiras coisas que aprendi como trabalhador da categoria bancária, uma categoria com forte organização sindical. O mundo pode ter mudado, a tecnologia e as novas formas de trabalho podem ter mudado, quase tudo pode ter mudado, mas a exploração do trabalhador não mudou porque continuamos caminhando para a destruição do mundo e da vida das pessoas pelo modo de produção capitalista.

O ano é 2021. O governo é um regime lesa-pátria, composto pelo pior tipo de gente da face da terra, e o momento é de ataques e destruição do patrimônio público e dos direitos sociais da classe trabalhadora. E a única forma de enfrentar os ataques e resistir é através de organização de base. Se posso sugerir alguma coisa para os colegas do Banco do Brasil e as entidades sindicais é que reorganizem o trabalho de base. Me parece que as pessoas colocam dificuldades em tudo e as desculpas são as mais diferentes, todas elas têm suas razões. Mas isso não impede que os trabalhadores organizem a base de luta contra todo o desmonte que está acontecendo no Banco do Brasil e demais empresas públicas.

Se uma base sindical tem 100 unidades do banco e 1200 trabalhadores e o sindicato local tem 25 diretores e mais alguns funcionários é só sentar e definir a organização de base como o Mandela explica acima. Não importa se o contato é presencial ou virtual, se estamos ou não em pandemia, se o ataque aos trabalhadores segue implacável. Uma pessoa pode ser a responsável por organizar uma pequena rede de contatos com 10 pessoas e 10 unidades. Pode conhecer essas pessoas, pode levar informações e trazer informações relevantes para a organização de luta e defesa do banco, do emprego, da vida e dos direitos das pessoas. 

É possível organizar a base, fizemos isso a vida toda. Quando eu era responsável por algumas dezenas de locais de trabalho no sindicato, eu tinha um contato por local, conhecia o nome das pessoas, tinha alguma forma de contato de emergência etc. Até em mandato nacional, na Cassi, fiz trabalho de base e contribuí para fortalecer redes de lutas e defesa da Cassi. Amig@s, afirmo que ainda é possível organizar as bases de trabalhadores.

Eu poderia ficar horas escrevendo sobre isso, mas não é o caso. Sei que os sindicatos e os trabalhadores estão na luta da maneira que o momento de pandemia e crise permitem. Como farão plenárias nas bases sindicais hoje, quinta-feira 11, deixo a sugestão de pensarem formas de organização por células locais. Isso é mais antigo que andar para a frente, como dizem por aí, mas é necessário definir essa questão de organização em redes e fazer.

Organização de Base! Solidariedade de classe. Cooperativismo. Associativismo. Socialismo.

É o que acredito, realmente!

William


9.2.21

Artigo: BB, Caixa e BNDES sob ataque


Apresentação do blog:

Segue abaixo artigo de opinião escrito por João Fukunaga e José Ricardo Sasseron sobre os ataques que vêm sofrendo os maiores bancos públicos do país.

(reprodução do site do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região)

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Governo quer destruir BB, Caixa e BNDES e acabar com financiamento à economia

João Fukunaga, diretor do Sindicato dos Bancários de SP, e José Ricardo Sasseron, ex-diretor de Seguridade da Previ e do Sindicato dos Bancários SP, analisam os ataques aos bancos públicos

Publicado em 08/02/2021


O atual governo, atendendo aos apelos do mercado financeiro, leva adiante seu plano de esvaziar os bancos públicos, vender suas subsidiárias e preparar a sua privatização. Ataca diariamente as instituições e seus funcionários, demitindo e desmotivando aqueles que dedicam toda a sua vida de trabalho para atender à população e fornecer crédito para a produção e geração de emprego e renda. O Governo age como verdadeiro inimigo de quem produz alimentos, produtos e serviços.

Os bancos públicos são eficientes, geram lucro e pagam dividendos ao governo, seu maior acionista. No ano de 2019, os três maiores bancos públicos (BB, Caixa e BNDES) lucraram R$ 57 bilhões e pagaram, ao governo, R$ 18,2 bilhões em dividendos. Dinheiro suficiente para cobrir o valor gasto com o programa Bolsa Família para 8,3 milhões de famílias, abrangendo cerca de 25 milhões de pessoas.

O Banco do Brasil é responsável por quase 60% de todo o crédito agrícola. Financia os pequenos agricultores da agricultura familiar, responsável pela produção de 70% de todos os alimentos consumidos pelos brasileiros. Financia também o agronegócio, responsável por 43% das exportações brasileiras em 2019. O Brasil se tornou um dos dois maiores produtores de alimentos do mundo, graças ao apoio que o BB dá a este segmento desde a sua fundação.

Caixa e BB respondem por quase 80% de todo o crédito imobiliário às famílias brasileiras, para realizarem o sonho da casa própria. Juntos, os dois bancos públicos concedem quase 100% de todo o financiamento imobiliário nas regiões Norte, Nordeste, Sul e Centro-Oeste. Os bancos privados concentram-se no Sudeste, principalmente em São Paulo. Sem BB e Caixa, haveria uma explosão de favelas nas grandes cidades brasileiras.

BNDES, BB e Caixa emprestam a longo prazo e foram os grandes responsáveis por financiar obras de infraestrutura, como hidrelétricas, geração de energia eólica, metrôs, corredores de ônibus, aeroportos, portos, modernização de estradas. Sem estes bancos, apagões como o de 2001 e o do Amapá em 2020 seriam uma constante. Os bancos privados emprestam a juros altíssimos e no curto prazo, em busca de lucro imediato.

Os bancos públicos são responsáveis por mais de 80% de todo o crédito concedido nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul. Os bancos privados concentram suas atividades principalmente em São Paulo, aprofundando desigualdades regionais.

Governo ataca funcionários para destruir os bancos

O último ataque perpetrado pelo governo, pela mídia dominante e por jornalistas de aluguel é contra os funcionários, espalhando informações falsas e deturpadas. O salário inicial do BB e da Caixa, na faixa dos R$ 3.000, é equivalente ao salário pago aos bancários de bancos privados. O salário médio nos bancos públicos é 20% maior que o de bancos privados. Se os bancários de bancos privados ganham menos é devido principalmente à alta rotatividade de mão-de-obra, pois os banqueiros demitem quem ganha mais para contratar outros com salários mais baixos.

Os bancários dos bancos públicos seguem o padrão de remuneração do mercado, mas BB e Caixa prestam serviços muito mais relevantes à população brasileira que seus concorrentes.

Destruir bancos públicos compromete futuro do Brasil

Se acabar com os bancos públicos, o Estado perderá um instrumento poderoso de incentivo à economia. Para vencer a crise mundial de 2008, o Governo de então orientou o BB, a Caixa e o BNDES a financiar a retomada da produção e a economia brasileira entrou numa fase de crescimento que levou ao mais baixo índice de desemprego de toda a história brasileira. Os bancos privados, ao contrário, secaram suas operações de crédito, aprofundando a crise.

Ao tentar destruir os bancos públicos, o atual governo pode comprometer a capacidade de recuperação da economia pós-pandemia, dificultar a geração de empregos e, por consequência, condenar milhões de brasileiros à miséria.


¹João Fukunaga é diretor do Sindicato dos Bancários de SP

²José Ricardo Sasseron foi diretor de Seguridade da Previ e do Sindicato dos Bancários SP

Fonte: Seeb SP.